Impressões da Islândia

O aeroporto fica em Keflavik, numa península sudoeste. Embora situado a uns 50 Km de Reiquiavique, é bem servido pelo transporte público. Logo na saída do aeroporto há um ponto de ônibuses. Chegando ao terminal central em Reiquiavique os passageiros que desejarem podem tomar mini-ônibuses até os diversos hotéis da cidade. O percurso inicia com uma paisagem natural formada pelos típicos campos de lava colonizados por musgos e plantas rasteiras e termina com uma parte urbana formada por várias cidades concatenadas e que fazem parte da Grande Reiquiavique. No hotel Marina onde nos hospedamos todos os funcionários falavam inglês fluente. Feito o checkin e tendo arranjado as nossas coisas no apartamento, e por volta das cinco e trinta da tarde saímos para explorar Reiquiavique pela primeira vez. Pedimos direções e seguimos a pé até o comércio, onde a maior parte das lojas ainda estavam abertas. E nos próximos sete dias, eu explorei sozinha Reiquiavique, participando de duas excursões turísticas, uma na cidade (Reykjavik Grand Excursion) e outra fora (The Golden Circle).

A primeira excursão é um passeio de três horas que cobre todas as atrações turísticas da cidade de Reiquiavique mais as zonas residenciais da periferia até uma vila de pescadores na costa. Reiquiavique (Figura 1) é uma cidade relativamente nova que cresceu ao redor do local onde em 871 d.C., Ingólfur Arnason, um fugitivo norueguês, assentou-se com sua família, denominando-o Reykjavi, que significa ‘baía de fumaça’, devido à grande quantidade de poços térmicos do local que liberam vapor d’água. Quando Reiquiavique ganhou status de cidade, em 1786, a sua população era de apenas 300 habitantes. O crescimento populacional de Reiquiavique ocorreu lentamente até 1940, quando tinha 38 mil habitantes. A atual população atual de Reiquiavique é de 120 mil habitantes. A população de toda a Islândia é de cerca de 322 mil habitantes, sendo que três quartos ficam na Grande Reiquiavique, atualmente com uma população de 200 mil.

View of Reykjavik from PerlanBuikding in Reykjavik's old harbourP1200370
Fotos: 1. Panorama de Reiquiavique; 2. Porto e Centro de Convenções; 3. Lago da Prefeitura.

Em termos de arquitetura o ponto mais relevante da cidade de Reiquiavique é a imponente igreja Hallgrímskirkja, a qual pode ser vista de quase toda a cidade, projetada pelo famoso arquiteto Guöjón Samuélsson. Em frente à ela há uma enorme estátua de Leifur Ericsson, o viking que descobriu a América cerca de 500 anos antes de Cristóvão Colombo. Outro marco da arquitetura de Reiquiavique é o Centro Harpa de Concertos e Convenções, um maravilhoso prédio de vidro com colunas que representam as formações de basalto típicas da geologia islândica projetado por Olafur Elason. Em 2013 o Harpa ganhou o prêmio Mises van der Roche de arquitetura europeia.
Outra parte interessante de Reiquiavique é o antigo porto. Lá pode-se caminhar por quase todas as marinas, observar as embarcações, as montanhas e a própria cidade. E em toda a orla há calçadas lugar para pedestres e ciclovias.

As Piscinas Termais
As piscinas termais assim como os spas termais fazem parte da cultura islândica. Em Reiquiavique há seis piscinas termais públicas, a maioria ao ar livre. Elas servem ao ensino da natação nas escolas e à população em geral, e as pessoas as utilizam durante todo o ano. Embora chovesse e ventasse no dia que fui experimentar uma dessas piscinas termais que ficava mais próxima do nosso hotel, tive uma experiência agradabilíssima. A temperatura da água não era uniforme, havendo pequenas correntes mais quentes. Entretanto, assim que saí da piscina fui direto aos chuveiros e vestiário, pois o medo do frio não me deixou percorrer os cem metros de distância até a zona dos spas e da sauna.

O Círculo Dourado (The Golden Circle)
A segunda excursão (Golden Circle) que fiz foi de um dia todo e consistiu de três regiões de interesse, O Parque Nacional de Tingvellir é o local onde é possível visualizar, através de riftes e faltas geológicas o Parque Nacional de Tingvellir, as cataratas Gullfoss e os gêiseres Geysir, as placas continentais Norte-americana e Euroasiática, que se estendem numa linha enviesada dupla que vai do sudeste ao noroeste da Islândia. Esse também é o local do primeiro parlamento islandês criado a partir de 930 d.C., quando os líderes (chieftains) de cada grupo de agricultores se reuniam uma vez por ano e realizavam seções formais do Conselho da Lei (Lögrétta) presidido pelo porta-voz da Lei (Lögsögumadur), numa época em que não havia realeza ou nenhum poder central voltado a manter a paz. Nos conselhos anuais, decisões eram tomadas, crimes eram julgados e os condenados executados. As cataratas Gullfoss são duas, uma rio acima de 11 metros e altura, e outra mais abaixo de 21 metros de altura, sendo que a rocha do leito do rio foi formada durante um período interglacial. Ao sudoeste dessas cataratas fica o Geysir, uma área geotérmica repleta de nascentes e gêiseres. Embora o potencial de de energia hidrelétrica ainda esteja em estudo na Islândia, lá as fontes geotérmicas vêm sendo muito bem aproveitadas.

Estação Termoelétrica de Hellisheidi
Uma parada final extra dessa excursão foi para visitar a Estação Termoelétrica de Hellisheidi (ou Hellisheidarvirkjun), a maior das cinco da Islândia, que fornece energia para a Grande Reiquiavique. A termoelétrica de Hellisheidi cresceu enormemente desde que começou em 2006 com duas turbinas de 55 Megawatts de alta pressão. A sua produção atual é de até 400 Megawatts de energia térmica e 303 Megawatts de eletricidade.

Sobre a Geografia e da História da Islândia
A Islândia é a maior das ilhas vulcânicas da cumeeira do Médio Atlântico, onde as plataformas continentais americana e eurasiana se tocam. Essa peculiaridade geológica explica a enorme atividade térmica na ilha, que inclui cerca de 200 vulcões, gêiseres e fontes térmicas. A atividade dos vulcões é acompanhada pelos especialistas que conhecem bem quais os que estão para entrar em atividade. Em 2010 Em 2011 o vulcão Grimsvotn acordou e obrigou o fechamento temporário do aeroporto internacional da Islândia, e no ano anterior, em 2010, uma erupção de médio porte no vulcão Eyjafjallajökull‎ lançou tal quantidade de cinzas na atmosfera que diversos aeroportos em toda a Europa tiveram que fechar. Mas o fogo dos vulcões é apenas um dos elementos da geografia islândica. Outro elemento importante é o gelo. Devido à proximidade com o Ártico a Islândia tem também muitas glaciais e capas de gelo. A atividade térmica às vezes derrete o gelo das glaciais e das capas de gelo, fazendo com que os rios e lagos transbordem e causem inundações.

A Islândia assim como a Groenlândia e algumas ilhas que atualmente pertencem à Escócia foram colonizadas por povos viking, piratas originários da Escandinávia que entre 793 e 1066 costumavam atacar e pilhar a costa da Grã Bretanha e do reino dos francos. A Islândia era desabitada quando Ingólfur Arnarson, seu primeiro colonizador ali se estabeleceu. O nome Islândia, que quer dizer ‘Terra de Gelo’ foi dado por um predecessor dele após ter amargado um rigoroso primeiro inverno que matou todos os animais domésticos que havia trazido. A maioria dos primeiros colonizadores da Islândia veio da costa oeste da Noruega, mas houve diversos que eram de colônias viking nas Ilhas Britânicas. Mas a etnicidade islandesa é também formada pelo elemento celta, pois diversas esposas dos primeiros colonizadores eram irlandesas.

A língua falada na Islândia é o islandês, também conhecido como o velho nórdico, que era falado em toda a Escandinávia, Groenlândia e nas ilhas britânicas Orkneys, Sheatlands e Faröe ou Faroé. Muitas palavras do velho nórdico foram levadas pelos vikings dinamarqueses e noruegueses que costumavam ir à Grã-Bretanha fazer pilhagem, o que faz do inglês uma língua não só anglo-saxã mas também velho nórdica. Conforme uma pesquisa da Dra. Sara Pons-Sanz, linguista da Faculdade de Estudos Ingleses da Universidade de Nottingham, muitas palavras no inglês vieram do velho nórdico, como aquelas relacionadas na Tabela 1.

INGLÊS     VELHO NÓRDICO SIGNIFICADO
  anger   angr   raiva, agonia
  bloom   blóm   floração
  gale   gaile   vento frio
  happiness   happ   sorte
  house   hús   casa
  husband   hús + bóndi   casa + dono da casa
  ill   illr   doente
  kid   kip   filhote de bode
 law   lag   lei
  leg   legge   perna
  norse   noordsch   homem do norte
  ransack   rann-saka   dar busca numa casa (para fazer pilhagem)
  skaughter   sláter   carne de abatedouro
  sky   skie   nuvem
  window   vindayfa   olho de vento
  wing   vengr   asa
  wrong   rangr   injusto

Tabela 1. Exemplos da contribuição do velho nórdico ao inglês

Copiando o costume da Escandinávia, os islandeses organizaram um parlamento (lpingi) representativo da confederação (commonwealth) das quatro jurisdições islandesas, com líderes (godords) representantes de cada região que reunia-se em junho de todos os anos em Alpingi, Pingvellir. Nessa ocasião julgamentos eram feitos e execuções eram levadas a cabo. O encontro de junho também servia para colocar em dia as novidades de cada jurisdição e para a procurar de cônjuges.

Os primeiros islandeses davam muita importância à sua história, e procuraram preservá-la na memória oral e nas sagas compiladas nos séculos treze e quatorze. Esse acervo foi preservado graças aos esforços de Arni Magnússon, um colecionador de manuscritos nascido em 13 de novembro de 1663 em Kvennabrekka, no oeste da Islândia. Embora parte da coleção de Magnússon tenha se perdido no incêndio de Copenhagen de 1728, a maior parte dos manuscritos em pergaminho foi salva.

Em torno do ano 1000 a Islândia se converteu ao Cristianismo após uma decisão de ordem prática de Thorgeir Thorkelsson, o porta-voz da lei. A confederação da Islândia começou a se desmoronar e em 1220 as lideranças começaram a fazer planos para que a coroa da Noruega assumisse o governo do país. O processo de subjugação ao reino da Noruega foi atribulado por conflitos e concluiu-se em 1258 quando Gisssur Porvaldson tornou-se o conde da Islândia, a serviço do rei da Noruega. Durante o domínio norueguês, a capital da Islândia era Bergen, então a capital da Noruega. Em 1319 o reino da Noruega se uniu ao reino da Suécia, e a Islândia ficou sob as duas coroas. Em 1380 o reino da Noruega se juntou ao reino da Dinamarca, e nos próximos três séculos a Islândia passou a ser um protetorado da Dinamarca. Nesse período a Islândia sofreu com diversas erupções vulcânicas e com a arbitrariedade do governo da matriz.

Em 1814 a Suécia invadiu a Dinamarca e o tratado de Kiel resultante fez com que a Suécia saísse do domínio da Dinamarca e ganhasse a Noruega, e em contrapartida a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre a Islândia, a Groenlândia e as Ilhas Faröe. Na Islândia, movimentos de independência surgiram em 1841 e em consequência dos mesmos a Dinamarca fez algumas concessões como a abertura dos portos da Islândia. No final do século a Islândia havia ganho o controle sobre o seu comércio exterior e em 1903 ganhou sua primeira constituição. Em 1918 a Islândia virou uma região autônoma mas ainda ligada à Dinamarca. Em 16 de Junho de 1944 a união com a Dinamarca terminou e a partir do dia 17 de Junho a Islândia passou a ser uma república.

Durante os primeiros anos logo após a Segunda Guerra Mundial a Islândia modernizou a sua agricultura e a sua indústria da pesca e colheu bons resultados com isso. Em 1949 a Islândia passou a ser um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e em 1951 uma base naval norte-americana foi instalada em Keflavik. Em 1952 a Islândia estendeu o seu território marítimo de três para quatro milhas e em 1975 estabeleceu o limite de 200 milhas de sua costa. A economia da Islândia cresceu vertiginosamente até 2008, quando ocorreu a crise mundial, quando caiu numa recessão que durou pouco mais de dois anos. A partir de 2010 a Islândia voltou a crescer e em 2012 o seu GDP per capita foi de 42.658 dólares, um dos maiores do mundo. Quanto à distribuição interna de renda medida pelo índice Gini do Banco Mundial, onde 0 representa um igualitarismo perfeito e 100 uma desigualdade perfeita, a Islândia apresentou um coeficiente de 28 em 2008, o que coloca esse país entre os melhores do mundo.

Apesar dos islandeses modernos se considerarem amigáveis ao meio ambiente, a Islândia possui muitos problemas ambientais causados no passado, principalmente pelo uso intensivo do seu frágil ambiente natural. Segundo Jared Diamond, a enorme demanda de lenha para fazer o carvão usado nas ferrarias contribuiu para o desaparecimento da vasta cobertura lenhosa que havia originalmente. Os exemplos de vegetação arbustiva-arbórea de bétulas (Betula spp.) e salgueiros (Salix spp.) que tive a oportunidade de ver no Parque Nacional de Tingvellir e na região Gullfoss e Geysir seriam relíquias da vegetação passada da Islândia. Em termos de biodiversidade atual, a flora da Islândia consiste de 172 espécies de plantas, e a fauna de um punhado de espécies de aves e peixes e alguns invertebrados e de mamíferos.

A depleção dos recursos florestais da Islândia explica porque o país se estagnou e permaneceu estagnado durante séculos. Os islandeses viviam inicialmente do pastoreio e do cultivo de algumas culturas resistentes ao frio como a cevada, a aveia, o centeio e o feno. Até a virada do século vinte a indústria da pesca era artesanal. Segundo o historiador Gunnar Karlson, durante o século dezesseis os ingleses é que pescavam com embarcações maiores na costa da Islândia, ganhando a experiência necessária para o poderio naval da Inglaterra no século seguinte. A pesca desenvolveu-se aos poucos e apenas no século vinte tornou-se a principal fonte de riqueza da Islândia. Hoje em dia os três itens que mais contribuem para a economia da Islândia são a pesca, as fundições de alumínio e o turismo.

Finalizando as minhas impressões sobre a Islândia, eu gostaria de registrar o quanto eu gostei da semana que lá passei em setembro passado. E por cima de tudo todos os islandeses com quem tive contato me pareceram instruídos, corteses e alguns até bem-humorados. Guardarei a lembrança do ar puro que respirei e da água gelada que bebi direto da torneira.

Referências
Diamond, Jared (2011). Collapse. How Societies Coose to Fail or Survive. Penguin Books, UK.
Karlsson, Gunnar (2000). A Brief History of Iceland. 2dn edition.Translated by Anna Yates. Mál of menning.

Sobre a Cultura Ibérica

Nota: Este artigo foi publicado originalmente em PortVitoria (7, Jul-Dec 2013)

‘O livre comércio universal sem dúvida seria economicamente benéfico à humanidade, se não fosse pela suspeita e animosidade que as nações sentem umas pelas outras. Do ponto de vista de preservar a paz mundial, o livre comércio entre diferentes Estados civilizados não é tão importante quanto a porta aberta em suas dependências’. Bertrand Russell.

No contexto mundial a Cultura Ibérica é uma subcultura da Civilização do Oeste ou Civilização Ocidental. Obscurecida por muito tempo pelo nacionalismo, a Cultura Ibérica teve um ressurgimento no final do século vinte como antagonista da globalização. O salto das telecomunicações através das tecnologias de satélites, telefonia celular, computação e internet coincidiu com a organização da Comunidade Lusófona internacional na década de oitenta e com o fortalecimento do ibero-americanismo e ibero-africanismo. No século vinte e um, o espanhol e o português ganharam respeitabilidade, passando a ocupar o 4º e o 5º lugares entre as línguas mais faladas de todo o mundo, representando um tremendo potencial de vantagens comerciais a ser explorado.

O ressurgimento da Cultura Ibérica assustou os que o entenderam como um disfarce do ‘Iberismo’, movimento que defende o federalismo político da Península Ibérica, e suscitou a preocupação com a sobrevivência do português e do espanhol caso a maioria da população decida adotar o ‘portunhol’, dialeto formado pela mistura das duas línguas e já presente ao norte do Uruguai. Apesar do risco às soberanias, a Cultura Ibérica tem sido uma força positiva na preservação do pluralismo cultural não só da Espanha e de Portugal, mas também dos outros países da Cultura Ibérica. Quanto aos riscos de depreciação do português e do espanhol, é possível minimizá-los através da educação secundária formal e outras medidas.

Galiza, a província do norte da Espanha que originou o português de Portugal é hoje parte da Comunidade Lusófona Internacional da qual fazem parte Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Coincidência ou não, a porcentagem dos galicianos que falam o galego-português aumentou desde a criação da Comunidade Lusófona Internacional. A participação da Galiza na Comunidade Lusófona tem despertado a curiosidade dos falantes de português de todo o mundo nessa interessantíssima região onde o português se originou.Na mesma época em que a Comunidade Lusófona Internacional era formada, o escritor brasileiro Paulo Coelho percorreu a pé seus quase 700 quilômetros partindo do sul da França até a cidade de Santiago de Compostela. Essa peregrinação virou o tema do seu primeiro livro,O Diário de um Mago, que contribuiu para divulgar a importância cultural tanto de Santiago de Compostela quanto da própria Ibéria.

Em junho de 2011 eu visitei a Galiza com a meu marido inglês, que tendo aprendido o português do Brasil, teve menos dificuldade em entender o galego-português que ouviu em Santiago de Compostela do que em entender o português do Norte de Portugal numa viagem anterior. A visita à Galiza aumentou a minha curiosidade pela Cultura Ibérica, gerando o resumido apanhado de História Ibérica aqui apresentado, cujo objetivo é apenas de dar uma ideia geral de como era a Ibéria até o desmembramento de Portugal da Galiza.

Um Apanhado da História da Península Ibérica
Portugal e Espanha, os dois países-Estado da Península Ibérica, são consideradosEstados parentes (kin states) pelo fato decompartilharem uma ou mais etnias. Antes de serem países independentes e soberanos, Portugal e Espanha faziam parte da Hispania do Império Romano, e como tal que existiu de 217 aC a 409 dC.

Embora a queda do Império Romano tivesse ocorrido em 476, Roma já havia perdido a Ibéria para os Visigodos e Vândalos desde o ano 411. Esses povos bárbaros, a maioria originária da área sudoeste da Escandinávia, há séculos tentavam se estabelecer na região mas eram impedidos pelos romanos. A divisão da Ibéria foi da seguinte forma:
• Alanos: Lusitânia e Cartaginense
• Vândalos silingos: Bética
• Vândalos asdingos e suevos: Galiza

Os Suevos e os Vândalos asdingos ficaram com a Galaecia, e a transformaram no Galaeciorum regnum, ou reino da Galiza, que incluía quase todo o norte de Portugal até o sul de Coimbra. Entretanto, a divisão acima durou pouco, pois em 416 vândalos silingos e os alanos foram exterminados pelos visigodos.

O fato marcante do século VI foi a reconversão dos líderes visigodos à modalidade de cristianismo do Império Bizantino, através do missionário San Martín de Braga ou de Dumio. Antes disso eles seguiam o Arianismo, uma das variedades do Cristianismo inicial pregado pelo presbítero Árius da Alexandria, que afirmava que Jesus era um ser criado e, portanto, não poderia ser Deus, ou que pelo menos durante algum tempo ele não tinha a substância divina.

No século seguinte, o sétimo, o mapa da Europa mudou de novo, pois uma estreita faixa ao sul da Ibéria e da Itália foi conquistada pelo Império Romano do Oriente (Bizantino), enquanto que o reino dos Francos se estabeleceu.

E o século VIII, este foi marcado pela invasão muçulmana da Península Ibérica em 711. Em 732 os muçulmanos tentaram invadir a França, mas foram derrotados por Carlos Martel, o avô de Carlos Magno. E em 768, Carlos Magno ascendeu ao trono da França com seu irmão Carlomano, mas depois da morte deste, continuou sozinho e começou a construir o Império Carolíngio.

A Invasão Muçulmana (Moura) e o Reino de Astúrias
Em 772, no início da era carolíngia, uma boa parte da Ibéria, com exceção do Reino das Astúrias, ao norte, passou a fazer parte do Emirado de Córdoba. O reino de Astúrias incluía a Galiza mais uma pequena área do território Basco. Pela densa população e pela geografia, Astúrias foi a única região da Ibéria que escapou do domínio muçulmano. Afora Astúrias, algumas comunidades cristãs permaneceram na Moçarábica, cujos habitantes, os moçarábicos eram antigos muçulmanos convertidos ao cristianismo, e cuja língua, o moçarábico, é considerada uma variedade do latim ibérico.

No final do século VIII Astúrias sofreu uma série de ataques dos árabes do emirado de Córdoba. O rei Afonso II, o Casto (791-842), pediu ajuda militar a Carlos Magno, que atendeu o pedido. Entretanto, nem todos os sucessos contra os árabes muçulmanos são atribuíveis à ajuda militar dos francos. O exército de Astúrias sozinho conseguiu recapturar a cidade de Olisipo, a atual Lisboa.

Embora no início da invasão Muçulmana o Reino de Astúrias tivesse conseguido se preservar devido a certas características da sua geografia, sua preservação a longo prazo é atribuída à descoberta, no ano de 814, do suposto túmulo do apóstolo Tiago (James, em inglês), por um eremita chamado Pelágio. Inicialmente uma capela foi construída no local do túmulo de Santiago, mas, em 829 d.C., tal capela foi substituída por uma igreja, e esta por outra em 899, que passou a ser o maior centro de peregrinação cristã na Europa. Em 997 a segunda igreja de Santiago de Compostela foi destruída por um ataque do califa de Córdoba, em resultado do qual os portões e os sinos desta igreja foram levados e colocados na Mesquita Aljama de Córdoba.

No século X o mapa da Ibéria também sofreu diversas mudanças. O Emirado de Córdoba ficou menor e passou a ser chamado Califado de Córdoba. O Reino de Astúrias, depois de sofrer diversas derrotas, acabou desaparecendo e em seu lugar surgiram os reinos de Leão, Castela, Navarra e as províncias catalãs.

Embora o principal bispado da Galiza se localizasse inicialmente na cidade de Braga, o aumento da importância de Santiago de Compostela, que virou um centro de peregrinação ao do túmulo do Apóstolo Tiago, fez com que sua diocese não aceitasse ficar sob a jurisdição do bispado de Braga fazendo com que este se mudasse para Santiago ao qual Braga ficou submissa. Esse acontecimento foi o início da rivalidade religiosa e política entre Portugal e Espanha que ainda perdura até hoje.

A construção da catedral de Santiago de Compostela começou em1075, no reinado de Afonso VI (1040-1109), e foi consagrada em 1128, na presença de Afonso IX de Leão e Castela.

O Reino de Leão e Castela(León e Castilla)
O Reino de Leão (Galiza-Leão) foi formado a partir do casamento da herdeira de Leão com o rei de Navarra Sancho III (982-1035). Depois da morte de Sancho III, Castela passou a ser governada pelo seu filho Fernando I, que eventualmente se apossou do reino de Leão e incorporou-o a Castela, criando assim o Reino de Leão e Castela.

Um problema constante de Leão e Castela era a invasão muçulmana e os reis católicos de Leão e Castela ficaram com a incumbência de expulsar os invasores Muçulmanos da Península Ibérica. A aparente estratégia do novo reino contra a ameaça muçulmana foi promover extensivamente a fé cristã.

Antes de morrer, o primeiro rei de Leão e Castela, Fernando I, repartiu as suas terras com seus filhos e filha. Castela ficou com Sancho, o mais velho; Leão ficou com Afonso e a faixa ocidental cristã do antigo reino da Galiza ficou com Garcia, o mais novo. O arranjo testamental não deu certo pois Sancho achava que, sendo o mais velho, deveria ter herdado tudo, enquanto que Afonso também ambicionava ampliar seus territórios. Sancho e Afonso derrotaram Garcia e apoderaram-se de seu reino, mas depois disso eles se voltaram um contra o outro. Sancho morreu e Afonso, então com o título de Afonso VI, ficou com tudo.

Na História de Leão e Castela, o grande marco histórico viria bem mais tarde, em 1236, quando o rei Fernando III conseguiu retomar Córdoba. Após a retomada, os mesmos portões e sinos da catedral de Santiago de Compostela foram levados para Toledo onde foram colocados na Catedral de Santa Maria de Toledo.

O Condado Portucalense: O Novo Reino de Afonso Henriques
O rei Afonso VI de Leão e Castela, o mesmo que havia dado início à construção da catedral de Santiago de Compostela, entrou para a história pela complicada vida amorosa. Apesar de ter tido diversas esposas e amantes, ele deixou apenas três filhas, duas ilegítimas, Teresa e Elvira, que teve com Ximena, filha dos condes de Bierzo, e neta de Fernando I o Magno (1016-1065), o reconquistador, mais uma legítima, Urraca (o mesmo nome de sua irmã), com Constança, filha do duque de Borgonha. Afonso VI também teve um caso com Zaida, uma princesa muçulmana que era nora do rei de Sevilha, que havia se refugiado na sua corte depois que o sogro foi morto pelos almorávidas em 1091. Quando em 1091 Urraca se casou com Raimundo, filho de Guilherme, conde da Borgonha, o casal ficou incumbido de governar a Galiza.

Teresa e Elvira, as filhas ilegítimas do rei Afonso VI, foram morar com a mãe Inês, no Castelo de Ulver, que Inês havia recebido como uma compensação quando o rei resolveu deixá-la para se casar com Constança. Em 1094, Elvira se casou com o conde Raimundo de Saint Gilles, uma das linhagens mais antigas da Cristandade, e em 1095 Teresa se casou com D. Henrique, 4º filho do duque de Borgonha, também de descendência bastante nobre, sendo inclusive sobrinho por parte de pai da própria Constança, a segunda mulher de Afonso VI de Leão e Castela, e primo em primeiro grau de Urraca. Assim, as duas meias irmãs passaram a ser primas por afinidade. D. Henrique havia vindo para a Península Ibérica em busca de oportunidades, e encontrou-as na luta pela Reconquista e no casamento com Teresa, em resultado dos quais ele ganhou o governo do Condado de Portucale, que ficava logo ao sul da antiga Galiza. Henrique de Borgonha, o marido de Teresa, passou a ser conde de Portucale, mas morreu pouco tempo depois, com Teresa ficando viúva ainda na casa dos vinte anos, com um filho pequeno, Afonso Henriques.

Quando Afonso Henriques tinha apenas dezessete anos lutou contra a autoridade da Galiza e declarou a independência do Condado de Portucale. Para isso ele recebeu a ajuda dos padres de Braga, que buscavam na criação do um novo país uma oportunidade de recuperar o prestígio que haviam perdido para Santiago de Compostela junto à Igreja de Roma.

Afonso Henriques teve um longo reinado que durou 60 anos. O seu início foi coroado de batalhas contra os Mouros, culminando com a sua vitória na Batalha de Ourique de 1139. Essa vitória virou o tema do brasão de Portugal, com os seus cinco escudos e cinco quinas, cada qual com cinco bolas representando os cinco reis mouros degolados na batalha. Entretanto, o reconhecimento dele como rei pela Igreja Católica de Roma, mesmo com o apadrinhamento dos clérigos, só aconteceu no ano de 1179, ou seja, trinta anos depois da Batalha de Ourique de 1139. Todavia, o demorado reconhecimento da realeza de Afonso Henriques pela Igreja Católica de Roma veio acompanhado do reconhecimento do Reino de Portugal. Afonso Henriques se casou com Mafalda de Saboia em 1143, e com ela teve sete filhos inclusive o herdeiro Sancho.

E o mapa da Ibéria no século doze passa a ter quatro reinos: Navarra, Castela, Aragão e Portugal.

Conclusão
Este brevíssimo apanhado da História Ibérica mostra que a Ibéria já teve diversos mapas, que Portugal já pertenceu à Galiza e que há sempre interesses de poder e de prestígio nas relações diplomáticas entre as nações. Mas se a História universal está repleta de evidências de que os nacionalismos são uma constante ameaça à paz ela também mostra o comércio como uma ferramenta para mantê-los sob controle. Até agora a globalização do comércio, em termos de desburocratização do trânsito de cargas internacional e da redução de tarifas, tem sido positiva, pelo menos para as nações que dispõem de mão de obra especializada. Mas o comércio internacional não é feito só de bens materiais pois indiretamente ele envolve bens intangíveis como a cultura. A Cultura Ibérica unida é muito maior do que a soma das culturas de todas as suas nações.

Referências
Black, Jeremy, editor. (1999). Atlas of World History. DK, London.
Coelho, Paulo (1988). O Diário de um Mago. Editora Rocco.
Oliveira, Ana Rodrigues (2010). Rainhas Medievais de Portugal. A Esfera dos Livros, Lisboa.
Parkinson, C. N. (1963). East and West. John Murray, London.

Key words: História da Ibéria, History of Iberia, Iberian Penninsula, Península Ibérica, Iberian Culture, Cultura Ibérica, Hispano-Lusophone communities, Paulo Coelho, Santiago de Compostela, Braga, Hispania, Spain, Espanha, Portugal, Comunidade Lusófona, Galiza, Galicia, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria, dedicada à falantes de espanhol e português espalhados pelo mundo.

A Busca da Felicidade e o Estado

Publicado inicialmente em: http://www.portvitoria.com, 6 2013.

Um dos pontos de destaque da política brasileira em 2012 foi a aprovação pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado brasileiro, do projeto de emenda ao artigo 6º da Constituição brasileira, do Senador Cristovam Buarque (PDT – DF), visando incluir a frase ‘a busca da felicidade’ como um justificativo dos direitos sociais. Se a emenda for aprovada, o artigo 6º passará a ter os seguintes dizeres: ‘são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados’. Um dos mais capazes e brilhantes membros do congresso brasileiro, o Senador Buarque acredita que a emenda pode ter um efeito positivo na cidadania a despeito do seu contexto subjetivo.

Outro ponto de destaque de 2012 foi a divulgação do ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano (HDI ou Human Development Index) do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP) de 2011, onde o Brasil ficou em 84º lugar dentre os 185 Estados avaliados (de um total de 193 países da ONU) e no segundo nível de desenvolvimento, cujo primeiro nível incluiu: Líbano (71º), Bósnia (74º), România (74), Jamaica (79º ), Portugal (79,5) e de diversos vizinhos latino-americanos como a Argentina (75.9), o Chile (79) e o Uruguai (77). Introduzido como uma medida alternativa ao sistema vigente de medir o desenvolvimento de cada país apenas pelo crescimento econômico, o HDI é interpretado como uma medida da qualidade de vida de cada país, devido ao fato de ser calculado por critérios que incluem coisas como vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente. O péssimo ranking HDI do Brasil é uma indicação clara que alguma coisa precisa ser feita para que o Brasil se transforme numa sociedade mais justa e que favorece o desenvolvimento das pessoas. Entretanto, o grande número de projetos de leis e emendas constitucionais no Brasil sugere que já existe uma consciência da necessidade de mudar.

A Origem da Expressão Busca da Felicidade
A expressão ‘busca da felicidade’ no seu contexto político veio da Declaração de Independência dos Estados Unidos, cujo principal redator, Thomas Jefferson, foi buscá-la no livro An Essay Concerning Human Understanding (Um Ensaio sobre a Compreensão do Ser Humano), de 1681, do filósofo inglês John Locke (1632-1704), onde Locke afirma que ‘todos os indivíduos possuem certos direitos naturais que incluem o direito à vida – entendido como a autopreservação – e o direito da busca da felicidade – entendida como o direito à propriedade privada’. Locke comungava a visão de Aristóteles e Epicuro de que o homem era um ser racional e social e dotado de uma propensão natural para buscar a felicidade, cuja obtenção é através das virtudes e do aperfeiçoamento da mente. Os próximos dois parágrafos mostram o trecho da Declaração de Independência onde consta a expressão ‘busca da felicidade’:
No contexto da Declaração de Independência dos Estados Unidos, a violação do direito natural da ‘busca da felicidade’ por parte da Grã-Bretanha, foi a razão fundamental da separação. Eis o texto original em inglês, seguido da tradução:

‘We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.–That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed. That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness.’Texto em português, tradução minha:

‘Nós tomamos essas verdades como sendo autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que eles foram dotados pelo seu Criador com certos Direitos inalienáveis, dentre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que para garantir esses direitos, os Governos foram instituídos entre os Homens, derivando os seus justos poderes do consentimento dos governados. Que quando alguma Forma de Governo se torna destrutiva desses objetivos, é um Direito do Povo alterá-la ou aboli-la, e instituir um novo Governo, assentando o seu alicerce em tais princípios e organizando os seus poderes numa tal forma, como lhes parecer mais provável de tornar efeito a sua Segurança e Felicidade.’

Como a expressão ‘busca da felicidade’ não consta da Constituição norte-americana ela não tem efeito direto nas cortes federais de justiça, embora a Corte Suprema dos Estados Unidos tem uma tradição de levar em conta os valores básicos da democracia imbuídos em todos os documentos históricos do país. A ‘busca da felicidade’ é um desses valores básicos, sendo entendida como “o direito dos cidadãos de ‘buscar’ a felicidade através de suas próprias maneiras, desde que elas não infrinjam nos direitos dos outros”. Os demais valores básicos da democracia americana são: a vida, a liberdade, a busca da felicidade, o bem comum, a justiça, a igualdade, a diversidade, a verdade, a soberania do povo, o patriotismo, os princípios constitucionais, o Estado de Direito, a separação de poderes, o governo representativo, as verificações e contrapesos (checks and balances) dos poderes, os direitos individuais, a liberdade religiosa, o federalismo e o controle civil do poder militar.

O Processo de Aprovação de uma Lei nos Estados Unidos e o Debate no Brasil
Na época em que eu residi nos Estados Unidos, entre 1974 e o início de 1980 eu pude acompanhar os debates em torno da lei obrigando o uso de capacetes pelos motociclistas, quando filósofos, sociólogos e antropólogos foram convocados pelo próprio parlamento americano para ajudar na condução do debate. Os papers resultantes desse debate certamente estão disponíveis na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Tendo tido a oportunidade de ler um ou dois desses papers, cortesia de um amigo que fazia doutorado em antropologia na mesma ocasião em que eu fazia o meu mestrado, eu fiquei curiosa para entender o processo de aprovação de leis nos Estados Unidos, que descrevo abaixo.

Os Estados Unidos tem um processo bastante eficaz de tornar um ‘projeto de lei’ (bill) em ‘lei’ (law) o qual está descrito na Constituição. O mandato constitucional de criar leis é exclusivo da Câmara (House of Representatives), conforme é especificado na secção 7, artigo 2 da Constituição. É entendido que as leis começam como ideias que podem vir de qualquer cidadão; um cidadão que tenha uma ideia para uma lei qualquer deve contatar o seu representante na Câmara e discutir com ele ou ela a sua ideia. Quando um Deputado (Representative) redige um projeto de lei ele precisa de um promotor (sponsor), e para isso o Deputado conversa com seus colegas não só para obter o promotor necessário mas também para ganhar a adesão deles. O projeto de lei é então introduzido dentro de uma caixa (hopper) que fica ao lado da mesa do administrador encarregado (clerk) que protocola o projeto de lei, atribuindo um número de referência que começa com as iniciais H.R. (House of Representatives). Um assistente parlamentar lê o projeto de lei perante os Congressistas, e o Porta-Voz (Speaker) da Câmara remete o mesmo para uma dos comissões permanentes (standing committees) da Câmara. Há diversas comissões permanentes: agricultura, educação, relações exteriores, etc., cujos membros são escolhidos pelos seus conhecimentos do tópico em questão. Na eventualidade dos membros da comissão julgarem que precisam de mais informações, o projeto de lei é remetido para uma subcomissão ad hoc. Na subcomissão o projeto de lei é escrutinizado e opiniões de peritos são obtidas antes do mesmo ser devolvido à comissão para ser aprovado. Uma vez aprovado pela comissão o projeto de lei é encaminhado oficialmente para a Câmara, já pronto para ser debatido pelos deputados. Após os debates um assistente parlamentar volta a ler o projeto de lei, seção por seção, e os deputados propõem as alterações que julgam necessárias. O texto do projeto de lei é então alterado até que fique pronto para ser levado ao plenário para ser votado.

A votação de um projeto de lei pela Câmara norte-americana pode ser feita de três maneiras: (i) oralmente, quando cada deputado diz ‘aye’ (sim) ou não; (ii) quando os deputados que aprovam ficam de pé e são contados; e (iii) através do botão de registro eletrônico, que dá as opções de sim, não e presente (para os que se abstêm de votar mas desejam registrar que estão presentes). Se a maioria dos deputados optar pelo sim, o projeto de lei é considerado aprovado pela Câmara. Tal aprovação é protocolada no documento original do projeto de lei, que é então remetido para o Senado. No Senado o projeto de lei passa por diversas etapas parecidas com aquelas da Câmara antes de ser levado ao plenário para votação, que é sempre feita oralmente. Se a maioria dos senadores disser sim, o projeto de lei é considerado aprovado pelo Senado. Entretanto, antes de virar lei o projeto precisa da aprovação do Presidente da República.
O Presidente têm três opções em relação ao projeto de lei em suas mãos:
(i) Assinar – e ao fazer isso o projeto de lei vira lei;
(ii) Recusar assinar, ou vetar, o projeto de lei – fazendo com que o projeto de lei retorne à Câmara dos Deputados acompanhado de uma explanação dos motivos do veto. Nesse caso, se a Câmara dos Deputados e o Senado ainda acharem que o projeto de lei deve virar lei, eles pedem uma segunda votação, e caso consigam dois terços de aprovação o projeto de lei vira lei a despeito do veto do Presidente.
(iii) Não fazer nada. Nesse caso, desde que o Congresso não esteja de recesso, passados 10 dias o projeto de lei se torna automaticamente lei.

Depois que uma lei é aprovada ela é imediatamente cumprida pelo governo.
Conforme já mencionado, o Senado do Brasil tem uma Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, que estudou a emenda ao artigo 6º da Constituição Brasileira proposta pelo Senador Buarque antes de aprová-la. Através da imprensa podemos constatar que o assunto está sendo debatido por outras comissões do próprio Senado e pela sociedade civil. Tais debates são altamente positivos e mostram o nível de amadurecimento do processo democrático brasileiro.

A Visão de Felicidade de Ayn Hand
Ayn Rand (1905-82) foi uma filósofa russa naturalizada norte-americana, que imigrou para os Estados Unidos em 1926. No seu livro A Virtude do Egoísmo, (The Virtue of Selfishness ), publicado originalmente em 1961, Hand aborda o tema da felicidade com uma enorme clareza e praticidade. Ela começa esclarecendo a distinção entre a simples ‘manutenção da vida’ e a ‘busca da felicidade’ e mostra a importância da liberdade para a felicidade de cada um.

Ao definir a felicidade, Rand levou em conta o fato de que cada indivíduo tem um conceito próprio sobre a mesma. Para ela “a felicidade é o estado de consciência que procede do alcance dos valores de cada indivíduo. Se um indivíduo valoriza o trabalho produtivo, a sua felicidade é a medida do seu sucesso no serviço de sua vida. Mas se um indivíduo valoriza a destruição, como faz o sádico – ou a autoflagelação, como o masoquista – ou a vida depois da morte, como o místico – ou ‘curtições’ irrefletidas, como o motorista de um carro envenenado – a sua alegada felicidade é a medida do seu sucesso no serviço de sua própria destruição”. Para Hand, o estado emocional dos irracionalistas que valorizam a destruição não pode ser designado como felicidade ou mesmo como prazer: ‘é meramente um momento de alívio de seu estado de terror crônico.’

Após concluir que a verdadeira felicidade não pode ser obtida através da busca de caprichos irracionais, Rand lembra que na sociedade aberta cada indivíduo é livre para escolher a sua maneira de viver, o que inclui tentar buscar a felicidade via alternativas irracionais como as acima mostradas. Entretanto, a verdadeira felicidade só é possível ao homem racional, ou seja, aquele que tem valores racionais, aspira apenas objetivos racionais e só consegue encontrar alegria em ações racionais.
A conclusão de Hand é que o propósito moral da vida do homem é atingir a própria felicidade. A felicidade depende da resolução de questões metafísicas, que são bem diferentes das questões mundanas necessárias para a manutenção da vida. Devido à natureza metafísica do homem e da existência, o homem tem que manter a sua vida pelo seu próprio esforço; os valores que ele precisa – tais como riqueza e conhecimento – não lhe são dados automaticamente, como um presente da natureza, mas precisam ser descobertos e atingidos pelo seu próprio raciocínio e trabalho.

Os Descritores da Felicidade
Conforme visto anteriormente, a filósofa Ayn Hand caracterizou a felicidade como sendo uma questão metafísica distinta da manutenção da vida. Essa ideia pode ser traçada até Aristóteles, para quem a felicidade do tipo que transcende as necessidades de manutenção da vida só pode ser alcançada pelos indivíduos realmente livres, motivo pelo qual é vedada aos escravos, enquanto que as mulheres só conseguem obter uma parcela da mesma. Trocando em miúdos, dois tipos de felicidade são percebidos pelas pessoas: (i) a felicidade física, caracterizada pela ausência de sofrimento e pela vida digna onde as necessidades básicas são supridas, e (ii) a felicidade metafísica, cujos descritores práticos são aquelas coisas que levam à autoestima como o respeito, a dignidade e a honra. Uma variedade especial de felicidade física é aquela baseada no consumo de coisas materiais supérfluas, onde há uma pressuposição de que o consumo de determinado produto alimenta a autoestima ao colocar o indivíduo numa espécie de clube ou comunidade. Essa variedade especial de felicidade física está implícita na conhecida frase ‘a felicidade é consumir’.

No seu livro O Fim da História e o Último Homem (The End of History and the Last Man), publicado 1992, o filósofo e economista político norte-americano Francis Fukuyama faz um excelente apanhado sobre o sentimento que mais se aproxima da felicidade metafísica. Fukuyama baseia-se na tese do filósofo Georg Hegel (1770-1831) de que o reconhecimento é o valor que mais se aproxima da felicidade. O autor faz também um apanhado das visões de diversos filósofos e pensadores sobre o reconhecimento, começando por Sócrates e terminando com Václav Havel (1936-2011), intelectual, dramaturgo dissidente e ex-presidente da Checoslováquia.

Fukuyama mostrou que os antigos filósofos descreviam a felicidade como sendo o alcance da suprema essência do ser humano e que tal essência não é o desejo ou a razão mas sim o timos (thymus), caracterizado pela presença de espírito (spiritedness). O timos serve de árbitro entre o desejo e a razão, pois é através dele que o homem se autoavalia e demanda o reconhecimento. O conceito do timos aparece num dos diálogos de Platão, onde Sócrates o descreve como um dos três elementos da alma humana, ao lado da razão (logos) e do desejo (epithymia). Nesse diálogo Sócrates fala a dois alunos sobre a necessidade das cidades de terem uma classe de guardiães com a função de defender a cidade de ataques inimigos, e aponta o timos como principal característica desses heroicos guardiães. Fukuyama prossegue o argumento mostrando a reocorrência do timos na filosofia e na literatura, através do desejo de glória de Maquiavel, no orgulho ou vanglória de Hobbes, no amour-propre de Rousseau, no amor da fama de Alexander Hamilton e na ambição de James Madison. Para Fukuyama, o tema do timos está também embutido no conceito de ‘vontade de poder’ (will of power) de Nietzsche (que Nietzsche tomou emprestado de Schopenhauer), o que reforça a primazia do timos sobre o desejo e a razão, pois para Nietzsche, o homem é, acima de tudo, uma criatura avaliadora, ou seja, ‘uma besta de bochechas coradas’.

A fim de mostrar que o timos também pode ser entendido pelo senso universal de dignidade, Fukuyama cita um conhecido ensaio de Václav Havel intitulado O Poder dos Sem Poderes, que narra o subterfúgio utilizado por um verdureiro na antiga Tchecoslováquia, para preservar a sua dignidade depois de ter sido obrigado a colocar na sua loja de hortifruti um pôster com o slogan ‘Trabalhadores do Mundo, Uni-vos!’ Embora a colocação do pôster fosse um ato de submissão e claramente uma expressão de medo, o verdureiro usou a mensagem ideológica contida do pôster como uma desculpa. Na descrição de Havel, se ao invés do slogan ‘Trabalhadores do Mundo, Uni-vos!’ o pôster mostrasse uma frase como ‘Eu tenho medo e por isso obedeço sem questionar’ o verdureiro certamente teria vergonha de exibir uma declaração desse tipo, já que como todo ser humano, ele também tem um senso da própria dignidade. Fukuyama conclui o argumento de que a preservação da dignidade é um valor humano universal afirmando que as pessoas avaliam não apenas o próprio mérito mas também o mérito das outras pessoas. A evidência que ele dá é a observação de que quando uma pessoa não se sente reconhecida da maneira como deveria ser pelas demais pessoas, ela experimenta sentimentos de rancor e indignação, que caracterizam o contrário da felicidade.

A preservação da dignidade mencionada por Fukuyama se sobrepõe ao sentimento da ‘honra’, outra manifestação do timos. Os códigos penais de todos os países tratam dos chamados ‘crimes de honra’ com atenuantes maiores ou menores. Os ‘crimes de honra’ são mais comuns nas sociedades tribais onde as ações de toda a família influenciam o quinhão de respeito e o reconhecimento de cada pessoa, e menos comuns nas sociedades liberais onde cada indivíduo é responsável apenas pelas próprias ações.
O argumento do timos não termina aí. Existe um outro valor universal que é a aceitação do conceito do certo e do errado, embora nem sempre as pessoas concordem umas com as outras: há pessoas que não costumam se avaliar, mas mesmo assim se colocam como iguais às demais pessoas; há outras pessoas que costumam se avaliar, mas que quando avaliadas por outras pessoas não querem ser reconhecidas como sendo iguais às demais pessoas e sim superiores. Os filósofos gregos também têm uma palavra para esse fenômeno: ‘megalothymia’, que seria o lado mau do timos. O timos bom está ligado às virtudes nobres como coragem, generosidade e espírito público; o timos mau está ligado à expectativas perversas como a ambição desmedida, o nacionalismo extremo, o preconceito e a tirania.

A Igualdade Perante a Lei e as Diferenças de Capacidades
Hegel descreveu o tipo de sociedade propenso à busca da felicidade como sendo aquela que não meramente dá a liberdade de ganhar dinheiro e preservar a vida e a propriedade mas também aponta o caminho de objetivos imateriais como o reconhecimento. Entretanto, a visão de Hegel é teórica e descreve uma teoria social idealizada. Conforme mostra a ciência política, que trata das sociedades reais, as sociedades que mais se aproximaram da idealização Hegeliana são as que adotaram o liberalismo Anglo-Saxônico, como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e todos os países que têm um Estado de Direito garantidor da liberdade e da propriedade e onde os indivíduos têm direitos e deveres bem definidos.
A igualdade e a liberdade embutidas no liberalismo Anglo-Saxônico norte americano às vezes se chocam, embora isso não justifica que devam fazer concessões mútuas. A racional para isso é que como todos são iguais perante a lei, o Estado não pode dar garantias de felicidade ou tratar qualquer grupo de forma diferente.

Conforme mostrou o psicólogo e pensador canadense Steve Pinker (1954-), um professor da Universidade de Harvard, a despeito dos dizeres do segundo parágrafo da Declaração de Independência – ‘Nós tomamos essas verdades como sendo autoevidentes, que todos os homens são criados iguais’, os pais fundadores dos Estados Unidos tinham uma boa noção da diversidade de capacidades das pessoas, conforme evidenciado por numa carta de Thomas Jefferson, o autor da Declaração da Independência dos Estados Unidos, onde Jefferson afirmou: ‘Eu concordo com você de que existe uma aristocracia natural entre os homens. As bases disso são a virtude e talentos… Pois como a experiência prova, as qualidades físicas e morais do homem são transmissíveis numa certa dose de pai para filho’. Assim, o sentido de igualdade dos pais fundadores dos Estados Unidos era o da igualdade perante a lei. A noção de ‘busca da felicidade’, também parte da Declaração de Independência, tem a ver com a sociedade onde os indivíduos possam usufruir de suas capacidades para chegar à vida plena, que é equivalente à felicidade.
A Associação Americana de Psicólogos define a inteligência como sendo ‘a capacidade de entender ideias complexas, de adaptar ao ambiente, de aprender pela experiência, engajar em formas de raciocínio, e de vencer obstáculos pela reflexão’. Nesta definição está embutida a ideia de que as pessoas têm diferentes inteligências. A sociedade liberal dos Estados Unidos aceita as diferenças de capacidades como uma coisa natural mas demanda uma distribuição justa das oportunidades. O chamado ‘sonho americano’ tem tudo a ver com as potenciais oportunidades de alguém subir na vida pelo próprio mérito.

No seu artigo “O Futuro da História. A Democracia Liberal Pode Sobreviver ao Declínio da Classe Média?”, publicado inicialmente em Foreign Affairs mas republicado em português na edição anterior de PortVitoria, Fukuyama mostrou sua apreensão com o crescimento da desigualdade nos Estados Unidos, onde as pessoas de aptidões matemáticas estão capitalizando os seus talentos nos setores das finanças e de computação e ganhando parcelas cada vez maiores da riqueza nacional. A preocupação de Fukuyama reside no fato de que a democracia depende da existência de uma forte classe média, e a classe média americana está cada vez menor. Entretanto, a solução sugerida por Fukuyama não tem nada a ver com discriminações de grupos mas sim com a necessidade do Estado reconsiderar os seus gastos, tornando-se menos pródigo, e por fim às políticas fiscais voltadas a beneficiar os muito ricos.
Conclusão

Como mostrou a filósofa Ayn Rand, a própria noção de felicidade pode ser irracional, como ocorre quando as pessoas valorizam a destruição. Podemos fazer um paralelo entre a irracionalidade da felicidade destrutiva e o voto irracional. O voto é irracional quando feito sem pensar, obedecendo a alguma cartilha ideológica.

A democracia requer um questionamento crítico e constante de tudo, a fim de permitir que cada eleitor forme a sua própria opinião, tornando o seu voto racional. Todos os eleitores têm a responsabilidade de pensar racionalmente sobre o tipo de governo que desejam e quem merece a confiança de representá-los. E como a liberdade de expressão não distingue entre ideias certas e erradas, racionais ou irracionais, o questionamento crítico é também necessário para que o racionalismo vença o irracionalismo na batalha diária para impor um tipo de moralidade sobre outro.
Pensar racionalmente significa fazer perguntas. Quem deve governar? De que tamanho deve ser o Estado? Essas são perguntas essenciais que todos os amantes da democracia devem fazer de tempos em tempos. Para chegar a uma resposta é preciso perguntar também qual o valor que damos às coisas que para nós equivalem à felicidade.

Finalizando, os legisladores devem concentrar seus esforços naquilo que pode dar resultado como facilitar a abertura de novos negócios e o aproveitamento máximo das capacidades das pessoas. Num mundo globalizado é cada vez maior o número de brasileiros que vão morar no exterior bem como o número de estrangeiros que vão morar no Brasil. Entretanto existem enormes barreiras burocráticas para o emprego no Brasil de diplomas de cursos secundários e de graduação obtidos fora do país, tanto pelos brasileiros que retornam do exterior quanto por estrangeiros que por qualquer motivo vêm residir legalmente no país. Permitir a revalidação do diploma estrangeiro posterior a concursos vestibulares ou de emprego já seria um grande passo. Reduzir a burocracia da revalidação de diplomas estrangeiros é uma ação viável e geradora de uma situação do tipo ganho-ganha: o indivíduo interessado ganha a oportunidade de empregar integralmente os seus talentos e a nação ganha em recursos humanos que não precisou custear.

A péssima classificação do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano pode ser entendida como um indicador das gritantes desigualdades da sociedade brasileira. Em todas as sociedades reduzir as desigualdades é a solução mais racional para melhorar a qualidade de vida e estender a todos o sonho da busca da felicidade pela vida equilibrada e plena. E para viver plenamente, o indivíduo não precisa só das coisas necessárias à sobrevivência; precisa também de coisas não materiais como o conhecimento e o reconhecimento.

Referências Consultadas
Aristotle (1986). Nocomachean Ethics (Ethica Nicomachea), translated by W.D.Rodd, p. 339-436. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 9, Aristotle II. William Benton, Publisher, Chicago.
Durant, Will (1953). The Story of Philosophy. The Lives and Opinions of the Great Philosophers. Simon and Schuster, New York.
Fukuyama, F. (1992).The End of History and the Last Man. Avon Books, New York.(Publicado em português pela Editora Rocco).
Fukuyama, F. (2012) O Futuro da História. A Democracia Liberal Pode Sobreviver ao Declínio da Classe Média?PortVitoria, issue 6, July 2012.
Havel, V. (1990). Disturbing the Peace, tanslated by Paul Wilson. Faber and Faber, London.
Hegel, G. W. F. (1971). Philosophy of Mind. In: Encyclopaedia of Philosophical Sciences, part 3, translated by William Wallace, Oxford. Kindle version, Guttenberg Project.
Locke, John (1986). An essay concerning human understanding.In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 35, Locke, Berkeley, Hume. William Benton, Publisher, Chicago.
Pinker, S. (2002). The Blank Slate. Penguin Books, LondonWorld 7. William Benton, Publisher, Chicago.
Rand, A. (1961). The Virtue of Selfishness. A New concept of Egoism. Signet. (Disponível em português através do Instituto Liberal do Rio Grande do Sul)

A Democracia na Balança

‘A democracia é a pior forma de governo que existe com exceção de todas as outras’. Winston Churchill

Quando o filósofo Sócrates afirmou que nada sabia a não ser a própria ignorância, ele demarcou o benchmark do verdadeiro sábio como sendo aquele que conhece as suas limitações. As instituições sociais, incluindo a própria democracia, também têm as suas limitações. É preciso ser um bom crítico para enxergar as limitações da democracia. Um exemplo é o escritor e pensador Albert Camus, que criou o benchmark da democracia quando escreveu que ‘a democracia é a forma de sociedade criada e mantida por aqueles que sabem que não sabem tudo’. Antes de chegar a este benchmark Camus enxergou o grande problema da democracia como sendo a sua ligação com a política, que é limitada pela parcialidade.

O cientista político norte-americano Francis Fukuyama, um dos peritos mundiais em democracia, afirmou que apesar de já existir um consenso global sobre a legitimidade da democracia liberal, esta última depende de determinadas condições socioeconômicas, principalmente de uma classe média forte. Fukuyama definiu a classe média como sendo aquela formada por pessoas que não estão nem no topo nem na parte inferior de suas sociedades em termos de renda, que completaram o segundo grau e possuem bens imóveis ou os seus próprios negócios.

O fato de existir um consenso global sobre a legitimidade da democracia liberal não significa que todos os países tenham bons críticos da democracia. E o olho crítico e a cautela são essenciais para perceber a tempo as infecções da democracia que podem eventualmente destruí-la. Nos países onde a democracia ainda é relativamente nova muitas pessoas se dizem democratas, mas poucas têm uma visão crítica do processo democrático em constante mutação.

As boas democracias não são criadas pelo número de eleitores mas pelo espírito de cidadania onde os cidadãos desconfiam das certezas absolutas e passam a enxergar melhor a ameaça da demagogia. A hiperdemocracia, aquela formada em torno do número de eleitores e cuja maioria esmaga as minorias, é uma democracia doente, conforme identificou o pensador espanhol Ortega y Gasset. As boas democracias respeitam os direitos de todos, inclusive das pessoas que não apoiam os atuais governantes. Não é nenhuma coincidência que os países com uma longa tradição democrática como os Estados Unidos, o Canadá, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Dinamarca, a Noruega, e a França entendam bem a importância de transformar os eleitores em cidadãos.

A educação para a democracia consiste de um roteiro de estudos que inclui a história da democracia desde o seu aparecimento na antiga Grécia até as suas formas mais desenvolvidas bem como o ensino dos processos democráticos como a constituição e as leis. Tal roteiro de estudos tanto pode ser incorporado ao ensino formal das escolas públicas e privadas quanto ser oferecido através de palestras ao público promovidas pela sociedade civil. O objetivo da educação para a democracia é formar o cidadão crítico, aquele que pensa e age independentemente, que enxerga e respeita o interesse comum, e que entende que a democracia não é um fim, mas um meio de garantir a liberdade de cada indivíduo.

Recapitulando, a democracia e todos os seus aspectos precisam ser permanentemente colocados numa balança para avaliação. Criticar a democracia não significa ser inimigo da mesma; significa desconfiar das visões de democracia que são incapazes de reconhecer limitações; significa também questionar e apresentar boas razões para as dúvidas levantadas. A boa crítica da democracia é necessária para evidenciar eventuais inconsistências e ajudar a encontrar as soluções para os ajustes necessários.

Post Script. Frases do Ministro Joaquim Barbosa do STF sobre a democracia do Brasil, na proposta que submete ao Congresso as decisões do Supremo Tribunal Federal:

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual condenados por corrupção legislam contra os juízes que os condenaram.”

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual as decisões do Supremo Tribunal podem ser mudadas por condenados.”

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual deputados, após condenados, assumem cargos e afrontam o judiciário.”

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual é possível que condenados façam seus habeas corpus ou legislem para mudar a lei e serem libertos.”

Recebida de CJBorges

Agradecimento: Carlos Pires, revisor

A Voz do Povo é a Voz de Deus?

Autor: Joaquina Pires-O’Brien
Artigo publicado em 2011 na revista eletrônica trilíngue PortVitoria, dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.
Link original: http://www.portvitoria.com/Documents/ISSUE%20II/10_A_Voz_do_Povo_Pires-OBrien_2.pdf

Oriunda do latim ‘vox populi, vox dei’, a expressão ‘a voz do povo é a voz de Deus’ já era conhecida entre os antigos Gregos e Romanos, sendo citada por Tito Lívio (59 BCE – 17 AD) em sua obra Ab Urb Condita Libri (Livros Desde a Fundação da Cidade de Roma), famosa narrativa nacionalista da história de Roma. Tito Lívio repudiou a expressão ‘vox populi, vox dei’ ao comentar a escolha dos tribunos, servidores da república oriundos da plebe e encarregados de manter a paz, através da aclamação popular.

Outro registro antigo da expressão ‘vox populi, vox dei’ aparece numa carta do abade, estudioso e educador inglês Alcuíno de York (730s ou 740s – 804), seguidor do venerável Bede’ (c. 673-735), endereçada a Carlos Magno, de quem era conselheiro. Nela Alcuíno sugere a Carlos Magno não dar ouvidos aos que afirmam vox populi, vox dei, já que a voz da turba era mais parecida com a voz da loucura do que com a sabedoria divina.

Nicolau Machiavelli (1469-1527), um burocrata e diplomata a serviço da corte de Florença, explorou melhor do que nenhum outro a ideia contida na expressão ‘a voz do povo é a voz de Deus’, em seu livro O Príncipe, publicado postumamente em 1532, contendo conselhos sobre como ganhar e preservar o poder. Nele Machivelli sublinha a importância da relação entre opinião pública e poder, e de manter a aparência de virtuosidade perante o público ignorante. Um dos conselhos de Machiavelli aos que desejam segurar o poder é dar poder ao povo, cuja voz seria mais constante e mais sábia do que a voz dos príncipes.

No seu livro O Contrato Social (1762), Rousseau, o influenciador da Revolução Francesa, proclamou o direito do povo de se rebelar contra a tirania do monarca atendendo à voz da natureza dentro de cada um de nós. Ao procurar analisar o ‘desejo geral’ a fim de verificar se o mesmo era capaz de direcionar o Estado a buscar o ‘bem comum’, o objeto pelo qual o mesmo foi instituído, Rousseau optou pelo mesmo, apesar de ter reconhecido que o povo podia ser enganado a decidir erradamente contra o bem comum. Para Rousseau tudo o que é decidido pelo desejo comum está correto por tender às vantagens do povo, uma visão bem dentro daquilo que o filósofo inglês Bertrand Russell descreveu como sendo a filosofia política das ditaduras pseudo-democráticas.

A Idade Moderna que Rousseau ajudou a deslanchar marcou o começo da era ideológica caracterizada pela massificação das ideias e da indústria de formação de opinião. A história dos séculos dezenove e vinte mostra dezenas de genocídios cometidos com o pleno conhecimento e participação da população. A voz do povo é a voz da turba desvairada e sedenta de sangue. As massas são seduzidas e manipuladas pelo jogo do ‘nós contra eles’, que nada se assemelha à justiça absoluta ou qualquer tipo de justiça que transcende a justiça humana implícita na metáfora do Deus.

A visão de maior profundidade sobre a expressão ‘a voz do povo é a voz de Deus’ é a de Stephen Pinker, psicólogo cognitivo e professor da universidade de Harvard. Ele costuma afirmar que a violência é muito mais do que uma moléstia social e que não dá para ser compreendida pelos ditados populares dos pára-lamas de caminhões. Compreender a violência requer pesquisas científicas sobre todos os contextos conhecidos em que a violência é fermentada tais como o etnocentrismo, o senso de justiça e a honra. Segundo ele, o denominador comum de todo comportamento de violência são as táticas de desumanização feitas para rebaixar o indivíduo de ‘pessoa’ para ‘não-pessoa’. A desumanização torna fácil a tortura e o homicídio, fazendo com que os mesmos se equivalham a jogar uma lagosta viva dentro de um caldeirão de água fervente.

Na sociedade pós-industrial diminuiu o fenômeno da turba enfurecida e aumentou o número de buscadores de poder e peritos em manipular não só o desejo profundo de justiça natural mas também as utopias ao mesmo ligado. Conforme mostrou Pinker, desde a concepção das idéias acerca do Jardim do Éden e do mundo celeste, a história universal já registrou um número incontável de utopias. No mundo de hoje, as utopias prevalentes são o socialismo Marxista e o ambientalismo. Os ‘zelotes’ atuais são mestres no uso de utopias para coagir segmentos do público a atacar indivíduos e organizações fazendo uso de bullying, vitimização, difamação e boicotes.

Na moderna democracia a voz do povo é traduzida pela eleição, na qual ganha poder quem tem o apoio da maioria. O processo da eleição não é infalível, mas mesmo assim serve para legitimar a resolução tomada. A fim de impedir que as democracias modernas se tornem ditaduras da maioria, foram desenvolvidos uma série de mecanismos controladores, como o caráter individual e secreto do voto.

Reconhecer que o comportamento de turba e outros tipos de violência fazem parte da nossa natureza não significa que a sociedade deva aceitá-los. A mesma seleção natural que moldou na nossa mente a capacidade de responder inconscientemente a situações também moldou a capacidade de controlar nosso instinto de agressão sempre que o mesmo vem à tona como uma reação de reflexo instantâneo. Exemplos disso são os casos quando temos pensamentos homicidas, mas não agimos sobre os mesmos. No calor do momento um marido pode desejar que a sua sogra morra sem ter nenhuma concreta intenção de matá-la. O desenvolvimento da capacidade de controlar o instinto inconsciente é a base de um dos princípios mais importantes da civilização Ocidental: a crença de que a razão pode e irá exercer uma pressão seletiva na direção certa.

PS. Leia neste mesmo Blog o meu posting relacionado:

http://jopiresobrien.wordpress.com/2012/05/29/a-massa-e-a-opiniao-publica/

PPS. Se você lê inglês, espanhol e português, não deixe de visitar a revista PortVitoria:

http://wwwportvitoria.com/

Noruega: País, Reino e Estado

A ocupação humana da Noruega começou ainda no alto Paleolítico, há onze mil anos atrás, quando havia um istmo da plataforma continental ligando as Ilhas Britânicas à Jutland. O registro arqueológico da região começa em 9200 a.C., sendo comprovado pelos resquícios do povoado submerso de Doggerland cuja submersão foi causada pelo tsunami de Storegga Slide, um dos maiores do Holoceno. Os primeiros habitantes da Noruega atual chegaram lá por volta do ano 7000 a.C., quando terminou a última idade do Gelo e o país se tornou novamente habitável. A agricultura foi introduzida na Noruega por volta de 3.000 a.C. quando os agricultores usavam apenas implementos de pedra. Implementos de bronze apareceram após o ano 1500 a.C. e de ferro em torno de 500 a.C. Considerando-se apenas o registro escrito, os mais antigos são as ‘runas’ ou letras do alfabeto escandinavo-germânico antigo, possivelmente baseado no alfabeto etrusco. A inscrição mais antiga é a de uma ponta de fecha, datada do ano 200 d.C.

A história da Noruega começa dentro da história do Povo Nórdico, que inclui além da Escandinávia –a península norte da Europa –, a Islândia, as ilhas Faröe e a Finlândia. Os chamados ‘Homens do Norte’(Norsmen, em inglês), que os habitantes da Inglaterra chamavam de Vikings e os francos chamavam de Normandos, dominaram a Escandinávia entre 750 e 1066 d.C.
O termo inglês ‘Viking’ é um verbo que descreve o que Homens do Norte faziam, isto é, o tipo de pirataria feita contra as povoações da costa ao invés daquela feita por um navio a outro. A narrativa histórica da Escandinávia começou no registro oral e foi posteriormente gravada nas ‘sagas’ escritas na língua nórdica antiga. O poder dos Vikings estava ligado aos seus longos navios de pinho norueguês, que eles utilizavam para fazer incursões de saques na Escócia, Inglaterra, Irlanda e França.

No século nove a Escandinávia já era dividida em diversos reinos que incluía a Noruega e a Suécia, na península propriamente dita, e a Dinamarca, que ficava nas ilhas Dinamarca e Jutland. No final do mesmo século, Harald Fairhair ganhou o controle da região e se proclamou rei da Noruega, embora ele só tivesse o controle de uma parte do país. Dois dos sucessores de Fairhair tentaram cristianizar a região mas não tiveram sucesso. O próximo monarca, Olaf Haraldson, que governou a Noruega de 995 a 1000, conseguiu a cristianização do país e das ilhas associadas. No governo de Haakon IV, entre 1217 e 1263, a Noruega teve um período áureo de estabilidade e crescimento.

A região da Noruega entrou em declínio com a chegada da Peste Negra em 1349 (veja mais abaixo). A Peste Negra, que se originou na Ásia Central, já havia chegado a outras partes da Europa mas até então a Escandinávia estava livre da mesma. Transmitida por ratos, a Peste Negra tem três variedades: a bubônica, a pneumônica e septicêmica. A contaminação da Escandinávia ocorreu quando um grupo de marinheiros noruegueses subiram num navio inglês que se encontrava à deriva na costa de Bergen, e tendo encontrando toda tripulação morta, decidiram trazer os corpos para terra a fim de enterrá-los num cemitério. A Peste Negra foi terrível para a população da Noruega devido à pobreza e à alta densidade populacional das cidades, matando mais da metade da população. Em 1319 quando o rei Erik da Noruega foi eleito rei dos suecos e as duas coroas se uniram. Nesse mesmo século quatorze a Noruega esteve unida à Dinamarca e à Suécia, mas a Suécia se desmembrou do grupo em 1523.

A Noruega permaneceu unida à Dinamarca até 1814 quando passou para o domínio da Suécia, depois que a Suécia invadiu a Dinamarca e a obrigou a assinar o Tratado de Kiel para restabelecimento da paz. Em troca da Noruega a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre as Ilhas Faröe, a Islândia e a Groelândia. Conforme já mencionado, a independência da Noruega se deu em 1905, após um acordo pacífico de separação da Suécia. Após ganhar a sua independência, a Noruega organizou um referendo a fim de decidir a forma do novo governo. Nesse referendo os noruegueses optaram pela monarquia e elegeram como monarca o príncipe Carl da Dinamarca, que se tornou o Rei Haakon VII.

Etnicidade, Cristianização e Língua
A maior parte da população da Escandinávia tem origem teutônica pois descendem de diversas tribos germânicas que ocuparam o sul da Escandinávia, onde atualmente é parte do norte da Alemanha. Embora alguns Vikings tivessem eventualmente se assentado nas remotas ilhas da costa da Escócia e na Ilha do Homem, entre a Inglaterra e a Irlanda, e lá vivido pacificamente, eles eram temidos pelas incursões de ataques, saques e extorsões à Inglaterra e às regiões costeiras da França. A região francesa da Normandia foi uma espécie de suborno pela paz que o rei da França concedeu aos Vikings. Tal concessão é tida como um dos motivos do enfraquecimento do império Carolíngio que eventualmente se extinguiu.

Muito antes da conquista da Grã-Bretanha pelos Normandos em 1066, os Vikings já se consideravam senhores da Inglaterra. Durante o reinado de Aethelhead II, a Inglaterra sofreu terríveis ataques dos Vikings. Acusado de ser um monarca incapaz de defender o reino, em 13 de novembro de 1002, Aethelhead ordenou o massacre de todos os nórdicos que viviam na Inglaterra, o que incluiu pessoas que já eram bem integradas na sociedade inglesa, sendo possivelmente a primeira lavagem étnica da história europeia. Aethelhead só conseguiu se manter no trono às custas de pagamentos aos Vikings, mas foi eventualmente vencido pelo líder Viking Swein ou Svend Tveskaeg (Barba Forcada), que era rei da Dinamarca. Felizmente para Aethelhead II o rei Swein faleceu em 1016 e ele pôde retornar do exílio na Normandia, reinando por um segundo período de 1014 a 1016.

Apenas depois de ser cristianizada a Escandinávia tornou-se menos propensa à violência. A campanha de cristianização da Escandinávia foi iniciada entre os séculos oito e o doze. Em 1015 Olavo II Haraldssom tornou-se o primeiro rei da Noruega e começou uma campanha de cristianização da região. Arquidioceses ligadas ao Papa, em Roma, surgiram na Dinamarca, Noruega e Suécia em 1104, 1154 e 1164. Embora a cristianização da Escandinávia tivesse permitido a sua integração com o resto da Europa através do comércio marítimo, ela também quase pôs fim à cultura escandinava, quando a Peste Negra entrou na Escandinávia através dos corpos dos marinheiros ingleses encontrados num navio à deriva, que foram resgatados para ser enterrados no cemitério local.

A língua predominante da Escandinávia era o ‘velho nórdico’, que deixou de ser falado em consequência da dizimação da população pela Peste Negra de 1349, e hoje dia é falado apenas na Islândia. Entretanto, é dele que surgiram o dinamarquês, o sueco e o norueguês. Essas três poderiam ser uma só língua escandinava se as variâncias locais não tivessem sido reforçadas pelos escritores do século dezenove, incentivados pelos ideários nacionalistas de cada país.

A Literatura da Noruega
Bjornstjerne Bjornson (1832-1910), Alexander Kielland (1849-1906), Henrik Ibsen (1828-1906) e Jonas Lie (1833-1908) formavam o grupo dos quatro grandes da literatura norueguesa no século dezenove. Embora Bjornson tivesse ganho o Nobel de Literatura em 1903, Ibsen é o autor norueguês mais conhecido internacionalmente, através de suas peças como Casa de Bonecas, Hedda Gabler e Um Inimigo do Povo. Em outubro de 2012 eu tive a oportunidade de assistir Hedda Gabler que estava sendo encenada no teatro Old Vic de Londres. Muitos críticos escreveram que Hedda Gabler é a personificação da mulher feminista do século vinte. Eu não concordo com essa visão. Para mim o personagem Hedda representa o elemento doente da sociedade, a desumanidade do indivíduo que se tornou refratário ao amor ao próximo e à moral.

A Música da Noruega
A Noruega tem uma rica tradição tanto de música folclórica quanto de música clássica. O violinista Ole Bull (1810-80), já mencionado, era famoso em toda a Europa e nos Estados Unidos. Foi ele que reconheceu o talento de Edward Grieg (1843-1907) quando este era ainda menino prodígio do piano. Grieg tornou-se o compositor mais importante da Noruega, e suas composições eram quase sempre inspiradas no folclore e na natureza. Em vida Grieg recebeu muitos prêmios e distinções, tendo sido feito cavalheiros da ordem de São Olavo, pelo rei Oscar II da Suécia, juntamente com Ibsen, em 1873.

O aspecto físico de Grieg lembra bastante Carlos Gomes, o que em parte se deve à moda da época de manter o cabelo e o bigode, pois os dois viveram na mesma época. Grieg era o quarto dos cinco filhos de um próspero mercador de origem escocesa, cuja mãe era professora de música. Grieg era casado com uma prima, Nina Hagerup, exímia pianista e cantora que deu enorme apoio à carreira do marido. A última residência de Grieg e Nina, em Troldhaugen, nos arredores de Bergen, foi transformada em museu, o qual inclui um prédio adicional contendo informações históricas mais uma lojinha e um restaurante.

O País do Nobel da Paz
A Noruega é também conhecida por ser o país que concede o Prêmio Nobel da Paz, oferecido anualmente pelo Instituto Nobel, baseado em Oslo. Em 2012 a Comissão do Prêmio Nobel decidiu pela Comissão Europeia, o que surpreendeu muita gente. A decisão do Comitê do Nobel foi em parte para premiar as seis décadas de paz do continente, e parte para ajudar na atual crise financeira. O Instituto Nobel de Oslo tem uma confortável biblioteca especializada em história política, lei internacional, paz e economia internacional, e é também o repositório de documentos de diversas organizações internacionais como as Nações Unidas, A Corte Internacional de Justiça, a Liga das Nações, a Organização Mundial do Trabalho, o Conselho da Europa, o Acordo Internacional de Comércio e Tarifas (GATT), o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, a Associação Europeia de Livre Comércio, e outras.

A Prosperidade da Noruega
Durante um passeio a pé por Bergen, Beate, a nossa bem informada guia afirmou: ‘A Noruega é o país mais rico do mundo’, o pude verificar posteriormente.
O petróleo da costa norueguesa começou a ser explorado após a Segunda Guerra Mundial por sete empresas: Exxon, Gulf, Standard Oil da Califórnia, Texaco, Mobil e Shell. Em 1950 essas sete empresas, denominadas as Sete Irmãs, controlavam 98,3% do petróleo de todo o mundo. Essa participação diminuiu gradativamente com a entrada de novas empresas no mercado. Uma dessas era a Norsk Hydro ASA, empresa de alumínio e energias renováveis baseada em Oslo. Em 1960, o ano de criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a produção mundial de petróleo estava se expandindo rapidamente e uma das funções da OPEC era controlar a produção de petróleo para evitar a queda do preço do barril de petróleo. Seguindo a tendência mundial de nacionalizações do petróleo em todo o mundo, a Noruega criou a Statoil, embora sem dar à essa o monopólio do setor. A Stateoil introduziu diversas medidas para a transferência de tecnologia e um sistema de pesquisa e desenvolvimento sobre em petróleo e gás. Na fase inicial da exploração pela Statoil, a margem de lucros era pequena devido ao custo elevado da operação, embora os poucos os custos diminuíram e o lucro aumentou.

A segunda grande indústria da Noruega é a indústria do pescado marinho e da aquicultura de peixes. Segundo os dados do Instituto Nacional da Pesca, de Bergen, os dez produtos pesqueiros mais consumidos são: camarão, atum enlatado, pollock do Alaska, tilápia, panga, bagre do mar (catfish), caranguejo do mar, bacalhau( fresco e salgado) e moluscos bivalves (clams).

A terceira grande indústria da Noruega é a indústria marítima que inclui a navegação e a produção de navios e embarcações menores e equipamentos marítimos. A Noruega é a quinta maior frota do mundo cuja principal atuação é no transporte de petróleo, granéis, produtos químicos, gás e automóveis, atuando ainda no mercado de cruzeiros marítimos. Os navios noruegueses são em geral construídos na Noruega usando cascos importados da Polônia, România e China. São em geral Embarcações de Suprimento de Plataformas (ESP) e os mais diversos tipos de embarcações de apoio offshore.

O turismo é também uma importante fonte de riqueza para a Noruega, país de grandes belezas naturais como os fiordes, que são entradas do mar entre montanhas rochosas, que ocorrem ao longo de quase toda a costa da Noruega, formados pela submersão de vales glaciais. Um dos programas turísticos mais populares é o cruzeiro marítimo pelos fiordes, que leva uma media de 14 Dias. A cultura é outra atração turística da Noruega, país com um grande número de museus e teatros. Segundo as estatísticas, 2010 registrou 7,9 milhões de estadias de pelo menos uma noite, principalmente de alemães, dinamarqueses e suecos. As indústrias do petróleo, do transporte marítima e do turismo formam a base da riqueza da Noruega, hoje em dia considerado o pais mais rico do mundo.

Com uma população de 4,7 milhões a Noruega não só é o país mais próspero do mundo mas é também considerado o melhor lugar do mundo para se viver, ocupando o primeiro lugar do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano da Unesco. O nível de desemprego da Noruega é possivelmente o menor do mundo, em torno de 3,3% . A decisão da Noruega de não se afiliar à União Europeia foi economicamente boa para o país, que sequer sentiu a crise financeira que abalou a Europa em 2009.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

Uma Visita à Noruega

De 15 a 22 de setembro de 2012 eu visitei Bergen, na Noruega, acompanhando meu marido na conferência anual do CIEM/ICES, o Centro Internacional da Exploração dos Mares. Geograficamente, a Noruega faz parte da península Escandinava, juntamente com a Dinamarca e a Suécia, e Bergen fica na costa sudoeste, na mesma latitude que a Escócia e o Alaska.
A Noruega é um comprido país a oeste da Suécia, caracterizado por uma enorme quantidade de ilhas e pelos típicos fiordes, que são entradas estreitas e profundas do mar na costa montanhosa. Os fiordes resultaram da erosão causada pela retração dos glaciares – rios de gelo formados nas grandes alturas pela acumulação de neve, que ao final da idade do gelo passaram a se deslocar lentamente para baixo.

Fundada em 1070 d.C., pelo rei Olavo Kyrre, Bergen é uma das cidades mais antigas da Noruega. Por volta de 1100 d.C. Bergen notabilizou-se pelo comércio marítimo, sendo o seu produto principal o bacalhau salgado, que durante a Idade Média enriqueceu os mercadores Saxões afiliados à Liga Hanseática, uma rede de postos de importação e exportação distribuídos por toda a Europa, e que no final do século treze sediou-se em Bryggen, uma das zonas delimitada de Bergen onde era proibido mulheres. Entretanto, hoje em dia Bergen é muito mais que um porto pesqueiro e um destino turístico. É também um importante centro da indústria de navios e da exploração de petróleo e gás do Mar do Norte.

O bacalhau salgado foi o produto que alavancou o comércio marítimo de Bergen, principalmente depois da cristianização da Europa, quando a abstenção da carne nas sextas feiras e durante a Quaresma era um hábito comum dos cristãos. Assim, Bergen cresceu acompanhando o crescimento do Cristianismo. O acesso às diversas partes de Bergen, incluindo Bryggen, era apenas pelo mar. Os compridos barcos percorriam os canais e entravam nos becos para fazer entregas. Isso começou a mudar dois séculos atrás quando começou o processo de aterramento de canais. Os prédios de fachadas coloridas dos prédios de Bryggen são todos tombados pelo patrimônio e conservados, sendo que Bryggen é hoje um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Bergen à pé
O turista recém chegado a Bergen não tem dificuldades em caminhar a pé sem se perder, pois a cidade têm diversos marcos de orientação. Bem no centro comercial da cidade fica o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten. A rua Torgallmeningen, por exemplo, começa na praça do mercado de peixes e termina na igreja Johannes, atrás da qual fica a Universidade de Bergen; e a rua Nygardsgarten fica o Grieghallen, um importante prédio cultural contendo vários auditórios, assim chamado em homenagem ao compositor Edward Grieg, nascido em Bergen. Outro ponto de orientação é o Festplassen, um parque com um enorme lago, Lunggardsvann, e um amplo espaço para eventos musicais.

Apesar de eu já ter caminhado bastante por Bergen na segunda e na terça feira, na quarta feira eu fiz o passeio a pé programado pelo congresso. A nossa guia, uma uma senhora de uns sessenta e cinco anos de idade que exuberava confiança, explicou os pormenores do passeio e nos informou que devido ao tamanho do nosso grupo, este seria dividido em dois mais adiante. A primeira parada foi em frente ao Teatro Nórdico (Norske Theater), um belo prédio em estilo Art Nouveu, construído em 1909. Em frente ao mesmo há uma estátua do escritor Bjornstjerne Bjornson (1832-1910), ganhador do Nobel de Literatura em 1903. Numa outra lateral do teatro, a que fica na Veiten Engen, voltada para a praça Ole Bull, fica outra imponente estátua, a de Henrik Ibsen, mostrado o rosto largo, os óculos e a característica barba lateral do dramaturgo. Ibsen foi o primeiro diretor do Teatro, enquanto que Bjornson foi o segundo. ‘Ibsen não foi entendido enquanto era vivo pois era um homem muito à frente do seu tempo’, disse a nossa guia. Segundo ela, Bjornson e Ibsen eram rivais amigos; juntamente com Alexander Kielland e Jonas Lie eles formaram o grupo dos quatro grandes da literatura norueguesa do século dezenove. A nossa guia falou também dos esforços dos artistas e intelectuais do século dezenove que se uniram em torno da criação da nação norueguesa, uma condição para a independência. A Noruega foi reconhecida como Estado independente da Suécia em 26 de outubro de 1905.

Do Teatro Nórdico nós descemos a praça Ole Bull até o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten, marcado por uma gigantesca escultura que consistia de um monólito, outro importante marco de Bergen. Nessa altura, a outra guia chegou. Percebendo a relutância das pessoas de deixar o grupo original, a recém-chegada estendeu o seu braço direito ordenou aos da esquerda que a acompanhassem. Um tanto a contragosto que eu segui a nova guia, outra senhora de uns sessenta e cinco anos de idade, que mais tarde se identificou pelo nome de Beate. A minha resistência desapareceu na próxima parada, quando Beate explicou a estátua de um violinista meio de uma belíssima fonte como sendo Ole Bull (1810-80), famoso pela virtuosidade musical e por ser belo. ‘Em vida ele rivalizou com Paganini, e foi o ‘Elvis’ do século dezenove’ disse Beate. Ela em seguida explicou a ligação entre Ole Bull e o compositor Edward Grieg, outro filho famoso de Bergen. Grieg era um menino prodígio quando Bull já tinha fama internacional. Numa de suas visitas a Bergen ele descobriu o talento de Grieg e recomendou que ele fosse mandado para Lipsia, para estudar no conservatório.

A próxima parada foi Byparken, grande praça com um enorme lago central que possui um amplo espaço aberto para eventos públicos e um imponente coreto que estava cercado de flores. À direita da praça ficam cinco dos sete museus de Bergen. Com orgulho patriota Beate nos explicou que ‘Bergen é a cidade de sete museus, assim como Roma é a cidade de sete colinas’. Do Byparken continuamos a caminhar em direção à praça do mercado de peixes.

Embora essa fosse a última semana do verão do calendário, o clima já tinha todos os sinais do outono como a chuva intermitente quase todos os dias. Entretanto, os 12 graus Celsius eram mais do que eu esperava para um país cujas fronteiras se adentra pelo Círculo Ártico. Havia verde e flores por todos os lados, quer nos parques quer nos montanhas que rodeiam a cidade. E dentre os arbustos ornamentais destacavam-se os rododendros, que são plantas típicas de ambientes temperados. Beate, a guia do passeio a pé pela cidade esclareceu o mistério: ‘a amenidade é um presente da Corrente do Golfo’, ela explicou.

Continuamos a caminhada em direção ao mercado de peixes. Paramos em frente ao antigo prédio da Bolsa de Valores de Bergen, do início do século vinte, hoje um complexo de restaurantes. Ali havia também uma outra estátua num pedestal, que Beate identificou como sendo o filósofo Holberg, outro filho de Bergen e o primeiro pensador a declarar que as mulheres tinham alma. Tratava-se do Barão Ludwig Holberg (1684-1754), que além de filósofo e professor de Metafísica da Universidade de Copenhagen, era também historiador, poeta e dramaturgo.

Atravessamos a avenida e chegamos ao mercado de peixe onde eu já tinha ido diversas vezes. Dessa vez eu anotei discretamente o preço do bacalhau em postas sem espinhas: entre $350 e $393 coroas norueguesas por quilograma. Continuando a caminhada chegamos em Bryggen, a zona delimitada da Liga Hanseática de mercadores, acima mencionada. Beate procurou dar uma ideia de como era Bryggen antes dos aterros dos canais. Entre os prédio de fachada colorida haviam becos estreitos cujas marquises eram construídas sobre peças inteiriças de madeira no formato de um T, formadas pelos troncos mais as raízes do pinho norueguês, a madeira mais resistente da Europa. Segundo Beate, peças como essas foram usadas na construção das quilhas dos navios Vikings, o que permitiu as suas longas viagens marítimas.
Passamos em frente ao Museu Hanseático (ou Museu dos Mercadores Saxões Hanseáticos) e ao Museu de Arqueologia (que eu visitei no dia seguinte). Cortando caminho por um dos becos de Bryggen, alcançamos a rua de trás, Rosenkrantz, uma pequena ladeira. Paramos num campo que parecia um cemitério, onde Beate explicou que era o sítio de uma igreja do século oito, que havia sido construída pelos missionários irlandeses, da qual só restava restava os alicerces e algumas sepulturas de bispos. O motivo oficial da demolição da igreja no início do primeiro milênio foi que a mesma era visível do mar e constituía um alvo para ataques inimigos. Entretanto, para Beate o motivo real da demolição da igreja era outro: impedir que o povo da Noruega desenvolvesse uma herança cultural própria.

Das ruínas da igreja do século oito tomamos um caminho estreito que descia até o cais do porto, onde havia uma meia dúzia de navios grandes ancorados. Na calçada cruzamos com turistas que pareciam ter acabado de desembarcar, e caminhamos na direção de retorno a Bryggen. A nossa próxima paragem foi o Håkon Hall, um prédio do século treze inaugurado em 1261 pelo rei Håkon pela ocasião co casamento do seu filho com uma princesa dinamarquesa, e até hoje usado como local de cerimônias pela família real norueguesa. Continuamos o passeio para a Torre Rosa-Cruz (Rosenkrantz) do século dezesseis, uma testemunha da importância do Rosacrucianismo, uma sociedade filosófica secreta fundada no final da Idade Média na Alemanha por Christian Rosenkreuz. A sociedade Rosa-Cruz era a favor do Luteranismo e contra o Catolicismo romano, e contribuiu para a emergência da Maçonaria na Escócia. Ao fim da sua explicação, Beate nos informou que ali era o fim do nosso passeio, e o grupo se dispersou.

Sobre a Cidade Portuária de Bergen
Bergen, cujo nome significa ‘pequeno prado no meio de montanhas‘ é uma cidade-porto localizada no sudoeste da Noruega . Na verdade Bergen tem dois portos, um de cada lado da sua península principal. O porto mais perto do centro comercial é o que serve à indústria da pesca enquanto que o outro se ocupa com o comércio marítimo internacional. É no primeiro porto que fica o mercado de peixes que inclui algumas barracas de alimentos e de artesanato. As barracas de alimentos servem refeições baseadas em grelhados de peixes, camarões, moluscos e carne de baleia.
Quando eu fui ao mercado de peixes na segunda feira, eu parei numa das barracas de alimentos e pedi o grelhado de bacalhau fresco e salmão: dois espetinhos com dois pedaços de peixe de 4 x 4 cm mais uma porção de salada de batatas e outra porção de legumes. Enquanto aguardava o meu pedido eu fui me sentar numa das mesas próximas do local de preparação da comida, onde já havia um casal de alemães. Daí a uns cinco minutos alguém trouxe o meu prato, numa pequena bandeja descartável, mais o café que havia pedido. Percebendo que eu não tinha com que comer, a mulher alemã à minha frente me apontou onde estavam os talheres de plástico e os guardanapos. A comida estava deliciosa e me custou $210 coroas norueguesas, sendo $175 pelo peixe e $35 pelo café, que em reais dão mais ou menos R$62,00 e R$12,00 respectivamente. A Noruega não é um país barato para turistas. Lá ma caneca de cerveja de 0,5 l custa entre 55 e 93 coroas norueguesas, ou seja, entre 19 a 33 reais brasileiros.

Troldhaugen
Na sexta-feira eu resolvi visitar o museu da antiga casa do compositor Edward Grieg em Troldhaugen, que fica fora de Bergen. Seguindo as instruções de um panfleto turístico, eu tomei o light rail no Byparken e desci na estação de Hop, fazendo o restante do percurso à pé, chegando a Troldhaugen pouco antes do meio dia. Depois de visitar as exibições e a casa do compositor, eu resolvi almoçar no restaurante do próprio museu a fim de assistir o concerto da uma da tarde. Logo que me acomodei numa das cadeiras arranjadas para o concerto descobri uma conhecida que também estava em Bergen acompanhando o marido. Notando que ela estava só, resolvi trocar de lugar e ir sentar ao lado dela. Christina e eu conversamos apenas alguns minutos pois logo o concerto teve início. Um jovem pianista sentou-se no piano que havia sido de Grieg e de sua esposa Nina, e tocou belíssimas músicas representativas de diferentes etapa da vida do compositor. Foi um concerto inesquecível.

Bergen de Novo
A volta a Bergen foi bem mais agradável, pois tive a companhia de Christina. Tendo chegando ao Byparken por volta das duas e trinta da tarde a minha próxima aventura turística foi a estação Floibanen Funicular, onde tomei o trem que sobe o monte Floyen, de 320 m de altura. Após uma jornada de uns 7 minutos cheguei ao Belvedere, de onde pude ver Bergen por inteiro, uma belíssima cidade. Terminado o passeio ao monte Floyen ainda tive tempo de visitar o Museu de Arqueologia, e ver as interessantes exibições sobre os os Vikings e outros antigos habitantes da região.
Ainda era cedo, quando retornei ao hotel para descansar um pouco e tomar um café. Lá chegando eu encontrei de novo com Christina e outras esposas. Depois de tomar café e comer qualquer coisa Christina e eu resolvemos ir a pé até a Universidade de Bergen e o Jardim Botânico, que pelo nosso mapa ficava bem próximo do nosso hotel. Encontramos o Jardim Botânico, bem como diversos prédios amplos e bem construídos da universidade. No Jardim Botânico encontramos uma estátua de Gerhard Armauer Hansen (1841-1912), médico e pesquisador norueguês, nascido em Bergen, que identificou o bacilo causador da lepra (Microbacterium leprae). Descobri posteriormemte que conjunto de prédios era apenas o campus de Haukerland, local das antigas faculdades, principalmente as das ciências da saúde, havendo outro campus noutro lugar da cidade. Fundada em 1946, a Universidade de Bergen foi e é uma das três principais universidades da Noruega, ao lado da Universidade de Oslo e da Universidade de Tromso.

Retornamos ao hotel por volta das seis da tarde. De noite eu e meu marido mais um grupo de colegas congressistas e seus cônjuges, incluindo Christina e seu marido, fomos jantar num dos restaurantes do prédio da antiga Bolsa de Valores de Bergen, já anteriormente mencionado.

Sábado foi o meu último dia em Bergen. Depois do café da manhã o meu marido acertou um check out mais tarde do hotel, para que eu pudesse repetir com ele o passeio a pé que havia feito na quarta feira. A manhã estava gelada mas ensolarada, e por sorte, nem um pingo de chuva. Retornamos ao hotel pouco antes da uma da tarde. Após fazer o check out, puxamos as nossas próprias malas descendo a Håkons Gaten e virando à esquerda na Olav Kyses gate, onde tomamos o ônibus coletivo para o aeroporto. No avião de volta à Inglaterra, fiquei pensando sobre quando é que teria outra oportunidade de voltar à esse interessante país.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

As Democracias da América Latina

Na primeira década do século XXI os peritos sobre a política da América Latina notaram a diversidade das suas democracias, a preferência do eleitorado de diversos países pela Esquerda e a tolerância ao autoritarismo dos governantes. Em 2004 o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, UNDP, publicou um relatório intitulado A Democracia na América Latina, analisando os enormes problemas da região no tocante ao funcionamento do processo democrático através do balanço de poderes. O objetivo deste relatório é servir de base para o debate crítico dentro de cada sociedade.

Uma publicação independente sobre o desenvolvimento humano em todo o mundo e que completou 21 anos em 2011, é o Índice de Desenvolvimento Humano (HDI) comissionado pela UNDP. O objetivo do HDI foi servir de alternativa ao sistema vigente de medir o desenvolvimento de cada país apenas pelo crescimento econômico, e para enfatizar que os critérios fundamentais de avaliação do desenvolvimento são as pessoas e suas capacidades. O HDI utiliza uma série de sub-relatórios temáticos dentre os quais está o da Governança Democrática, que analisa nove descritores da democracia: Sociedade Civil, Corrupção, Descentralização, Democracia, Governança, Direitos Humanos, Participação, Empoderamento Político e o Papel do Estado. O relatório de 2011 foi o mais completo de todos, incluindo um total de 187 países e territórios.

A organização Freedom House, que estuda a eficácia das democracias em termos de garantir liberdade, apontou a enorme diferença entre as democracias latino-americanas. Com o emprego de uma série de indicadores de práticas democráticas e liberdade a Freedom House avalia cada país e atribui uma nota de 1 a 7, onde 1 representa o nível mais alto de liberdade e democracia e 7 representa o nível mais baixo. A fim de facilitar a comparação entre países e permitir que cada país acompanhe a sua própria evolução democrática, quatro grupos de democracia e liberdade foram definidos com base nessa pontuação. Os países de Grupos 1 e 2 vêm em primeiro e segundo lugar, respectivamente, em termos de liberdade e democracia, enquanto que os países dos Grupos 3 e 4 vêm em terceiro e quarto lugares. Apenas quatro países da América Latina: Chile, Costa Rica, Uruguai e Panamá são classificados no Grupo 1, enquanto que o Grupos 2 inclui 6 países: Argentina, Brasil, República Dominicana, El Salvador, México e Peru. O Grupo 3 também inclui 6 países: Bolívia, Colômbia, Equador, Nicarágua, Paraguai e Guatemala. E o Grupo 4 que indica ditaduras repressivas inclui Cuba. O caso da Venezuela fica fora do esquema pois apesar de ter eleições para presidente a Venezuela esticou o conceito de democracia para além dos limites.

O Índice de Liberdade Econômica (IEF) calculado pela The Heritage Foundation, um think-tank baseado em Washington D.C., e patrocinado pelo jornal The Wall Street, é também um útil indicador do nível de democracia de um país. Até onde um Estado permite que os seus cidadãos trabalhem, produzam, consumam e invistam da maneira como querem? Essa é uma pergunta importante não só pelo fato da liberdade econômica estar positivamente ligada à valores sociais e econômicos mas também pelo fato de representar o direito de cada indivíduo de controlar o seu trabalho e a sua propriedade. Os principais fatores utilizados para calcular o Índice de Liberdade Econômica são: o Estado de Direito, as Limitações do Governo, a Eficácia Regulatória e os Mercados Abertos. O Índice de Liberdade Econômica de 2012, recentemente publicado cobre o período que vai da segunda metade de 2010 à primeira metade de 2011. Quanto maior for o IEF mais liberdade os cidadãos têm de abrir negócios e gerir o seu patrimônio.

 O Quadro 1 abaixo mostra os países e territórios da América do Sul, Central e Caribe o HDI, e os seus ranks mundiais de desenvolvimento humano (HDI), de produto interno bruto (PIB), o seu o Poder de Compra (PPP), Grupos de Liberdade & Democracia segundo o ranking da organização Freedom House e Índice de Liberdade Econômica (IEF).

Quadro 1. Ranking de HDI e PIB, Poder de Compra e Grupos de Liberdade Democracia (L&D) e Liberdade Econômica (IEF) dos países e territórios da América do Sul, Central e Caribe

Países Estado e Territórios HDI Rank (2011) PIB – Rank PPP – Poder de Compra – US$ Grupo de L & D  IEF2012 Administrador
Antiqua e Barbuda(GB) 60 66 18.200 - - Gov. Geral Dame Louise Lake-Tack
Argentina 45 68 17.700 Grupo 2 48,0 Pres. Cristina Fernández de Kirchner
Aruba - 58 21.800 - -  
Bahamas  - 42 31.400     Gov. Geral Arthur Hanna
Barbados 47 56 23.700   69,0 PM Freundel Stuart
Belize 98 123 8.400   61,9 PM Dean Barrow
Bermudas (Britânicas) - 4 69.900   -  
Bolívia 108 154 4.900 Grupo 3 50,2 Pres. Evo Morales
Brasil 84 101 11.900 Grupo 2 57,9 Pres. Dilma Rousseff
Chile 44 69 17.400 Grupo 1 78,3 Pres. Sebastián Piñera
Colômbia 55 108 10.400 Grupo 3 68,0 Juan Manuel Santos
Costa Rica 69 100 12.100 Grupo 1 68,0 Pres. Laura Chinchilla
Cuba 51 111 9.900 Grupo 4 28,3 Pres. Raúl Castro
Curacao - 83 15.000 - -  
Dominica 81 91 14.000 - 61,6 PM Roosevelt Skerrit
El Salvador 105 129 7.600 Grupo 2 68,7 Pres. Mauricio Funes
Equador 83 120 8.600 Grupo 3 48,3 Pres. Rafael Correa
Granada 67 90 14.100 - - PM Tilman Thomas
Guatemala 131 150 5.100 Grupo 3 60,9 Pres. Otto Pers Molina
Guiana 117 130 7.600 - 51,3 PM Sam Hinds
Guiana Francesa - - - - - -
Haiti 158 206 1.300 - 50,7 PM Laurent Lamothe
Honduras 121 159 4.400 - 58,7 Pre. Porfírio Lobo Sosa
Ilhas Cayman - 16 43.800 - -  
Ilhas Falkland - 8 55.400 - -  
Ilhas Virgens (Estados Unidos) - 87 14.500      
Ilhas Virgens (GB) - 26 38.500      
Jamaica 53 117 9.100   65,1 PM Portia Simpson-Miller
Martinica - - - - -  
Mauritius 50 81 15.100 - 77,0  
México 57 85 14.800 Grupo 2 65,3 Pres. Felipe CalderónPres.-elect  Enrique Peña Nieto
Nicarágua 129     Grupo 3 57,9 Pres. Daniel Otega
Panamá 58 88 14.300 Grupo 1 65,2 Pres. Ricardo Martinelli
Paraguai 107 147 5.500 Grupo 4 61,8 Pres. Federico Franco
Peru 80 110 10.200 Grupo 2 68,7 PM Juan Jiménez Mayor
Porto Rico - 72 16.300 - -  
República Dominicana 98 115 9.400 Grupo 2 60,2 Pres. Danilo Medina
Santa Lucia - 95 12.800 - 71,3  
Saint Vicente e Granadinas 85 103 11.600 - - PM Ralph Gonsalves
Suriname 104 112 9.600 - 52,6 Pres. Dési Bouterse
Trindade e Tobago 46 61 20.300   64,4 PM Kamla Persad-Biessessar
Uruguai 115 79 15.300 Grupo 1 69,9 Pres. José Mujica
Venezuela 73 96 12.700 Sem classif. 38,1 Hugo Chávez

Examinando o Quadro 1 acima podemos notar que os quatro países da América Latina que foram classificados no Grupo 1 de democracia e liberdade, Chile, Costa Rica, Uruguai e Panamá, também têm altos índices de liberdade econômica.

Embora na última década do século vinte o mundo assistiu o crescimento dos regimes democráticos em todo o mundo, na primeira década do século vinte e um diversos observadores constataram um retrocesso nas democracias de todo o mundo. Segundo a UNDP, 140 países do mundo afirmam ter regimes democráticos, mas apenas 82 têm uma democracia plena. A implantação de eleições é apenas o primeiro passo do processo democrático. Para se criar uma democracia plena é preciso que os poderes do Estado sejam bem equilibrados permitindo um sistema de contrapesos de poderes.

Causa dos Conflitos Políticos na América Latina

As tentativas de críticas construtivas aos processos democráticos quase sempre são malogradas pelo argumento capcioso de que a sugestão apontada é um modelo externo. Todas as civilizações e nações tomaram emprestado ideias e costumes umas das outras. A noção de cunho nacionalista de que é melhor começar um modelo político-econômico saído do nada ao invés de adaptar um já existente é tão contraproducente quanto reinventar a roda a cada novo uso encontrado para a mesma. Entretanto, os pais das jovens Repúblicas da América Latina importaram tanto o modelo americano quanto o modelo francês, introduzindo inadvertidamente, duas filosofias políticas incompatíveis.

A ambivalência das democracias nas jovens repúblicas americana e francesa, que se tornaram modelos das jovens repúblicas Latinas, só foi explicada ao público leigo no século vinte, num ensaio do filósofo britânico Bertrand Russell publicado em 1945, lamentando os dois campos dos reformadores: o dos seguidores de Jean Jacques Rousseau (1712-78) e o dos seguidores de John Locke (1632-1704). “No presente o maior seguidor de Rousseau é Hitler enquanto que Roosevelt e Churchill seguiam Locke” escreveu Russell. Nesse ensaio Russell define Rousseau como “o inventor da filosofia política das ditaduras pseudo-democráticas” e mostra a incompatibilidade entre a filosofia de Rousseau que inspirou a Revolução Francesa, e a filosofia de Locke, que inspirou a declaração da independência e a constituição americana. Russell acreditava na importância da filosofia para o público leigo, principalmente sobre virtudes intelectuais capazes de ajudar a resolver questões práticas como manter a objetividade mesmo quando confrontado com os apelos emocionais. “Se a população leiga fosse mais esclarecida essa ambivalência não teria levado tanto tempo para ser reconhecida”, ele completou.

Outro filósofo que também chegou à mesma conclusão foi Isaiah Berlin (1907-97). Numa palestra proferida em 1952, Freedom and its Betrayal: Jean Jaques Rousseau (A Liberdade e sua Traição: Jean Jaques Rousseau), Berlin sublinhou as diferenças fundamentais  entre as visões de democracia de Locke e Rousseau. Segundo Berlin a primeira diferença entre Locke e Rousseau é que Locke via a democracia como um meio para a liberdade enquanto que para Rousseau a democracia era um fim.  A segunda diferença tem a ver com o objetivo maior da democracia: para Locke era a liberdade, e para Rousseau, a igualdade. Essas duas diferenças mostram que o seu modelo de democracia de Rousseau era bem menos tolerante do que o modelo de Locke. Conforme explicou Berlin, Rousseau não admitia que dois indivíduos esclarecidos pudessem discordar um do outro, pois “se eu sou racional e iluminado e você discorda de mim, você é simplesmente irracional”.

Rousseau pode até ser reconhecido como um bom filósofo da educação mas como filósofo político ele deixou muito a desejar. O seu modelo de sociedade colocando os desígnios da maioria sempre em primeiro lugar permite que as liberdades civis sejam ignoradas. Locke foi o grande filósofo político do seu tempo, a quem Voltaire se referia como ‘Le Sage’ ou ‘O Sábio’. Foi o criador da tradição liberal, da sociedade respeitante dos direitos naturais dos indivíduos, e a Declaração de Independência dos Estados Unidos baseou-se largamente na sua obra.

Uma comparação entre a França e os Estados Unidos no período pós-revolucionário serve como indicação do conflito existente entre as filosofias políticas de Rousseau e Locke.  Na França pós-revolucionária certas ideias de Rousseau foram tomadas ao pé da letra o que levou ao Reino do Terror onde milhares foram presos e guilhotinados simplesmente por discordar da opinião da maioria. Logo após a independência dos Estados Unidos, havia uma profunda discórdia entre os Federalistas e os Anti-Federalistas, os primeiros sendo a favor e os segundos contra a formação de um governo central forte. Entretanto, as diferenças de opinião foram debatidas pela imprensa e ninguém foi condenado por ter uma opinião contrária à da maioria.

O pensador e historiador francês Alexis-Charles-Henri de Tocqueville (1805-59) visitou os Estados Unidos e a Inglaterra para conhecer melhor os seus regimes políticos. Tocqueville foi mandado para os Estados Unidos em 1931, juntamente com Gustave de Beaumont, a fim de estudar o sistema prisional norte-americano, mas lá chegando eles resolveu viajar pelo país a fim de examinar como a democracia norte-americana funcionava. Tocqueville publicou as suas impressões no livro De la démocrarie em Amérique (Sobre a Democracia na América), em dois volumes publicados em 1835 e 1840, onde fez um apanhado histórico dos eventos que levaram à democracia. Ao comparar os modelos das jovens democracias da França e dos Estados Unidos, Tocqueville reconheceu que este último era o que apresentava a maior igualdade, mesmo dando primazia a liberdade.

O Que Pensavam os Libertadores

A história mostra que os libertadores da América Hispânica assim como José Bonifácio de Andrada e Silva, o patrono da independência do Brasil, tiveram uma esmerada educação e que eles haviam tirado valiosas lições das novas Repúblicas da França e dos Estados Unidos. Sabemos que José Bonifácio assim como Sebastián Francisco de Miranda y Rodriguez, o herói precursor da independência da América Hispânica falavam o inglês e o francês e conheciam bem os dois sistemas da França e dos Estados Unidos. Entretanto, é possível que os libertadores propriamente ditos da América Hispânica não tenham tido uma visão suficiente para detectar os desacertos do modelo de democracia direta implantado na França, como o regime do terror dos primeiros anos da República e o totalitarismo de Napoleão Bonaparte. Há duas evidências que suportam isso. Em primeiro lugar é sabido que Simon Bolívar e outros libertadores tinham uma enorme admiração por Napoleão Bonaparte. Em segundo lugar, tanto os hispano-americanos quanto os brasileiros fizeram planos para libertar Bonaparte quando este se encontrava preso na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, e chegaram a cogitar oferecer-lhe o governo das províncias independentes.

Conclusão

Talvez o maior problema das democracias Latino-Americanas seja a deficiência educacional. Por exemplo, a noção errada de que a maioria eleitoral justifica arbitrariedades por parte do incumbente eleito. Muitos votam por indicações de terceiros ou por percepções, sem refletir sobre as consequências da sua escolha. Chefes de estado são eleitos e mantidos no poder mais pela emoção do que pela razão. Talvez a maior parte dos eleitores Latino-Americanos não saibam que a chamada ‘democracia direta’ não passa de uma tirania da maioria. Os autores do Relatório de Desenvolvimento Humano (HDI) comissionado pela UNDP apontaram que a evolução das democracias Latino-Americanos até o estado de democracia plena requer uma segunda evolução pessoal onde cada eleitor se transforme num cidadão consciente.

 

Notas

Sobre o indicador de liberdade e democracia da organização Freedom House:

http://copenhagenconsensus.com/Files/Filer/CC%20LAC/CCLAC%20SP/Democracy_Jones_SP_Final.pdf

Sobre o indicador de liberdade econômica da The Heritage House:

http://www.heritage.org/index/explore

UNDP (2004) La Democracia em América Latina.UNDP, New York. 246 p.

Joaquina Pires-O’Brien

Beccles, 21 de novembro de 2012

Revisor: Falta revisar

 

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Os Enganos do Marxismo. Meu Novo Blog

Apresentação do meu novo blog Os Enganos do Marxismo

A sociedade brasileira deixou na minha lembrança algumas obscuridades inquietadoras que eu resolvi tentar compreender à luz da distância física e do tempo. Uma dessas obscuridades tem a ver com o fracasso na comunicação com uma certa categoria de indivíduos que me pareciam refratários à troca de ideias. Talvez para diminuir o desassossego da omissão do refrator, eu havia assumido a culpa, atribuindo a falha de comunicação à própria inépcia.

No desenrolar do meu projeto de passar a limpo o passado, descobri que eu não era a única pessoa a se frustrar com o fracasso da comunicação com pessoas refratárias. Descobri que o filósofo Karl Raymond Popper (1902-94) havia experimentado algo parecido, quando disse: “Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere nos matar a ser convencido pelos nossos argumentos”. Popper atribuiu à doutrinação ideológica a barreira das pessoas à argumentação, e procurou mostrar que o Marxismo foi a ideologia que mais causou incompreensões, divisões e conflitos durante todo o século vinte. Segundo Popper, a desinclinação para ouvir argumentos e reavaliar posições faz parte da atitude do irracionalismo, o único problema realmente sério da humanidade.

Popper mostrou como Marx abusou da história para construir as suas falsas leis profetícias da sociedade perfeita. No tocante ao experimento do socialismo Marxista que se estendeu na União Soviética de 1917 até 1991, a própria história deu o parecer final:  “os 74 anos do período comunista foram um retrocesso à era da obscuridade e resultaram de um enorme erro cometido por dois terroristas chamados Lênin e Trotsky” Essa frase condensa a narrativa histórica do período comunista, conforme descrito pelos museus de história contemporânea da Rússia, de acordo com o relatório de uma viagem Rússia publicado em 2010 em Contemporary Review.

Tendo aceitado a explicação de Popper sobre o irracionalismo das pessoas refratárias, resolvi escrever este blog sobre os enganos do Marxismo e a herança negativa que o socialismo deixou e continua deixando na sociedade. Eu espero mostrar esses enganos através de curtos resumos críticos de fatos e temas selecionados. Embora muitos desses enganos tenham sido causados pela cegueira ideológica, outros tantos foram erros cometidos deliberadamente em nome de um objetivo. Como a revolução internacional dos trabalhadores era absolutamente necessária para acabar com o capitalismo que os oprimia, alguns milhares de vidas e um punhado de violações de direitos humanos pouco representavam em comparação como o grandioso objetivo final. Sem capitalismo e sem propriedade privada, tudo seria de todos; os vícios do ócio e do parasitismo social seriam extirpados por algum decreto do governo; cada qual contribuiria conforme as suas capacidades e receberia conforme as suas necessidades; e como todos os trabalhadores teriam a mesma remuneração, não haveria mais classes sociais. O Marxismo prometeu um paraíso na terra, mas resultou apenas em distopias.

No conjunto das histórias relatadas procurarei mostrar como é injusto comparar regimes políticos da sociedade real com idealizações da sociedade perfeita que o Marxismo prometeu. Nem a melhor democracia liberal, em que há igualdade perante a lei e na qual cada indivíduo é livre para tirar o melhor proveito de suas capacidades e oportunidades, –– com a ressalva de não interferir na liberdade dos outros de usufruir o mesmo direito –– , pode competir com a sociedade de prancheta do socialismo Marxista.

Comentários e críticas construtivas são bem-vindos.

Joaquina Pires-O’Brien

Beccles, 30 de outubro de 2012

 

Revisor: Elaine Meireles Evangelista

 

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O Conhecimento Pequeno é Coisa Perigosa

Alexander Pope (1688-1744), um dos maiores poetas britânicos do século XVIII, emprega a linguagem da poesia para a crítica, no seu poema An Essay on Criticism (Um Ensaio sobre a Crítica). Um dos objetos da crítica de Pope é o ‘conhecimento pequeno’, que ele taxa de ‘coisa perigosa’, explicando metaforicamente através da fonte de Pieria, a morada das musas das artes e das ciências descrita na mitologia grega. Segue-se a estrofe contendo a famosa citação mais a tradução:

‘A little learning is a dangerous thing;

Drink deep, or taste not the Pierian spring;

There shallow draughts intoxicate the brain,

And drinking largely sobers us again.’

A.Pope, 1711

‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa;

Beba do fundo, ou sequer prove da fonte Pieriana;

Pois os goles rasos intoxicam o cérebro,

E o beber farto nos torna sóbrios outra vez.’

A.Pope, 1711

Na estrofe acima Pope mostra que o conhecimento é como a Fonte de Pieria, podendo ser superficial ou profundo. Na vida, a prática de acumular informações soltas aqui e acolá equivale a beber apenas na parte rasa da fonte Pieriana pois leva apenas ao pequeno conhecimento. A construção de Pope tem ainda um paralelo no ditado popular ‘ouvir o galo cantar sem saber onde’ das pessoas que decidem e até julgam outras pessoas com informações insuficientes. O irracionalismo, que se caracteriza pelos julgamentos apressados, pressuposições erradas e opiniões impensadas, e que é a causa da maior parte das mesquinharias entre as pessoas, resulta do conhecimento pequeno. É por isso que Pope taxou o conhecimento pequeno de perigoso.

Somente podemos escapar do perigo do irracionalismo buscando um conhecimento mais profundo das coisas. Beber fartamente da fonte de Pieria significa treinar as nossas mentes através de boas leituras e conversações relevantes. O indivíduo que lê é em geral um cidadão melhor, pois sabe agir certo na hora certa e sabe conter o seu julgamento na ausência de provas ou de conhecimentos.Os que desejam buscar o conhecimento verdadeiro devem ir ao fundo do poço, pois as incursões superficiais, as águas rasas, trazem somente o conhecimento pequeno, que é ilusório e perigoso.

Há uma segunda mensagem subentendida na mesma estrofe, na asserção de que é impossível obter o conhecimento pleno já que o beber da fonte apenas devolve a sobriedade. Todos nós temos a liberdade de optar por beber do raso ou do fundo da fonte do conhecimento. Mesmo reconhecendo a impossibilidade do conhecimento pleno, a escolha do local certo da fonte do conhecimento já nos salva da embriaguez cerebral, deixando-nos sóbrios para enfrentar as angústias da existência e a adversidade.

Joaquina Pires-O’Brien

 Agradecimento: Carlos Pires, revisor

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