Sobre o gênero ensaio e Montaigne

Um ensaio é uma composição literária relativamente curta sobre algum tema particular e que reflete a opinião pessoal do autor. É uma tentativa do autor de articular uma ideia principal, a qual é quase sempre acompanhada de ideias secundárias. Um ensaio de boa qualidade requer não apenas o conhecimento do tema tratado mas também de técnicas de argumentação e persuação.

O criador do ensaio como gênero literário foi o pensador francês Miguel de Montaigne (1533-92). Nascido no castelo de Montaigne, em Périgord, Montaigne recebeu uma educação humanista no Collège de Guienne em Bordeaux, e, em seguida, estudou direito. Após se formar, obteve um emprego no Parlamento de Bordeaux, onde atuou durante 13 anos como conselheiro da cidade. Em 1571, retornou a Périgord para tomar posse do castelo de Montaigne, quando passou a viver como um aristocrata do campo, visitando Paris frequentemente e fazendo um tour da Alemanha, Suíça e Itália. Em Périgord Montaigne começou a escrever seus ensaios acerca de personalidades da época e sobre os locais onde visitou. Os seus ensaios eram ao mesmo tempo críticos e inspiradores e lhe trouxeram fama e reconhecimento. Uma tradução para o inglês dos seus ensaios foi publicada na Inglaterra em 1603, no livro Essays. Mas Montaigne não ficou muito tempo sendo apenas um aristocrata do campo. Aceitou um convite de amigos para concorrer ao cargo de prefeito de Bordeaux, e tendo se elegido, serviu de 1581 a 1585, quando retirou-se para a torre do seu castelo para escrever seus ensaios. Os ensaios de Montaigne são ricos e cativantes pelo fato dele juntar às suas descobertas acerca do mundo, as descobertas que fez acerca de si próprio. Veja a seguir três citações de Montaigne:

 

(1)

Francês: Pour juger des choses grandes et hautes, it faut une áme de même, autrement nous leur attribons le vice qui est le nôtre.

Inglês: To make judgements about great and lofty things, a soul of the same stature is needed; otherwise we ascribe to them that vice which is our own.

Português: Para julgar coisas que são grandes e elevadas, é necessário ter uma alma da mesma estatura, caso contrário imputamos a elas o vício que é nosso.

(2)

Francês: La plus grande chose du monde, c’est de savoir être à soi.

Inglês: The greatest thing in the world is to know how to be oneself.

Português: A maior coisa do mundo é saber ser você mesmo.

(3)

Francês: L’homme est bien insensé. Il ne saurait forger um ciron, et forge des dieux à douzaines.

Inglês: Man is quite insane. He wouldn’t know how to create a maggot, and he creates gods by the dozen.

Português:O homem é bastante insano. Ele não sabe como criar uma larva, e cria deuses às dúzias.

Por girar em torno de fatos e de críticas, o gênero ensaio mostra como construir uma narrativa integral e bem argumentada. A leitura de bons ensaios é um caminho seguro para aprender a escrever com lógica e clareza. Todas as línguas modernas da Europa têm seus ensaistas favoritos, como esses listados a seguior:

Inglês: William Hazlitt (1778-1830);

Alemão: Thomas Mann (1875-1950);

Italiano: Umberto Eco (1932-2016);

Espanhol: Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936);

Português: Ruy Bello (1933-78), Aurélio Buarque de Holannda Ferreira (1910-89);

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com.

 

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Sobre a cidade polonesa de Janiewiczach

Uma leitora brasileira cujo sogro é um imigrante polonês natural de Janiewiczach, perguntou-me se eu sabia em que ano essa cidade havia sido ‘invadida’ pela Ucrânia. O texto abaixo é o resultado da pesquisa que fiz para responder tal pergunta.

As referências à cidade de Janiewiczach são bastante difícieis de se encontrar na internet. Uma biografia do pianista polonês Jan Kleczyński (1837-1895), obtida na internet, consta que o mesmo nasceu em Janiewiczach, na Volínea ou Lodomeria (inglês:Volhynia; Volyns’ka oblast – de Volodymyr-Volynski). Outras designações de Janiewiczach são Włodzimierz, Volodymyr. A localidade é considerada uma das mais antigas da Rutênia (atual Ucrânia) e foi fundada em terras que antes pertenciam à Polônia. No ano 988 a cidade virou a capital do principado de Volínea ou Lodomeria (Volodymyr).

A Volínea (Volhynia) ou Lodomeria também já compôs o ducado ou principado de Galícia-Volínea (Halych-Volhynia), também na Rutênia, que posteriormente foi incorporado à Polônia. Galícia (Halych) era também o nome da principal cidade e capital, mas em 1256 o rei Daniel mudou a capital para Leópolis (L’viv) em homenagem ao seu filho Leo (Lev).

Após a primeira partição da Polônia em 1772, os nomes ‘Halych’ e ‘Volhynia’ foram latinizados para Regnum Galiciae et Lodomeriae, ou Galícia e Lodomeria. A Galícia passou para a Áustria e a Lodomeria para a Rússia.

A geografia da Galícia-Volínea consiste de uma área a oeste, situada entre os rios San e Wieprz, e uma área leste de brejos chamada Pripet. Ambas já haviam pertencido à Polônia, mas quando da reconstrução desta pelo Tratado de Versalhes, em 1918, apenas a Galícia (Halych) voltou a fazer parte do território polonês. A Lodomeria (Volhynia) foi alocada à Ucrânia, outro Estado criado pelo Tratado de Versalhes. A linha de partição cortou a Lodomeria (Volhynia) em duas, com a parte oeste na cidade de Lutsk (Luck). Entretanto, a alocação da Galícia e da Lodomeria à Polônia e Ucrânia não refleriu a realidade da condição social das duas regiões, cuja população maior consistia de poloneses.

A Revolução Bolchevique russa de 1917 criou o monstro da União Soviética, à qual a Ucrânia e diversas outras nações foram incorporadas. A Polônia resistiu à tentativa de incorporação pela União Soviètica, mas passou a sofrer constantes pressões sobre as suas fronteiras. Em 23 de agosto de 1939 a Alemanha e a União Soviética assinaram o Pacto Ribbentrop-Molotov de não agressão, então secreto. Segundo esse pacto, as tropas alemãs invadiriam a Polônia a oeste e a União Soviética faria o mesmo a leste. A invasão da Polônia pela Alemanha desencadeou a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, o Pacto Ribbentrop-Molotov foi desfeito quando a União Soviética sentiu-se ameaçada pela Alemanha. Apesar dos soviéticos terem se juntado aos aliados, o exército vermelho continuou a invadir a Polônia pela sua fronteira leste, aproveitando o fato de que quase toda a defesa da Polônia ficava na parte oeste. A Polônia fez uma corajosa tentativa de deter os soviéticos, mas sem sucesso. A invasão da soviética levou à chamada ‘quarta partição’ da Polônia, quando no fim de setembro de 1939, a União Soviética declarou que a Polônia não mais existia. Com o objetivo de fazer uma limpeza étnica na região, os soviéticos organizaram quatro ondas de deportações de poloneses. Apenas na segunda, cerca de 330 mil poloneses foram deportados para o Kazaquistão.

A situação da Polônia permaneceu desesperadora durante toda a Segunda Guerra, pois os poloneses tinham que combater não apenas a invasão nazista mas também os soviéticos e as milícias ucranianas que agiam em conluio com os invasores nazistas. O ataque maior ocorreu em 1941, quando a região da Galícia e Lodomeria (Halych-Volhynia), uma das mais populosas da Polônia, foi dizimada. No seu livro Danubia: A Personal History of Hapsburg Europe (2013) (leia a resenha em PortVitoria), Winder reconhece os motivos da exterminação da população dessa região, afirmando que um indivíduo podia ser morto ou expulso pelos mais diversos motivos, ‘por ser judeu, por ser polonês, por ser alemão, por ser rico, por ser pro-nazista ou pro-comunista’.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, os aliados cederam à pressão da União Soviética e passaram para a Ucrânia uma gigantesca área do leste da Polônia. Tal área incluiu a maior parte da Galícia (Halych) e a porção da Lodomeria (Volínea; Volhynia) que a Polônia ainda possuía, incluindo as cidades de Leópolis (L’viv ou Lwow), Grodno (Hrodna), Lutsk (Luck) e Stanislaw (Stanislawow). A cidade de Wílnius (Wilno) Vilno, passou para a Lituânia.

Joaquina Pires-O’Brien

 

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Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol. Em 2016 ela publicou um livro de ensaios em e-book, intitulado O homem razoável, à venda no portal www.amazon.com.br (R$24). A versão em espanhol, El hombre razonable y otros ensayos, também está à venda nos portais da Amazon.

 

Negação de serviços por parte da Polícia Militar do Espírito Santo

No final da sexta-feira, dia 3 de fevereiro de 2017, a Polícia Militar do estado brasileiro do Espírito Santo começou uma negação de serviços alegando não poder furar o bloqueio humano formado pelas suas próprias esposas, filhos e outros familiares, que se posicionaram na entrada do seu quartel principal, no bairro de Maruipe. Foi um cenário foi montado para evitar que a negação de serviços fosse caracterizada como greve ilícita.

A continuação da negação de serviços por parte da Polícia Militar do Espírito Santo teve como consequência um surto de crimes que levou ao caos social. O governador em exercício do estado pediu ajuda ao governo federal, que enviou tropas do exército para fazer o policiamento do estado.

O saldo dos acontecimentos aponta a necessidade de um debate permanente na esfera pública sobre o papel da polícia. Tal debate deve incluir as alternativas de resolver disputas trabalhistas envolvendo seus membros.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.