George Smith e a Explicação Caldeiana da Criação

Em 3 de dezembro de 1872, George Smith (1840-76), um jovem pesquisador do Museu Britânico, anunciou no congresso da Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres, a sua decifração da narrativa do dilúvio babilônico contida num tablete contendo inscrições em cuneiforme encontrado no sítio do antigo palácio de Assurbanipal. No auditório havia muitas pessoas distintas, incluindo Benjamim Disraeli, o Primeiro Ministro britânico, que era filho de judeus convertidos ao cristianismo. Na sua apresentação, Smith explicou que a narrativa do dilúvio fazia parte da lenda de Izdubar (mais tarde retraduzido como Gilgamesh) e que ele havia encontrado três versões da mesma narrativa, todas elas oriundas do mesmo sítio arqueológico. Falou também das crenças dos babilônios na alma, na vida depois da morte e no céu e inferno, informações recuperadas recentemente através de traduções de tabletes cuneiformes. Entretanto, a mensagem de Smith na Sociedade de Arqueologia Bíblica foi entendida apenas em parte pela audiência.

Como o tablete da narrativa do dilúvio babilônico traduzido por Smith era um fragmento, as lagunas do texto também apareceram na tradução que Smith apresentou em 1872. Entretanto, numa nova excavação na mesma estação arqueológica de Nínive, o fragmento correspondente foi encontrado em 1873, o que permitiu que Smith completasse a sua tradução.

George Smith publicou o resultado de suas pesquisas no livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação Caldeiana da Criação) (1876), que ele dedicou ao Sir Henry Rawlinson, o redescobridor do babilônio, seu amigo e mentor.

O Palácio de Sargão II em SarDur-Sharrukin (atual Khorsabad, Iraque)

Conforme já visto numa postagem anterior, quando o arqueólogo Paul Émile Botta (1802-1870) descobriu o palácio do rei Assírio Sargão II(1) na antiga cidade de Forte Sargão (Dur Sharrukin, próxima da atual Khorsabad), em 1843, ele julgou que havia descoberto Nínive. Como foi que Bota se enganou? Uma resposta provável é que ele teria confundido o acervo de tabletes cuneiformes de Sargão II, com a biblioteca de Nínive.

Segundo os historiadores, bem antes de Assurbanibal criar a biblioteca de Nínive, Sargão II ordenou que os textos religiosos, científicos e da magia da cultura suméria-acadiana fossem fossem colecionados, organizados, e copiados em tabletes, com suas respectivas traduções. O acervo resultante incluia três livros sobre religião em duzentos tabletes e cerca de setenta tabletes sobre astrologia. Sargão II é também creditado com a introdução do hábito de sincronizar eventos uns com outros, o que conferiu maior credibilidade às datas das inscrições.

Uma boa parte do acervo de Sargão II veio de uma coleção de escritos religiosos em cuneiforme que foram preservados numa morada de sacerdotes em Uruch. O grande destaque da biblioteca de Uruch era o conjunto das recitações teológicas sumérias-acadianas e os hinos e as orações do segundo período, compostos numa época quando a influência religiosa era mais elevada. Outro destaque dessa coleção são os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas às humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita, que segundo os historiadores, são extremamente parecidos com os salmos de David da Bíblia hebraica.

Nota
É preciso tomar cuidado para não confundir Sargão II, que reinou na Assíria de 705 a 681 a.C., com Sargão I, que também reinou na Assíria mas cerca de 1800 anos antes, este último sendo o objeto da conhecida lenda babilônica.

O Épico Gilgamesh e a Lenda de Sargão

O épico Gilgamesh (inicialmente traduzido como Izdubar) e outras narrativas babilônicas como a lenda de Sargão (veja abaixo), já eram conhecidos dos estudiosos através das citações de três livros de Beroso, um estudioso caldeu que deixou a Babilônia e foi morar na ilha de Cos, na Ásia Menor por volta de 240 a.C. Entretanto, a decifração do babilônio por volta de 1850 permitiu a recuperação de fontes diretas da literatura assíria/babilônica escritas em cuneiforme.

Considerado o primeiro épico da história da humanidade, o Gilgamesh conta as aventuras do rei Gilgamesh e de seu amigo Ba-bani, e também descreve algumas lendas da Babilônia como a do dilúvio babilônico. Esta última foi reconhecida pela primeira vez num fragmento contendo inscrições cuneiformes do acervo do Museu Britânico, que foi traduzido em 1872 por George Smith, um jovem curador que lá trabalhava. No seu livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação do Gênese dos Caldeus) publicado em 1876, Smith explicou a proveniência do tablete do dilúvio e como ele efetuou a sua tradução. Em janeiro de 2014, Irving Finkel, também do Museu Britânico, publicou o livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio), onde descreve um outro tablete do dilúvio que difere daquele descrito por Smith pelo fato de dar os pormenores de como a arca deveria ser construída (Veja a minha resenha do livro de Finkel na atual edição (no 9) da revista PortVitoria, dedicada à diáspora falante de português e espanhol: http://www.portvitoria.com/BookReviewJPO.html).

Na década em que Smith traduziu o tablete do dilúvio babilônico e publicou o livro acima mencionado, os temas mais comuns debatidos pelos estudiosos eram a teoria evolutiva de Charles Darwin e a implicação desta sobre as narrativas da Bíblia. Tais debates foram acirrados pela constatação da enorme semelhança entre a narrativa do dilúvio babilônico e a narrativa do dilúvio na Bíblia hebraica.

Outro texto babilônico que parece ter sido incorporado na narrativa sobre Moisés da Bíblia hebraica é a narrativa da lenda de Sargão (também conhecido como Sharrukin ou Sargina), um rei da Acádia (ou Agadê). De acordo com a lenda babilônica, Sargão, que foi o rei da Acádia por volta do ano 1600 a.C., não conheceu os seus pais biológicos. Quando bebê ele foi colocado por sua mãe, uma princesa real, num cesto impermeabilizado que ela colocou no rio Eufrates. O cesto foi encontrado pelo irrigador Akki, que o criou como filho. A versão abaixo mostrada, considerada uma das mais importantes, é citada no livro Chaldean Account of Genesis de George Smith (1876).

Legend of Sargon
Sargon, the powerful king, King of Akkad am I.
My mother was a princess, my father I did not know, a brother of my father ruled over the country.
In the city of Azupiranu which by the side of the river Euphrates is situated
my mother the princess conceived me; in difficulty she brought me forth;
She placed me in an ark of rushes; with bitumen my exit she sealed up.
She launched me on the river which did not drown me.
The river carried me, to Akki, the water carrier it brought me.
Akki, the water carrier in tenderness of bowels lifted me;
Akki, the water carrier as his husbandman placed me,
45 ? years the kingdom I have ruled,
The people of the dark races I governed,
…… over rugged countries with chariots of bronze I rode,
I govern the upper countries,
I rule ? over the chiefs of the lower countries,
To the sea coast three times I advanced, Dilmun submitted,
Durankigal bowed, &c. &c.

O épico Gilgamesh e a lenda de Sargão não são os únicos textos babilônicos que parecem ter sido aproveitados na Bíblia. Os salmos de David também foram apontados por alguns historiadores como sendo extremamente parecidos com os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas da Babilônia sobre as humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita. Segundo os historiadores, os tabletes contendo os ‘Salmos de Penitência’ foram preservados inicialmente numa morada de sacerdotes em Uruch, e mais tarde adquiridos por Sargão II.

A Bíblia hebraica não é a única obra que aproveitou as narrativas da literatura babilônica. Tais narrativas também aparecem na Ilíada e na Odisséia de Homero bem como nos Contos das Mil e Uma Noites compilados em árabe durante a Idade Dourada do Islão.

A Redescoberta do Babilônio

O babilônio, a língua acádia, foi redescoberto por volta de 1850 por Sir Henry Rawlinson (1810-1895), um oficial do exército britânico que era proficiente na língua persa. Quando em 1835 Rawlinson foi mandado para a Pérsia para ajudar a treinar as tropas do Xá, lá ele encontrou, num monte de Behistun, um conjunto de inscrições em três línguas: persa antigo, babilônio e elamita, feitas a mando do Rei Dario da Persia (522-486 a.C.). Rawlinson reconheceu logo que as inscrições de Behistun tinham a mesma importância para a decifração do babilônio do que a Pedra de Rosetta(1) teve para a decifração dos hieróglifos egípcios em 1822. Após ter traduzido o trecho em persa, Rawlinson começou a decifrar o babilônio e o elamita mas devido a problemas diplomáticos entre a corte iraniana e o governo britânico ele precisou retornar à Inglaterra. Antes de partir, Rawlinson conseguiu fazer uma impressão em relevo das inscrições de Behistun, e assim continuar o trabalho.

No fim de 1843 Rawlinson foi transferido para Bagdad, de onde ele fez algumas visitas ao seu amigo arqueólogo Austen Henry Layard, que se encontrava escavando em Quyunjik, perto de Mossul. Através desse contato, Rawlinson teve acesso ao acervo de tabletes de inscrições cuneiformes que foram descobertos em Quyunjik. No outono de 1846, já tendo conseguido entender muitas das inscrições em cuneiforme que encontrou, ele publicou um trabalho sobre a decifração da escrita cuneiforme. Ao retornar à Inglaterra ele passou a dedicar-se exclusivamente à tradução de textos cuneiformes.

Nota. A Pedra de Rosetta contém a mesma inscrição em hieróglifo, demótico (escrito cursivo derivado do hierático e que serviu de base para o cóptico – a língua egípcia), e grego antigo, o qual os linguistas conseguiam entender. O conteúdo da Pedra de Rosetta é um decreto datado de 196 a.C. celebrando o reinado de Ptolomeu V. A decifração dos hieróglifos nela contidos foi completada por Jean Champollion em 1822.

O Desagravo a Beroso

Em torno de 240 a.C., quando as cidades independentes da Grécia formaram a segunda Liga Aqueana (κοινὸν τῶν Ἀχαιῶν) e Roma lutava contra Cartago, o babilônio antigo já era uma língua morta embora ainda reconhecida. Foi nessa época que Beroso, um sacerdote caldeu do templo de Baal na Babilônia mudou-se para a ilha de Cos, na Ásia Menor (atual Turkia) onde escreveu uma trilogia em grego sobre a cultura da Babilônia, que ele dedicou a Antióquio I (c. 324–261 a.C.), monarca do reino seleucida(1) da Síria, que reinou entre 292 e 281 a.C., no leste, e de 281 a 261 em todo o país.

No seu primeiro livro, Beroso descreveu a terra da Babilônia, cuja civilização foi levada para lpa pela divindade Oannes, que era metade homem e metade peixe, bem como por outras divindades, incluindo ainda a lenda da criação e a sua versão da astrologia caldeia. Nesse livro, Beroso cita diversos trechos da ‘cosmogonia’ babilônica, a narrariva da criação do mundo, cujo autor seria a própria divindade Oannes. O segundo e o terceiro livros fornecem uma cronologia da história da Babilônia e da sucedânea Assíria, que começa com ‘os dez reis anteriores ao dilúvio’, passando à narrativa do dilúvio e a restauração da monarquia, com uma longa série de monarcas que reinaram ‘depois do dilúvio’, as ‘cinco dinastias’, finalmente a história mais recente dos assírios, o último reino da Babilônia, a invasão persa e a conquista de Alexandre o Grande. Mais uma vez podemos perceber os paralelos com a Bíblia hebraica na cosmogonia, no dilúvio e na preocupação com a linhagem dos reis.

Beroso ganhou o respeito dos estudiosos da Ásia Menor e da Grécia. Pensa-se que ele passou também um período em Atenas, onde uma estátua de cobre foi feita em sua homenagem. Apenas fragmentos da obra de Beroso sobreviveram. Todo o conhecimento sobre Beroso é indireto, e através das citações de Eusébio de Cesária, Flávio Josefo e Syncellus. Graças à essas citações, a literatura e a mitologia da antiga Babilônia, incluíndo a Assíria e a Caldéia, chegaram até o mundo clássico.

Infelizmente, o tempo passado não mais permite estabelecer como foi que todas as cópias dos três livros de Beroso desapareceram. Entretanto, a cosmogonia babilônica que Beroso explicou nos seus livos e cujo exemplo mais bem conhecido é a narrativa do dilúvio babilônico, certamente comprometia a pretenção da Bíblia dos hebreus de ser um livro de autoria ou de inspiração divina, sendo um motivo para uma presumível sabotagem. E se foi esse o caso, Beroso foi vindicado pelas traduções dos textos em cuneiforme sobre a Babilônia, que confirmaram o que ele havia narrou em grego há mais de vinte séculos.

Nota
1 Seleucida. Palavra derivada de Seleucus, um dos generais de Alexandre o Magno, que após a morte deste em junho de 323 a.C., tornou-se rei das províncias leste do império alexandrino, sendo as principais a Síria e a Mesopotâmia. A Síria Seleucida incluia, além do Iraque e a Síria, o Afaganistão, o Irã e o Líbano, mais partes da Turquia, Armênia, Turcumenistão, Uzbekistão, e Tajikistão. O reino de Seleucus tinha duas capitais, ambas fundadas around 300 a.C.: Antióquia na Síria e Selêucia na Mesopotâmia.

A Redescoberta de Nínive

Nínive ou Nimrod, a segunda capital da Caldéia, fundada em 2250 a.C. e destruída em 612 a.C., foi redescoberta em 1849 pelos arqueólogos Austin Henry Layard (1817-94) e Hormuzd Rassam (1826-1910) que entre 1847 a 1851 conduziram escavações em Quyunjik, localidade nas margens do rioTigre oposta à cidade de Mosul – a mesma que atualmente se encontra refém dos terroristas do Isis.

Quyunjik havia sido recentemente escavada por Paul Émile Botta (1802-1870), cônsul francês junto ao antigo Império Turco-Otomano, atual Iraque, que embora fosse formado em medicina, tinha uma grande paixão pela arqueologia e pela história. Entretanto, Botta falhou em descobrir Nínive por ter decidido parar com os trabalhos em Quyunjik para ir escavar em Khorsabad. Ao invés de Nínive, Botta descobriu o palácio de Sargão II na antiga cidade de Dur Sharrukin, com suas famosas figuras aladas, seus relevos e inscrições em babilônio cuneiforme, que ele pensou tratar-se de Nínive.

A notícia de que Botta havia descoberto Nínive, mesmo não sendo verdadeira, atraiu Layard e seu associado Rassam, que resolveram escavar em Quyunjik, onde em 1849, eles encontraram o palácio construído por Sennacherib, o avô de Assurbanipal, e em 1853, Rassan descobriu sozinho o palácio de Assurbanipal (c. 669-663 a.C.) e a bibioteca de Nínive que este havia construído para preservar a história da Caldéia e da antiga civilização Suméria-Acadiana.

Cerca de cem mil tabletes e fragmentos de barro contendo inscrições em babilônio cuneiforme oriundos das escavações de Layard e Rassam foram remetidas para o Museu Britânico. Tal acervo foi logo colocado à disposição dos especialistas, que aos poucos começaram a traduzir os registros e a literatura da Babilônia.

A Preocupação Sobre Mosul

A ocupação de Mosul pelo grupo insurgente Isis (Estado Islâmico do Iraque e Grande Síria), no Iraque, tem sido o tema de diversos artigos e postagens de blog por indivíduos de todo o mundo preocupados com a destruição do patrimônio histórico da cidade. Localizada a cerca de 400 Km de Bagdad, Mosul ou al-Mawṣil, fica na margem ocidental do rio Tigre e é a capital da Província de Nínive, cujo nome é uma homenagem à antiga cidade de Nínive, fundada em 2250 a.C. e destruída em 612 a.C., e cujas ruínas localizam-se em frente à Mosul, no outro lado do rio Tigre.

A Mosul moderna expandiu-se para o outro lado do Tigre, abarcando assim as ruínas da antiga Nínive que incluem a famosa biblioteca de Assurbanipal. Mosul possui uma Universidade e um Museu de enorme importância. Ambos são conhecidos pela tradição de trabalhos colaborativos com equipes de arqueólogos de diversas partes do mundo. A população de Mosul é formada por uma maioria árabe e minorias diversas, sendo as mais importantes os assírios, os iraquianos de origiem turca e os kurdos. Normalmente a diversidade étnica é um fator positivo no sentido de favorecer a paz e a convivência em harmonia. Entretanto, o que as recentes imagens de Mosul têm mostrado são os horrores da guerra. Dentre as muitas perguntas levantadas sobre Mosul e a paz no Iraque e na Síria, duas que se destacam são: até onde? até quando?

O Surgimento do Alfabeto

A Pictografia e a Escrita Cuneiforme
A invenção da escrita há cerca de cinco mil anos, marcou o início da história propriamente dita. A escrita primitiva era feita através de desenhos e surgiu em torno de 3300 a.C. na Mesopotâmia. O alfabeto foi inventado bem mais tarde, em torno do ano 1400 a.C. na Fenícia, país situado na região do Crescente Fértil, ao norte da antiga Canaã, atual costa do Líbano e província de Tartus na Síria.

A primeira forma sistematizada de comunicação gráfica através de sinais é designada pictografia. Entretanto, diversas civilizações do novo mundo, como a dos maias, também desenvolveram a escrita pictográfica. Os hieróglifos egípcios, hititas e cretenses são uma forma de pictografia. A primeira escrita própria, onde os símbolos representavam sílabas, foi a escrita cuneiforme, desenvolvida em Uruk (Erech, na bíblia), na Suméria. A escrita cuneiforme de Uruk foi logo adotada no reino da Acádia, onde sofreu algumas modificações pelos elamitas, huritas, hititas, urartianos e diversos outros povos. No ano 1400 a.C. a escrita cuneiforme era a escrita padrão do comércio internacional ocidental.

O Primeiro Alfabeto
Os fenícios(1), que também são conhecidos como cananitas do norte ou amoritas, são creditados com a invenção do alfabeto e com o aperfeiçoamento da arte naval. O alfabeto, definido como sendo um conjunto de sinais ou caracteres gráficos associados a sons, surgiu em Ugarit em torno do ano 1400 a.C. Adaptado dos sinais da escrita cuneiforme, o alfabeto de Ugarit consistia de 30 letras e era destituído de vogais. Em função do seu emprego na contabilidade do comércio naval, o alfabeto foi aperfeiçoado em Biblos, passando a ter 22 letras.

Até 1400 a.C. os fenícios dividiram com o Império Minoano, da Ilha de Creta, o domínio do comércio naval. Em torno de 1400 a.C. o império Minoano foi destruído por uma erupção vulcânica, e após esse acontecimento os fenícios ganharam a hegemonia sobre o comércio naval. A escrita encontrada pelos arqueólogos em Creta é hoje reconhecida como sendo derivada do alfabeto fenício original (2). De fato, o alfabeto fenício serviu de base para os primeiros alfabetos hebraico, sírio, arábico e grego, que inicialmente eram também desprovidos de vogais. O fato do grego arcaico ser escrito da direita para a esquerda, também corrobora a sua origem a partir do alfabeto fenício.

Os fenícios exploraram o Mediterrâneo e além, criaram colônias no norte da África (Cartago) e na Península Ibérica, e iniciaram as primeiras caravanas mercantes para a Ásia. Entretanto, eles não eram originalmente um povo do mar, mas aprenderam a navegar com outros povos. Donos de um espírito altamente empreendedor, os fenícios tomaram emprestado os modelos de barcos cretenses e egípcios e aperfeiçoaram-nos. Foram eles que desenvolveram navios de cascos redondos, que resistiam melhor os desafios do mar. A focalização extrema no comércio fez com que os fenícios negligenciassem a organização de um Estado político capaz de proteger as suas cidades livres como Biblos, Tiro e Sidônia, bem como as suas colônias na costa africana e na Península Ibérica, contra os inimigos invasores.

Biblos foi uma das cidades fenícias mais importantes, habitada desde o início do Neolítico e associada às lendas homéricas. Biblos tinha o maior dos portos e era o principal receptador do papiro egípcio, do qual ganhou o nome. Tira, na Síria atual, foi fundada no início do terceiro milênio a.C. era a mais rica da Fenícia, devido ao número de colônias que mantinha e à indústria têxtil. Sidônia, no Líbano atual, localizava-se num local habitado desde o segundo milênio a.C., tinha uma indústria de vidro e era um importante porto pesqueiro. O zênite da civilização fenícia ocorreu no sétimo século a.C., após o qual começou a declinar. A falta de união entre suas diversas cidades independentes não permitiu que organizasse uma boa defesa contra os ataques de outros povos.

O alfabeto representou um salto na escrita cuneiforme desenvolvida na Babilônia no final do 4º milênio a.C., por sua vez considerada um avanço em relação à escrita pictográfica. Apesar de terem inventado o alfabeto, os fenícios não se preocuparam em deixar uma história gravada para a posteridade. A sua historiografia foi totalmente recriada através de evidências indiretas. Através da evidência linguística, sabemos que os fenícios tinham uma deusa da guerra, Astarte, cujo nome lembra a ‘Ishtar’ dos mesopotâmios, e da qual também deriva o nome da deusa cananita ‘Anat’, conhecida como ‘Senhora’, sendo venerada em Tiro, Sidônia e Cartago.

Notas
1 Segundo a narrativa da Bíblia a impiedade dos amoritas (cananitas do norte), que eram também povos semíticos, foram a causa da punição divina aos israelitas (cananitas) tornando-os cativos no Egito.

2 Depois que o arqueólogo inglês Arthur Evans identificou as três escritas – linear A, linear B e hieroglífica – do antigo império Minoano da ilha de Creta, Evans e seus seguidores pensaram que se tratavam de uma escrita original, da qual o grego teria se originado. No antigo palácio da cidade de Knossos, descoberto em 1900, os arqueólogos recolheram cerca de 3000 tabletes de barro, a maior parte em escrita em linear B e com um conteúdo estritamente comercial. Entretanto, mais tarde foi reconhecido que a escrita linear B era uma forma do grego e que havia surgido em torno de 1450 a.C. Evans cometeu o mesmo engano na sua análise da escrita encontrada no Chipre, datada de 800-200 a.C., afirmando que se tratava de uma escrita derivada da linear B minuana. Entretanto, a decifração da escrita cipriota já havia sido feita em 1871, devido a diversas amostras de textos bilíngues em cipriota e grego. O grande problema que os linguistas tiveram foi reconhecer que a escrita cipriotas não era baseada num alfabeto mas sim em símbolos de sons. Uma vez reconhecido isso os peritos concluirão que a escrita cipriota era um dialeto do grego.
Outra escrita alfabética que foi incorretamente interpretada como tendo origem independente foi a dos etruscos, moradores da antiga Etrúria, atualmente a Toscana italiana. Eventualmente os especialistas reconheceram que a escrita etrusca havia também se originado do grego, tendo sido levada para a Etrúria pelos colonizadores gregos que foram para a Itália em torno de 750 a.C. Acredita-se que os etruscos também tiveram contato com o fenício, pois o seu registro arqueológico inclui inscrições bilíngues em etrusco e fenício.

Impressões da Islândia

O aeroporto fica em Keflavik, numa península sudoeste. Embora situado a uns 50 Km de Reiquiavique, é bem servido pelo transporte público. Logo na saída do aeroporto há um ponto de ônibuses. Chegando ao terminal central em Reiquiavique os passageiros que desejarem podem tomar mini-ônibuses até os diversos hotéis da cidade. O percurso inicia com uma paisagem natural formada pelos típicos campos de lava colonizados por musgos e plantas rasteiras e termina com uma parte urbana formada por várias cidades concatenadas e que fazem parte da Grande Reiquiavique. No hotel Marina onde nos hospedamos todos os funcionários falavam inglês fluente. Feito o checkin e tendo arranjado as nossas coisas no apartamento, e por volta das cinco e trinta da tarde saímos para explorar Reiquiavique pela primeira vez. Pedimos direções e seguimos a pé até o comércio, onde a maior parte das lojas ainda estavam abertas. E nos próximos sete dias, eu explorei sozinha Reiquiavique, participando de duas excursões turísticas, uma na cidade (Reykjavik Grand Excursion) e outra fora (The Golden Circle).

A primeira excursão é um passeio de três horas que cobre todas as atrações turísticas da cidade de Reiquiavique mais as zonas residenciais da periferia até uma vila de pescadores na costa. Reiquiavique (Figura 1) é uma cidade relativamente nova que cresceu ao redor do local onde em 871 d.C., Ingólfur Arnason, um fugitivo norueguês, assentou-se com sua família, denominando-o Reykjavi, que significa ‘baía de fumaça’, devido à grande quantidade de poços térmicos do local que liberam vapor d’água. Quando Reiquiavique ganhou status de cidade, em 1786, a sua população era de apenas 300 habitantes. O crescimento populacional de Reiquiavique ocorreu lentamente até 1940, quando tinha 38 mil habitantes. A atual população atual de Reiquiavique é de 120 mil habitantes. A população de toda a Islândia é de cerca de 322 mil habitantes, sendo que três quartos ficam na Grande Reiquiavique, atualmente com uma população de 200 mil.

View of Reykjavik from PerlanBuikding in Reykjavik's old harbourP1200370
Fotos: 1. Panorama de Reiquiavique; 2. Porto e Centro de Convenções; 3. Lago da Prefeitura.

Em termos de arquitetura o ponto mais relevante da cidade de Reiquiavique é a imponente igreja Hallgrímskirkja, a qual pode ser vista de quase toda a cidade, projetada pelo famoso arquiteto Guöjón Samuélsson. Em frente à ela há uma enorme estátua de Leifur Ericsson, o viking que descobriu a América cerca de 500 anos antes de Cristóvão Colombo. Outro marco da arquitetura de Reiquiavique é o Centro Harpa de Concertos e Convenções, um maravilhoso prédio de vidro com colunas que representam as formações de basalto típicas da geologia islândica projetado por Olafur Elason. Em 2013 o Harpa ganhou o prêmio Mises van der Roche de arquitetura europeia.
Outra parte interessante de Reiquiavique é o antigo porto. Lá pode-se caminhar por quase todas as marinas, observar as embarcações, as montanhas e a própria cidade. E em toda a orla há calçadas lugar para pedestres e ciclovias.

As Piscinas Termais
As piscinas termais assim como os spas termais fazem parte da cultura islândica. Em Reiquiavique há seis piscinas termais públicas, a maioria ao ar livre. Elas servem ao ensino da natação nas escolas e à população em geral, e as pessoas as utilizam durante todo o ano. Embora chovesse e ventasse no dia que fui experimentar uma dessas piscinas termais que ficava mais próxima do nosso hotel, tive uma experiência agradabilíssima. A temperatura da água não era uniforme, havendo pequenas correntes mais quentes. Entretanto, assim que saí da piscina fui direto aos chuveiros e vestiário, pois o medo do frio não me deixou percorrer os cem metros de distância até a zona dos spas e da sauna.

O Círculo Dourado (The Golden Circle)
A segunda excursão (Golden Circle) que fiz foi de um dia todo e consistiu de três regiões de interesse, O Parque Nacional de Tingvellir é o local onde é possível visualizar, através de riftes e faltas geológicas o Parque Nacional de Tingvellir, as cataratas Gullfoss e os gêiseres Geysir, as placas continentais Norte-americana e Euroasiática, que se estendem numa linha enviesada dupla que vai do sudeste ao noroeste da Islândia. Esse também é o local do primeiro parlamento islandês criado a partir de 930 d.C., quando os líderes (chieftains) de cada grupo de agricultores se reuniam uma vez por ano e realizavam seções formais do Conselho da Lei (Lögrétta) presidido pelo porta-voz da Lei (Lögsögumadur), numa época em que não havia realeza ou nenhum poder central voltado a manter a paz. Nos conselhos anuais, decisões eram tomadas, crimes eram julgados e os condenados executados. As cataratas Gullfoss são duas, uma rio acima de 11 metros e altura, e outra mais abaixo de 21 metros de altura, sendo que a rocha do leito do rio foi formada durante um período interglacial. Ao sudoeste dessas cataratas fica o Geysir, uma área geotérmica repleta de nascentes e gêiseres. Embora o potencial de de energia hidrelétrica ainda esteja em estudo na Islândia, lá as fontes geotérmicas vêm sendo muito bem aproveitadas.

Estação Termoelétrica de Hellisheidi
Uma parada final extra dessa excursão foi para visitar a Estação Termoelétrica de Hellisheidi (ou Hellisheidarvirkjun), a maior das cinco da Islândia, que fornece energia para a Grande Reiquiavique. A termoelétrica de Hellisheidi cresceu enormemente desde que começou em 2006 com duas turbinas de 55 Megawatts de alta pressão. A sua produção atual é de até 400 Megawatts de energia térmica e 303 Megawatts de eletricidade.

Sobre a Geografia e da História da Islândia
A Islândia é a maior das ilhas vulcânicas da cumeeira do Médio Atlântico, onde as plataformas continentais americana e eurasiana se tocam. Essa peculiaridade geológica explica a enorme atividade térmica na ilha, que inclui cerca de 200 vulcões, gêiseres e fontes térmicas. A atividade dos vulcões é acompanhada pelos especialistas que conhecem bem quais os que estão para entrar em atividade. Em 2010 Em 2011 o vulcão Grimsvotn acordou e obrigou o fechamento temporário do aeroporto internacional da Islândia, e no ano anterior, em 2010, uma erupção de médio porte no vulcão Eyjafjallajökull‎ lançou tal quantidade de cinzas na atmosfera que diversos aeroportos em toda a Europa tiveram que fechar. Mas o fogo dos vulcões é apenas um dos elementos da geografia islândica. Outro elemento importante é o gelo. Devido à proximidade com o Ártico a Islândia tem também muitas glaciais e capas de gelo. A atividade térmica às vezes derrete o gelo das glaciais e das capas de gelo, fazendo com que os rios e lagos transbordem e causem inundações.

A Islândia assim como a Groenlândia e algumas ilhas que atualmente pertencem à Escócia foram colonizadas por povos viking, piratas originários da Escandinávia que entre 793 e 1066 costumavam atacar e pilhar a costa da Grã Bretanha e do reino dos francos. A Islândia era desabitada quando Ingólfur Arnarson, seu primeiro colonizador ali se estabeleceu. O nome Islândia, que quer dizer ‘Terra de Gelo’ foi dado por um predecessor dele após ter amargado um rigoroso primeiro inverno que matou todos os animais domésticos que havia trazido. A maioria dos primeiros colonizadores da Islândia veio da costa oeste da Noruega, mas houve diversos que eram de colônias viking nas Ilhas Britânicas. Mas a etnicidade islandesa é também formada pelo elemento celta, pois diversas esposas dos primeiros colonizadores eram irlandesas.

A língua falada na Islândia é o islandês, também conhecido como o velho nórdico, que era falado em toda a Escandinávia, Groenlândia e nas ilhas britânicas Orkneys, Sheatlands e Faröe ou Faroé. Muitas palavras do velho nórdico foram levadas pelos vikings dinamarqueses e noruegueses que costumavam ir à Grã-Bretanha fazer pilhagem, o que faz do inglês uma língua não só anglo-saxã mas também velho nórdica. Conforme uma pesquisa da Dra. Sara Pons-Sanz, linguista da Faculdade de Estudos Ingleses da Universidade de Nottingham, muitas palavras no inglês vieram do velho nórdico, como aquelas relacionadas na Tabela 1.

INGLÊS     VELHO NÓRDICO SIGNIFICADO
  anger   angr   raiva, agonia
  bloom   blóm   floração
  gale   gaile   vento frio
  happiness   happ   sorte
  house   hús   casa
  husband   hús + bóndi   casa + dono da casa
  ill   illr   doente
  kid   kip   filhote de bode
 law   lag   lei
  leg   legge   perna
  norse   noordsch   homem do norte
  ransack   rann-saka   dar busca numa casa (para fazer pilhagem)
  skaughter   sláter   carne de abatedouro
  sky   skie   nuvem
  window   vindayfa   olho de vento
  wing   vengr   asa
  wrong   rangr   injusto

Tabela 1. Exemplos da contribuição do velho nórdico ao inglês

Copiando o costume da Escandinávia, os islandeses organizaram um parlamento (lpingi) representativo da confederação (commonwealth) das quatro jurisdições islandesas, com líderes (godords) representantes de cada região que reunia-se em junho de todos os anos em Alpingi, Pingvellir. Nessa ocasião julgamentos eram feitos e execuções eram levadas a cabo. O encontro de junho também servia para colocar em dia as novidades de cada jurisdição e para a procurar de cônjuges.

Os primeiros islandeses davam muita importância à sua história, e procuraram preservá-la na memória oral e nas sagas compiladas nos séculos treze e quatorze. Esse acervo foi preservado graças aos esforços de Arni Magnússon, um colecionador de manuscritos nascido em 13 de novembro de 1663 em Kvennabrekka, no oeste da Islândia. Embora parte da coleção de Magnússon tenha se perdido no incêndio de Copenhagen de 1728, a maior parte dos manuscritos em pergaminho foi salva.

Em torno do ano 1000 a Islândia se converteu ao Cristianismo após uma decisão de ordem prática de Thorgeir Thorkelsson, o porta-voz da lei. A confederação da Islândia começou a se desmoronar e em 1220 as lideranças começaram a fazer planos para que a coroa da Noruega assumisse o governo do país. O processo de subjugação ao reino da Noruega foi atribulado por conflitos e concluiu-se em 1258 quando Gisssur Porvaldson tornou-se o conde da Islândia, a serviço do rei da Noruega. Durante o domínio norueguês, a capital da Islândia era Bergen, então a capital da Noruega. Em 1319 o reino da Noruega se uniu ao reino da Suécia, e a Islândia ficou sob as duas coroas. Em 1380 o reino da Noruega se juntou ao reino da Dinamarca, e nos próximos três séculos a Islândia passou a ser um protetorado da Dinamarca. Nesse período a Islândia sofreu com diversas erupções vulcânicas e com a arbitrariedade do governo da matriz.

Em 1814 a Suécia invadiu a Dinamarca e o tratado de Kiel resultante fez com que a Suécia saísse do domínio da Dinamarca e ganhasse a Noruega, e em contrapartida a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre a Islândia, a Groenlândia e as Ilhas Faröe. Na Islândia, movimentos de independência surgiram em 1841 e em consequência dos mesmos a Dinamarca fez algumas concessões como a abertura dos portos da Islândia. No final do século a Islândia havia ganho o controle sobre o seu comércio exterior e em 1903 ganhou sua primeira constituição. Em 1918 a Islândia virou uma região autônoma mas ainda ligada à Dinamarca. Em 16 de Junho de 1944 a união com a Dinamarca terminou e a partir do dia 17 de Junho a Islândia passou a ser uma república.

Durante os primeiros anos logo após a Segunda Guerra Mundial a Islândia modernizou a sua agricultura e a sua indústria da pesca e colheu bons resultados com isso. Em 1949 a Islândia passou a ser um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e em 1951 uma base naval norte-americana foi instalada em Keflavik. Em 1952 a Islândia estendeu o seu território marítimo de três para quatro milhas e em 1975 estabeleceu o limite de 200 milhas de sua costa. A economia da Islândia cresceu vertiginosamente até 2008, quando ocorreu a crise mundial, quando caiu numa recessão que durou pouco mais de dois anos. A partir de 2010 a Islândia voltou a crescer e em 2012 o seu GDP per capita foi de 42.658 dólares, um dos maiores do mundo. Quanto à distribuição interna de renda medida pelo índice Gini do Banco Mundial, onde 0 representa um igualitarismo perfeito e 100 uma desigualdade perfeita, a Islândia apresentou um coeficiente de 28 em 2008, o que coloca esse país entre os melhores do mundo.

Apesar dos islandeses modernos se considerarem amigáveis ao meio ambiente, a Islândia possui muitos problemas ambientais causados no passado, principalmente pelo uso intensivo do seu frágil ambiente natural. Segundo Jared Diamond, a enorme demanda de lenha para fazer o carvão usado nas ferrarias contribuiu para o desaparecimento da vasta cobertura lenhosa que havia originalmente. Os exemplos de vegetação arbustiva-arbórea de bétulas (Betula spp.) e salgueiros (Salix spp.) que tive a oportunidade de ver no Parque Nacional de Tingvellir e na região Gullfoss e Geysir seriam relíquias da vegetação passada da Islândia. Em termos de biodiversidade atual, a flora da Islândia consiste de 172 espécies de plantas, e a fauna de um punhado de espécies de aves e peixes e alguns invertebrados e de mamíferos.

A depleção dos recursos florestais da Islândia explica porque o país se estagnou e permaneceu estagnado durante séculos. Os islandeses viviam inicialmente do pastoreio e do cultivo de algumas culturas resistentes ao frio como a cevada, a aveia, o centeio e o feno. Até a virada do século vinte a indústria da pesca era artesanal. Segundo o historiador Gunnar Karlson, durante o século dezesseis os ingleses é que pescavam com embarcações maiores na costa da Islândia, ganhando a experiência necessária para o poderio naval da Inglaterra no século seguinte. A pesca desenvolveu-se aos poucos e apenas no século vinte tornou-se a principal fonte de riqueza da Islândia. Hoje em dia os três itens que mais contribuem para a economia da Islândia são a pesca, as fundições de alumínio e o turismo.

Finalizando as minhas impressões sobre a Islândia, eu gostaria de registrar o quanto eu gostei da semana que lá passei em setembro passado. E por cima de tudo todos os islandeses com quem tive contato me pareceram instruídos, corteses e alguns até bem-humorados. Guardarei a lembrança do ar puro que respirei e da água gelada que bebi direto da torneira.

Referências
Diamond, Jared (2011). Collapse. How Societies Coose to Fail or Survive. Penguin Books, UK.
Karlsson, Gunnar (2000). A Brief History of Iceland. 2dn edition.Translated by Anna Yates. Mál of menning.

Sobre a Cultura Ibérica

Nota: Este artigo foi publicado originalmente em PortVitoria (7, Jul-Dec 2013)

‘O livre comércio universal sem dúvida seria economicamente benéfico à humanidade, se não fosse pela suspeita e animosidade que as nações sentem umas pelas outras. Do ponto de vista de preservar a paz mundial, o livre comércio entre diferentes Estados civilizados não é tão importante quanto a porta aberta em suas dependências’. Bertrand Russell.

No contexto mundial a Cultura Ibérica é uma subcultura da Civilização do Oeste ou Civilização Ocidental. Obscurecida por muito tempo pelo nacionalismo, a Cultura Ibérica teve um ressurgimento no final do século vinte como antagonista da globalização. O salto das telecomunicações através das tecnologias de satélites, telefonia celular, computação e internet coincidiu com a organização da Comunidade Lusófona internacional na década de oitenta e com o fortalecimento do ibero-americanismo e ibero-africanismo. No século vinte e um, o espanhol e o português ganharam respeitabilidade, passando a ocupar o 4º e o 5º lugares entre as línguas mais faladas de todo o mundo, representando um tremendo potencial de vantagens comerciais a ser explorado.

O ressurgimento da Cultura Ibérica assustou os que o entenderam como um disfarce do ‘Iberismo’, movimento que defende o federalismo político da Península Ibérica, e suscitou a preocupação com a sobrevivência do português e do espanhol caso a maioria da população decida adotar o ‘portunhol’, dialeto formado pela mistura das duas línguas e já presente ao norte do Uruguai. Apesar do risco às soberanias, a Cultura Ibérica tem sido uma força positiva na preservação do pluralismo cultural não só da Espanha e de Portugal, mas também dos outros países da Cultura Ibérica. Quanto aos riscos de depreciação do português e do espanhol, é possível minimizá-los através da educação secundária formal e outras medidas.

Galiza, a província do norte da Espanha que originou o português de Portugal é hoje parte da Comunidade Lusófona Internacional da qual fazem parte Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Coincidência ou não, a porcentagem dos galicianos que falam o galego-português aumentou desde a criação da Comunidade Lusófona Internacional. A participação da Galiza na Comunidade Lusófona tem despertado a curiosidade dos falantes de português de todo o mundo nessa interessantíssima região onde o português se originou.Na mesma época em que a Comunidade Lusófona Internacional era formada, o escritor brasileiro Paulo Coelho percorreu a pé seus quase 700 quilômetros partindo do sul da França até a cidade de Santiago de Compostela. Essa peregrinação virou o tema do seu primeiro livro,O Diário de um Mago, que contribuiu para divulgar a importância cultural tanto de Santiago de Compostela quanto da própria Ibéria.

Em junho de 2011 eu visitei a Galiza com a meu marido inglês, que tendo aprendido o português do Brasil, teve menos dificuldade em entender o galego-português que ouviu em Santiago de Compostela do que em entender o português do Norte de Portugal numa viagem anterior. A visita à Galiza aumentou a minha curiosidade pela Cultura Ibérica, gerando o resumido apanhado de História Ibérica aqui apresentado, cujo objetivo é apenas de dar uma ideia geral de como era a Ibéria até o desmembramento de Portugal da Galiza.

Um Apanhado da História da Península Ibérica
Portugal e Espanha, os dois países-Estado da Península Ibérica, são consideradosEstados parentes (kin states) pelo fato decompartilharem uma ou mais etnias. Antes de serem países independentes e soberanos, Portugal e Espanha faziam parte da Hispania do Império Romano, e como tal que existiu de 217 aC a 409 dC.

Embora a queda do Império Romano tivesse ocorrido em 476, Roma já havia perdido a Ibéria para os Visigodos e Vândalos desde o ano 411. Esses povos bárbaros, a maioria originária da área sudoeste da Escandinávia, há séculos tentavam se estabelecer na região mas eram impedidos pelos romanos. A divisão da Ibéria foi da seguinte forma:
• Alanos: Lusitânia e Cartaginense
• Vândalos silingos: Bética
• Vândalos asdingos e suevos: Galiza

Os Suevos e os Vândalos asdingos ficaram com a Galaecia, e a transformaram no Galaeciorum regnum, ou reino da Galiza, que incluía quase todo o norte de Portugal até o sul de Coimbra. Entretanto, a divisão acima durou pouco, pois em 416 vândalos silingos e os alanos foram exterminados pelos visigodos.

O fato marcante do século VI foi a reconversão dos líderes visigodos à modalidade de cristianismo do Império Bizantino, através do missionário San Martín de Braga ou de Dumio. Antes disso eles seguiam o Arianismo, uma das variedades do Cristianismo inicial pregado pelo presbítero Árius da Alexandria, que afirmava que Jesus era um ser criado e, portanto, não poderia ser Deus, ou que pelo menos durante algum tempo ele não tinha a substância divina.

No século seguinte, o sétimo, o mapa da Europa mudou de novo, pois uma estreita faixa ao sul da Ibéria e da Itália foi conquistada pelo Império Romano do Oriente (Bizantino), enquanto que o reino dos Francos se estabeleceu.

E o século VIII, este foi marcado pela invasão muçulmana da Península Ibérica em 711. Em 732 os muçulmanos tentaram invadir a França, mas foram derrotados por Carlos Martel, o avô de Carlos Magno. E em 768, Carlos Magno ascendeu ao trono da França com seu irmão Carlomano, mas depois da morte deste, continuou sozinho e começou a construir o Império Carolíngio.

A Invasão Muçulmana (Moura) e o Reino de Astúrias
Em 772, no início da era carolíngia, uma boa parte da Ibéria, com exceção do Reino das Astúrias, ao norte, passou a fazer parte do Emirado de Córdoba. O reino de Astúrias incluía a Galiza mais uma pequena área do território Basco. Pela densa população e pela geografia, Astúrias foi a única região da Ibéria que escapou do domínio muçulmano. Afora Astúrias, algumas comunidades cristãs permaneceram na Moçarábica, cujos habitantes, os moçarábicos eram antigos muçulmanos convertidos ao cristianismo, e cuja língua, o moçarábico, é considerada uma variedade do latim ibérico.

No final do século VIII Astúrias sofreu uma série de ataques dos árabes do emirado de Córdoba. O rei Afonso II, o Casto (791-842), pediu ajuda militar a Carlos Magno, que atendeu o pedido. Entretanto, nem todos os sucessos contra os árabes muçulmanos são atribuíveis à ajuda militar dos francos. O exército de Astúrias sozinho conseguiu recapturar a cidade de Olisipo, a atual Lisboa.

Embora no início da invasão Muçulmana o Reino de Astúrias tivesse conseguido se preservar devido a certas características da sua geografia, sua preservação a longo prazo é atribuída à descoberta, no ano de 814, do suposto túmulo do apóstolo Tiago (James, em inglês), por um eremita chamado Pelágio. Inicialmente uma capela foi construída no local do túmulo de Santiago, mas, em 829 d.C., tal capela foi substituída por uma igreja, e esta por outra em 899, que passou a ser o maior centro de peregrinação cristã na Europa. Em 997 a segunda igreja de Santiago de Compostela foi destruída por um ataque do califa de Córdoba, em resultado do qual os portões e os sinos desta igreja foram levados e colocados na Mesquita Aljama de Córdoba.

No século X o mapa da Ibéria também sofreu diversas mudanças. O Emirado de Córdoba ficou menor e passou a ser chamado Califado de Córdoba. O Reino de Astúrias, depois de sofrer diversas derrotas, acabou desaparecendo e em seu lugar surgiram os reinos de Leão, Castela, Navarra e as províncias catalãs.

Embora o principal bispado da Galiza se localizasse inicialmente na cidade de Braga, o aumento da importância de Santiago de Compostela, que virou um centro de peregrinação ao do túmulo do Apóstolo Tiago, fez com que sua diocese não aceitasse ficar sob a jurisdição do bispado de Braga fazendo com que este se mudasse para Santiago ao qual Braga ficou submissa. Esse acontecimento foi o início da rivalidade religiosa e política entre Portugal e Espanha que ainda perdura até hoje.

A construção da catedral de Santiago de Compostela começou em1075, no reinado de Afonso VI (1040-1109), e foi consagrada em 1128, na presença de Afonso IX de Leão e Castela.

O Reino de Leão e Castela(León e Castilla)
O Reino de Leão (Galiza-Leão) foi formado a partir do casamento da herdeira de Leão com o rei de Navarra Sancho III (982-1035). Depois da morte de Sancho III, Castela passou a ser governada pelo seu filho Fernando I, que eventualmente se apossou do reino de Leão e incorporou-o a Castela, criando assim o Reino de Leão e Castela.

Um problema constante de Leão e Castela era a invasão muçulmana e os reis católicos de Leão e Castela ficaram com a incumbência de expulsar os invasores Muçulmanos da Península Ibérica. A aparente estratégia do novo reino contra a ameaça muçulmana foi promover extensivamente a fé cristã.

Antes de morrer, o primeiro rei de Leão e Castela, Fernando I, repartiu as suas terras com seus filhos e filha. Castela ficou com Sancho, o mais velho; Leão ficou com Afonso e a faixa ocidental cristã do antigo reino da Galiza ficou com Garcia, o mais novo. O arranjo testamental não deu certo pois Sancho achava que, sendo o mais velho, deveria ter herdado tudo, enquanto que Afonso também ambicionava ampliar seus territórios. Sancho e Afonso derrotaram Garcia e apoderaram-se de seu reino, mas depois disso eles se voltaram um contra o outro. Sancho morreu e Afonso, então com o título de Afonso VI, ficou com tudo.

Na História de Leão e Castela, o grande marco histórico viria bem mais tarde, em 1236, quando o rei Fernando III conseguiu retomar Córdoba. Após a retomada, os mesmos portões e sinos da catedral de Santiago de Compostela foram levados para Toledo onde foram colocados na Catedral de Santa Maria de Toledo.

O Condado Portucalense: O Novo Reino de Afonso Henriques
O rei Afonso VI de Leão e Castela, o mesmo que havia dado início à construção da catedral de Santiago de Compostela, entrou para a história pela complicada vida amorosa. Apesar de ter tido diversas esposas e amantes, ele deixou apenas três filhas, duas ilegítimas, Teresa e Elvira, que teve com Ximena, filha dos condes de Bierzo, e neta de Fernando I o Magno (1016-1065), o reconquistador, mais uma legítima, Urraca (o mesmo nome de sua irmã), com Constança, filha do duque de Borgonha. Afonso VI também teve um caso com Zaida, uma princesa muçulmana que era nora do rei de Sevilha, que havia se refugiado na sua corte depois que o sogro foi morto pelos almorávidas em 1091. Quando em 1091 Urraca se casou com Raimundo, filho de Guilherme, conde da Borgonha, o casal ficou incumbido de governar a Galiza.

Teresa e Elvira, as filhas ilegítimas do rei Afonso VI, foram morar com a mãe Inês, no Castelo de Ulver, que Inês havia recebido como uma compensação quando o rei resolveu deixá-la para se casar com Constança. Em 1094, Elvira se casou com o conde Raimundo de Saint Gilles, uma das linhagens mais antigas da Cristandade, e em 1095 Teresa se casou com D. Henrique, 4º filho do duque de Borgonha, também de descendência bastante nobre, sendo inclusive sobrinho por parte de pai da própria Constança, a segunda mulher de Afonso VI de Leão e Castela, e primo em primeiro grau de Urraca. Assim, as duas meias irmãs passaram a ser primas por afinidade. D. Henrique havia vindo para a Península Ibérica em busca de oportunidades, e encontrou-as na luta pela Reconquista e no casamento com Teresa, em resultado dos quais ele ganhou o governo do Condado de Portucale, que ficava logo ao sul da antiga Galiza. Henrique de Borgonha, o marido de Teresa, passou a ser conde de Portucale, mas morreu pouco tempo depois, com Teresa ficando viúva ainda na casa dos vinte anos, com um filho pequeno, Afonso Henriques.

Quando Afonso Henriques tinha apenas dezessete anos lutou contra a autoridade da Galiza e declarou a independência do Condado de Portucale. Para isso ele recebeu a ajuda dos padres de Braga, que buscavam na criação do um novo país uma oportunidade de recuperar o prestígio que haviam perdido para Santiago de Compostela junto à Igreja de Roma.

Afonso Henriques teve um longo reinado que durou 60 anos. O seu início foi coroado de batalhas contra os Mouros, culminando com a sua vitória na Batalha de Ourique de 1139. Essa vitória virou o tema do brasão de Portugal, com os seus cinco escudos e cinco quinas, cada qual com cinco bolas representando os cinco reis mouros degolados na batalha. Entretanto, o reconhecimento dele como rei pela Igreja Católica de Roma, mesmo com o apadrinhamento dos clérigos, só aconteceu no ano de 1179, ou seja, trinta anos depois da Batalha de Ourique de 1139. Todavia, o demorado reconhecimento da realeza de Afonso Henriques pela Igreja Católica de Roma veio acompanhado do reconhecimento do Reino de Portugal. Afonso Henriques se casou com Mafalda de Saboia em 1143, e com ela teve sete filhos inclusive o herdeiro Sancho.

E o mapa da Ibéria no século doze passa a ter quatro reinos: Navarra, Castela, Aragão e Portugal.

Conclusão
Este brevíssimo apanhado da História Ibérica mostra que a Ibéria já teve diversos mapas, que Portugal já pertenceu à Galiza e que há sempre interesses de poder e de prestígio nas relações diplomáticas entre as nações. Mas se a História universal está repleta de evidências de que os nacionalismos são uma constante ameaça à paz ela também mostra o comércio como uma ferramenta para mantê-los sob controle. Até agora a globalização do comércio, em termos de desburocratização do trânsito de cargas internacional e da redução de tarifas, tem sido positiva, pelo menos para as nações que dispõem de mão de obra especializada. Mas o comércio internacional não é feito só de bens materiais pois indiretamente ele envolve bens intangíveis como a cultura. A Cultura Ibérica unida é muito maior do que a soma das culturas de todas as suas nações.

Referências
Black, Jeremy, editor. (1999). Atlas of World History. DK, London.
Coelho, Paulo (1988). O Diário de um Mago. Editora Rocco.
Oliveira, Ana Rodrigues (2010). Rainhas Medievais de Portugal. A Esfera dos Livros, Lisboa.
Parkinson, C. N. (1963). East and West. John Murray, London.

Key words: História da Ibéria, History of Iberia, Iberian Penninsula, Península Ibérica, Iberian Culture, Cultura Ibérica, Hispano-Lusophone communities, Paulo Coelho, Santiago de Compostela, Braga, Hispania, Spain, Espanha, Portugal, Comunidade Lusófona, Galiza, Galicia, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria, dedicada à falantes de espanhol e português espalhados pelo mundo.