Uma visita à Noruega


De 15 a 22 de setembro de 2012 eu visitei Bergen, na Noruega, acompanhando meu marido na conferência anual do CIEM/ICES, o Centro Internacional da Exploração dos Mares. Geograficamente, a Noruega faz parte da península Escandinava, juntamente com a Dinamarca e a Suécia, e Bergen fica na costa sudoeste, na mesma latitude que a Escócia e o Alaska.
A Noruega é um comprido país a oeste da Suécia, caracterizado por uma enorme quantidade de ilhas e pelos típicos fiordes, que são entradas estreitas e profundas do mar na costa montanhosa. Os fiordes resultaram da erosão causada pela retração dos glaciares – rios de gelo formados nas grandes alturas pela acumulação de neve, que ao final da idade do gelo passaram a se deslocar lentamente para baixo.

Fundada em 1070 d.C., pelo rei Olavo Kyrre, Bergen é uma das cidades mais antigas da Noruega. Por volta de 1100 d.C. Bergen notabilizou-se pelo comércio marítimo, sendo o seu produto principal o bacalhau salgado, que durante a Idade Média enriqueceu os mercadores Saxões afiliados à Liga Hanseática, uma rede de postos de importação e exportação distribuídos por toda a Europa, e que no final do século treze sediou-se em Bryggen, uma das zonas delimitada de Bergen onde era proibido mulheres. Entretanto, hoje em dia Bergen é muito mais que um porto pesqueiro e um destino turístico. É também um importante centro da indústria de navios e da exploração de petróleo e gás do Mar do Norte.

O bacalhau salgado foi o produto que alavancou o comércio marítimo de Bergen, principalmente depois da cristianização da Europa, quando a abstenção da carne nas sextas feiras e durante a Quaresma era um hábito comum dos cristãos. Assim, Bergen cresceu acompanhando o crescimento do Cristianismo. O acesso às diversas partes de Bergen, incluindo Bryggen, era apenas pelo mar. Os compridos barcos percorriam os canais e entravam nos becos para fazer entregas. Isso começou a mudar dois séculos atrás quando começou o processo de aterramento de canais. Os prédios de fachadas coloridas dos prédios de Bryggen são todos tombados pelo patrimônio e conservados, sendo que Bryggen é hoje um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Bergen à pé
O turista recém chegado a Bergen não tem dificuldades em caminhar a pé sem se perder, pois a cidade têm diversos marcos de orientação. Bem no centro comercial da cidade fica o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten. A rua Torgallmeningen, por exemplo, começa na praça do mercado de peixes e termina na igreja Johannes, atrás da qual fica a Universidade de Bergen; e a rua Nygardsgarten fica o Grieghallen, um importante prédio cultural contendo vários auditórios, assim chamado em homenagem ao compositor Edward Grieg, nascido em Bergen. Outro ponto de orientação é o Festplassen, um parque com um enorme lago, Lunggardsvann, e um amplo espaço para eventos musicais.

Apesar de eu já ter caminhado bastante por Bergen na segunda e na terça feira, na quarta feira eu fiz o passeio a pé programado pelo congresso. A nossa guia, uma uma senhora de uns sessenta e cinco anos de idade que exuberava confiança, explicou os pormenores do passeio e nos informou que devido ao tamanho do nosso grupo, este seria dividido em dois mais adiante. A primeira parada foi em frente ao Teatro Nórdico (Norske Theater), um belo prédio em estilo Art Nouveu, construído em 1909. Em frente ao mesmo há uma estátua do escritor Bjornstjerne Bjornson (1832-1910), ganhador do Nobel de Literatura em 1903. Numa outra lateral do teatro, a que fica na Veiten Engen, voltada para a praça Ole Bull, fica outra imponente estátua, a de Henrik Ibsen, mostrado o rosto largo, os óculos e a característica barba lateral do dramaturgo. Ibsen foi o primeiro diretor do Teatro, enquanto que Bjornson foi o segundo. ‘Ibsen não foi entendido enquanto era vivo pois era um homem muito à frente do seu tempo’, disse a nossa guia. Segundo ela, Bjornson e Ibsen eram rivais amigos; juntamente com Alexander Kielland e Jonas Lie eles formaram o grupo dos quatro grandes da literatura norueguesa do século dezenove. A nossa guia falou também dos esforços dos artistas e intelectuais do século dezenove que se uniram em torno da criação da nação norueguesa, uma condição para a independência. A Noruega foi reconhecida como Estado independente da Suécia em 26 de outubro de 1905.

Do Teatro Nórdico nós descemos a praça Ole Bull até o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten, marcado por uma gigantesca escultura que consistia de um monólito, outro importante marco de Bergen. Nessa altura, a outra guia chegou. Percebendo a relutância das pessoas de deixar o grupo original, a recém-chegada estendeu o seu braço direito ordenou aos da esquerda que a acompanhassem. Um tanto a contragosto que eu segui a nova guia, outra senhora de uns sessenta e cinco anos de idade, que mais tarde se identificou pelo nome de Beate. A minha resistência desapareceu na próxima parada, quando Beate explicou a estátua de um violinista meio de uma belíssima fonte como sendo Ole Bull (1810-80), famoso pela virtuosidade musical e por ser belo. ‘Em vida ele rivalizou com Paganini, e foi o ‘Elvis’ do século dezenove’ disse Beate. Ela em seguida explicou a ligação entre Ole Bull e o compositor Edward Grieg, outro filho famoso de Bergen. Grieg era um menino prodígio quando Bull já tinha fama internacional. Numa de suas visitas a Bergen ele descobriu o talento de Grieg e recomendou que ele fosse mandado para Lipsia, para estudar no conservatório.

A próxima parada foi Byparken, grande praça com um enorme lago central que possui um amplo espaço aberto para eventos públicos e um imponente coreto que estava cercado de flores. À direita da praça ficam cinco dos sete museus de Bergen. Com orgulho patriota Beate nos explicou que ‘Bergen é a cidade de sete museus, assim como Roma é a cidade de sete colinas’. Do Byparken continuamos a caminhar em direção à praça do mercado de peixes.

Embora essa fosse a última semana do verão do calendário, o clima já tinha todos os sinais do outono como a chuva intermitente quase todos os dias. Entretanto, os 12 graus Celsius eram mais do que eu esperava para um país cujas fronteiras se adentra pelo Círculo Ártico. Havia verde e flores por todos os lados, quer nos parques quer nos montanhas que rodeiam a cidade. E dentre os arbustos ornamentais destacavam-se os rododendros, que são plantas típicas de ambientes temperados. Beate, a guia do passeio a pé pela cidade esclareceu o mistério: ‘a amenidade é um presente da Corrente do Golfo’, ela explicou.

Continuamos a caminhada em direção ao mercado de peixes. Paramos em frente ao antigo prédio da Bolsa de Valores de Bergen, do início do século vinte, hoje um complexo de restaurantes. Ali havia também uma outra estátua num pedestal, que Beate identificou como sendo o filósofo Holberg, outro filho de Bergen e o primeiro pensador a declarar que as mulheres tinham alma. Tratava-se do Barão Ludwig Holberg (1684-1754), que além de filósofo e professor de Metafísica da Universidade de Copenhagen, era também historiador, poeta e dramaturgo.

Atravessamos a avenida e chegamos ao mercado de peixe onde eu já tinha ido diversas vezes. Dessa vez eu anotei discretamente o preço do bacalhau em postas sem espinhas: entre $350 e $393 coroas norueguesas por quilograma. Continuando a caminhada chegamos em Bryggen, a zona delimitada da Liga Hanseática de mercadores, acima mencionada. Beate procurou dar uma ideia de como era Bryggen antes dos aterros dos canais. Entre os prédio de fachada colorida haviam becos estreitos cujas marquises eram construídas sobre peças inteiriças de madeira no formato de um T, formadas pelos troncos mais as raízes do pinho norueguês, a madeira mais resistente da Europa. Segundo Beate, peças como essas foram usadas na construção das quilhas dos navios Vikings, o que permitiu as suas longas viagens marítimas.
Passamos em frente ao Museu Hanseático (ou Museu dos Mercadores Saxões Hanseáticos) e ao Museu de Arqueologia (que eu visitei no dia seguinte). Cortando caminho por um dos becos de Bryggen, alcançamos a rua de trás, Rosenkrantz, uma pequena ladeira. Paramos num campo que parecia um cemitério, onde Beate explicou que era o sítio de uma igreja do século oito, que havia sido construída pelos missionários irlandeses, da qual só restava restava os alicerces e algumas sepulturas de bispos. O motivo oficial da demolição da igreja no início do primeiro milênio foi que a mesma era visível do mar e constituía um alvo para ataques inimigos. Entretanto, para Beate o motivo real da demolição da igreja era outro: impedir que o povo da Noruega desenvolvesse uma herança cultural própria.

Das ruínas da igreja do século oito tomamos um caminho estreito que descia até o cais do porto, onde havia uma meia dúzia de navios grandes ancorados. Na calçada cruzamos com turistas que pareciam ter acabado de desembarcar, e caminhamos na direção de retorno a Bryggen. A nossa próxima paragem foi o Håkon Hall, um prédio do século treze inaugurado em 1261 pelo rei Håkon pela ocasião co casamento do seu filho com uma princesa dinamarquesa, e até hoje usado como local de cerimônias pela família real norueguesa. Continuamos o passeio para a Torre Rosa-Cruz (Rosenkrantz) do século dezesseis, uma testemunha da importância do Rosacrucianismo, uma sociedade filosófica secreta fundada no final da Idade Média na Alemanha por Christian Rosenkreuz. A sociedade Rosa-Cruz era a favor do Luteranismo e contra o Catolicismo romano, e contribuiu para a emergência da Maçonaria na Escócia. Ao fim da sua explicação, Beate nos informou que ali era o fim do nosso passeio, e o grupo se dispersou.

Sobre a Cidade Portuária de Bergen
Bergen, cujo nome significa ‘pequeno prado no meio de montanhas‘ é uma cidade-porto localizada no sudoeste da Noruega . Na verdade Bergen tem dois portos, um de cada lado da sua península principal. O porto mais perto do centro comercial é o que serve à indústria da pesca enquanto que o outro se ocupa com o comércio marítimo internacional. É no primeiro porto que fica o mercado de peixes que inclui algumas barracas de alimentos e de artesanato. As barracas de alimentos servem refeições baseadas em grelhados de peixes, camarões, moluscos e carne de baleia.

Quando eu fui ao mercado de peixes na segunda feira, eu parei numa das barracas de alimentos e pedi o grelhado de bacalhau fresco e salmão: dois espetinhos com dois pedaços de peixe de 4 x 4 cm mais uma porção de salada de batatas e outra porção de legumes. Enquanto aguardava o meu pedido eu fui me sentar numa das mesas próximas do local de preparação da comida, onde já havia um casal de alemães. Daí a uns cinco minutos alguém trouxe o meu prato, numa pequena bandeja descartável, mais o café que havia pedido. Percebendo que eu não tinha com que comer, a mulher alemã à minha frente me apontou onde estavam os talheres de plástico e os guardanapos. A comida estava deliciosa e me custou $210 coroas norueguesas, sendo $175 pelo peixe e $35 pelo café, que em reais dão mais ou menos R$62,00 e R$12,00 respectivamente. A Noruega não é um país barato para turistas. Lá ma caneca de cerveja de 0,5 l custa entre 55 e 93 coroas norueguesas, ou seja, entre 19 a 33 reais brasileiros.

Troldhaugen
Na sexta-feira eu resolvi visitar o museu da antiga casa do compositor Edward Grieg em Troldhaugen, que fica fora de Bergen. Seguindo as instruções de um panfleto turístico, eu tomei o light rail no Byparken e desci na estação de Hop, fazendo o restante do percurso à pé, chegando a Troldhaugen pouco antes do meio dia. Depois de visitar as exibições e a casa do compositor, eu resolvi almoçar no restaurante do próprio museu a fim de assistir o concerto da uma da tarde. Logo que me acomodei numa das cadeiras arranjadas para o concerto descobri uma conhecida que também estava em Bergen acompanhando o marido. Notando que ela estava só, resolvi trocar de lugar e ir sentar ao lado dela. Christina e eu conversamos apenas alguns minutos pois logo o concerto teve início. Um jovem pianista sentou-se no piano que havia sido de Grieg e de sua esposa Nina, e tocou belíssimas músicas representativas de diferentes etapa da vida do compositor. Foi um concerto inesquecível.

Bergen de Novo
A volta a Bergen foi bem mais agradável, pois tive a companhia de Christina. Tendo chegando ao Byparken por volta das duas e trinta da tarde a minha próxima aventura turística foi a estação Floibanen Funicular, onde tomei o trem que sobe o monte Floyen, de 320 m de altura. Após uma jornada de uns 7 minutos cheguei ao Belvedere, de onde pude ver Bergen por inteiro, uma belíssima cidade. Terminado o passeio ao monte Floyen ainda tive tempo de visitar o Museu de Arqueologia, e ver as interessantes exibições sobre os os Vikings e outros antigos habitantes da região.
Ainda era cedo, quando retornei ao hotel para descansar um pouco e tomar um café. Lá chegando eu encontrei de novo com Christina e outras esposas. Depois de tomar café e comer qualquer coisa Christina e eu resolvemos ir a pé até a Universidade de Bergen e o Jardim Botânico, que pelo nosso mapa ficava bem próximo do nosso hotel. Encontramos o Jardim Botânico, bem como diversos prédios amplos e bem construídos da universidade. No Jardim Botânico encontramos uma estátua de Gerhard Armauer Hansen (1841-1912), médico e pesquisador norueguês, nascido em Bergen, que identificou o bacilo causador da lepra (Microbacterium leprae). Descobri posteriormemte que conjunto de prédios era apenas o campus de Haukerland, local das antigas faculdades, principalmente as das ciências da saúde, havendo outro campus noutro lugar da cidade. Fundada em 1946, a Universidade de Bergen foi e é uma das três principais universidades da Noruega, ao lado da Universidade de Oslo e da Universidade de Tromso.

Retornamos ao hotel por volta das seis da tarde. De noite eu e meu marido mais um grupo de colegas congressistas e seus cônjuges, incluindo Christina e seu marido, fomos jantar num dos restaurantes do prédio da antiga Bolsa de Valores de Bergen, já anteriormente mencionado.

Sábado foi o meu último dia em Bergen. Depois do café da manhã o meu marido acertou um check out mais tarde do hotel, para que eu pudesse repetir com ele o passeio a pé que havia feito na quarta feira. A manhã estava gelada mas ensolarada, e por sorte, nem um pingo de chuva. Retornamos ao hotel pouco antes da uma da tarde. Após fazer o check out, puxamos as nossas próprias malas descendo a Håkons Gaten e virando à esquerda na Olav Kyses gate, onde tomamos o ônibus coletivo para o aeroporto. No avião de volta à Inglaterra, fiquei pensando sobre quando é que teria outra oportunidade de voltar à esse interessante país.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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