George Smith e a explicação caldeiana da criação

Em 3 de dezembro de 1872, George Smith (1840-76), um jovem pesquisador do Museu Britânico, anunciou no congresso da Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres, a sua decifração da narrativa do dilúvio babilônico contida num tablete contendo inscrições em cuneiforme encontrado no sítio do antigo palácio de Assurbanipal. No auditório havia muitas pessoas distintas, incluindo Benjamim Disraeli, o Primeiro Ministro britânico, que era filho de judeus convertidos ao cristianismo. Na sua apresentação, Smith explicou que a narrativa do dilúvio fazia parte da lenda de Izdubar (mais tarde retraduzido como Gilgamesh) e que ele havia encontrado três versões da mesma narrativa, todas elas oriundas do mesmo sítio arqueológico. Falou também das crenças dos babilônios na alma, na vida depois da morte e no céu e inferno, informações recuperadas recentemente através de traduções de tabletes cuneiformes. Entretanto, a mensagem de Smith na Sociedade de Arqueologia Bíblica foi entendida apenas em parte pela audiência.

Como o tablete da narrativa do dilúvio babilônico traduzido por Smith era um fragmento, as lagunas do texto também apareceram na tradução que Smith apresentou em 1872. Entretanto, numa nova excavação na mesma estação arqueológica de Nínive, o fragmento correspondente foi encontrado em 1873, o que permitiu que Smith completasse a sua tradução.

George Smith publicou o resultado de suas pesquisas no livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação Caldeiana da Criação) (1876), que ele dedicou ao Sir Henry Rawlinson, o redescobridor do babilônio, seu amigo e mentor.

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O palácio de Sargão II em SarDur-Sharrukin (atual Khorsabad, Iraque)

Conforme já visto numa postagem anterior, quando o arqueólogo Paul Émile Botta (1802-1870) descobriu o palácio do rei Assírio Sargão II(1) na antiga cidade de Forte Sargão (Dur Sharrukin, próxima da atual Khorsabad), em 1843, ele julgou que havia descoberto Nínive. Como foi que Bota se enganou? Uma resposta provável é que ele teria confundido o acervo de tabletes cuneiformes de Sargão II, com a biblioteca de Nínive.

Segundo os historiadores, bem antes de Assurbanibal criar a biblioteca de Nínive, Sargão II ordenou que os textos religiosos, científicos e da magia da cultura suméria-acadiana fossem fossem colecionados, organizados, e copiados em tabletes, com suas respectivas traduções. O acervo resultante incluia três livros sobre religião em duzentos tabletes e cerca de setenta tabletes sobre astrologia. Sargão II é também creditado com a introdução do hábito de sincronizar eventos uns com outros, o que conferiu maior credibilidade às datas das inscrições.

Uma boa parte do acervo de Sargão II veio de uma coleção de escritos religiosos em cuneiforme que foram preservados numa morada de sacerdotes em Uruch. O grande destaque da biblioteca de Uruch era o conjunto das recitações teológicas sumérias-acadianas e os hinos e as orações do segundo período, compostos numa época quando a influência religiosa era mais elevada. Outro destaque dessa coleção são os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas às humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita, que segundo os historiadores, são extremamente parecidos com os salmos de David da Bíblia hebraica.

Nota
É preciso tomar cuidado para não confundir Sargão II, que reinou na Assíria de 705 a 681 a.C., com Sargão I, que também reinou na Assíria mas cerca de 1800 anos antes, este último sendo o objeto da conhecida lenda babilônica.

O épico Gilgamesh e a lenda de Sargão

O épico Gilgamesh (inicialmente traduzido como Izdubar) e outras narrativas babilônicas como a lenda de Sargão (veja abaixo), já eram conhecidos dos estudiosos através das citações de três livros de Beroso, um estudioso caldeu que deixou a Babilônia e foi morar na ilha de Cos, na Ásia Menor por volta de 240 a.C. Entretanto, a decifração do babilônio por volta de 1850 permitiu a recuperação de fontes diretas da literatura assíria/babilônica escritas em cuneiforme.

Considerado o primeiro épico da história da humanidade, o Gilgamesh conta as aventuras do rei Gilgamesh e de seu amigo Ba-bani, e também descreve algumas lendas da Babilônia como a do dilúvio babilônico. Esta última foi reconhecida pela primeira vez num fragmento contendo inscrições cuneiformes do acervo do Museu Britânico, que foi traduzido em 1872 por George Smith, um jovem curador que lá trabalhava. No seu livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação do Gênese dos Caldeus) publicado em 1876, Smith explicou a proveniência do tablete do dilúvio e como ele efetuou a sua tradução. Em janeiro de 2014, Irving Finkel, também do Museu Britânico, publicou o livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio), onde descreve um outro tablete do dilúvio que difere daquele descrito por Smith pelo fato de dar os pormenores de como a arca deveria ser construída (Veja a minha resenha do livro de Finkel na atual edição (no 9) da revista PortVitoria, dedicada à diáspora falante de português e espanhol: http://www.portvitoria.com/BookReviewJPO.html).

Na década em que Smith traduziu o tablete do dilúvio babilônico e publicou o livro acima mencionado, os temas mais comuns debatidos pelos estudiosos eram a teoria evolutiva de Charles Darwin e a implicação desta sobre as narrativas da Bíblia. Tais debates foram acirrados pela constatação da enorme semelhança entre a narrativa do dilúvio babilônico e a narrativa do dilúvio na Bíblia hebraica.

Outro texto babilônico que parece ter sido incorporado na narrativa sobre Moisés da Bíblia hebraica é a narrativa da lenda de Sargão (também conhecido como Sharrukin ou Sargina), um rei da Acádia (ou Agadê). De acordo com a lenda babilônica, Sargão, que foi o rei da Acádia por volta do ano 1600 a.C., não conheceu os seus pais biológicos. Quando bebê ele foi colocado por sua mãe, uma princesa real, num cesto impermeabilizado que ela colocou no rio Eufrates. O cesto foi encontrado pelo irrigador Akki, que o criou como filho. A versão abaixo mostrada, considerada uma das mais importantes, é citada no livro Chaldean Account of Genesis de George Smith (1876).

Legend of Sargon
Sargon, the powerful king, King of Akkad am I.
My mother was a princess, my father I did not know, a brother of my father ruled over the country.
In the city of Azupiranu which by the side of the river Euphrates is situated
my mother the princess conceived me; in difficulty she brought me forth;
She placed me in an ark of rushes; with bitumen my exit she sealed up.
She launched me on the river which did not drown me.
The river carried me, to Akki, the water carrier it brought me.
Akki, the water carrier in tenderness of bowels lifted me;
Akki, the water carrier as his husbandman placed me,
45 ? years the kingdom I have ruled,
The people of the dark races I governed,
…… over rugged countries with chariots of bronze I rode,
I govern the upper countries,
I rule ? over the chiefs of the lower countries,
To the sea coast three times I advanced, Dilmun submitted,
Durankigal bowed, &c. &c.

O épico Gilgamesh e a lenda de Sargão não são os únicos textos babilônicos que parecem ter sido aproveitados na Bíblia. Os salmos de David também foram apontados por alguns historiadores como sendo extremamente parecidos com os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas da Babilônia sobre as humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita. Segundo os historiadores, os tabletes contendo os ‘Salmos de Penitência’ foram preservados inicialmente numa morada de sacerdotes em Uruch, e mais tarde adquiridos por Sargão II.

A Bíblia hebraica não é a única obra que aproveitou as narrativas da literatura babilônica. Tais narrativas também aparecem na Ilíada e na Odisséia de Homero bem como nos Contos das Mil e Uma Noites compilados em árabe durante a Idade Dourada do Islão.

A redescoberta do babilônio

O babilônio, a língua acádia, foi redescoberto por volta de 1850 por Sir Henry Rawlinson (1810-1895), um oficial do exército britânico que era proficiente na língua persa. Quando em 1835 Rawlinson foi mandado para a Pérsia para ajudar a treinar as tropas do Xá, lá ele encontrou, num monte de Behistun, um conjunto de inscrições em três línguas: persa antigo, babilônio e elamita, feitas a mando do Rei Dario da Persia (522-486 a.C.). Rawlinson reconheceu logo que as inscrições de Behistun tinham a mesma importância para a decifração do babilônio do que a Pedra de Rosetta(1) teve para a decifração dos hieróglifos egípcios em 1822. Após ter traduzido o trecho em persa, Rawlinson começou a decifrar o babilônio e o elamita mas devido a problemas diplomáticos entre a corte iraniana e o governo britânico ele precisou retornar à Inglaterra. Antes de partir, Rawlinson conseguiu fazer uma impressão em relevo das inscrições de Behistun, e assim continuar o trabalho.

No fim de 1843 Rawlinson foi transferido para Bagdad, de onde ele fez algumas visitas ao seu amigo arqueólogo Austen Henry Layard, que se encontrava escavando em Quyunjik, perto de Mossul. Através desse contato, Rawlinson teve acesso ao acervo de tabletes de inscrições cuneiformes que foram descobertos em Quyunjik. No outono de 1846, já tendo conseguido entender muitas das inscrições em cuneiforme que encontrou, ele publicou um trabalho sobre a decifração da escrita cuneiforme. Ao retornar à Inglaterra ele passou a dedicar-se exclusivamente à tradução de textos cuneiformes.

Nota. A Pedra de Rosetta contém a mesma inscrição em hieróglifo, demótico (escrito cursivo derivado do hierático e que serviu de base para o cóptico – a língua egípcia), e grego antigo, o qual os linguistas conseguiam entender. O conteúdo da Pedra de Rosetta é um decreto datado de 196 a.C. celebrando o reinado de Ptolomeu V. A decifração dos hieróglifos nela contidos foi completada por Jean Champollion em 1822.

O desagravo a Beroso

O desagravo a Beroso

Joaquina Pires-O’Brien

Em torno de 240 a.C., quando as cidades independentes da Grécia formaram a segunda Liga Aqueana (κοινὸν τῶν Ἀχαιῶν) e Roma lutava contra Cartago, o babilônio antigo já era uma língua morta embora ainda reconhecida. Foi nessa época que Beroso, um sacerdote caldeu do templo de Baal, na Babilônia, mudou-se para a ilha de Cos, na Ásia Menor (atual Turkia) onde escreveu uma trilogia em grego sobre a cultura da Babilônia, que ele dedicou a Antióquio I (c. 324–261 a.C.), monarca do reino seleucida(1) da Síria, que reinou entre 292 e 281 a.C., no leste, e de 281 a 261 em todo o país.

No seu primeiro livro, Beroso descreveu a terra da Babilônia, cuja civilização foi levada para Ipa pela divindade Oannes (Adapa), que era metade homem e metade peixe, bem como por outras divindades, incluindo ainda a lenda da criação e a sua versão da astrologia caldeia. Nesse livro, Beroso cita diversos trechos da ‘cosmogonia’ babilônica, a narrariva da criação do mundo, cujo autor seria a própria divindade Oannes. O segundo e o terceiro livros fornecem uma cronologia da história da Babilônia e da sucedânea Assíria, que começa com ‘os dez reis anteriores ao dilúvio’, passando à narrativa do dilúvio e a restauração da monarquia, com uma longa série de monarcas que reinaram ‘depois do dilúvio’, as ‘cinco dinastias’, finalmente a história mais recente dos assírios, o último reino da Babilônia, a invasão persa e a conquista de Alexandre o Grande. Mais uma vez podemos perceber os paralelos com a Bíblia hebraica na cosmogonia, no dilúvio e na preocupação com a linhagem dos reis.

Beroso ganhou o respeito dos estudiosos da Ásia Menor e da Grécia. Pensa-se que ele passou também um período em Atenas, onde uma estátua de cobre foi feita em sua homenagem. Apenas fragmentos da obra de Beroso sobreviveram. Todo o conhecimento sobre Beroso é indireto, e através das citações de Eusébio de Cesária, Flávio Josefo e Syncellus. Graças à essas citações, a literatura e a mitologia da antiga Babilônia, incluíndo a Assíria e a Caldéia, chegaram até o mundo clássico.

Infelizmente, o tempo passado não mais permite estabelecer como foi que todas as cópias dos três livros de Beroso desapareceram. Entretanto, a cosmogonia babilônica que Beroso explicou nos seus livos, e cujo exemplo mais bem conhecido é a narrativa do dilúvio babilônico, certamente comprometia a pretenção da Bíblia dos hebreus de ser um livro de autoria ou de inspiração divina, sendo um motivo para uma presumível sabotagem. E se foi esse o caso, Beroso foi vindicado pelas traduções dos textos em cuneiforme sobre a Babilônia, que confirmaram o que ele narrou em grego há mais de vinte séculos.

Notas
1 Seleucida. Palavra derivada de Seleucus, um dos generais de Alexandre o Magno, que após a morte deste em junho de 323 a.C., tornou-se rei das províncias leste do império alexandrino, sendo as principais a Síria e a Mesopotâmia. A Síria Seleucida incluia, além do Iraque e a Síria, o Afaganistão, o Irã e o Líbano, mais partes da Turquia, Armênia, Turcumenistão, Uzbekistão, e Tajikistão. O reino de Seleucus tinha duas capitais, ambas fundadas around 300 a.C.: Antióquia na Síria e Selêucia na Mesopotâmia.

2. Cf. os meus postings ‘A redescobera do babilônio’  e, no meu blog Mesa Redonda, Irving Finkel e a escrita cuneiforme’.


Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria (portvitoria.com) de generalidades, cultura e política. É autora de O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível na Amazon. US$ 9.99; Kindle $2.99.

A redescoberta de Nínive

Nínive, a segunda capital da Caldéia, fundada em 2250 a.C. e destruída em 612 a.C., foi redescoberta em 1849 pelos arqueólogos Austin Henry Layard (1817-94) e Hormuzd Rassam (1826-1910) que entre 1847 a 1851 conduziram escavações em Quyunjik, localidade nas margens do rioTigre oposta à cidade de Mosul – a mesma que atualmente se encontra refém dos terroristas do Isis.

Quyunjik havia sido recentemente escavada por Paul Émile Botta (1802-1870), cônsul francês junto ao antigo Império Turco-Otomano, atual Iraque, que embora fosse formado em medicina, tinha uma grande paixão pela arqueologia e pela história. Entretanto, Botta falhou em descobrir Nínive por ter decidido parar com os trabalhos em Quyunjik para ir escavar em Khorsabad. Ao invés de Nínive, Botta descobriu o palácio de Sargão II na antiga cidade de Dur Sharrukin, com suas famosas figuras aladas, seus relevos e inscrições em babilônio cuneiforme, que ele pensou tratar-se de Nínive.

A notícia de que Botta havia descoberto Nínive, mesmo não sendo verdadeira, atraiu Layard e seu associado Rassam, que resolveram escavar em Quyunjik, onde em 1849, eles encontraram o palácio construído por Sennacherib, o avô de Assurbanipal, e em 1853, Rassan descobriu sozinho o palácio de Assurbanipal (c. 669-663 a.C.) e a bibioteca de Nínive que este havia construído para preservar a história da Caldéia e da antiga civilização Suméria-Acadiana.

Cerca de cem mil tabletes e fragmentos de barro contendo inscrições em babilônio cuneiforme oriundos das escavações de Layard e Rassam foram remetidas para o Museu Britânico. Tal acervo foi logo colocado à disposição dos especialistas, que aos poucos começaram a traduzir os registros e a literatura da Babilônia.

A preocupação sobre Mosul

A ocupação de Mosul pelo grupo insurgente Isis (Estado Islâmico do Iraque e Grande Síria), no Iraque, tem sido o tema de diversos artigos e postagens de blog por indivíduos de todo o mundo preocupados com a destruição do patrimônio histórico da cidade. Localizada a cerca de 400 Km de Bagdad, Mosul ou al-Mawṣil, fica na margem ocidental do rio Tigre e é a capital da Província de Nínive, cujo nome é uma homenagem à antiga cidade de Nínive, fundada em 2250 a.C. e destruída em 612 a.C., e cujas ruínas localizam-se em frente à Mosul, no outro lado do rio Tigre.

A Mosul moderna expandiu-se para o outro lado do Tigre, abarcando assim as ruínas da antiga Nínive que incluem a famosa biblioteca de Assurbanipal. Mosul possui uma Universidade e um Museu de enorme importância. Ambos são conhecidos pela tradição de trabalhos colaborativos com equipes de arqueólogos de diversas partes do mundo. A população de Mosul é formada por uma maioria árabe e minorias diversas, sendo as mais importantes os assírios, os iraquianos de origiem turca e os kurdos. Normalmente a diversidade étnica é um fator positivo no sentido de favorecer a paz e a convivência em harmonia. Entretanto, o que as recentes imagens de Mosul têm mostrado são os horrores da guerra. Dentre as muitas perguntas levantadas sobre Mosul e a paz no Iraque e na Síria, duas que se destacam são: até onde? até quando?