El Catoblepas, um Porta-Voz da Filosofia Pública


Joaquina Pires-O’Brien

Dentre os inúmeros portais da internet que gravei na minha lista de favoritos um dos mais interessantes é o da revista eletrônica El Catobleplas, da Espanha, uma publicação mensal autodescrita como uma ‘revista crítica do presente’. Coordenada por María Santilliana Acosta e indexada ISSN 159-3974, El Catobleplas começou em 2002 como a porta-voz da organização Nódulo Materialista (http://nodulo.org/historia/htm), fundada em 1996, com o fim de fomentar as relações entre indivíduos simpáticos ao materialismo filosófico. Duas coisas de El Catobleplas chamaram a minha atenção. A primeira foi o fato de ser dedicada ao mundo ibero-americano, o que significa que a revista aceita também artigos em português. A segunda foi o empenho de um punhado de pensadores e intelectuais de peso em discutir todo o tipo de assunto não só entre si, mas incluindo o público leigo.

Como sou uma leiga da filosofia, confesso que precisei pesquisar o significado de materialismo filosófico. Materialismo filosófico é uma maneira explicar o mundo atual através de três eixos de conhecimento e crítica: o  materialismo cosmológico, o materialismo histórico e o materialismo religioso. O materialismo cosmológico constitui a crítica da visão do mundo contingente a um Deus criador que abarca a providência e o governo do mundo. O materialismo histórico constitui a crítica do idealismo histórico e sua intenção de explicar a história humana em função de uma consciência autônoma a partir da qual segue o curso global da humanidade. O materialismo religioso constitui a crítica ao espiritualismo e sua a concepção de deuses, espíritos, almas e numes como incorpóreos. Trocando em miúdos, o significado de materialismo filosófico está contido no próprio nome, onde a palavra ‘materialismo’ significa simplesmente aquilo que é físico, em contrapartida com aquilo que não é, e que, portanto, se encontra além da física.

Outra implicação do materialismo filosófico é que a filosofia evoluiu consideravelmente desde a época clássica, quando era conhecida como metafísica, já que o seu objeto de estudo era aquilo que ficava ‘além da física’. Quando eu era jovem e vivia no Brasil os professores de filosofia eram na maioria padres, e a filosofia que ensinavam era a própria metafísica. A filosofia atual, e principalmente aquela que se aplica a explicar o mundo de hoje, requer objetividade, e por esse motivo utiliza-se apenas daquilo que é físico ou material. Não importa que o mundo de hoje tenha tanto indivíduos que creem no divino quanto que não creem pois aquilo que fica além da física pertence a um magistério distinto. O importante para a filosofia atual é a criação de uma matriz secular capaz de unir os dois grupos para o bem maior de toda a humanidade.

Conforme a explicação da página inicial do portal, catobleplas é uma palavra grega que significa ‘que observa a terra’. Citado por diversos autores clássicos gregos e latinos o catoblepas era um animal mitológico que olhava para baixo e que tinha a capacidade de matar quem quer que olhasse os seus olhos. Da mesma forma, a revista El Catoblepas também quer olhar o planeta e a condição humana dentro do mesmo. Para isso, dedica-se a assuntos  atuais, críticas de livros, filmes, programas de televisão, enfim tudo aquilo que ocorre no mundo, embora com especial atenção ao que ocorre nos países de fala espanhola e portuguesa.

O primeiro artigo que li em El Catoblepas foi um do filósofo espanhol Fernando Rodríguez Genovés, intitulado Multiculturalismo, universalismo y reciprocidad (No 35, 2005), o qual foi reproduzido na revista PortVitoria por mim coordenada (4, 2012: www.portvitoria.com). Gostei tanto que procurei ler outros artigos do autor, o qual é um dos fundadores de El Catoblepas. Em seguida passei a ler ensaios e resenhas de outros autores publicados na mesma revista e também a pesquisar alguns dos nomes citados nesses artigos. E assim, estou começando a conhecer a obra de diversos pensadores espanhóis. No Google encontrei uma cópia escaneada do livro A Rebelião das Massas, de José de Ortega y Gasset (1883-1955), publicado em 1930. Filósofo, poeta e crítico social, Ortega y Gasset ocupa um lugar de destaque na filosofia mundial do século vinte. Um dos seus conceitos mais contundentes foi o do ‘homem-massa’, uma espécie de filisteu da cultura que se deixou despersonalizar pela cultura de massa.

Através de El Catoblepas conheci em primeira mão alguns filósofos espanhóis vivos, como Gustavo Bueno Sánchez, que além de fundador foi o principal originador da mencionada organização Nódulo Materialista, é um dos mais prolíferos autores cujos artigos incluem a Venezuela de Chávez (3, 2002), universidade popular (5, 2002), a síndrome do pacifismo fundamentalista (14, 2003), o crescente prestígio da cultura (37, 2005) e o que é democracia (111, 2011). É óbvio que Bueno Sánchez é um filósofo que construiu escola, fato que pode ser notado nos artigos de diversos outros autores publicados na mesma revista.

Dois anos atrás quando eu conheci a El Catoblepas perguntei-me por que motivo filósofos e acadêmicos de peso estariam publicando na internet, mídia que costumava ser menosprezada pelos intelectuais. Descobri diversos outros sites da internet com conteúdo de alta qualidade e produzido por pessoas de notório saber. Este fato também evidencia a grande transformação entre a filosofia antiga e a moderna. O dramaturgo Aristophanes (450-388 B.C.) satirizou os filósofos do seu tempo por viverem nas nuvens, embora a sua inclusão de Sócrates (469-399 B.C.) tenha sido injusta pois Sócrates foi o único de sua época a aplicar a filosofia nas questões do dia a dia. Hoje em dia há muitos filósofos buscando aplicar seus conhecimentos na vida pública, engajando o público nas discussões voltadas a esclarecer tudo aquilo que requer esclarecimento. O novo humanismo crítico resultante é melhor conhecido como ‘filosofia pública’, a qual começa a ser percebida como um novo iluminismo. A organização Nódulo Materialista e sua revista El Catoblepas faz parte desse movimento mundial. Disso os espanhóis podem se orgulhar.

 Agradecimento: Carlos Pires, revisor

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