Impressões da Islândia


O aeroporto fica em Keflavik, numa península sudoeste. Embora situado a uns 50 Km de Reiquiavique, é bem servido pelo transporte público. Logo na saída do aeroporto há um ponto de ônibuses. Chegando ao terminal central em Reiquiavique os passageiros que desejarem podem tomar mini-ônibuses até os diversos hotéis da cidade. O percurso inicia com uma paisagem natural formada pelos típicos campos de lava colonizados por musgos e plantas rasteiras e termina com uma parte urbana formada por várias cidades concatenadas e que fazem parte da Grande Reiquiavique. No hotel Marina onde nos hospedamos todos os funcionários falavam inglês fluente. Feito o checkin e tendo arranjado as nossas coisas no apartamento, e por volta das cinco e trinta da tarde saímos para explorar Reiquiavique pela primeira vez. Pedimos direções e seguimos a pé até o comércio, onde a maior parte das lojas ainda estavam abertas. E nos próximos sete dias, eu explorei sozinha Reiquiavique, participando de duas excursões turísticas, uma na cidade (Reykjavik Grand Excursion) e outra fora (The Golden Circle).

A primeira excursão é um passeio de três horas que cobre todas as atrações turísticas da cidade de Reiquiavique mais as zonas residenciais da periferia até uma vila de pescadores na costa. Reiquiavique (Figura 1) é uma cidade relativamente nova que cresceu ao redor do local onde em 871 d.C., Ingólfur Arnason, um fugitivo norueguês, assentou-se com sua família, denominando-o Reykjavi, que significa ‘baía de fumaça’, devido à grande quantidade de poços térmicos do local que liberam vapor d’água. Quando Reiquiavique ganhou status de cidade, em 1786, a sua população era de apenas 300 habitantes. O crescimento populacional de Reiquiavique ocorreu lentamente até 1940, quando tinha 38 mil habitantes. A atual população atual de Reiquiavique é de 120 mil habitantes. A população de toda a Islândia é de cerca de 322 mil habitantes, sendo que três quartos ficam na Grande Reiquiavique, atualmente com uma população de 200 mil.

View of Reykjavik from PerlanBuikding in Reykjavik's old harbourP1200370
Fotos: 1. Panorama de Reiquiavique; 2. Porto e Centro de Convenções; 3. Lago da Prefeitura.

Em termos de arquitetura o ponto mais relevante da cidade de Reiquiavique é a imponente igreja Hallgrímskirkja, a qual pode ser vista de quase toda a cidade, projetada pelo famoso arquiteto Guöjón Samuélsson. Em frente à ela há uma enorme estátua de Leifur Ericsson, o viking que descobriu a América cerca de 500 anos antes de Cristóvão Colombo. Outro marco da arquitetura de Reiquiavique é o Centro Harpa de Concertos e Convenções, um maravilhoso prédio de vidro com colunas que representam as formações de basalto típicas da geologia islândica projetado por Olafur Elason. Em 2013 o Harpa ganhou o prêmio Mises van der Roche de arquitetura europeia.
Outra parte interessante de Reiquiavique é o antigo porto. Lá pode-se caminhar por quase todas as marinas, observar as embarcações, as montanhas e a própria cidade. E em toda a orla há calçadas lugar para pedestres e ciclovias.

As Piscinas Termais
As piscinas termais assim como os spas termais fazem parte da cultura islândica. Em Reiquiavique há seis piscinas termais públicas, a maioria ao ar livre. Elas servem ao ensino da natação nas escolas e à população em geral, e as pessoas as utilizam durante todo o ano. Embora chovesse e ventasse no dia que fui experimentar uma dessas piscinas termais que ficava mais próxima do nosso hotel, tive uma experiência agradabilíssima. A temperatura da água não era uniforme, havendo pequenas correntes mais quentes. Entretanto, assim que saí da piscina fui direto aos chuveiros e vestiário, pois o medo do frio não me deixou percorrer os cem metros de distância até a zona dos spas e da sauna.

O Círculo Dourado (The Golden Circle)
A segunda excursão (Golden Circle) que fiz foi de um dia todo e consistiu de três regiões de interesse, O Parque Nacional de Tingvellir é o local onde é possível visualizar, através de riftes e faltas geológicas o Parque Nacional de Tingvellir, as cataratas Gullfoss e os gêiseres Geysir, as placas continentais Norte-americana e Euroasiática, que se estendem numa linha enviesada dupla que vai do sudeste ao noroeste da Islândia. Esse também é o local do primeiro parlamento islandês criado a partir de 930 d.C., quando os líderes (chieftains) de cada grupo de agricultores se reuniam uma vez por ano e realizavam seções formais do Conselho da Lei (Lögrétta) presidido pelo porta-voz da Lei (Lögsögumadur), numa época em que não havia realeza ou nenhum poder central voltado a manter a paz. Nos conselhos anuais, decisões eram tomadas, crimes eram julgados e os condenados executados. As cataratas Gullfoss são duas, uma rio acima de 11 metros e altura, e outra mais abaixo de 21 metros de altura, sendo que a rocha do leito do rio foi formada durante um período interglacial. Ao sudoeste dessas cataratas fica o Geysir, uma área geotérmica repleta de nascentes e gêiseres. Embora o potencial de de energia hidrelétrica ainda esteja em estudo na Islândia, lá as fontes geotérmicas vêm sendo muito bem aproveitadas.

Estação Termoelétrica de Hellisheidi
Uma parada final extra dessa excursão foi para visitar a Estação Termoelétrica de Hellisheidi (ou Hellisheidarvirkjun), a maior das cinco da Islândia, que fornece energia para a Grande Reiquiavique. A termoelétrica de Hellisheidi cresceu enormemente desde que começou em 2006 com duas turbinas de 55 Megawatts de alta pressão. A sua produção atual é de até 400 Megawatts de energia térmica e 303 Megawatts de eletricidade.

Sobre a Geografia e da História da Islândia
A Islândia é a maior das ilhas vulcânicas da cumeeira do Médio Atlântico, onde as plataformas continentais americana e eurasiana se tocam. Essa peculiaridade geológica explica a enorme atividade térmica na ilha, que inclui cerca de 200 vulcões, gêiseres e fontes térmicas. A atividade dos vulcões é acompanhada pelos especialistas que conhecem bem quais os que estão para entrar em atividade. Em 2010 Em 2011 o vulcão Grimsvotn acordou e obrigou o fechamento temporário do aeroporto internacional da Islândia, e no ano anterior, em 2010, uma erupção de médio porte no vulcão Eyjafjallajökull‎ lançou tal quantidade de cinzas na atmosfera que diversos aeroportos em toda a Europa tiveram que fechar. Mas o fogo dos vulcões é apenas um dos elementos da geografia islândica. Outro elemento importante é o gelo. Devido à proximidade com o Ártico a Islândia tem também muitas glaciais e capas de gelo. A atividade térmica às vezes derrete o gelo das glaciais e das capas de gelo, fazendo com que os rios e lagos transbordem e causem inundações.

A Islândia assim como a Groenlândia e algumas ilhas que atualmente pertencem à Escócia foram colonizadas por povos viking, piratas originários da Escandinávia que entre 793 e 1066 costumavam atacar e pilhar a costa da Grã Bretanha e do reino dos francos. A Islândia era desabitada quando Ingólfur Arnarson, seu primeiro colonizador ali se estabeleceu. O nome Islândia, que quer dizer ‘Terra de Gelo’ foi dado por um predecessor dele após ter amargado um rigoroso primeiro inverno que matou todos os animais domésticos que havia trazido. A maioria dos primeiros colonizadores da Islândia veio da costa oeste da Noruega, mas houve diversos que eram de colônias viking nas Ilhas Britânicas. Mas a etnicidade islandesa é também formada pelo elemento celta, pois diversas esposas dos primeiros colonizadores eram irlandesas.

A língua falada na Islândia é o islandês, também conhecido como o velho nórdico, que era falado em toda a Escandinávia, Groenlândia e nas ilhas britânicas Orkneys, Sheatlands e Faröe ou Faroé. Muitas palavras do velho nórdico foram levadas pelos vikings dinamarqueses e noruegueses que costumavam ir à Grã-Bretanha fazer pilhagem, o que faz do inglês uma língua não só anglo-saxã mas também velho nórdica. Conforme uma pesquisa da Dra. Sara Pons-Sanz, linguista da Faculdade de Estudos Ingleses da Universidade de Nottingham, muitas palavras no inglês vieram do velho nórdico, como aquelas relacionadas na Tabela 1.

INGLÊS     VELHO NÓRDICO SIGNIFICADO
  anger   angr   raiva, agonia
  bloom   blóm   floração
  gale   gaile   vento frio
  happiness   happ   sorte
  house   hús   casa
  husband   hús + bóndi   casa + dono da casa
  ill   illr   doente
  kid   kip   filhote de bode
 law   lag   lei
  leg   legge   perna
  norse   noordsch   homem do norte
  ransack   rann-saka   dar busca numa casa (para fazer pilhagem)
  skaughter   sláter   carne de abatedouro
  sky   skie   nuvem
  window   vindayfa   olho de vento
  wing   vengr   asa
  wrong   rangr   injusto

Tabela 1. Exemplos da contribuição do velho nórdico ao inglês

Copiando o costume da Escandinávia, os islandeses organizaram um parlamento (lpingi) representativo da confederação (commonwealth) das quatro jurisdições islandesas, com líderes (godords) representantes de cada região que reunia-se em junho de todos os anos em Alpingi, Pingvellir. Nessa ocasião julgamentos eram feitos e execuções eram levadas a cabo. O encontro de junho também servia para colocar em dia as novidades de cada jurisdição e para a procurar de cônjuges.

Os primeiros islandeses davam muita importância à sua história, e procuraram preservá-la na memória oral e nas sagas compiladas nos séculos treze e quatorze. Esse acervo foi preservado graças aos esforços de Arni Magnússon, um colecionador de manuscritos nascido em 13 de novembro de 1663 em Kvennabrekka, no oeste da Islândia. Embora parte da coleção de Magnússon tenha se perdido no incêndio de Copenhagen de 1728, a maior parte dos manuscritos em pergaminho foi salva.

Em torno do ano 1000 a Islândia se converteu ao Cristianismo após uma decisão de ordem prática de Thorgeir Thorkelsson, o porta-voz da lei. A confederação da Islândia começou a se desmoronar e em 1220 as lideranças começaram a fazer planos para que a coroa da Noruega assumisse o governo do país. O processo de subjugação ao reino da Noruega foi atribulado por conflitos e concluiu-se em 1258 quando Gisssur Porvaldson tornou-se o conde da Islândia, a serviço do rei da Noruega. Durante o domínio norueguês, a capital da Islândia era Bergen, então a capital da Noruega. Em 1319 o reino da Noruega se uniu ao reino da Suécia, e a Islândia ficou sob as duas coroas. Em 1380 o reino da Noruega se juntou ao reino da Dinamarca, e nos próximos três séculos a Islândia passou a ser um protetorado da Dinamarca. Nesse período a Islândia sofreu com diversas erupções vulcânicas e com a arbitrariedade do governo da matriz.

Em 1814 a Suécia invadiu a Dinamarca e o tratado de Kiel resultante fez com que a Suécia saísse do domínio da Dinamarca e ganhasse a Noruega, e em contrapartida a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre a Islândia, a Groenlândia e as Ilhas Faröe. Na Islândia, movimentos de independência surgiram em 1841 e em consequência dos mesmos a Dinamarca fez algumas concessões como a abertura dos portos da Islândia. No final do século a Islândia havia ganho o controle sobre o seu comércio exterior e em 1903 ganhou sua primeira constituição. Em 1918 a Islândia virou uma região autônoma mas ainda ligada à Dinamarca. Em 16 de Junho de 1944 a união com a Dinamarca terminou e a partir do dia 17 de Junho a Islândia passou a ser uma república.

Durante os primeiros anos logo após a Segunda Guerra Mundial a Islândia modernizou a sua agricultura e a sua indústria da pesca e colheu bons resultados com isso. Em 1949 a Islândia passou a ser um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e em 1951 uma base naval norte-americana foi instalada em Keflavik. Em 1952 a Islândia estendeu o seu território marítimo de três para quatro milhas e em 1975 estabeleceu o limite de 200 milhas de sua costa. A economia da Islândia cresceu vertiginosamente até 2008, quando ocorreu a crise mundial, quando caiu numa recessão que durou pouco mais de dois anos. A partir de 2010 a Islândia voltou a crescer e em 2012 o seu GDP per capita foi de 42.658 dólares, um dos maiores do mundo. Quanto à distribuição interna de renda medida pelo índice Gini do Banco Mundial, onde 0 representa um igualitarismo perfeito e 100 uma desigualdade perfeita, a Islândia apresentou um coeficiente de 28 em 2008, o que coloca esse país entre os melhores do mundo.

Apesar dos islandeses modernos se considerarem amigáveis ao meio ambiente, a Islândia possui muitos problemas ambientais causados no passado, principalmente pelo uso intensivo do seu frágil ambiente natural. Segundo Jared Diamond, a enorme demanda de lenha para fazer o carvão usado nas ferrarias contribuiu para o desaparecimento da vasta cobertura lenhosa que havia originalmente. Os exemplos de vegetação arbustiva-arbórea de bétulas (Betula spp.) e salgueiros (Salix spp.) que tive a oportunidade de ver no Parque Nacional de Tingvellir e na região Gullfoss e Geysir seriam relíquias da vegetação passada da Islândia. Em termos de biodiversidade atual, a flora da Islândia consiste de 172 espécies de plantas, e a fauna de um punhado de espécies de aves e peixes e alguns invertebrados e de mamíferos.

A depleção dos recursos florestais da Islândia explica porque o país se estagnou e permaneceu estagnado durante séculos. Os islandeses viviam inicialmente do pastoreio e do cultivo de algumas culturas resistentes ao frio como a cevada, a aveia, o centeio e o feno. Até a virada do século vinte a indústria da pesca era artesanal. Segundo o historiador Gunnar Karlson, durante o século dezesseis os ingleses é que pescavam com embarcações maiores na costa da Islândia, ganhando a experiência necessária para o poderio naval da Inglaterra no século seguinte. A pesca desenvolveu-se aos poucos e apenas no século vinte tornou-se a principal fonte de riqueza da Islândia. Hoje em dia os três itens que mais contribuem para a economia da Islândia são a pesca, as fundições de alumínio e o turismo.

Finalizando as minhas impressões sobre a Islândia, eu gostaria de registrar o quanto eu gostei da semana que lá passei em setembro passado. E por cima de tudo todos os islandeses com quem tive contato me pareceram instruídos, corteses e alguns até bem-humorados. Guardarei a lembrança do ar puro que respirei e da água gelada que bebi direto da torneira.

Referências
Diamond, Jared (2011). Collapse. How Societies Coose to Fail or Survive. Penguin Books, UK.
Karlsson, Gunnar (2000). A Brief History of Iceland. 2dn edition.Translated by Anna Yates. Mál of menning.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s