A responsabilidade do intelectual


Joaquina Pires-O’Brien

Não caminhe atrás de mim, pois eu posso não guiá-lo. Não caminhe na minha frente, pois eu posso não segui-lo. Apenas caminhe ao meu lado e seja meu amigo.   Albert Camus

Albert Camus (1913-1960) acertou quando definiu o intelectual como sendo uma pessoa cuja mente vigia a si própria. O hábito de pensar é a característica mais marcante do intelectual, a qual se reflete no elevado nível de conhecimentos dos intelectuais, sejam eles famosos ou não.  Alguns intelectuais conseguem transformar seu conhecimento em comodidades e muitas comodidades do conhecimento comandam bons honorários, pelo menos nos países mais avançados.  Entretanto a maioria dos intelectuais são pessoas comuns da comunidade como professores, pesquisadores, advogados, magistrados, empresários, servidores públicos e até estudantes. Um nível mais elevado de intelectuais é formado pelos intelectuais públicos, quase sempre colunistas ou contribuidores ocasionais dos jornais e revistas de grande circulação e cujo diferencial é formado pelo nível reconhecidamente superior de conhecimento e sua capacidade de transmiti-los ao público.  Esses últimos incluem pessoas de todos os caminhos da vida, como escritores, críticos, filósofos, cientistas, dramaturgos, historiadores, economistas, jornalistas, editores e acadêmicos. Não existe nenhuma associação entre classe econômica ou ocupação e intelectualidade. Entretanto, todos os intelectuais são privilegiados em termos de conhecimento, e essa posição privilegiada acarreta uma responsabilidade maior perante sociedade.

O escritor e jornalista britânico Christopher Hitchens (1949-2011) descreveu a responsabilidade do intelectual público (aquele que emprega a grande mídia) perante a sociedade como sendo a de falar a verdade da melhor maneira que conseguir, sobre assuntos que importam e para as audiências certas.  Segundo ele, a obrigação do intelectual é esclarecer erros de percepção, julgamentos precipitados e perigos não óbvios. Complementando o que Hitchens escreveu, o papel do intelectual público é facilitar a discussão pública e não torná-la prescindível. É bom lembrar que isso às vezes envolve tomar alguma posição contra a corrente e defender o indefensável.

Nem todos os que publicam livros ou assinam colunas de revistas e jornais são intelectuais responsáveis e autênticos. Infelizmente na mídia há muito joio no trigo e os leitores precisam aprender a distinguir os autênticos intelectuais dos não autênticos. O intelectual autêntico gravita para a verdade seguindo a própria consciência; o intelectual inautêntico gravita para a oportunidade seguindo a consciência do grupo. O intelectual autêntico não abusa da sua condição privilegiada para promover a causa própria ou a de seus amigos e associados, e nem para prejudicar aqueles com quem não simpatizam, mas têm coragem de opinar contra ideias já enraizadas na maioria.

O intelectual autêntico busca esclarecer os fatos e realçar o positivo, enquanto que o intelectual inautêntico busca polêmicas, exagera perigos e alimenta os medos da população. Um dos intelectuais mais otimistas do mundo é o escritor Steven Pinker (1954-), professor de psicologia da Universidade de Harvard. Na qualidade de escritor convidado para a coluna If I ruled the world  (Se eu mandasse no mundo) da  revista britânica Prospect (19.10.11), em função do seu novo livro “The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes” – (Os Melhores Anjos da Nossa Natureza: O Declínio da Violência na História e suas Causas –, inédito em português) publicado em 2011 pela editora Allen Lane, Pinker escreveu que imporia a seguinte regra para todos os  entendedores (pundits em inglês): “Ninguém poderá lamentar qualquer decadência, declínio, ou degeneração sem fornecer (1) uma medida de como é o mundo de hoje; (2) uma medida de como o mundo era em algum ponto no passado; e (3) uma demonstração de que (1) é pior do que (2)”. Segundo Pinker, tal regra iria pôr fim aos enfadonhos vaticínios apocalípticos que abundam em todo o canto. Segundo ele, devemos resistir a ficar culpando o presente a torto e a direito, pois tais ataques corroem a valorização das instituições modernas como a democracia, a ciência, e o cosmopolitismo que tornaram as nossas vidas não só mais ricas, mas também mais seguras.

Muitos brasileiros decentes reclamam da cultura de massa resultante das ideias impostas na mídia pelos grupos de poder. A única maneira de contrabalançar isso é aumentando o engajamento da sociedade civil brasileira. O intelectual autêntico, aquele que aceita a sua responsabilidade perante a sociedade, é um importante elemento estimulador desse engajamento. O problema é que a falta de esperança dessensibiliza as pessoas, fazendo com que não consigam distinguir o joio do trigo da classe dos intelectuais públicos. Outro motivo pelo qual é difícil reconhecer o intelectual público autêntico, é que este tende a ser bem mais simples do que as pessoas costumam imaginar. Entretanto, podemos identificar o intelectual autêntico não só pela sua opinião independente, mas também pela mente aberta. O intelectual autêntico reconhece as próprias limitações e é magnânimo para com as limitações das outras pessoas. O intelectual autêntico trabalha a favor da sociedade e não contra ela, e é por isso que busca reformá-la aos poucos, e não a tacadas, e jamais através de revoluções.  Camus, Hitchens e Pinker são exemplos desse tipo de intelectual.

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Joaquina Pires-O’Brien é a atual editora de PortVitoria, revista cultural trilíngue bianual, fundada em 2010, e dedicada às comunidades hispânicas e lusófonas de todo o mundo: http://www.portvitoria.com.

Agradecimento: Carlos Pires, revisor

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