Elizabeth Bishop (1911-1979)

Joaquina Pires-O’Brien

A primeira vez que eu li sobre Elizabeth Bishop, a poeta americana que viveu no Brasil entre 1952 e 1966, foi em um artigo na revista semanal The New Yorker que peguei para ler na casa da minha filha, durante uma das minhas visitas a São Francisco, em 2007. Dias depois, ao passear a pé pela redondeza de onde minha filha morava, encontrei a biblioteca pública de Castro e tendo decidido entrar, encontrei logo nos primeiros minutos a biografia de Bishop de autoria deRobert Girough, One Art, baseada numa seleção de cartas da poeta, publicada em 1994 pela Farrar, Strauss & Giroux, de Nova Iorque. Embora não seja uma leitora contumaz de poesias, folhei o referido livro, e notando as passagens sobre o Rio de Janeiro e o Brasil, decidi lê-lo ali mesmo na biblioteca, sabendo que teria que retornar noutro dia para concluir a leitura. O artigo no The New Yorker e a biografia na biblioteca não eram fatores isolados e nem coincidências. Enquanto viva Bishop publicou muitas poesias e contos em The New Yorker, que vez por outra continua a publicar matérias sobre ela. São Francisco é conhecida como a meca da arte e da liberalidade americana e Bishop pertence ao rol de artistas que passaram por lá, tendo morado no elegante bairro Pacific Heights entre 1968e 1970. Além do mais, Bishop era lésbica e isso é mais uma conexão com Castro, o bairro preferido da população gay de São Francisco. Mas o meu interesse por Bishop era descobrir a visão dela do Brasil, esperando uma perspectiva interessante devido à sua situação de estrangeira e culta.

 Biografia Resumida (baseada em: Schwartz, L. 1991, Girough 1994).

Nascida em Worcester, Massachusetts, em 1911, a vida Elizabeth Bishop foi repleta de aventuras e de tragédias. Quando tinha apenas oito meses de idade ela perdeu o pai e sua mãe foi internada por problemas mentais quando ainda era pequena, o que a levou a viver com os avós maternos na Nova Escócia, Canadá. Bishop retornou a Worcester depois que os avós paternos, melhor situados financeiramente, ganharam a sua guarda. Ela fez o curso secundário num exclusivo colégio interno para moças, em Natick, Massachusetts, onde ela revelou sua aptidão para a música, chegando a cogitar uma carreira de concertista, embora tivesse mudado de ideia devido à timidez. Em 1929, pouco antes da grande quebra da bolsa de valores, ela entrou para o prestigiado Vassar College, no estado de Nova Iorque, onde estudou inglês e literatura. No seu último ano em Vassar ela foi uma das fundadoras da revista literária Com Spirito,  com mais quatro colegas. Nessa mesma ocasião ela conheceu a poeta Marianne Moore, que tomou um interesse pela jovem e foi sua mentora e amiga.

 Logo depois de se formar em 1934 ela foi morar na cidade de Nova Iorque, onde se encontrava quando publicou seu primeiro livro, mudando-se depois para a Flórida. Ela viajou bastante por diversas partes do mundo. Em 1937 ela passou seis meses na França e nove meses no México em 1943.  Continuou escrevendo poesias e contos, e em 1946 publicou o seu primeiro livro de poesias, North & South, que apesar da pequena tiragem chamou a atenção de do poeta e crítico Robert Lowell. Em 1951 Bishop ganhou um estipêndio de viagem do Bryn Mawr College, e em novembro desse ano partiu num navio que ia para a Terra do Fogo. Quando o navio aportou em Santos, ela desembarcou para uma temporada de duas semanas. De Santos ela resolveu visitar o Rio de Janeiro e pessoas que ela havia conhecido quando morava em Nova Iorque.  Ao chegar ao Rio ela passou mal depois de comer uma fruta comprada na rua e precisou ser hospitalizada, não podendo continuar a sua viagem de navio.

 Bishop recebeu a ajuda de Lota, uma das pessoas que ela havia conhecido em Nova Iorque, cujo nome completo era Maria Carlota de Macedo Soares. Arquiteta autodidata, culta, viajada e rica, Lota era uma das duas herdeira do proprietário do ‘Diário Carioca’ e tinha um grande círculo de amigos entre os quais se encontrava o jornalista Carlos Werneck Lacerda, que escrevia para o jornal do seu pai e que mais tarde se tornaria governador do antigo Estado da Guanabara. Bishop e Lota iniciaram então um relacionamento sério, o que resultou em Bishop ir morar com/ou perto de Lota, no sítio de Alcobacinha, em Petrópolis, em uma arrojada casa em estilo contemporâneo ganhadora de um importante prêmio de arquitetura. Bishop também tinha um estúdio próximo, onde costumava escrever e pintar.

 Durante a sua passagem pelo Brasil Bishop testemunhou diversos episódios importantes da história brasileira como o suicídio de Getúlio Vargas, a construção de Brasília, a queda de Jânio Quadros e o golpe militar de 31 de março de 1964. Ela também viajou bastante pelo Brasil, especialmente durante a ocasião que juntava material para o seu livro Brazil, comissionado pela editora americana Life. Além de ter capturado o Brasil no seu livro documentário, ela também retratou a cultura brasileira na sua poesia, como a balada O Ladrão da Babilônia, inspirada na experiência de ver um homem sair correndo pelos becos tortuosos do Rio (a Babilônia) perseguido pela polícia carioca. A biografia de Girough sugere que Bishop não buscou imiscuir-se nas altas rodas do mundo de Lota, preferindo ocupar-se com sua poesia e também com a pintura. Girough também mostra que ela era uma correspondente contumaz e que durante sua estadia no Brasil manteve-se ligada aos acontecimentos culturais dos Estados Unidos, para onde ela periodicamente enviava seus poemas e contos para publicação.

 Além de morar em Petrópolis e ir regularmente ao Rio, Bishop e Lota costumavam passar temporadas em Ouro Preto. O relacionamento entre as duas começou a se deteriorar a partir de 1961, quando  Lota se envolveu no projeto paisagístico do Parque do Flamengo, projetado por Roberto Burle Marx, o que fez com que passasse cada vez mais tempo no Rio, descuidando-se da amiga que havia ficado no sítio em Petrópolis. Bishop às vezes ia a Ouro Preto sozinha, e numa dessas viagens resolveu comprar uma casa e reformá-la, atribuindo à mesma o nome de ‘Casa Mariana’, em homenagem à poeta Marianne Moore. Bishop tinha problemas de depressão que se exacerbaram com a ausência de Lota e fizeram com que buscasse cada vez mais refúgio na bebida. Lota por sua vez tinha problemas psicológicos cuja manifestação mais séria ainda estava por vir.

 Em 1966 Bishop aceitou um cargo de professor da Universidade de Washington, em Seattle, onde iria conduzir alguns workshops de poesia. No verão de 1967 ela passou uma temporada em Nova Iorque e combinou de se encontrar com Lota lá. Na mesma noite em que chegou a Nova Iorque, Lota tomou uma overdose de tranquilizantes, e entrou em um coma fatal de cinco dias. A biografia de Girough não apresenta explicações sobre a motivação de Lota ou sobre o seu estado de espírito, deixando espaço para muita especulação.

 Depois da morte de Lota, Bishop foi passar uma temporada em São Francisco, retornando ao Brasil um ano e pouco depois para uma temporada em Ouro Preto. Ela retornou diversas vezes a Ouro Preto até o ano de 1974.  Entretanto, a presença de Bishop no Brasil, acompanhada de um novo relacionamento, provocou algumas reações hostis por parte de amigos de Lota e de outras pessoas. Após experimentar insinuações, preconceitos, invejas e até acusações ela decidiu vender a casa e não retornou mais ao Brasil. De São Francisco Bishop foi morar entre Cambridge e Boston, após ter sido convidada a lecionar na Universidade de Harvard. O seu apartamento de Boston, de frente para o harbour, era considerado uma galeria de artefatos do Brasil. Bishop faleceu em seis de outubro de 1979 de aneurisma cerebral.

 Meus Encontros com Bishop

De volta à Inglaterra, ao examinar livros à venda em um dos jardins expostos durante o festival open gardens de Yoxford, adquiri uma antologia de poesias de mulheres do século vinte, editada por Fleur Adcock, 1987, apenas pelo fato da mesma ter quinze poesias de Bishop e treze de Marianne Moore (1887-1972), sua mentora e amiga. Essa antologia inclui algumas poesias dedicadas ao Brasil, como ‘Brazil, January 1, 1502’, onde faz um paralelo entre a chegada dos portugueses e a sua própria chegada, ambos tentando entender e conquistar a nova terra. Por algum motivo a antologia não incluiu ‘One Art’ (Uma Arte), sua poesia mais famosa, um arremate de relacionamento escrita no característico estilo de conversação da poeta.  ‘One Art’ é também o título da biografia acima mencionada.

 Poetas famosos como Marianne More (1887-1972) e Robert Lowell (1917-1977) reconheceram o talento de Bishop desde o início e foram seus amigos. Todas as poesias de Bishop têm a ver com o espaço, o tempo e as pessoas ao seu redor, e são escritas num linguajar coloquial e sem afetações. Das paisagens de infância na Nova Escócia às favelas do Rio de Janeiro, a poesia de Bishop cobre variadas relações entre o ser humano e o mundo. As poesias de Bishop costumavam ter uma gestação prolongada; muitas eram deixadas de molho durante anos, para serem concluídas apenas quando fosse capaz de desatar o nó psicológico do tema em questão, e que era uma condição para a atender ao seu gabarito técnico.

 Bishop é também uma importante referência na tradução de poesias. Ela própria traduziu para o inglês alguns poetas modernistas brasileiros, e para o português, os poetas americanos Robert Lowell e Marianne Moore. Mais tarde, uma seleção dos seus poemas referentes à cultura brasileira foram traduzidos para o português por Paulo Henriques Britto e publicado em 1999 pela Companhia das Letras. Ela também escreveu contos e publicou em livros de prosa, como Brazil (1962) e Memories of Uncle Neddt (1976). Aliás, depois de ter encomendado um exemplar de Brazil através de um associado da livraria Amazon é que percebi que eu já conhecia esse livro desde 1971, quando preparava a palestra de exchange student que tinha que fazer na Conard High School, em West Hartford, no estado de Connecticut.

 Fãs Brasileiros de Bishop

Aos poucos Bishop começa a ganhar público no Brasil. A professora Thais Flores Nogueira Diniz, da Universidade Federal de Minas Gerais, escreveu o interessantíssimo ensaio ‘Imagens do Brasil na Poesia de Elizabeth Bishop’, onde explica as entrelinhas do poema ‘The Burglar of Babylon’, ‘O Ladrão da Babilônia’, ao mesmo tempo em que analisa as técnicas de tradução empregadas para capturar a essência da história de Micuçú, um miserável morador de favela que acabou se tornando um fora da lei:

“’The Burglar of Babylon’ gira em torno de um personagem que simboliza, ao mesmo tempo, o imigrante do norte, o favelado, e as várias gerações de brasileiros que enfrentam as agruras de pertencerem a uma classe menos favorecida e de serem eternamente perseguidos pela polícia. É a história de Micuçú e tantos outros brasileiros de boa família, que se tornam ladrões por força das circunstâncias. Como as baladas tradicionais americanas, que contam a história dos fora da lei como Jesse James e Sam Bass, o poema narra a história de um brasileiro, também um fora da lei.

O poema inicia com a comparação entre os migrantes que vêm para o Rio de Janeiro e as aves de arribação. São “milhões de pardais”, diz o poema, que migram e param para descansar, fazendo seus ninhos frágeis, “de madeira e papelão”, segundo Paulo Henriques Britto. Esses barracões são construídos provisoriamente como os ninhos das aves migratórias, mas acabam se tornando perenes, “como os liquens”, que grudam e se espalham. Ao virem para o Rio, “os pardais” se instalam nos morros. O herói do nosso poema se instala no Morro da Babilônia, a capital de um antigo Império, local de prazeres e luxúria, a antítese de Jerusalém e do paraíso. Etimologicamente, Babilônia significa “a porta de deus”, porém de um deus pervertido em homem, no que ele tem de mais vil: o instinto de dominação e a luxúria. Como a Babilônia significa também o triunfo passageiro, o lugar onde se aprende magia para usá-la para a destruição, serve bem para simbolizar a moradia de Micuçú, o herói do poema.”

 Outra brasileira que se interessou por Bishop é Renata Megale, que lamentou a ausência de relançamentos sobre a autora na ocasião do centenário do seu nascimento e comentou sobre o monólogo de Marta Góes inspirado na vida de Bishop num interessante post publicado em 08/02/2011, no blog Meus Livros, da revista Veja. Escreveu Megale:

‘Centenário de Bishop tem comemoração tímida no Brasil’

 ‘Se o centenário de Bishop não tem a festa merecida no mercado editorial, ele é celebrado no cinema e no teatro. O cineasta Bruno Barreto começa a rodar no segundo semestre deste ano o longa A Arte de Perder, também sobre o romance da poeta com Lota. O elenco já conta com Glória Pires e há boatos de que Jodie Foster seria uma das atrizes americanas cotadas para interpretar a escritora. No teatro, a peça Um Porto para Elizabeth Bishop, monólogo da jornalista e escritora Marta Góes e encenada pela atriz Regina Braga, também tem reestreia prevista para este ano.’

 Segundo os entendidos em poesia, Elizabeth Bishop foi a mais premiada de sua geração de poetas. A lista a seguir mostra os diversos prêmios e honrarias que Bishop recebeu.

 Prêmios e Distinções de Elizabeth Bishop

1945: Houghton Mifflin Poetry Prize Fellowship

1947: Guggenheim Fellowship

1949: Appointed Consultant in Poetry at the Library of Congress

1950: American Academy of Arts and Letters Award

1951: Lucy Martin Donelly Fellowship (awarded by Bryn Mawr College)

1953: Shelley Memorial Award

1954: Elected to lifetime membership in the National Institute of Arts and Letters

1956: Pulitzer Prize for Poetry

1960: Chapelbrook Foundation Award

1964: Academy of American Poets Fellowship

1968: Fellow of the American Academy of Arts and Sciences

1968: Ingram-Merrill Foundation Grant

1969: National Book Award

1969: Ordem do Rio Branco, do governo brasileiro

1974: Harriet Monroe Poetry Award

1976: Books Abroad/Neustadt International Prize

1976: Elected to the American Academy of Arts and Letters

1977: National Book Critics Circle Award

1978: Guggenheim Fellowship

 Conclusão

Examinando a relação acima podemos notar que mais da metade dos prêmios acima listados foram ganhos durante o período em que Bishop morou no Brasil. Este fato levantou minha curiosidade quanto a relação entre Bishop e outros artistas e intelectuais brasileiros. Bishop aprendeu a falar e escrever em português e a preparar pratos da culinária brasileira. Traduziu poesias do inglês para o português e vice-versa. Dentre os poetas brasileiros que Bishop traduziu encontram-se Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Drummond gostou das suas traduções e correspondeu com ela, mas os dois não chegaram a se conhecer pessoalmente. Mas, e os demais poetas que ela traduziu e ajudou a promover nos Estados Unidos? Por acaso algum deles a convidou para qualquer coisa? Quem sabe um café na Confeitaria Colombo quando ela resolvesse descer a serra? Com que outros intelectuais ou artistas brasileiros Bishop conviveu? Por acaso foi convidada para fazer alguma palestra em um dos bons colégios secundários do Rio ou de Petrópolis? Sabemos que ela foi professora visitante da Universidade de Washington, em Seattle, e da Universidade de Harvard, em Cambridge. Será que ela chegou a ser convidada ao menos a proferir um seminário no Departamento de Letras da Faculdade Nacional de Filosofia? No curto período em que morou em São Francisco ela leu poesias em teatros e socializou com outros artistas. Será que fez qualquer coisa parecida em Petrópolis, Rio ou Ouro Preto? Tirando o círculo de amigos de Lota, quantos brasileiros tomaram conhecimento da presença de Bishop no Brasil e desses, quantos chegaram a reconhecer o seu talento enquanto ela ainda estava no Brasil?

 Referências

Adcock, F., Editor (1987). 20th Century Women’s Poetry. Faber & Faber Limited. London, ISBN-0-571-13693-1

Bishop, E. (1962).  Brazil. Part of Life World Library. Time Incorporated. ISBN-10: 0705401545

Bishop, E. and The Editors of Life. (1983).  The Complete Poems, 1927-1979. Farrar, Straus and Giroux. ISBN-10: 0374518173

Girough, Robert (1994). Elizabeth Bishop. One Art’, Farrar, Strauss & Giroux, New York.

Schwartz, L. (1991). Elizabeth Bishop and Brazil. The New Yorker, Sep 30.

 Beccles, 25 de junho de 2012

Veja algumas poesias de Elizabeth Bishop em:http://www.portvitoria.com/poetry_cafe.html

Agradecimento: Isabel Pires, revisão

O fascínio dos ditadores

Joaquina Pires-O’Brien

O teorista social Max Weber colocou o carisma como uma das três fontes de poder, ao lado do poder legal e do poder tradicional. Weber também reconheceu que a pessoa carismática é uma autoridade personalizada, que consegue impor sua vontade mesmo quando há oposições por parte de outros atores.  Via o poder como uma ascendência, uma capacidade de fazer com que as pessoas obedeçam por si próprias ao indivíduo carismático. Uma análise comparada das biografias de Joseph Stálin (1879-1953), Adolf Hitler (1889-1945) e Mao Zedong (1893-1976), os três maiores ditadores do século vinte, mostra o carisma como denominador comum dos três líderes.

Stalin, o primeiro dos ditadores acima mencionado, foi o responsável pela morte de quase seis milhões de pessoas entre prisioneiros dos gulags e pessoas que morreram na fome da Ucrânia. Apesar de tudo Stalin exercia um enorme fascínio tanto dentro quanto fora da União Soviética. Um exemplo do fascínio de Stálin é o trecho a seguir, uma nota publicada no Diário de Moscou, escrito por um narrador que estava acompanhado de um jovem poeta chamado Boris Pasternack (1890-1960), um protegido de Stalin que uma década depois enxergaria a verdade sobre o mesmo:

“O excitamento do auditório! E Ele ficou um tanto cansado, pensativo e majestoso. Dava à gente uma sensação de poder, uma enorme confiança na autoridade, e ao mesmo tempo, algo de feminino e macio. Eu olhei ao meu redor. Todo mundo trazia [no semblante] fascinação, enternecimento, inspiração e um sorriso nos olhos. Vê-lo – simplesmente vê-lo– que felicidade para todos nós. … Quando aplaudido, ele tirou seu relógio de bolso e o mostrou aos expectadores com um sorriso prazeroso. Todos cochichávamos uns com os outros, ‘O relógio dele, o relógio dele, ele está apontando para o relógio dele,’ e quando estávamos saindo, nós mais uma vez pensamos naquele relógio enquanto apanhávamos nossos casacos e chapéus… Pasternak e eu caminhamos juntos para casa e nós dois estávamos jubilantes de alegria”(1).

O carisma de Stalin perdurou por um bom tempo depois de sua morte, ainda mais em comparação com o seu sucessor, Nikita Kruschev. Quando Krushev denunciou os crimes de Stálin durante uma seção fechada do Vigésimo Congresso do Partido Comunista, no meio do seu discurso uma voz da audiência o interrompeu: “Camarada onde é que estava você quando tudo isso acontecia?” Kruschev parou. “Quem disse isso?” ele bracejou. Ninguém se moveu. “Quem ousou dizer isso?” ele tornou a perguntar, e mais uma vez ninguém respondeu. Kruschev então voltou a falar com calma e disse: “Era ali mesmo que eu estava”. E ao final do discurso, apenas o silêncio completo do auditório.

Stalin foi também cultuado fora da União Soviética, graças à máquina de propaganda do estado soviético. Dentre os diversos intelectuais latino-americanos que deixaram um registro de sua admiração pelo ditador talvez o mais notável tenha sido o poeta chileno Pablo Neruda, como pode ser constatado nos versos abaixo sobre seu herói.

“En tres habitaciones del viejo Kremlin

vive un hombre llamado José Stalin.

Tarde se apaga la luz de su cuarto.

El mundo y su patria no le dan reposo.

Otros héroes han dado a luz una patria,

él además ayudó a concebir la suya,

a edificarla

a defenderla.

Su inmensa patria es, pues, parte de él mismo

y no puede descansar porque ella no descansa.

En otro tiempo la nieve y la pólvora

lo encontraron frente a los viejos bandidos

que quisieron (como ahora otra vez) revivir

el knut, y la miseria, la angustia de los esclavos,

el dormido dolor de millones de pobres.

Él estuvo contra los que como Wralgel y Denikin

Fueron enviados desde Occidente para «defender la

Cultura».

Allí dejaron el pellejo aquellos defensores

de los verdugos, y en el ancho terreno

de la URSS, Stalin trabajó noche y día.

Pero más tarde vinieron en una ola de plomo

los alemanes cebados por Chamberlain.

Stalin los enfrentó en todas las vastas fronteras,

en todos los repliegues, en todos los avances

y hasta Berlín sus hijos como un huracán de pueblos

llegaron y llevaron la paz ancha de Rusia”. (2)

O segundo ditador carismático analisado neste ensaio é Hitler, cujo poder de sedução é evidenciado pela seguinte citação do sindicalista Anton Dexteler (1884-1942), do Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP) fundado em 1919:

“Hitler era um deleite de assistir”. “Drexler mal conseguia conter seu excitamento: ‘Quando o palestrante terminou eu corri em sua direção, agradeci a ele pelo que havia dito e lhe pedi que aceitasse o panfleto que trazia para ler, porque nós precisávamos de pessoas como ele”.

Parte do carisma de Hitler era devido à sua retórica. Seus discursos eram sempre num linguajar simples e direto, e sentenças curtas salpicadas de slogans carregados, onde tudo era absoluto, irrevogável e final. Hitler era um adepto fervoroso da doutrina Germanocêntrica baseada em ideias errôneas sobre raça e cultura, como a ideia de que os povos germânicos constituíam uma raça pura e superior e que devido a isso a Alemanha era o sucedâneo natural da civilização clássica Greco-românica. Como essa doutrina era também a doutrina do seu partido, então renomeado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), o partido Nazista, não foi difícil para ele inculcar a ideia de que ele era a pessoa certa para transformar a Alemanha no império a que estava predestinada. Com a vitória do Partido Nacional Socialista em 1932, Hitler chegou ao poder. Hitler tinha uma boa noção do poder da imagem. O título de “Führer” que adotou e cujo significado literal é “Lorde” ou “Senhor”, foi promovido no sentido de resgatador do prestígio da Alemanha após a humilhação do Tratado de Versalhes. Hitler empregou ao máximo a sua imagem para acumular mais poderes, orquestrando mudanças constitucionais e até criando uma igreja do Terceiro Reich que misturava princípios cristãos com misticismos.

Hitler foi o responsável pela morte de cerca de 12 milhões de pessoas, contando apenas civis e pessoas que morreram nos campos de concentração. A maioria dos seus colaboradores mais próximos tinham distúrbios graves de personalidade, conforme constatado pelos psiquiatras que examinaram as personalidades dos acusados de crimes de guerra no tribunal de Nuremberg. Eles ficaram impressionados com a insegurança latente de Rodolfo Hess, que até sua fuga para a Escócia em 1941, tinha sido o segundo homem do Terceiro Reich. Hess, que acompanhara Hitler desde o início de sua trajetória política, tinha uma veneração religiosa pelo Führer, quem ele acreditava ser um enviado de Deus.

O terceiro ditador descrito é Mao Zedong, anteriormente conhecido como Mao Tse-tung, cuja trajetória no poder deixou um saldo de mortos estimado entre 49 e 78 milhões. Mao foi um dos fundadores do Partido Comunista Chinês (CCP), criado 1921, e em 1945 ele passou a liderar o partido, em meio a uma Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas. Com a vitória do CCP em 1949, Mao chegou ao poder e criou a República Popular da China.

Uma evidência do poder carismático de Mao é dada por Zhang Hanzji, sua professoara de inglês: “Eu fiquei pasmada com a força da sua personalidade. Ele era inteligente e conhecedor, razoável e considerado”(3). Zhang era uma diplomata, que a despeito de uma infância trágica de criança abandonada, havia conseguido chegar aos corredores do poder. Ela conheceu Mao em 1963 quando acompanhou seu pai adotivo, diretor de um instituto de pesquisa, a uma festa de aniversário em homenagem a Mao. Pablo Neruda dá outra evidência do poder carismático de Mao, na seguinte poesia a ele dedicada:

Frente a Mao Tse-tung

el pueblo desfilaba.

No eran aquellos

hambrientos y descalzos

que descendieron

las áridas gargantas,

que vivieron en cuevas,

que se comieron raíces,

y que cuando bajaron

fueron viento de acero,

viento de acero de Yennan y el Norte.

Hoy otros hombres desfilaban,

sonrientes y seguros,

decididos y alegres,

pisando fuertemente la tierra liberada

de la patria más ancha.(4)

Embora o carisma possa ser usado como uma força positiva, na maior parte das vezes isso não ocorre. O grande problema dos líderes carismáticos é a excessiva autoconfiança, a ponto deles próprios acreditarem que são infalíveis. Entretanto, conforme um conhecido aforismo, “é possível enganar o todo o povo por algum tempo e até uma parte do povo por todo o tempo, mas não é possível enganar todo o povo por todo o tempo” (5). Como mostra a psicologia, a insegurança faz com que certas pessoas se apeguem de forma exagerada aos carismáticos. Isso explica por que os líderes carismáticos costumam viver cercados de sicofantas formados quase sempre por pessoas inseguras que precisam da sua força superior. Weber , que nem psicólogo era, explicou a relação entre carisma e poder: o carisma tem poder e o poder tem carisma. Os ditadores carismáticos aprendem desde cedo a alavancar a insegurança das pessoas com promessas de que usará seu poder para realizar algum desígnio do povo.

Existe um círculo vicioso na ascendência que o carismático tem sobre as outras pessoas. O que é preciso para interromper tal circuito vicioso não é inteligência e tampouco o conhecimento. Os exemplos de Stalin, Hitler e Mao mostram que o carisma desses ditadores seduziu não só as pessoas comuns mas simples mas também os intelectuais, artistas e cientistas. A chave capaz de romper o círculo vicioso do poder do carismático que protege os ditadores e os bullies desse mundo é a razoabilidade. À medida que a população vai ficando mais esclarecida, também vai ficando mais imune à sedução do carisma. Quem sabe um dia o fascínio dos ditadores não venha a se tornar mais um atavismo da condição humana. 

Notas:

(1)    Diário de Moscou, versão inglesa de Emma Gerstein, publicada no post de Nina Witoszek de 07/05/2010.

(2)    Pablo Neruda, Obras completas I. RBA. Barcelona, 2005, pág. 746; citado por José María García de Tuñon Aza  em El Cattobeplas, 122, abril 2012, p. 9.

(3)     Tutor to a Tyrant: the life of Chairman Mao’s English teacher”, em http://www.independent.co.uk/news/world/asia/, 08/08/2011.

(4)    Pablo Neruda, Obras…, pág. 931. citado por José María García de Tuñon Aza  em El Cattobeplas, 122, abril 2012, p. 9.

(5)    Frase citada por Abraham Lincoln e atribuída a Phineas Barnum, um comediante americano do século dezenove dotado de uma enorme capacidade de sintetizar ideias e valores do dia a dia.

Agradecimento: Carlos Pires, revisor