O Conselho Internacional para a Exploração dos Mares (CIEM/ICES)


Joaquina Pire-O’Brien

Acabo de retornar de uma viagem de sete dias a Gdansk, Polônia, onde acompanhei meu marido Carl que foi participar do congresso anual do Conselho Internacional para a Exploração dos Mares (CIEM), também conhecido pela sigla inglesa ICES (International Council for the Exploration of the Sea). Esse foi o segundo congresso do CIEM/ICES que assisti, o primeiro tendo sido em Nantes, no ano passado. O motivo que me levou a escrever este blog sobre o  CIEM/ICES foi o desejo de divulgá-lo junto aos leitores brasileiros ou outros leitores de português, pelo fato do mesmo ser um exemplo de como a ciência pode ser empregada para ajudar os governos a tomar decisões políticas. 

O CIEM/ICES é uma organização intergovernamental sediada em Copenhagen, na Dinamarca, que coordena e promove a pesquisa oceanográfica no hemisfério Norte incluíndo o Atlântico Norte, o Mar do Norte,  o Mar Báltico e outro ambientes marinhos, cujo mandato é fornecer orientação técnica aos governos nos tópicos ligados ao manejo da pesca comercial e outros recursos marinhos. O CIEM/ICES foi criado em 1902 por oito países-membros embora atualmente conta com vinte países-membros. Embora cada país-membro tenha sua própria política de pesca e de recursos marinhos, os países-membros possuem um compromisso com o ambiente marinho global. O CIEM/ICES produz relatórios-orientadores que permitem que cada governo forje suas políticas de pesca e recursos marinhos com base na ciência.  O CIEM/ICES também atua fora das áreas dos países-membros através de consultorias fornecidas a outras entidades internacionais como a Organização de Alimentos e Agricultura das Nações Unidas, a FAO. 

A principal entidade decisória do CIEM/ICES  é o seu Conselho, do qual participa os delegados de cada país-membro. O CIEM/ICES é administrado por um Secretariado cuja tarefa é dar suporte aos diversos grupos de estudo e respaldar a qualidade dos relatórios-consultivos preparados por estes. Nesse processo, os técnicos profissionais do Secretariado são engajados através do diálogo e da cooperação com cientistas, com os clientes da orientação técnica e com os stakeholders –as pessoas ou organizações que têm algum interesse direto no ambiente marinho e seus recursos. Desse processo participa cerca de 1600 cientistas espalhados por umas 200 instituições interligadas através de acordos internacionais com o CIEM/ICES. 

O CIEM/ICES possui Grupos de Trabalho permanentes para discutir os aspectos mais relevantes do ecossistema marinho, desde os processos físicos, a química da água e seus poluentes, até a biodiversidade e as questões da predação natural por parte das aves e mamíferos marinhos.  Julgar adequadamente o quanto cada país pode pescar sem comprometer a continuidade do recurso não é uma tarefa fácil. Entretanto, embora a ciência da pesca não seja absoluta, o respaldo científico é o melhor que é possível obter com base nas informações existentes. 

Como organização científica o CIEM/ICES possui dois aspectos caracterizantes. O primeiro é o fato de ter se originado para atender uma necessidade palpável: a ameaça de extinção de importantes pescados como o bacalhau, o atum, o arenque, o hadoque, bem como dos moluscos e crustáceos em geral. O segundo aspecto é a colaboração internacional necessária para a compreensão do ambiente e dos recursos marinhos.  

A pesca é uma atividade econômica de elevada importância para a maioria dos países, principalmente aqueles que detêm uma boa zona de área pesqueira exclusiva. Entretanto a captura de peixe tem diminuído gradativamente desde as últimas décadas.  Os pesquisadores que atuam na área da pesca, buscando informações sobre o estado dos recursos pesqueiros e criando modelos matemáticos de previsão desses recursos, são referidos como ‘cientistas pesqueiros’. O estudo da  dinâmica de um recurso pesqueiro requer uma compreensão sobre recrutamento, reprodução e mortalidade total (pela pesca e devido aos predadores naturais). A ciência da pesca emprega outros parâmetros específicos como biomassa limite (Blim), biomassa precauciosa (Bpa), catch (total do pescado apanhado) e by-catch (espécies apanhadas junto com a espécie intencionada). 

Em paralelo às reuniões e outros eventos científicos que ocorrem durante os congressos anuais do CIEM/ICES, ocorrem também reuniões administrativas e reuniões do conselho. Este ano, o congresso do CIEM/ICES na Polônia contou com o apoio do Instituto Nacional de Pesquisas Marinha e Pesca (NMFRI) da Polônia, sediado na cidade vizinha de Gdynia, o qual aproveitou o evento para celebrar os seus 80 anos de existência. O evento foi celebrado com uma suntuosa recepção na magnífica Corte de Artur (Artus Court), na praça do centro antigo de Gdansk, da qual eu também tive a honra de comparecer juntamente com meu marido. 

Conforme frisado anteriormente, a organização CIEM/ICES é um exemplo de como a ciência pode ser empregada na tomada de decisões políticas. A opção pela ciência como base das políticas governamentais, ao invés de modismos ou caprichos de personalidades, é uma característica das sociedades avançadas. Entretanto, isso não significa que tais sociedades estejam livres da ameaça do relativismo, doutrina caracterizada por negar que os conhecimentos ou valores possuam validade universal –apesar do paradoxo de que se não há verdade tampouco o relativismo pode existir. Na visão relativista não há diferença entre uma elevada capacitação científica e nenhuma capacitação científica já que na visão relativista não reconhece que haja conhecimento superior ou opiniões melhores. É preciso continuar atento.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s