Viagem à Polônia


Joaquina Pires-O’Brien

De 17 a 24 de setembro deste ano de 2011 eu tive a chance de visitar a bela e interessante cidade de  Gdansk (também conhecida pelo nome em alemão Dansig), na Polônia. Foi uma viagem de oportunidade, já que fui acompanhando meu marido que foi lá para o congresso anual do Conselho Internacional para a Exploração dos Mares (CIEM/ICES), organização que descrevi no meu blog anterior. Neste blog eu registro as impressões que tive de Gdansk, em particular, e da Polônia, em geral.

 O nosso vôo foi com a Wiss Airlines e saiu de Luton, na Inglaterra, às oito horas da manhã, chegando duas horas depois ao aeroporto Lech Walesa, que serve às cidades de Gdansk, Gdynia e Sopot, localizadas na costa do Mar Báltico.  Do aeroporto fomos de taxi até o hotel no centro da cidade onde ficamos hospedados, o Gdansk, construído a partir de um celeiro do século XVIII na beira do canal onde hoje fica uma marina cheia de iates dos mais diversos tamanhos. No percurso pudemos observar algumas vilas residenciais com casas em estilo sóbrio, quase sempre de dois ou três andares e com sótãos que aproveitam a estrutura dos angulosos telhados pretos, vermelhos e amarelados. O trajeto entre o aeroporto e Gdansk cortou um gigantesco canteiro de obras que  incluíam o novo estágio de futebol e outras infraestruturas ligadas ao campeonato europeu de futebol, a ser realizado na Polônia e na Ucrânia em 2012.

 Tão logo desfizemos nossas malas fomos andando até a cidade velha para procurar um lugar para almoçar. Depois de atravessar duas pontes, a do canal do rio Nowa Moptlawa e a da ilha de Spichlerze, logo chegamos à praça principal –Long Market Square–, com seus belíssimos prédios, todos reconstruídos em sua forma original, depois da completa devastação causada pela Segunda Guerra Mundial. Talvez o prédio mais destacado seja o Palácio Municipal, construído na arquitetura Gótico-Renascentista e dotado de um campanário de 37 sinos, o qual já foi a residência do eminente astrônomo Johannes Hevelius (1611-87), o filho mais famoso de Gdansk, escolhido como o homem do milênio da Polônia. Os demais prédios, todos têm sua importância histórica ligada aos seus antigos moradores, incluindo residências de reis e dignitários. Um dos poucos prédios importantes que não foi construído como residência é a Corte de Artur (Dwór Artusa), uma espécie de clube das pessoas importantes dos séculos XVI  e VXI, assim chamada em paródia à residência do mitológico rei Artur e sua igualitária mesa redonda.  Mais ou menos em frente a esses dois prédios fica a Fonte de Netuno, de 1633, cuja estátua de Netuno data de 1549. Escolhemos um restaurante ali perto, com mesas na calçada, protegidas por enormes guarda-sóis. Optamos pelo prato do dia: bisteca de porco à milanesa, batatas com ervas, repolho e salada de brotos de alfafa. Tudo muito saboroso.

Durante a semana pude conhecer melhor a Long Market Square e outras atrações de Gdansk. Há seis importantes igrejas na cidade sendo a Basílica de Nossa Senhora da Assunção a mais importante do ponto de vista histórico, por ser considerada a maior igreja de tijolos do mundo, com capacidade para 25 mil pessoas e uma torre de 78 metros de altura. Dentro da igreja destaca-se um enorme relógio astronômico de 1464, que fornece além da hora e da data, as fases da lua, a posição do sol e da lua em relação aos signos do zodíaco e o calendário dos santos. Também visitei a Casa Uphagen, da segunda metade do século XVIII e morada de diversas gerações de uma mesma família, a qual se tornou museu depois que o último residente morreu sem deixar herdeiros.

 Gdansk é considerada um dos centros mundiais do comércio do âmbar, resina fossilizada de árvores do período Jurássico, 30 a 50 milhões de anos atrás, e encontrada em abundância na região do Mar Báltico. Uma das atrações da cidade são as lojas de bijuterias finas de prata e âmbar bem como o Museu do Âmbar, localizado numa fortificação medieval que  no período da Segunda Guerra era usado como uma prisão. O âmbar é também usado para esculpir animais na decoração de objetos úteis que são comumente adquiridos como presentes como abridores de cartas, marcadores de livros, porta-jóias, chaveiros etc.

 Na terça feira, participei de um passeio a pé pela cidade com um guia turístico, que nos levou aos principais pontos da cidade, alguns dos quais já descrevi acima. Eva, a nossa guia, uma jovem senhora de quarenta e poucos anos, descreveu-nos um pouco da sua infância e juventude sob o regime comunista. Segundo ela, a educação primária e secundária era melhor do que a dos dias de hoje e a eletricidade era muito mais barata, mas faltava quase tudo. As unidades familiares recebiam códigos respectivos à área de moradia a que tinham direito. Recordo-me apenas de que 32 metros quadrados era o máximo permitido para um casal sem filhos. Ela também falou das concessões especiais para a aquisição de casas e carros, dada aos dignitários do Partido Comunista, e da complicada burocracia para a obtenção de passaporte e vistos de saída do país.  O último ponto foi o monumento Solidariedade, construído em 1980 pelos trabalhadores portuários, em homenagem aos colegas mortos pela bruta repressão policial durante as greves de 1970. O mesmo consiste de três cruzes com âncoras, cada cruz pesando 36 toneladas e 42 metros de altura.  O ocorrido em 1970 foi um prenúncio de 1980, quando foi criado o sindicato Solidariedade, sob a liderança de Lech Walesa, o independente do Partido Comunista, marcando assim  o início do movimento contra o domínio soviético do Leste Europeu que culminou com a queda do Muro de Berlin em 1989.

 Na mesma praça onde fica o Monumento Solidariedade fica a exibição subterrânea  Vias para a Liberdade (Drogi do Wolnosci) um itinerário de vinte e dois pontos de exibições cobrindo o período entre 1945 e 1989, que eu visitei na quinta-feira. Apesar de a exibição ser inteiramente em polonês, pude ouvir a narrativa em inglês através do aparelho portátil alugado, onde coloquei meu próprio fone de ouvido. A exibição começa descrevendo o cotidiano da década de 1970. Uma mercearia de prateleiras quase vazias a não ser por algumas garrafas de vinagre e potes de mostarda. A narrativa explica as enormes filas para comprar alimentos. Até papel higiênico era um produto escasso cuja compra exigia um recibo de determinada quantidade de jornal nos postos de reciclagem. As pessoas compravam por oportunidade, na expectativa de poder trocar produtos umas com as outras.

 Sobre a Culinária Polonesa. A experiência que tive com a culinária polonesa foi no geral positiva. Os pratos principais incluem porções generosas de carne ou pescado, mas a carne de porco polonesa é excepcional. Constatei que o repolho é a verdura mais importante da culinária polonesa, sendo oferecido em inúmeras maneiras incluindo o chucrute.

 Tive duas experiências engraçadas com a comida polonesa. A primeira foi num almoço bufê quando fui direto a um prato que pensei tratar-se de arroz, mas depois percebi que se tratava de repolho cortado em pedacinhos no formato do arroz. A segunda foi no jantar comemorativo do congresso, quando no final do mesmo, depois de ter comido a sobremesa de torta de maçã, o anfitrião polonês nos informou que seria servido um prato especial, conforme o costume pomerano. Como eu já estava inteiramente satisfeita achei por bem declinar o tentador pernil de porco assado com ervas e maçãs. Entretanto, eu tirei uma provinha do prato da pessoa ao meu lado, e o pernil estava suculento e delicioso.

 Malbork e os Cavaleiros Teutônicos. Na quarta-feira eu participei de uma excursão a Malbork, que fica a cerca de 60 km de Gdansk, visitar o fabuloso Castelo Teutônico, construído pelos Cavaleiros Teutônicos,  uma ordem religiosa de caráter militar criada para defender os peregrinos a Malbork, considerada uma nova Terra Santa, em substituição à Palestina que havia sido tomada pelos mulçumanos. Ali os Cavaleiros Teutônicos construíram o enorme castelo fortificado, para servir de nova sede dos cruzados cristãos, com a autorização do Rei da Polônia, em troca da ajuda deles para lidar com os lituânios pagãos. Os Cavaleiros Teutônicos criaram um estado próprio em torno do castelo, de onde eles passaram a controlar o comércio do âmbar. Nos próximos cento e tantos anos os Cavaleiros Teutônicos impuseram seu regime autocrático em toda a região, impondo a cultura germânica e o catolicismo.  

Os cento e cinquenta anos da ocupação teutônica da Polônia influenciou a sua composição ética cultural, principalmente da região circunvizinha ao castelo teutônico de Malbork e que coincide com a Pomerânia.

 Por acaso, no domingo anterior, dia 18 de setembro, eu havia assistido pela televisão o desfile folclórico do povo pomerano, cujos trajes me fez lembrar aqueles usados pelos pomeranos do Espírito Santo. Posteriormente constatei que alguns dos pomeranos de Santa Leopoldina haviam imigrado da região de Gdansk (Num blog posterior irei falar sobre a diáspora polonesa no Brasil e  os pomeranos).

 No sábado, nosso último dia em Gdansk, eu levei meu marido para um passeio a pé pela cidade velha e até a praça da Solidariedade. Depois de um belo almoço num restaurante com vista para o rio retornamos ao hotel para apanhar nossas bagagens e tomar um taxi para o aeroporto Lech Walesa. Espero retornar um dia à Gdansk e também conhecer outras partes desse interessante país que é a Polônia.

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