O fascínio dos ditadores


Joaquina Pires-O’Brien

O teorista social Max Weber colocou o carisma como uma das três fontes de poder, ao lado do poder legal e do poder tradicional. Weber também reconheceu que a pessoa carismática é uma autoridade personalizada, que consegue impor sua vontade mesmo quando há oposições por parte de outros atores.  Via o poder como uma ascendência, uma capacidade de fazer com que as pessoas obedeçam por si próprias ao indivíduo carismático. Uma análise comparada das biografias de Joseph Stálin (1879-1953), Adolf Hitler (1889-1945) e Mao Zedong (1893-1976), os três maiores ditadores do século vinte, mostra o carisma como denominador comum dos três líderes.

Stalin, o primeiro dos ditadores acima mencionado, foi o responsável pela morte de quase seis milhões de pessoas entre prisioneiros dos gulags e pessoas que morreram na fome da Ucrânia. Apesar de tudo Stalin exercia um enorme fascínio tanto dentro quanto fora da União Soviética. Um exemplo do fascínio de Stálin é o trecho a seguir, uma nota publicada no Diário de Moscou, escrito por um narrador que estava acompanhado de um jovem poeta chamado Boris Pasternack (1890-1960), um protegido de Stalin que uma década depois enxergaria a verdade sobre o mesmo:

“O excitamento do auditório! E Ele ficou um tanto cansado, pensativo e majestoso. Dava à gente uma sensação de poder, uma enorme confiança na autoridade, e ao mesmo tempo, algo de feminino e macio. Eu olhei ao meu redor. Todo mundo trazia [no semblante] fascinação, enternecimento, inspiração e um sorriso nos olhos. Vê-lo – simplesmente vê-lo– que felicidade para todos nós. … Quando aplaudido, ele tirou seu relógio de bolso e o mostrou aos expectadores com um sorriso prazeroso. Todos cochichávamos uns com os outros, ‘O relógio dele, o relógio dele, ele está apontando para o relógio dele,’ e quando estávamos saindo, nós mais uma vez pensamos naquele relógio enquanto apanhávamos nossos casacos e chapéus… Pasternak e eu caminhamos juntos para casa e nós dois estávamos jubilantes de alegria”(1).

O carisma de Stalin perdurou por um bom tempo depois de sua morte, ainda mais em comparação com o seu sucessor, Nikita Kruschev. Quando Krushev denunciou os crimes de Stálin durante uma seção fechada do Vigésimo Congresso do Partido Comunista, no meio do seu discurso uma voz da audiência o interrompeu: “Camarada onde é que estava você quando tudo isso acontecia?” Kruschev parou. “Quem disse isso?” ele bracejou. Ninguém se moveu. “Quem ousou dizer isso?” ele tornou a perguntar, e mais uma vez ninguém respondeu. Kruschev então voltou a falar com calma e disse: “Era ali mesmo que eu estava”. E ao final do discurso, apenas o silêncio completo do auditório.

Stalin foi também cultuado fora da União Soviética, graças à máquina de propaganda do estado soviético. Dentre os diversos intelectuais latino-americanos que deixaram um registro de sua admiração pelo ditador talvez o mais notável tenha sido o poeta chileno Pablo Neruda, como pode ser constatado nos versos abaixo sobre seu herói.

“En tres habitaciones del viejo Kremlin

vive un hombre llamado José Stalin.

Tarde se apaga la luz de su cuarto.

El mundo y su patria no le dan reposo.

Otros héroes han dado a luz una patria,

él además ayudó a concebir la suya,

a edificarla

a defenderla.

Su inmensa patria es, pues, parte de él mismo

y no puede descansar porque ella no descansa.

En otro tiempo la nieve y la pólvora

lo encontraron frente a los viejos bandidos

que quisieron (como ahora otra vez) revivir

el knut, y la miseria, la angustia de los esclavos,

el dormido dolor de millones de pobres.

Él estuvo contra los que como Wralgel y Denikin

Fueron enviados desde Occidente para «defender la

Cultura».

Allí dejaron el pellejo aquellos defensores

de los verdugos, y en el ancho terreno

de la URSS, Stalin trabajó noche y día.

Pero más tarde vinieron en una ola de plomo

los alemanes cebados por Chamberlain.

Stalin los enfrentó en todas las vastas fronteras,

en todos los repliegues, en todos los avances

y hasta Berlín sus hijos como un huracán de pueblos

llegaron y llevaron la paz ancha de Rusia”. (2)

O segundo ditador carismático analisado neste ensaio é Hitler, cujo poder de sedução é evidenciado pela seguinte citação do sindicalista Anton Dexteler (1884-1942), do Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP) fundado em 1919:

“Hitler era um deleite de assistir”. “Drexler mal conseguia conter seu excitamento: ‘Quando o palestrante terminou eu corri em sua direção, agradeci a ele pelo que havia dito e lhe pedi que aceitasse o panfleto que trazia para ler, porque nós precisávamos de pessoas como ele”.

Parte do carisma de Hitler era devido à sua retórica. Seus discursos eram sempre num linguajar simples e direto, e sentenças curtas salpicadas de slogans carregados, onde tudo era absoluto, irrevogável e final. Hitler era um adepto fervoroso da doutrina Germanocêntrica baseada em ideias errôneas sobre raça e cultura, como a ideia de que os povos germânicos constituíam uma raça pura e superior e que devido a isso a Alemanha era o sucedâneo natural da civilização clássica Greco-românica. Como essa doutrina era também a doutrina do seu partido, então renomeado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), o partido Nazista, não foi difícil para ele inculcar a ideia de que ele era a pessoa certa para transformar a Alemanha no império a que estava predestinada. Com a vitória do Partido Nacional Socialista em 1932, Hitler chegou ao poder. Hitler tinha uma boa noção do poder da imagem. O título de “Führer” que adotou e cujo significado literal é “Lorde” ou “Senhor”, foi promovido no sentido de resgatador do prestígio da Alemanha após a humilhação do Tratado de Versalhes. Hitler empregou ao máximo a sua imagem para acumular mais poderes, orquestrando mudanças constitucionais e até criando uma igreja do Terceiro Reich que misturava princípios cristãos com misticismos.

Hitler foi o responsável pela morte de cerca de 12 milhões de pessoas, contando apenas civis e pessoas que morreram nos campos de concentração. A maioria dos seus colaboradores mais próximos tinham distúrbios graves de personalidade, conforme constatado pelos psiquiatras que examinaram as personalidades dos acusados de crimes de guerra no tribunal de Nuremberg. Eles ficaram impressionados com a insegurança latente de Rodolfo Hess, que até sua fuga para a Escócia em 1941, tinha sido o segundo homem do Terceiro Reich. Hess, que acompanhara Hitler desde o início de sua trajetória política, tinha uma veneração religiosa pelo Führer, quem ele acreditava ser um enviado de Deus.

O terceiro ditador descrito é Mao Zedong, anteriormente conhecido como Mao Tse-tung, cuja trajetória no poder deixou um saldo de mortos estimado entre 49 e 78 milhões. Mao foi um dos fundadores do Partido Comunista Chinês (CCP), criado 1921, e em 1945 ele passou a liderar o partido, em meio a uma Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas. Com a vitória do CCP em 1949, Mao chegou ao poder e criou a República Popular da China.

Uma evidência do poder carismático de Mao é dada por Zhang Hanzji, sua professoara de inglês: “Eu fiquei pasmada com a força da sua personalidade. Ele era inteligente e conhecedor, razoável e considerado”(3). Zhang era uma diplomata, que a despeito de uma infância trágica de criança abandonada, havia conseguido chegar aos corredores do poder. Ela conheceu Mao em 1963 quando acompanhou seu pai adotivo, diretor de um instituto de pesquisa, a uma festa de aniversário em homenagem a Mao. Pablo Neruda dá outra evidência do poder carismático de Mao, na seguinte poesia a ele dedicada:

Frente a Mao Tse-tung

el pueblo desfilaba.

No eran aquellos

hambrientos y descalzos

que descendieron

las áridas gargantas,

que vivieron en cuevas,

que se comieron raíces,

y que cuando bajaron

fueron viento de acero,

viento de acero de Yennan y el Norte.

Hoy otros hombres desfilaban,

sonrientes y seguros,

decididos y alegres,

pisando fuertemente la tierra liberada

de la patria más ancha.(4)

Embora o carisma possa ser usado como uma força positiva, na maior parte das vezes isso não ocorre. O grande problema dos líderes carismáticos é a excessiva autoconfiança, a ponto deles próprios acreditarem que são infalíveis. Entretanto, conforme um conhecido aforismo, “é possível enganar o todo o povo por algum tempo e até uma parte do povo por todo o tempo, mas não é possível enganar todo o povo por todo o tempo” (5). Como mostra a psicologia, a insegurança faz com que certas pessoas se apeguem de forma exagerada aos carismáticos. Isso explica por que os líderes carismáticos costumam viver cercados de sicofantas formados quase sempre por pessoas inseguras que precisam da sua força superior. Weber , que nem psicólogo era, explicou a relação entre carisma e poder: o carisma tem poder e o poder tem carisma. Os ditadores carismáticos aprendem desde cedo a alavancar a insegurança das pessoas com promessas de que usará seu poder para realizar algum desígnio do povo.

Existe um círculo vicioso na ascendência que o carismático tem sobre as outras pessoas. O que é preciso para interromper tal circuito vicioso não é inteligência e tampouco o conhecimento. Os exemplos de Stalin, Hitler e Mao mostram que o carisma desses ditadores seduziu não só as pessoas comuns mas simples mas também os intelectuais, artistas e cientistas. A chave capaz de romper o círculo vicioso do poder do carismático que protege os ditadores e os bullies desse mundo é a razoabilidade. À medida que a população vai ficando mais esclarecida, também vai ficando mais imune à sedução do carisma. Quem sabe um dia o fascínio dos ditadores não venha a se tornar mais um atavismo da condição humana. 

Notas:

(1)    Diário de Moscou, versão inglesa de Emma Gerstein, publicada no post de Nina Witoszek de 07/05/2010.

(2)    Pablo Neruda, Obras completas I. RBA. Barcelona, 2005, pág. 746; citado por José María García de Tuñon Aza  em El Cattobeplas, 122, abril 2012, p. 9.

(3)     Tutor to a Tyrant: the life of Chairman Mao’s English teacher”, em http://www.independent.co.uk/news/world/asia/, 08/08/2011.

(4)    Pablo Neruda, Obras…, pág. 931. citado por José María García de Tuñon Aza  em El Cattobeplas, 122, abril 2012, p. 9.

(5)    Frase citada por Abraham Lincoln e atribuída a Phineas Barnum, um comediante americano do século dezenove dotado de uma enorme capacidade de sintetizar ideias e valores do dia a dia.

Agradecimento: Carlos Pires, revisor

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