Francisco de Miranda y Rodriguez. O Idealizador da Independência da América Espanhola

Francisco de Miranda y Rodriguez (1750-1816), conhecido simplesmente como Miranda, foi o precursor da independência da América hispânica e mentor intelectual dos libertadores. Miranda é também apontado como o principal disseminador da maçonaria na América Latina, da qual ele se posicionou para unir os líderes revolucionários em torno da causa da independência.

Nascido de uma abastada família de comerciantes provenientes das Canárias, o desejo do jovem Miranda era fazer uma carreira militar. Julgando que teria melhores chances na Espanha mudou-se para lá aos vinte e um anos de idade. Na Espanha ele continuou a sua educação procurando se familiarizar com os grandes escritores da época. Após ter se alistado no exército espanhol em 1771 ele serviu como capitão no Regimento de Infantaria. A sua primeira missão foi a defesa de Melilla, território espanhol ao norte da África, lutando contra o sultão do Marrocos. Entre 1773 e 1775 ele serviu em Madrid, Argel, Granada e Cádiz. Em abril de 1780 ele foi para Havana onde foi nomeado capitão do Exército de Aragão e segundo ajudante de campo do General Juan Manuel de Cajigal y Montserrat. Sob o comando de Cajigal, Miranda participou da tomada de Pensacola, no oeste da Flórida, que havia sido ocupada pelos ingleses. Após a vitória dos espanhóis ele foi promovido por bravura a tenente-coronel. O General Cajigal enviou-o para a colônia britânica da Jamaica, para uma missão de troca de prisioneiros. Em 1782 Miranda participou da expedição de conquista colônia britânica Las Bahamas de onde ele conduziu a negociação de rendição dos ingleses.

Miranda foi acusado pela Inquisição de posse de livros e quadros proibidos. Pouco depois ele foi preso por ter permitido a visita do General Campbell a Cuba, embora conseguisse ser solto com a ajuda do General Cajigal. Em 1783 ele foi obrigado a fugir da pátria pela qual havia lutado durante tantos anos, chegando aos Estados Unidos no dia 10 de julho. Lá ele teria tomado conhecimento do processo da revolução de independência e conheceu importantes personagens como George Washington, Alexander Hamilton, Henry Knox, Thomas Jefferson, Samuel Adams, Gilbert de la Lafayette e Thomas Paine. Nos Estados Unidos ele também conheceu Juan Bolívar, o pai de Simão (Simón) Bolívar, e outros refugiados de Caracas.

Em 1784 Miranda partiu para a Inglaterra e fez de Londres a sua base, de onde se empenhou em aprender latim, grego e outras línguas, antes de iniciar uma viagem de aprendizado pela Europa, Ásia Menor e Egito. Na Inglaterra ele conheceu o Primeiro Ministro William Pitt, e procurou convencê-lo a apoiar a causa da independência das nações hispânicas na América. Durante a sua turnê Miranda fez amizades com vários notáveis. Há relatos não documentados de que ele teria usado o pseudônimo de ‘Meeroff’ durante uma turnê pela Holanda, Bélgica, Alemanha e Suíça. Em setembro de 1788 ele fez duas viagens a Marselha, França, lá retornando em fevereiro de 1789 quando participou da redação do primeiro documento de direitos humanos, juntamente com Thomas Payne e outros.

Em 1791 Miranda participou da Revolução Francesa e travou amizade com indivíduos pertencentes à facção moderada dos Girondinos, que se opunha à facção radical dos Jacobinos. Em 23 de março de 1792, Miranda mudou-se para a França quando esta se encontrava em plena revolução. Lá Miranda estabeleceu relações com o prefeito de Paris Jerome Petion. Embora tivesse até sido nomeado general da República Francesa, em 1793, depois que os jacobinos ganharam o poder e Robespierre implantou o seu Regime do Terror, Miranda foi preso acusado de conspirar contra a república, mas depois foi inocentado pelo Tribunal Revolucionário. Entretanto Miranda foi novamente preso e permaneceu na prisão La Force mesmo depois da queda de Robespierre. Tendo sido solto no ano seguinte Miranda ainda permaneceu na França por algum tempo antes de retornar à Inglaterra em 1798.

Em 1805 Miranda partiu para os Estados Unidos, onde esteve com o Presidente Jefferson e com James Madison, o então Secretário de Estado. Contando com a ajuda britânica em 1806 Miranda liderou a primeira tentativa de libertar o seu país do jugo espanhol, mas tendo fracassado ele fugiu e se refugiou no Haiti. Lá ele tentou organizar o movimento de independência, mas frustrado com a indiferença dos caribenhos, em 1807 ele retornou aos Estados Unidos. De lá seguiu de volta para a Inglaterra, onde se ocupou escrevendo artigos para uma revista. Durante sua última fase em Londres Miranda promoveu reuniões com outros líderes revolucionários de toda a América.

Miranda retornou a Caracas em 10 de dezembro de 1810, sendo recebido calorosamente pela população ao desembarcar em La Guaira. Pouco depois ele foi nomeado Tenente Geral dos Exércitos da Venezuela e logo em seguida Promotor da Sociedade Patriótica. Em 1811 participou da Assembleia Constituinte da primeira república.

As tropas realistas comandadas por José Tomás Boves atacaram as tropas de Miranda, que foi preso e levado para a Espanha, onde morreu na prisão de La Carraca em 24 de julho de 1816. Os pormenores dessa derrota implicam Simon Bolívar em ter falhado em mandar ajuda militar para Miranda. Entretanto, esse é um tópico que ainda requer uma pesquisa isenta a fim de ser totalmente esclarecido.

Miranda foi o verdadeiro percursor da independência da América espanhola e o mais bem preparado de todos os demais heróis da independência da América espanhola. O seu nome encontra-se gravado junto ao de outros revolucionários no Arco do Triunfo, em Paris, e uma estátua sua foi colocada na Fitzroy Street, em Londres.

Os Avanços da Assiriologia

A Assiriologia refere-se ao estudo sistemático da língua literatura e história da Babilônia e da Assíria, os dois últimos impérios da Mesopotâmia antiga, considerada o berço da civilização Ocidental. Graças aos avanços da assiriologia, sabemos que os babilônios e os assírios viviam e compartilhavam de uma mesma língua e uma mesma escrita de caracteres cuneiformes. E graças à decifração da escrita cuneiforme em 1851, todo o registro cuneiforme historicamente relevante já foi traduzido, esclarecendo os períodos históricos  relevantes bem como muitas outras coisas sobre a vida dos babilônios e assírios como, por exemplo, o fato de que os babilônios davam uma enorme importância à religião enquanto que os assírios valorizavam mais a história. A cronologia abaixo visa ajudar a entender a geopolítica da Mesopotâmia antiga.

 Cronologia da Babilônia e Assíria

Final do 3º Milênio a.C.

            A Babilônia surge como cidade.

Shamshi-Adad I (1813 – 1781 a.C.), um Amorita, ganha o poder no norte da Mesopotâmia, do rio Eufrates até as montanhas Zagros;

1ª metade do século 18 a.C.

1792-1750 a.C.

Colapso do reino de Shamshi-Adad após a morte deste. Hamurabi incorpora todo o sul da Mesopotâmia ao reino da Babilônia.

            1749 – 1712 a.C.

O filho de Hamurabi, Samsuiluna reina. O curso do rio Eufrates muda por razões não conhecidas no presente.

            1595

O rei hitita Mursilis I saqueia a Babilônia. A dinastia Sealand parece ter reinado na Babilônia após o assalto hitita. Quase nada é sabido da Babilônia nos 150 anos após tal assalto.

Período Cassita

Meados do Século 15 a.C.

Os povos Cassitas, que não eram da Mesopotâmia tomam o poder na Babilônia e restauram a Babilônia como o poder no sul do Mesopotâmia. A Babilônia sob dominação Cassita durou (tirando com um curto intervalo) 3 séculos. Foi uma época de literatura e de construção de canais. A cidade de Nipur foi reconstruída.

Início do Século 14 a.C.

Kurigalzu constrói Dur-Kurigalzu (Aqar Quf), perto da moderna Bagdad, provavelmente para defender a Babilônia dos invasores vindos do norte. Há 4 grandes poderes mundiais, o Egito, Mitanni, o império Hitita, e a Babilônia. O babilônio é a língua da diplomacia internacional.

Meados do Século 14 a.C.

A Assíria emerge como um poder sob Ashur-uballit I (1363 – 1328 a.C.).

1220s

O rei assírio Tukulti-Ninurta I (1243 – 1207 a.C.) ataca a Babilônia e toma o trono em 1224. Os Cassitas eventualmente o depõe, mas danos foram feitos ao sistema de irrigação.

Meados do Século 12 a.C.

Os elamitas e os assírios atacam a Babilônia. Um elamita, Kutir-Nahhunte, captura o último rei Cassita, Enlil-nadin-ahi (1157 – 1155 a.C.).

1125 – 1104 a.C.

Nabucodonosor I reina na Babilônia e retoma dos elamitas a estátua de Marduk que os elamitas tinham levado para Susa.

1114 -1076 a.C.

Os assírios sob Tiglathpileser saqueiam a Babilônia.

Séculos 11 – 9 a.C.

Tribos de arameanos e caldeus migram e se assentam na Babilônia.

Meados do Século 9 a.C. ao fim do Século 7 a.C.

A Assíria aumenta o seu domínio sobre a Babilônia.

O rei assírio Sennacherib (704 – 681 a.C.) destrói a Babilônia. O filho de Sennacherib, Esarhaddon (680 – 669 a.C.) reconstrói a Babilônia. O filho deste, Shamash-shuma-ukin (667 – 648 a.C.), assume o trono da Babilônia.

Nabopolassar (625 – 605 a.C.) se livra dos assírios e em seguida de investe contra eles numa coalizão com Medes, em campanhas que vão de  615 – 609.

O Império Neo-Babilônio

Nabopolassar e seu filho Nabucodonosor  II (604 – 562 a.C.) reinam na parte oeste do Império Assírio. Nabucodonosor II conquista Jerusalém em 597 e a destrói em 586.

Os babilônicos renovam a Babilônia para adequá-la a ser a capital do império, incluindo 3 milhas quadradas dentro das muralhas da cidade. Quando Nabucodonosor morre, o seu filho, o seu genro, e o seu neto assumem o trono numa rápida sucessão. Em seguida, assassinos entregam o trono a Nabonidus (555 – 539 a.C.).

Ciro II (559 – 530) da Pérsia toma a Babilônia. A Babilônia deixa de ser independente.

Nota Final. Em 334 a.C., aos vinte anos de idade, Alexandre invadiu a Pérsia e a incorporou ao seu império, ganhando junto a Babilônia e a Assíria. Após a sua morte, em 323 a.C., o império alexandrino foi dividido entre os seus generais. Um deles, Seleuco, tornou-se rei das províncias leste mais a Síria e a Mesopotâmia. Seleuco incorporou tudo na nova Síria Selêucida. O reino de Seleuco era tão vasto que necessitou ter duas capitais, ambas fundadas em torno do ano 300 a.C.: Antióquia, na Síria, e Selêucida, na Mesopotâmia.

Fonte: a presente cronologia foi tirada do portal: http://ancienthistory.about.com/od/babyloniatimelines/a/babyloniatime.htmç. Segundo esta fonte, a principal referência empregada para a confecção da presente cronologia foi: James A. Armstrong Mesopotâmia The Oxford Companion to Archaeology . Brian M. Fagan, ed., Oxford University Press 1996. Oxford University Press.

George Smith e a Explicação Caldeiana da Criação

Em 3 de dezembro de 1872, George Smith (1840-76), um jovem pesquisador do Museu Britânico, anunciou no congresso da Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres, a sua decifração da narrativa do dilúvio babilônico contida num tablete contendo inscrições em cuneiforme encontrado no sítio do antigo palácio de Assurbanipal. No auditório havia muitas pessoas distintas, incluindo Benjamim Disraeli, o Primeiro Ministro britânico, que era filho de judeus convertidos ao cristianismo. Na sua apresentação, Smith explicou que a narrativa do dilúvio fazia parte da lenda de Izdubar (mais tarde retraduzido como Gilgamesh) e que ele havia encontrado três versões da mesma narrativa, todas elas oriundas do mesmo sítio arqueológico. Falou também das crenças dos babilônios na alma, na vida depois da morte e no céu e inferno, informações recuperadas recentemente através de traduções de tabletes cuneiformes. Entretanto, a mensagem de Smith na Sociedade de Arqueologia Bíblica foi entendida apenas em parte pela audiência.

Como o tablete da narrativa do dilúvio babilônico traduzido por Smith era um fragmento, as lagunas do texto também apareceram na tradução que Smith apresentou em 1872. Entretanto, numa nova excavação na mesma estação arqueológica de Nínive, o fragmento correspondente foi encontrado em 1873, o que permitiu que Smith completasse a sua tradução.

George Smith publicou o resultado de suas pesquisas no livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação Caldeiana da Criação) (1876), que ele dedicou ao Sir Henry Rawlinson, o redescobridor do babilônio, seu amigo e mentor.

O Palácio de Sargão II em SarDur-Sharrukin (atual Khorsabad, Iraque)

Conforme já visto numa postagem anterior, quando o arqueólogo Paul Émile Botta (1802-1870) descobriu o palácio do rei Assírio Sargão II(1) na antiga cidade de Forte Sargão (Dur Sharrukin, próxima da atual Khorsabad), em 1843, ele julgou que havia descoberto Nínive. Como foi que Bota se enganou? Uma resposta provável é que ele teria confundido o acervo de tabletes cuneiformes de Sargão II, com a biblioteca de Nínive.

Segundo os historiadores, bem antes de Assurbanibal criar a biblioteca de Nínive, Sargão II ordenou que os textos religiosos, científicos e da magia da cultura suméria-acadiana fossem fossem colecionados, organizados, e copiados em tabletes, com suas respectivas traduções. O acervo resultante incluia três livros sobre religião em duzentos tabletes e cerca de setenta tabletes sobre astrologia. Sargão II é também creditado com a introdução do hábito de sincronizar eventos uns com outros, o que conferiu maior credibilidade às datas das inscrições.

Uma boa parte do acervo de Sargão II veio de uma coleção de escritos religiosos em cuneiforme que foram preservados numa morada de sacerdotes em Uruch. O grande destaque da biblioteca de Uruch era o conjunto das recitações teológicas sumérias-acadianas e os hinos e as orações do segundo período, compostos numa época quando a influência religiosa era mais elevada. Outro destaque dessa coleção são os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas às humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita, que segundo os historiadores, são extremamente parecidos com os salmos de David da Bíblia hebraica.

Nota
É preciso tomar cuidado para não confundir Sargão II, que reinou na Assíria de 705 a 681 a.C., com Sargão I, que também reinou na Assíria mas cerca de 1800 anos antes, este último sendo o objeto da conhecida lenda babilônica.

O Épico Gilgamesh e a Lenda de Sargão

O épico Gilgamesh (inicialmente traduzido como Izdubar) e outras narrativas babilônicas como a lenda de Sargão (veja abaixo), já eram conhecidos dos estudiosos através das citações de três livros de Beroso, um estudioso caldeu que deixou a Babilônia e foi morar na ilha de Cos, na Ásia Menor por volta de 240 a.C. Entretanto, a decifração do babilônio por volta de 1850 permitiu a recuperação de fontes diretas da literatura assíria/babilônica escritas em cuneiforme.

Considerado o primeiro épico da história da humanidade, o Gilgamesh conta as aventuras do rei Gilgamesh e de seu amigo Ba-bani, e também descreve algumas lendas da Babilônia como a do dilúvio babilônico. Esta última foi reconhecida pela primeira vez num fragmento contendo inscrições cuneiformes do acervo do Museu Britânico, que foi traduzido em 1872 por George Smith, um jovem curador que lá trabalhava. No seu livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação do Gênese dos Caldeus) publicado em 1876, Smith explicou a proveniência do tablete do dilúvio e como ele efetuou a sua tradução. Em janeiro de 2014, Irving Finkel, também do Museu Britânico, publicou o livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio), onde descreve um outro tablete do dilúvio que difere daquele descrito por Smith pelo fato de dar os pormenores de como a arca deveria ser construída (Veja a minha resenha do livro de Finkel na atual edição (no 9) da revista PortVitoria, dedicada à diáspora falante de português e espanhol: http://www.portvitoria.com/BookReviewJPO.html).

Na década em que Smith traduziu o tablete do dilúvio babilônico e publicou o livro acima mencionado, os temas mais comuns debatidos pelos estudiosos eram a teoria evolutiva de Charles Darwin e a implicação desta sobre as narrativas da Bíblia. Tais debates foram acirrados pela constatação da enorme semelhança entre a narrativa do dilúvio babilônico e a narrativa do dilúvio na Bíblia hebraica.

Outro texto babilônico que parece ter sido incorporado na narrativa sobre Moisés da Bíblia hebraica é a narrativa da lenda de Sargão (também conhecido como Sharrukin ou Sargina), um rei da Acádia (ou Agadê). De acordo com a lenda babilônica, Sargão, que foi o rei da Acádia por volta do ano 1600 a.C., não conheceu os seus pais biológicos. Quando bebê ele foi colocado por sua mãe, uma princesa real, num cesto impermeabilizado que ela colocou no rio Eufrates. O cesto foi encontrado pelo irrigador Akki, que o criou como filho. A versão abaixo mostrada, considerada uma das mais importantes, é citada no livro Chaldean Account of Genesis de George Smith (1876).

Legend of Sargon
Sargon, the powerful king, King of Akkad am I.
My mother was a princess, my father I did not know, a brother of my father ruled over the country.
In the city of Azupiranu which by the side of the river Euphrates is situated
my mother the princess conceived me; in difficulty she brought me forth;
She placed me in an ark of rushes; with bitumen my exit she sealed up.
She launched me on the river which did not drown me.
The river carried me, to Akki, the water carrier it brought me.
Akki, the water carrier in tenderness of bowels lifted me;
Akki, the water carrier as his husbandman placed me,
45 ? years the kingdom I have ruled,
The people of the dark races I governed,
…… over rugged countries with chariots of bronze I rode,
I govern the upper countries,
I rule ? over the chiefs of the lower countries,
To the sea coast three times I advanced, Dilmun submitted,
Durankigal bowed, &c. &c.

O épico Gilgamesh e a lenda de Sargão não são os únicos textos babilônicos que parecem ter sido aproveitados na Bíblia. Os salmos de David também foram apontados por alguns historiadores como sendo extremamente parecidos com os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas da Babilônia sobre as humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita. Segundo os historiadores, os tabletes contendo os ‘Salmos de Penitência’ foram preservados inicialmente numa morada de sacerdotes em Uruch, e mais tarde adquiridos por Sargão II.

A Bíblia hebraica não é a única obra que aproveitou as narrativas da literatura babilônica. Tais narrativas também aparecem na Ilíada e na Odisséia de Homero bem como nos Contos das Mil e Uma Noites compilados em árabe durante a Idade Dourada do Islão.

A Redescoberta do Babilônio

O babilônio, a língua acádia, foi redescoberto por volta de 1850 por Sir Henry Rawlinson (1810-1895), um oficial do exército britânico que era proficiente na língua persa. Quando em 1835 Rawlinson foi mandado para a Pérsia para ajudar a treinar as tropas do Xá, lá ele encontrou, num monte de Behistun, um conjunto de inscrições em três línguas: persa antigo, babilônio e elamita, feitas a mando do Rei Dario da Persia (522-486 a.C.). Rawlinson reconheceu logo que as inscrições de Behistun tinham a mesma importância para a decifração do babilônio do que a Pedra de Rosetta(1) teve para a decifração dos hieróglifos egípcios em 1822. Após ter traduzido o trecho em persa, Rawlinson começou a decifrar o babilônio e o elamita mas devido a problemas diplomáticos entre a corte iraniana e o governo britânico ele precisou retornar à Inglaterra. Antes de partir, Rawlinson conseguiu fazer uma impressão em relevo das inscrições de Behistun, e assim continuar o trabalho.

No fim de 1843 Rawlinson foi transferido para Bagdad, de onde ele fez algumas visitas ao seu amigo arqueólogo Austen Henry Layard, que se encontrava escavando em Quyunjik, perto de Mossul. Através desse contato, Rawlinson teve acesso ao acervo de tabletes de inscrições cuneiformes que foram descobertos em Quyunjik. No outono de 1846, já tendo conseguido entender muitas das inscrições em cuneiforme que encontrou, ele publicou um trabalho sobre a decifração da escrita cuneiforme. Ao retornar à Inglaterra ele passou a dedicar-se exclusivamente à tradução de textos cuneiformes.

Nota. A Pedra de Rosetta contém a mesma inscrição em hieróglifo, demótico (escrito cursivo derivado do hierático e que serviu de base para o cóptico – a língua egípcia), e grego antigo, o qual os linguistas conseguiam entender. O conteúdo da Pedra de Rosetta é um decreto datado de 196 a.C. celebrando o reinado de Ptolomeu V. A decifração dos hieróglifos nela contidos foi completada por Jean Champollion em 1822.

O Desagravo a Beroso

Em torno de 240 a.C., quando as cidades independentes da Grécia formaram a segunda Liga Aqueana (κοινὸν τῶν Ἀχαιῶν) e Roma lutava contra Cartago, o babilônio antigo já era uma língua morta embora ainda reconhecida. Foi nessa época que Beroso, um sacerdote caldeu do templo de Baal na Babilônia mudou-se para a ilha de Cos, na Ásia Menor (atual Turkia) onde escreveu uma trilogia em grego sobre a cultura da Babilônia, que ele dedicou a Antióquio I (c. 324–261 a.C.), monarca do reino seleucida(1) da Síria, que reinou entre 292 e 281 a.C., no leste, e de 281 a 261 em todo o país.

No seu primeiro livro, Beroso descreveu a terra da Babilônia, cuja civilização foi levada para lpa pela divindade Oannes, que era metade homem e metade peixe, bem como por outras divindades, incluindo ainda a lenda da criação e a sua versão da astrologia caldeia. Nesse livro, Beroso cita diversos trechos da ‘cosmogonia’ babilônica, a narrariva da criação do mundo, cujo autor seria a própria divindade Oannes. O segundo e o terceiro livros fornecem uma cronologia da história da Babilônia e da sucedânea Assíria, que começa com ‘os dez reis anteriores ao dilúvio’, passando à narrativa do dilúvio e a restauração da monarquia, com uma longa série de monarcas que reinaram ‘depois do dilúvio’, as ‘cinco dinastias’, finalmente a história mais recente dos assírios, o último reino da Babilônia, a invasão persa e a conquista de Alexandre o Grande. Mais uma vez podemos perceber os paralelos com a Bíblia hebraica na cosmogonia, no dilúvio e na preocupação com a linhagem dos reis.

Beroso ganhou o respeito dos estudiosos da Ásia Menor e da Grécia. Pensa-se que ele passou também um período em Atenas, onde uma estátua de cobre foi feita em sua homenagem. Apenas fragmentos da obra de Beroso sobreviveram. Todo o conhecimento sobre Beroso é indireto, e através das citações de Eusébio de Cesária, Flávio Josefo e Syncellus. Graças à essas citações, a literatura e a mitologia da antiga Babilônia, incluíndo a Assíria e a Caldéia, chegaram até o mundo clássico.

Infelizmente, o tempo passado não mais permite estabelecer como foi que todas as cópias dos três livros de Beroso desapareceram. Entretanto, a cosmogonia babilônica que Beroso explicou nos seus livos e cujo exemplo mais bem conhecido é a narrativa do dilúvio babilônico, certamente comprometia a pretenção da Bíblia dos hebreus de ser um livro de autoria ou de inspiração divina, sendo um motivo para uma presumível sabotagem. E se foi esse o caso, Beroso foi vindicado pelas traduções dos textos em cuneiforme sobre a Babilônia, que confirmaram o que ele havia narrou em grego há mais de vinte séculos.

Nota
1 Seleucida. Palavra derivada de Seleucus, um dos generais de Alexandre o Magno, que após a morte deste em junho de 323 a.C., tornou-se rei das províncias leste do império alexandrino, sendo as principais a Síria e a Mesopotâmia. A Síria Seleucida incluia, além do Iraque e a Síria, o Afaganistão, o Irã e o Líbano, mais partes da Turquia, Armênia, Turcumenistão, Uzbekistão, e Tajikistão. O reino de Seleucus tinha duas capitais, ambas fundadas around 300 a.C.: Antióquia na Síria e Selêucia na Mesopotâmia.

A Redescoberta de Nínive

Nínive, a segunda capital da Caldéia, fundada em 2250 a.C. e destruída em 612 a.C., foi redescoberta em 1849 pelos arqueólogos Austin Henry Layard (1817-94) e Hormuzd Rassam (1826-1910) que entre 1847 a 1851 conduziram escavações em Quyunjik, localidade nas margens do rioTigre oposta à cidade de Mosul – a mesma que atualmente se encontra refém dos terroristas do Isis.

Quyunjik havia sido recentemente escavada por Paul Émile Botta (1802-1870), cônsul francês junto ao antigo Império Turco-Otomano, atual Iraque, que embora fosse formado em medicina, tinha uma grande paixão pela arqueologia e pela história. Entretanto, Botta falhou em descobrir Nínive por ter decidido parar com os trabalhos em Quyunjik para ir escavar em Khorsabad. Ao invés de Nínive, Botta descobriu o palácio de Sargão II na antiga cidade de Dur Sharrukin, com suas famosas figuras aladas, seus relevos e inscrições em babilônio cuneiforme, que ele pensou tratar-se de Nínive.

A notícia de que Botta havia descoberto Nínive, mesmo não sendo verdadeira, atraiu Layard e seu associado Rassam, que resolveram escavar em Quyunjik, onde em 1849, eles encontraram o palácio construído por Sennacherib, o avô de Assurbanipal, e em 1853, Rassan descobriu sozinho o palácio de Assurbanipal (c. 669-663 a.C.) e a bibioteca de Nínive que este havia construído para preservar a história da Caldéia e da antiga civilização Suméria-Acadiana.

Cerca de cem mil tabletes e fragmentos de barro contendo inscrições em babilônio cuneiforme oriundos das escavações de Layard e Rassam foram remetidas para o Museu Britânico. Tal acervo foi logo colocado à disposição dos especialistas, que aos poucos começaram a traduzir os registros e a literatura da Babilônia.

A Preocupação Sobre Mosul

A ocupação de Mosul pelo grupo insurgente Isis (Estado Islâmico do Iraque e Grande Síria), no Iraque, tem sido o tema de diversos artigos e postagens de blog por indivíduos de todo o mundo preocupados com a destruição do patrimônio histórico da cidade. Localizada a cerca de 400 Km de Bagdad, Mosul ou al-Mawṣil, fica na margem ocidental do rio Tigre e é a capital da Província de Nínive, cujo nome é uma homenagem à antiga cidade de Nínive, fundada em 2250 a.C. e destruída em 612 a.C., e cujas ruínas localizam-se em frente à Mosul, no outro lado do rio Tigre.

A Mosul moderna expandiu-se para o outro lado do Tigre, abarcando assim as ruínas da antiga Nínive que incluem a famosa biblioteca de Assurbanipal. Mosul possui uma Universidade e um Museu de enorme importância. Ambos são conhecidos pela tradição de trabalhos colaborativos com equipes de arqueólogos de diversas partes do mundo. A população de Mosul é formada por uma maioria árabe e minorias diversas, sendo as mais importantes os assírios, os iraquianos de origiem turca e os kurdos. Normalmente a diversidade étnica é um fator positivo no sentido de favorecer a paz e a convivência em harmonia. Entretanto, o que as recentes imagens de Mosul têm mostrado são os horrores da guerra. Dentre as muitas perguntas levantadas sobre Mosul e a paz no Iraque e na Síria, duas que se destacam são: até onde? até quando?

O Surgimento do Alfabeto

A Pictografia e a Escrita Cuneiforme
A invenção da escrita há cerca de cinco mil anos, marcou o início da história propriamente dita. A escrita primitiva era feita através de desenhos e surgiu em torno de 3300 a.C. na Mesopotâmia. O alfabeto foi inventado bem mais tarde, em torno do ano 1400 a.C. na Fenícia, país situado na região do Crescente Fértil, ao norte da antiga Canaã, atual costa do Líbano e província de Tartus na Síria.

A primeira forma sistematizada de comunicação gráfica através de sinais é designada pictografia. Entretanto, diversas civilizações do novo mundo, como a dos maias, também desenvolveram a escrita pictográfica. Os hieróglifos egípcios, hititas e cretenses são uma forma de pictografia. A primeira escrita própria, onde os símbolos representavam sílabas, foi a escrita cuneiforme, desenvolvida em Uruk (Erech, na bíblia), na Suméria. A escrita cuneiforme de Uruk foi logo adotada no reino da Acádia, onde sofreu algumas modificações pelos elamitas, huritas, hititas, urartianos e diversos outros povos. No ano 1400 a.C. a escrita cuneiforme era a escrita padrão do comércio internacional ocidental.

O Primeiro Alfabeto
Os fenícios(1), que também são conhecidos como cananitas do norte ou amoritas, são creditados com a invenção do alfabeto e com o aperfeiçoamento da arte naval. O alfabeto, definido como sendo um conjunto de sinais ou caracteres gráficos associados a sons, surgiu em Ugarit em torno do ano 1400 a.C. Adaptado dos sinais da escrita cuneiforme, o alfabeto de Ugarit consistia de 30 letras e era destituído de vogais. Em função do seu emprego na contabilidade do comércio naval, o alfabeto foi aperfeiçoado em Biblos, passando a ter 22 letras.

Até 1400 a.C. os fenícios dividiram com o Império Minoano, da Ilha de Creta, o domínio do comércio naval. Em torno de 1400 a.C. o império Minoano foi destruído por uma erupção vulcânica, e após esse acontecimento os fenícios ganharam a hegemonia sobre o comércio naval. A escrita encontrada pelos arqueólogos em Creta é hoje reconhecida como sendo derivada do alfabeto fenício original (2). De fato, o alfabeto fenício serviu de base para os primeiros alfabetos hebraico, sírio, arábico e grego, que inicialmente eram também desprovidos de vogais. O fato do grego arcaico ser escrito da direita para a esquerda, também corrobora a sua origem a partir do alfabeto fenício.

Os fenícios exploraram o Mediterrâneo e além, criaram colônias no norte da África (Cartago) e na Península Ibérica, e iniciaram as primeiras caravanas mercantes para a Ásia. Entretanto, eles não eram originalmente um povo do mar, mas aprenderam a navegar com outros povos. Donos de um espírito altamente empreendedor, os fenícios tomaram emprestado os modelos de barcos cretenses e egípcios e aperfeiçoaram-nos. Foram eles que desenvolveram navios de cascos redondos, que resistiam melhor os desafios do mar. A focalização extrema no comércio fez com que os fenícios negligenciassem a organização de um Estado político capaz de proteger as suas cidades livres como Biblos, Tiro e Sidônia, bem como as suas colônias na costa africana e na Península Ibérica, contra os inimigos invasores.

Biblos foi uma das cidades fenícias mais importantes, habitada desde o início do Neolítico e associada às lendas homéricas. Biblos tinha o maior dos portos e era o principal receptador do papiro egípcio, do qual ganhou o nome. Tira, na Síria atual, foi fundada no início do terceiro milênio a.C. era a mais rica da Fenícia, devido ao número de colônias que mantinha e à indústria têxtil. Sidônia, no Líbano atual, localizava-se num local habitado desde o segundo milênio a.C., tinha uma indústria de vidro e era um importante porto pesqueiro. O zênite da civilização fenícia ocorreu no sétimo século a.C., após o qual começou a declinar. A falta de união entre suas diversas cidades independentes não permitiu que organizasse uma boa defesa contra os ataques de outros povos.

O alfabeto representou um salto na escrita cuneiforme desenvolvida na Babilônia no final do 4º milênio a.C., por sua vez considerada um avanço em relação à escrita pictográfica. Apesar de terem inventado o alfabeto, os fenícios não se preocuparam em deixar uma história gravada para a posteridade. A sua historiografia foi totalmente recriada através de evidências indiretas. Através da evidência linguística, sabemos que os fenícios tinham uma deusa da guerra, Astarte, cujo nome lembra a ‘Ishtar’ dos mesopotâmios, e da qual também deriva o nome da deusa cananita ‘Anat’, conhecida como ‘Senhora’, sendo venerada em Tiro, Sidônia e Cartago.

Notas
1 Segundo a narrativa da Bíblia a impiedade dos amoritas (cananitas do norte), que eram também povos semíticos, foram a causa da punição divina aos israelitas (cananitas) tornando-os cativos no Egito.

2 Depois que o arqueólogo inglês Arthur Evans identificou as três escritas – linear A, linear B e hieroglífica – do antigo império Minoano da ilha de Creta, Evans e seus seguidores pensaram que se tratavam de uma escrita original, da qual o grego teria se originado. No antigo palácio da cidade de Knossos, descoberto em 1900, os arqueólogos recolheram cerca de 3000 tabletes de barro, a maior parte em escrita em linear B e com um conteúdo estritamente comercial. Entretanto, mais tarde foi reconhecido que a escrita linear B era uma forma do grego e que havia surgido em torno de 1450 a.C. Evans cometeu o mesmo engano na sua análise da escrita encontrada no Chipre, datada de 800-200 a.C., afirmando que se tratava de uma escrita derivada da linear B minuana. Entretanto, a decifração da escrita cipriota já havia sido feita em 1871, devido a diversas amostras de textos bilíngues em cipriota e grego. O grande problema que os linguistas tiveram foi reconhecer que a escrita cipriotas não era baseada num alfabeto mas sim em símbolos de sons. Uma vez reconhecido isso os peritos concluirão que a escrita cipriota era um dialeto do grego.
Outra escrita alfabética que foi incorretamente interpretada como tendo origem independente foi a dos etruscos, moradores da antiga Etrúria, atualmente a Toscana italiana. Eventualmente os especialistas reconheceram que a escrita etrusca havia também se originado do grego, tendo sido levada para a Etrúria pelos colonizadores gregos que foram para a Itália em torno de 750 a.C. Acredita-se que os etruscos também tiveram contato com o fenício, pois o seu registro arqueológico inclui inscrições bilíngues em etrusco e fenício.