A massa e a opinião pública


Joaquina Pires-O’Brien

Num artigo anterior eu abordei o tema da opinião-pública contido no provérbio ‘a voz do povo é a voz de Deus’, quando mostrei que o original latino ‘vox populi, vox dei’, havia sido usado pelo historiador romano Tito Lívio (59 BCE – 17 AD) em sua obra Ab Urb Condita Libri (Livros Desde a Fundação da Cidade de Roma), em que criticou o método da aclamação popular para a escolha dos tribunos do império. É óbvio que nos últimos dois milênios a conceituação de opinião pública evoluiu para acompanhar a evolução da cultura ocidental. Tal evolução inclui a maneira como a informação chega até as pessoas, assim como cada indivíduo forma a própria opinião. Num extremo da evolução histórica está a situação na qual as informações chegavam quase que exclusivamente por manuscritos e destinavam-se a um número restrito de indivíduos, e dessa forma, cada indivíduo formava sua própria ideia a respeito daquilo que interessava no momento. No outro extremo está a situação na qual as informações são destinadas a um número infinito de pessoas e chegam através da imprensa, rádio, televisão e pela internet. À primeira vista este fenômeno dá a impressão de que a moeda da opinião pública desvaloriza-se à medida que aumenta as oportunidades de comunicação. Entretanto, a análise mais profunda do mesmo fenômeno mostra outra interpretação. Em algum ponto do início desse fenômeno, a informação passou a ser empregada para controlar a massa. Quando isso ocorreu a opinião pública foi substituída pela opinião de massa, a qual não passa de um embuste, uma vez que a massa não pensa.

Embora a liberdade de opinião constitua um dos direitos humanos das sociedades democráticas, isso não significa que todas as opiniões sejam iguais. É inevitável que certas opiniões ganhem o consenso e passem a ter mais chances de serem ouvidas do que outras. Entretanto, o que as democracias liberais devem evitar é que a opinião pública genuína seja trocada pela opinião de massa, como ocorreu com o bolchevismo, o nazismo e o fascismo do século vinte. Esses movimentos foram verdadeiros ‘tsunamis’ sociais pois fizeram com que o espaço anteriormente ocupado por indivíduos passasse a ser ocupado pela massa. O espanhol José de Ortega y Gasset (1883-1955) e o alemão Theodor Adorno (1903-1969), foram dois grandes filósofos que viveram nessa época e que se esforçaram para compreender a opinião pública moderna.

Ortega y Gasset foi um dos primeiros a identificar a transformação da percepção de opinião pública. Ele tinha 46 anos de idade quando escreveu A Rebelião das Massas, publicado inicialmente no jornal madrileno El Sol, e como livro em 1930, mostrando que até o século dezenove, a opinião pública era formada quando uma maioria de razoável sensibilidade passou a buscar o conhecimento da minoria de elevado saber e a debater os mais diversos assuntos nos cafés e outros recintos públicos. Após o surgimento dos movimentos coletivistas, opiniões passaram a ser pré-fabricadas e distribuídas por atacado. Segundo Ortega y Gasset, foi aí que surgiu a sociedade circunstancial ao poder das massas e o homem-massa, o indivíduo cuja personalidade singular foi aos poucos substituída pela personalidade da massa. Ele define o homem massa como sendo um filisteu da cultura, um bárbaro de caprichos ilimitados e sem moral cuja personalidade assemelha-se à de uma criança mimada que pensa apenas nos seus desejos sem mostrar nenhum sinal de gratidão àqueles a quem deve sua própria existência.

Para Ortega y Gasset há dois tipos principais de indivíduos nas sociedades, o homem vulgar e o homem excelente. O homem vulgar é definido como sendo aquele não impõe sobre si próprio nenhum esforço voltado à busca da perfeição, pois já se sente satisfeito consigo mesmo, sendo ainda altamente suscetível à despersonalização e à aderência à onda do momento e ao grupo dos ‘homens-massa’. O homem excelente, ao contrário, impõe enormes demandas a si próprio incluindo tarefas difíceis e árduas responsabilidades. O aumento dos movimentos de massa do início do século vinte criou uma peculiar conjuntura social na qual a proporção de homens excelentes diminuía à medida que proporção de homens vulgares aumentava.

Adorno, o outro filósofo a se preocupar com o tema da opinião pública, testemunhou o coletivismo do Terceiro Reich e passou a ser um dos seus mais ferrenhos críticos, embora a sua admiração pelo Marxismo e pelo socialismo soviético o tivesse impedido de reconhecer os erros do coletivismo Soviético sob Stalin. No seu livro Dialectic of Enlightenment (Dialektik der Aufklarung) , publicado inicialmente em 1947, Adorno discutiu o surgimento da cultura de massa que havia sido possibilitada pelo rádio e pelo cinema. Para ele o melhor exemplo dessa cultura de massa era a própria ‘sociedade de consumo’ criada pela indústria publicitária. Entretanto, a cultura de massa vem com efeitos colaterais como a substituição gradual da individualidade pela pseudo-individualidade, a negação da biologia natural do homem e por ter feito dos judeus o bode expiatório dos percalços econômicos da Alemanha.

Apesar de profundas, as observações de Ortega y Gasset e de Adorno sobre a opinião pública não impediram que a genuína opinião pública continuasse a ser substituída pela cultura d e massa. O que faltava era uma visão ética capaz de definir a genuína opinião pública e o seu mecanismo. Quem se incumbiu dessa tarefa foi o filósofo e sociólogo alemão Junger Habermas (1929-) que incorporou as ideias de Adorno relativas à opinião pública e à cultura de massa e as incorporou na sua ‘teoria da ação comunicativa’, onde apresenta a discussão pública como a única maneira de superar os conflitos sociais através da busca de consensos e da cooperação.

No seu livro A Transformação Estrutural da Esfera Pública (Strukturwandel der Öffenlichet), inicialmente publicado em 1962, Habermas traça a origem histórica da ‘esfera pública’, ao aparecimento da ‘grande burguesia’, termo que emprega para descrever a classe média. Ele define a ‘esfera pública’ como sendo a esfera situada entre a sociedade civil e o estado cujos atores são os indivíduos que se reúnem para discutir a política bem como a mídia, através dos jornais de ampla circulação e da indústria da publicidade.

Habermas notou que a manipulação da esfera pública havia se tornado uma prática comum, fazendo com que as questões fossem resolvidas em climas de aclamação e não pelo debate construtivo e racional. Segundo ele, as decisões plebicíticas, como aquelas obtidas por aclamação, não constituem ‘opinião pública’ genuína. Outro tipo de manipulação da opinião pública ocorre quando um incumbente coloca sobre a mesa ofertas de cunho social-psicológico de alto poder apelativo. Outras situações propícias à despersonalização do indivíduo e à manipulação da opinião pública são a burocracia elevada, a ausência de estímulo educacional à autossuperação e a inexistência de igualdade de oportunidades nos cargos públicos e privados.

Num estado grande e burocratizado é muito difícil criar as condições de debate balanceado para se chegar a consensos, pois os indivíduos detentores do poder, como os servidores públicos com emprego vitalício e os oligarcas, não só se imiscuem no debate mas entram no mesmo com a opinião formada, sendo impermeáveis à racionalismos que vão contra suas agendas. É por isso que é importante reconhecer as características capazes de distinguir entre a esfera ‘pública’ e o ambiente da ‘massa’. Na esfera ‘pública’ há um equilíbrio entre o número de opiniões dadas e recebidas, enquanto que no ambiente da ‘massa’ o número de pessoas que expressa opinião é bem menor que o número de pessoas que recebe opinião. Na esfera ‘pública’ a comunicação é sempre pública, imediata e relevante enquanto que no ambiente da ‘massa’ a comunicação não é necessariamente ser pública, e tampouco é imediata ou relevante. Na esfera ‘pública’ há sempre uma possibilidade de uma ação efetiva, ao contrário do ambiente da ‘massa’ onde as ações são controladas por autoridades. Finalmente, a esfera ‘pública’ é autônoma e não sofre coação da autoridade, enquanto que o ambiente da ‘massa’ é infiltrado por agentes ou emissários das instituições de autoridade. Em resumo, conforme mostrou Habermas, a genuína ‘opinião pública’ somente é formada quando o palco do debate racional e crítico é a esfera pública e não o ambiente da ‘massa’.

Obras Citadas:

  1. Adorno, T. & Horkheimer, M. (1997). Dialectic of Enlightenment. Verso, London, 258p. Data da 1a edição em alemão: 1944.
  2. Habermas, J. (1989). The Structural Transformation of the Public Sphere. Polity Press, Cambridge, 301p. Data da 1a edição em alemão: 1962.
  3. Ortega y Gasset, J. (1930). La Rebelión de las Massas. Google electronic books.
  4. Pires-O’Brien, J. (2010). A Voz do Povo é a Voz de Deus? PortVitoria, 2, 3 p.(www.portvitoria.com/archive.html)

Agradecimento: Elaine Meireles, revisora

4 comentários sobre “A massa e a opinião pública

    1. Prezado Anselmo,
      O seu elogio é um incentivo para continuar a escrever sobre temas que afetam a nossa sociedade. Gostaria de aproveitar para convidá-lo a visitar a revista PortVitoria que eu criei em 2010, e que também traz muitos artigos e resenhas de similar relevância. Joaquina

  1. Texto de muita clareza, denso apesar de curto e muito coerente. Uma análise científica, sem paixões ou ideologias. Fundamental para se compreender os perigos da manipulação do pensamento alheio. Parabéns!

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