Jordan Peterson sobre a importância do diálogo entre campos opostos de pensamento e o pós-modernismo

Jordan Peterson sobre a importância do diálogo entre campos opostos de pensamento e o pós-modernismo

Joaquina Pires-O’Brien

Segundo Jordan Peterson, psicólogo clínico canadense, professor, e autor de 12 Regras para a Vida: Um antídoto para o caos, se quisermos mais segurança e menos tirania em nossa sociedade, devemos nos perguntar qual é o nosso dever moral a fim de obter isso. Esta postagem sumariza algumas ideias interessantes de Peterson, que retirei de uma de suas palestras no YouTube e do seu livro.

Como mostrou Peterson, a sociedade humana tem seu próprio conjunto de valores, mas cada um desses valores é válido apenas em determinadas circunstâncias. A sociedade humana também tem campos opostos de articuladores, defendendo subconjuntos predeterminados de valores, o que torna necessário o diálogo entre os mesmos. Como o tempo não pára e as coisas mudam, também os alvos perseguidos pela sociedade movem. Em outras palavras, os problemas da sociedade estão sempre mudando, o que é outra razão pela qual o diálogo entre os campos diferentes de articuladores é essencial.

Os dois campos de articuladores que existem hoje são geralmente rotulados como ‘esquerda e direita’. Para Peterson, o problema que atravanca a comunicação entre esses campos opostos de articuladores é o fato de que as pessoas percebem as coisas de maneira diferente, devido às suas propensões naturais e às suas circunstâncias familiares e educacionais. A esquerda acredita na ideia de que existe um imperativo moral de ser um ativista. A direita acredita na ideia de que para alguém ser útil é preciso ter um imperativo moral. São duas coisas diferentes.

Se você é um drop-out (desistente), provavelmente é um perdedor ou fracassado. A probabilidade mais certa é de que você seja inútil, preguiçoso, arrogante e ressentido. Há perdedores que pensam que são santos e há santos que pensam que são perdedores. Se você é um perdedor que pensa que é um santo, então você causará muitos problemas à sociedade. Muitas pessoas da geração dos anos 60 gostam de se imaginar como sendo o admirável rebelde. Entretanto, debaixo da fachada de revolucionário está uma incapacidade de enfrentar responsabilidades. As previsões das linhas de base e das tabelas atuariais mostram isso. O fato é que os admiráveis ​​rebeldes da geração dos anos 60 têm sido uma influência perniciosa na universidade, especialmente as humanidades, cuja influência vem se deteriorando desde então.

Uma sociedade funcional é uma que tem mais segurança e menos tirania. As sociedades humanas têm hierarquias de dominância, e, muitos tipos de animais também têm hierarquias de dominância, que são comportamentos selecionados para aumentar a sobrevivência. Na sociedade humana, as hierarquias dominantes têm sido bastante atacadas, e acusadas de serem tiranias. No entanto, existe uma diferença crucial entre as hierarquias de dominância dos humanos e dos outros animais: as dos humanos são baseadas em competência. Hierarquias de dominância baseadas em competência não são a mesma coisa que hierarquias baseadas em poder arbitrário, como o tipo de poder baseado puramente em termos econômicos. Essa sim é uma tirania. Quanto mais funcional a sociedade, mais a sua hierarquia de poder será baseada na competência em relação ao que a sociedade considera realmente valioso. É difícil atender a esses critérios perfeitamente, mas uma sociedade funcional precisa caminhar nessa direção. O indicador de sucesso número um em uma sociedade é a inteligência, e, assim sendo, faz sentido que as pessoas mais inteligentes ocupem as posições de maior complexidade em uma sociedade. As boas hierarquias, aquelas  construídas em torno da capacitação, fornecem segurança e são boas para a sociedade. O problema são as hierarquias degeneradas, que são verdadeiras tiranias. A pergunta que todos os cidadãos conscientes devem fazer é “qual é o nosso dever moral caso queiramos mais segurança e menos tirania?”

Para Peterson, a personalidade do indivíduo determina como ele percebe a hierarquia de poder com base na competência. O indivíduo do tipo autodisciplinado, que mira alto e alcança altos padrões, provavelmente não tem problema com esse tipo de hierarquia, mas o indivíduo que possui alguma limitação atravancadora de seu progresso, provavelmente tem. Esse tipo de pessoa possivelmente perceberá um elemento tirânico em padrões elevados, e os verá como injustos. As pessoas que pensam desse modo tendem a ter a ‘personalidade adversária’, segundo Peterson.

A existência de dois ou mais campos de articuladores não é o maior problema da sociedade. O maior problema da sociedade são os elementos radicais que existem neles. Um exemplo são os ideólogos do igualitarismo e da equidade, que são incapazes de perceber que as diferenças de posição entre as pessoas é coisa normal, e, que isso não é uma coisa tão terrível assim. Os não ideólogos também são um problema, quando se mantém afastados dos debates que ocorrem na esfera pública, especialmente quando não há desconforto em suas vidas profissionais e as coisas vão bem para eles.

Em 2017 Peterson resolveu pronunciar-se contra um projeto de lei no Canadá, o Bill C-16, criando uma obrigatoriedade legal das pessoas físicas e jurídicas (universidades, empregadores, senhorios) de se referir a indivíduos LGBTs utilizando os novos pronomes criados para acomodar suas situações particulares de gênero, por entender que tal legislação atropela o direito mais importante da livre expressão.  Embora Peterson tivesse deixado bem claro que ele não era contra o uso dos novos pronomes acomodadores de LGBTs e sim contra a obrigatoriedade legal de fazer isso, a esquerda radical do Canadá acusou-o de ser ‘bigoted’ (intolerante) e de pertencer à extrema direita, e organizou uma campanha sem trégua contra ele nas universidades. Em consequência disso, Peterson amargou uma espécie de processo administrativo dentro da Universidade de Toronto onde leciona. Segundo ele próprio, em 2017 o seu emprego na Universidade de Toronto foi ameaçado, causando enorme ansiedade para ele e sua família. Felizmente as nuvens que pairavam sobre a cabeça de Peterson se esvaneceram, o que provavelmente ocorreu em consequência do enorme suporte que recebeu, principalmente por parte de alunos moderados das universidades canadenses e americanas.

Em julho de 2017 Peterson anunciou seus planos de lançar um site que ajudaria alunos e pais a identificar e evitar cursos ‘corruptos’ com ‘conteúdo pós-moderno’. Ele espera que dentro de cinco anos, as salas de aula do Ocidente fiquem livres do ‘culto neomarxista pós-moderno’. Apesar de terem sido produzidas sem recursos especiais de iluminação e sem truques de imagem, as palestras, aulas e debates de Jordan divulgadas no YouTube e em podcasts já foram assistidas por cerca de 40 milhões de pessoas.

Peterson também passou a receber muitos convites fazer palestras e participar de debates em universidades e organizações de debate público como o Munk Debates de Toronto.  Entretanto, em todas as aparições públicas de Peterson, os protestos dos grupos radicais de esquerda são uma constante. Em uma de suas palestras na YouTube Peterson narra a sua experiência na Universidade McMaster, em Hamilton, Ontário (Canadá), na sexta-feira 16 de março de 2018. Ele havia sido convidado por um grupo de estudantes para participar de um debate sobre liberdade de expressão e correção política junto com três professores da mesma universidade. No entanto, devido aos protestos ocorridos no campus, os três debatedores locais desistiram de participar no evento. Peterson compareceu à sala designada para o debate e começou a falar, mas ninguém podia ouvi-lo por causa do barulho que os manifestantes faziam, cantando, tocando chocalhos e buzinando. Ele então saiu da sala e continuou falando de cima de um banco. Apesar da indignação sofrida, o ocorrido elevou o perfil de Peterson depois de ter aparecido no noticiário nacional e internacional. No início de 2018 Peterson publicou o seu livro de autoajuda 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos,  que logo virou um best-seller. O livro já foi traduzido para o português, como 12 regras para a vida: um antídoto do caos, e também por outras línguas (Leia a minha resenha em português).

Pela sua valentia e  enorme capacidade intelectual, Peterson finalmente ganhou o merecido reconhecimento. A ensaísta e crítica americano Camille Paglia o ungiu como “o mais importante e influente pensador canadense” desde Marshall McLuhan ”. A jornalista britânica Melanie Phillips escreveu que Jordan é “uma espécie de profeta secular… em uma era de conformismo lobotomizado”. O economista Tyler Cowen, da Universidade George Mason, colocou Peterson entre os cinco principais intelectuais públicos do mundo ocidental (Tyler Cowen, 23 de janeiro de 2018, às 12h45, na Current Arts Education Philosophy). David Brooks, do The New York Times, referiu-se a Peterson como “o intelectual público mais influente no mundo ocidental agora”.

 

P.S. Um tema que recebeu a atenção de Peterson em várias de suas palestras é o Pósmodernismo e a sua perniciosa influência na sociedade, de um modo geral, e nas universidades do Ocidente, em particular. Mas o Pós-modernismo invadiu também as universidades da franja do Ocidente, como a América Latina, embora é lamentável a omissão dos acadêmicos latino-americanos a respeito desse problema. Um dos 22 ensaios do meu livro O homem razoável (2016), o qual está disponível em edições Kindle e de papel, na Amazon.com (EUA), intitula-se ‘A que veio o Pós-modernismo?’ Peço aos leitores de língua portuguesa e espanhola que adquiram o meu livro me ajudem a divulgá-lo, pois nele há outros ensaios relacionados. Na minha próxima postagem eu vou publicar uma transcrição que fiz da palestra de Peterson sobre o pós-modernismo e seus efeitos no Canadá.

 

 

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Um partido de trabalhadores

Um partido de trabalhadores

O Partido Nazista, que governou a Alemanha entre 1933 e 1945, não era um partido de elites e sim um partido de trabalhadores. O seu nome por extenso é Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Uma vez no poder, o Partido Nazista levou o país à guerra e causou a morte de mais de 11 milhões de pessoas, incluindo cerca de seis milhões de judeus.

Em 1933, o ano em que Hitler chegou ao poder, dois filósofos alemães, Martin Heidegger (1889-1976) e Carl Schmitt (1888-1985), afiliaram-se ao mesmo. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando as atrocidades dos nazistas foram contabilizadas, nenhum dos dois mostrou arrependimento, mas mesmo assim foram reabilitados por certos intelectuais da extrema esquerda e extrema direita..

O fato do Partido Nazista ter sido um partido de trabalhadores não significa que os trabalhadores sejam pessoas más. Nas democracias do tipo ‘um cidadão um voto’, a classe dos trabalhadores, por ser a mais populosa, é também a mais poderosa politicamente. Muitos intelectuais e políticos inescrupulosos tentam tirar proveito disso bajulando os trabalhadores, bem como forjando heróis e inimigos do povo. Os trabalhadores podem evitar ser manipulados dessa forma procurando ser mais indivíduos e menos massa. É preciso pensar por si próprio, principalmente na hora de votar.

O homem médio brasileiro: razoável ou medíocre?

Joaquina Pires-O’Brien

O conceito do homem razoável no direito não é exclusivo da Inglaterra e do País de Gales, sendo também empregado noutros países do Ocidente. No Brasil, recebe a designação de ‘homem médio’. Embora o ‘homem médio’ seja atualmente empregado como sinônimo do ‘homem razoável’, os dois conceitos surgiram separadamente.

A ideia do homem razoável vem desde a Antiguidade. O correspondente da razoabilidade na antiga Grécia era a phronēsis (φρόνησις), ou sabedoria prática; o homem razoável da antiga Grécia era o homem de phronēsis. No seu livro Menon, Platão mostra um diálogo de Sócrates no qual este afirma que a phronēsis é o atributo mais importante para se aprender, embora não possa ser ensinado e tenha que ser adquirido através do autodesenvolvimento. Para Sócrates, o homem possuidor da phronēsis era aquele capaz de discernir como e por que agir virtuosamente e, ainda, encorajar essa virtude prática noutras pessoas.

A ideia do homem médio veio do matemático e astrônomo belga Adolphe Jacques Quételet (1796-1874), que a apresentou no seu livro Sur l’homme (1835, em inglês, A treatise on man and the development of his faculties, 1842). Nesse livro, Quételet imagina um indivíduo médio hipotético, que possui todas as qualidades possíveis do homem, embora em estado latente, e, que representa a mente do povo. Ele substancia a sua tese com uma grande quantidade de tabelas de características físicas e comportamentos observáveis.

Se o homem médio hipotético possui todas as qualidades possíveis do homem, como é o homem médio brasileiro? Quais são as suas qualidades? É razoável ou medíocre? Se razoável, como aproveitar melhor a sua razoabilidade? Se medíocre, como fazer para inculcar razoabilidade nele?

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria (portvitoria.com) de generalidades, cultura e política. Em 2016 ela publicou o ebook O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível em todos os portais da Amazon. US$ 9.99.

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Sobre o gênero ensaio e Montaigne

Um ensaio é uma composição literária relativamente curta sobre algum tema particular e que reflete a opinião pessoal do autor. É uma tentativa do autor de articular uma ideia principal, a qual é quase sempre acompanhada de ideias secundárias. Um ensaio de boa qualidade requer não apenas o conhecimento do tema tratado mas também de técnicas de argumentação e persuação.

O criador do ensaio como gênero literário foi o pensador francês Miguel de Montaigne (1533-92). Nascido no castelo de Montaigne, em Périgord, Montaigne recebeu uma educação humanista no Collège de Guienne em Bordeaux, e, em seguida, estudou direito. Após se formar, obteve um emprego no Parlamento de Bordeaux, onde atuou durante 13 anos como conselheiro da cidade. Em 1571, retornou a Périgord para tomar posse do castelo de Montaigne, quando passou a viver como um aristocrata do campo, visitando Paris frequentemente e fazendo um tour da Alemanha, Suíça e Itália. Em Périgord, Montaigne começou a escrever seus ensaios acerca de personalidades da época e sobre os locais onde visitou. Os seus ensaios eram ao mesmo tempo críticos e inspiradores e lhe trouxeram fama e reconhecimento. Uma tradução para o inglês dos seus ensaios foi publicada na Inglaterra em 1603, no livro Essays. Mas Montaigne não ficou muito tempo sendo apenas um aristocrata do campo. Aceitou um convite de amigos para concorrer ao cargo de prefeito de Bordeaux, e tendo se elegido, serviu de 1581 a 1585, quando retirou-se para a torre do seu castelo para escrever seus ensaios. Os ensaios de Montaigne são ricos e cativantes pelo fato dele juntar às suas descobertas acerca do mundo, as descobertas que fez acerca de si próprio. Veja a seguir três citações de Montaigne:

 

(1)

Francês: Pour juger des choses grandes et hautes, it faut une áme de même, autrement nous leur attribons le vice qui est le nôtre.

Inglês: To make judgements about great and lofty things, a soul of the same stature is needed; otherwise we ascribe to them that vice which is our own.

Português: Para julgar coisas que são grandes e elevadas, é necessário ter uma alma da mesma estatura, caso contrário imputamos a elas o vício que é nosso.

(2)

Francês: La plus grande chose du monde, c’est de savoir être à soi.

Inglês: The greatest thing in the world is to know how to be oneself.

Português: A maior coisa do mundo é saber ser você mesmo.

(3)

Francês: L’homme est bien insensé. Il ne saurait forger um ciron, et forge des dieux à douzaines.

Inglês: Man is quite insane. He wouldn’t know how to create a maggot, and he creates gods by the dozen.

Português:O homem é bastante insano. Ele não sabe como criar uma larva, e cria deuses às dúzias.

Por girar em torno de fatos e de críticas, o gênero ensaio mostra como construir uma narrativa integral e bem argumentada. A leitura de bons ensaios é um caminho seguro para aprender a escrever com lógica e clareza. Todas as línguas modernas da Europa têm seus ensaistas favoritos, como esses listados a seguior:

Inglês: William Hazlitt (1778-1830);

Alemão: Thomas Mann (1875-1950);

Italiano: Umberto Eco (1932-2016);

Espanhol: Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936);

Português: Ruy Bello (1933-78), Aurélio Buarque de Holannda Ferreira (1910-89);

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital <a href="http://portvitoria.com/”>PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com..

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A responsabilidade final é minha

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Joaquina Pires-O`Brien

A plaqueta acima com os seguintes dizeres: ‘the buck stops here’ (‘a responsabilidade final é minha’ ) entrou para a história pelo fato de ter sido exposta em cima da mesa de trabalho do Presidente dos Estados Unidos Harry S. Truman (1884-1972) o qual ocupou esse posto de 1944 a 1953. A plaqueta foi um presente de seu amigo Fred A. Canfil, Chefe do Distrito Policial de Missouri o qual deparou-se com uma semelhante durante uma visita oficial ao Reformatório Federal de El Reno, em Oaklahoma. Ao ser informado de que a plaqueta havia sido confeccionada pelos internos, ele encomendou uma especificamente para presentear o Presidente.

Quando eu encontrei a expressão idiomática ‘the buck stops here’ pela primeira vez, julguei que a palavra ‘buck’ fosse uma forma abreviada de ‘bucket’ (balde), palavra empregada na expressão ‘to kick the bucket’ que tem um equivalente em português na expressão ‘chutar o balde’. Logo descobri que tal equivalência era restrita à tradução literal pois as expressões tem significados diferentes em inglês e em português. Enquanto que em português ‘chutar o balde’ significa ‘mandar às favas’, ou seja, ‘desistir de algo’, a expressão ‘to kick the bucket’ significa ‘bater as botas’, ou seja, morrer.

A tradução de ‘the buck stops here’ como ‘a responsabilidade final é minha’ requereu um malabarismo linguístico na troca de uma metáfora (buck) por uma palavra normal (responsabilidade). Determinada a encontrar uma metáfora em português para a palavra ‘responsabilidade’, eu revirei os meus apontamentos linguísticos e procurei em diversos sítios da internet. Encontrei ‘batata quente’ e ‘abacaxi’, usadas nas frases  ‘jogar a batata quente para outra pessoa’ e ‘deixe que outro descasque o abacaxi’. Entretanto, conclui logo que ‘batata quente’ e ‘abacaxi’ tinham mais a ver com ‘encargo’ do que com ‘responsabilidade’.

Já no inglês, a palavra ‘buck’ tem diversos outros significados como culpa, cavalo de saltar, o macho de certos animais de chifre, pinotear, etc. Veja na Tabela 1, a seguir, alguns exemplos.

Tabela 1. Expressões idiomáticas inglesas com a palavra ‘buck’.

Tradução para o português
the buck stops here a responsabilidade termina aqui
the buck stops with the boss a responsabilidade termina com o chefe
where the buck stops onde a responsabilidade para
buck up one’s ideas dar mais duro; esforçar-se mais
make a fast buck ganhar um dinheiro fácil
pass the buck to someone else jogar a culpa em outro

Fiquei extremamente desapontada por não ter encontrado no português uma metáfora para ‘responsabilidade’. Entretanto, encontrei no inglês diversas expressões idiomáticas de probidade administrativa. Falarei dessas numa  próxima postagem.

 Nota. Imagem da plaqueta tirada da Biblioteca Truman. Fonte: http://www.trumanlibrary.org/buckstop.htm

Leia a revista da cultura ibérica, PortVitoria, editada pela autora desta postagem.

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A revolução bolivariana. O perigo do conhecimento pequeno

O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa. Beba do fundo ou sequer prove da fonte Pieriana, pois os goles rasos intoxicam o cérebro, e o beber farto nos torna sóbrios outra vez.” A. Pope, 1711

A antiga máxima de que ‘o conhecimento pequeno é uma coisa perigosa’ que Alexander Pope importalizou no seu poema ‘An Essay on Criticism ‘(Um ensaio sobre a crítica), foi validada recentemente por Hugo Chávez (1954-2013) através da Revolução Bolivariana deslanchada na Venezuela. A fim de explicar o perigo do conhecimento pequeno Pope buscou inspiração na lendária fonte do conhecimento de Piéria da mitologia grega, cujas nove nascentes representam as nove musas das artes ou ciências: Clio, Euterpe, Tália, Melpômene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope, filhas de Zeus e Mnemósina. Apenas o verdadeiro conhecimento confere a sobriedade, mas para ganhá-lo é preciso beber da parte mais funda, a única capaz de conter a água das nove nascentes. Os que vão à fonte de Piéria mas bebem apenas da parte rasa ganham tão somente o conhecimento limitado, que embriaga o espírito com uma confiança infundada.

A Revolução Bolivariana de Chávez foi um catálogo de erros que tipificou o que Pope quis dizer quando afirmou que o conhecimento pequeno era algo perigoso. Apesar da precaríssima educação formal, o antigo paraquedista do exército venezuelano aprendeu sozinho os princípios da teoria político-econômica de Karl Marx e Friedrich Engels incluindo o jargão marxista que permitiu que interagisse com certas lideranças da Esquerda Internacional. Tais contatos certamente contribuíram para validar as suas aspirações políticas e em 1982, Chávez foi um dos fundadores do Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR200) voltado a implantar o socialismo na Venezuela. Foi através deste que Chávez liderou o malogrado levante insurrecional de 4 de fevereiro de 1992 que fez com que fosse preso. Apesar de Chávez ter sido subsequentemente perdoado, a sua prisão fez dele um herói do povo e foi o seu bilhete para alcançar o poder político nas eleições de 1998.

A trajetória de Chávez ao poder também foi facilitada pela recessão econômica que a Venezuela vinha amargando há quase duas décadas devido ao baixo preço do barril de petróleo no mercado internacional. A Esquerda venezuelana regozijava-se com o cenário, afirmando que a má situação econômica era uma prova da falha do capitalismo e sua economia de mercado. Nos seus discursos de candidato Chávez fez bom uso da má conjuntura econômica apontando culpados e prometendo a redenção. Embora isso não seja importante depois do fato, é claro que os cidadãos mais sensatos ficaram alarmados com as tendências messiânicas de Chávez. Entretanto, Chávez não foi eleito por cidadãos sensatos mas por cidadãos mesmerizados que tampouco se preocuparam com a sua total falta de experiência governamental.

A Esquerda venezuelana teve outra grande oportunidade quando logo após a eleição de Chávez o preço do barril petróleo disparou. Em fevereiro de 1999 quando Chávez tomou posse do governo da Venezuela, o tesouro nacional já estava em franco crescimento. A recuperação econômica da Venezuela deu a Chávez uma oportunidade que os seus antecessores não tinham desde a década de setenta. Logo no seu primeiro governo Chávez começou a introduzir medidas iliberais como a interferência na liberdade de imprensa e a busca ativa de mais poderes para si próprio. Em 2002, Chávez foi destituído por uma junta militar após uma onda de violência entre ‘chavistas’ e opositores. Após um brevíssimo interregno de governos provisórios, Chávez recuperou o cargo. Nas eleições presidenciais de dezembro de 2006 Chávez foi reeleito com 63 por cento dos votos. Aproveitando o apoio da maioria da população Chávez deu início à socialização da Venezuela, nacionalizando as indústrias chaves e o que ainda havia em mãos privadas da indústria do petróleo. Em 2007, Chávez introduziu um projeto de mudanças constitucionais que foi rejeitado por uma margem estreita. Entretanto, a versão mais moderada mas que incluía a reeleição indefinida do cargo de presidente, introduzida em 2009, foi aprovada. Apesar de ter sido diagnosticado com câncer no final do seu mandato, Chávez concorreu e venceu a eleição presidencial de dezembro 2012, mas faleceu antes da data da sua inauguração. O seu vice, Nicolas Maduro (1962- ), assumiu a presidência e se comprometeu a levar adiante as políticas de Chávez.

A Revolução Bolivariana foi uma vitória de Pirro. Para conseguir a significativa redução na desigualdade da qual os chavistas se exultavam, Chávez gastou a absurda quantia de um trilhão de dólares. Com tal quantia era possível fazer com que todos os 29,3 milhões de habitantes da Venezuela ficassem ricos. Qualquer país que disponha de receita adicional, como ocorreu com a Venezuela devido ao salto do preço do petróleo, pode facilmente reduzir sua pobreza e encurtar as diferenças de renda entre os mais pobres e os mais ricos, sem ter que abrir mão das instituições garantidoras do equilíbrio dos poderes e da liberdade.

O disparo no preço do petróleo internacional foi uma contingência que poderia ter elevado a Venezuela a um dos grandes poderes das Américas. Mas no final, foi bom mesmo para a Esquerda venezuelana e para o próprio Chávez, que regozijou-se no seu papel de ídolo do povo. Não são poucos os peritos que acreditam que Chávez foi um desequilibrado. De qualquer forma, ele gastou mal o dinheiro da Venezuela, pagando um preço descomunal pela redução da desigualdade que obteve. Dezessete países Latino-Americanos conseguiram reduzir a desigualdade no mesmo período, gastando muito menos.

Dentre os muitos sintomas de distúrbios de personalidade que Chávez mostrou desde o início de sua trajetória política, o principal foi apresentar-se como um salvador da pátria, a fachada típica do delírio da falsa certeza. Chávez não foi um assassino de massas como Mao Zedong, Hitler ou Stalin, mas cometeu fraudes graves contra o povo venezuelano ao esbanjar recursos na sua Revolução Bolivariana bem como pela sua decisão de vender petróleo por um preço abaixo do mercado para seus cupinchas.

Os venezuelanos ainda terão que tolerar a deficiente política da Revolução Bolivariana até o final da gestão de Maduro em 2019. Felizmente o chavismo venezuelano perdeu parte do seu mojo após as eleições parlamentares de dezembro de 2015 o quando a coalizão União Democrática conquistou 99 cadeiras na Assembleia contra apenas 46 do partido Socialista de Maduro. A reação de Maduro à derrota nas urnas foi reafirmar a sua intensão de dar continuidade à Revolução Bolivariana. Tal afirmação dá mostra da obsolescente retórica empregada apenas pela ala mais inculta da Esquerda Internacional, da qual Maduro e outros tantos Latino-Americanos são meros vassalos. A Revolução Bolivariana na Venezuela foi um produto do delírio do pequeno conhecimento e uma lição para quem quer que queira aproveitar.
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Sobrenomes usados por cristãos novos brasileiros processados pela Inquisição

De acordo com Flávio Mendes de Carvalho, autor do livro “As raízes judaicas no Brasil” uma boa parte da população do Brasil colonial era formada por judeus convertidos. Nesse livro Carvalho apresenta a seguinte relação dos sobrenomes de cristãos-novos, brasileiros ou residentes no Brasil, condenados pela Inquisição nos séc. XVII e XVIII e que constam nos arquivos da Torre do Tombo em Lisboa.

A

Abreu Abrunhosa Affonseca Affonso Aguiar Ayres Alam Alberto Albuquerque Alfaro Almeida Alonso Alvade Alvarado Alvarenga Álvares/Alvarez Alvelos Alveres Alves Alvim Alvorada Alvres Amado Amaral Andrada Andrade Anta Antonio Antunes Araujo Arrabaca Arroyo Arroja Aspalhão Assumção Athayde Ávila Avis Azeda Azeitado Azeredo Azevedo B

Bacelar Balão Balboa Balieyro Baltiero Bandes Baptista Barata Barbalha Barboza /Barbosa Bareda Barrajas Barreira Baretta Baretto Barros Bastos Bautista Beirão Belinque Belmonte Bello Bentes Bernal Bernardes Bezzera Bicudo Bispo Bivar Boccoro Boned Bonsucesso Borges Borralho Botelho Bragança Brandão Bravo Brites Brito Brum Bueno Bulhão

C

Cabaco Cabral Cabreira Cáceres Caetano Calassa Caldas Caldeira Caldeyrão Callado Camacho Câmara Camejo Caminha Campo Campos Candeas Capote Cárceres Cardozo/Cardoso Carlos Carneiro Carranca Carnide Carreira Carrilho Carrollo Carvalho Casado Casqueiro Cásseres Castenheda Castanho Castelo Castelo Branco Castelhano Castilho Castro Cazado Cazales Ceya Céspedes Chacla Chacon Chaves Chito Cid Cobilhos Coche Coelho Collaço Contreiras Cordeiro Corgenaga Coronel Correa Cortez Corujo Costa Coutinho Couto Covilhã Crasto Cruz Cunha D

Damas Daniel Datto Delgado Devet Diamante Dias Diniz Dionisio Dique Doria Dorta Dourado Drago Duarte Duraes

E

Eliate Escobar Espadilha Espinhosa Espinoza Esteves Évora

F

Faísca Falcão Faria Farinha Faro Farto Fatexa Febos Feijão Feijó Fernandes Ferrão Ferraz Ferreira Ferro Fialho Fidalgo Figueira Figueiredo Figueiro Figueiroa Flores Fogaça Fonseca Fontes Forro Fraga Fragozo Franca Francês Francisco Franco Freire Freitas Froes/Frois Furtado G

Gabriel Gago Galante Galego Galeno Gallo Galvão Gama Gamboa Gancoso Ganso Garcia Gasto Gavilão Gil Godinho Godins Goes Gomes Gonçalves Gouvea Gracia Gradis Gramacho Guadalupe Guedes Gueybara Gueiros Guerra Guerreiro Gusmão Guterres

H/I

Henriques Homem Idanha Iscol Isidro Jordão Jorge Jubim Julião

L

Lafaia Lago Laguna Lamy Lara Lassa Leal Leão Ledesma Leitão Leite Lemos Lima Liz Lobo Lopes Loucão Loureiro Lourenço Louzada Lucena Luiz Luna Luzarte

M

Macedo Machado Machuca Madeira Madureira Magalhães Maia Maioral Maj Maldonado Malheiro Manem Manganes Manhanas Manoel Manzona Marçal Marques Martins Mascarenhas Mattos Matoso Medalha Medeiros Medina Melão Mello Mendanha Mendes Mendonça Menezes Mesquita Mezas Milão Miles Miranda Moeda Mogadouro Mogo Molina Monforte Monguinho Moniz Monsanto Montearroyo Monteiro Montes Montezinhos Moraes Morales Morão Morato Moreas Moreira Moreno Motta Moura Mouzinho Munhoz

N

Nabo Nagera Navarro Negrão Neves Nicolao Nobre Nogueira Noronha Novaes Nunes

O

Oliva Olivares Oliveira Oróbio

P

Pacham/Pachão/Paixão Pacheco Paes Paiva Palancho Palhano Pantoja Pardo Paredes Parra Páscoa Passos Paz Pedrozo Pegado Peinado Penalvo Penha Penso Penteado Peralta Perdigão Pereira Peres Pessoa Pestana Picanço Pilar Pimentel Pina Pineda Pinhão Pinheiro Pinto Pires Pisco Pissarro Piteyra Pizarro Pombeiro Ponte Porto Pouzado Prado Preto Proença

Q

Quadros Quaresma Queiroz Quental

R

Rabelo Rabocha Raphael Ramalho Ramires Ramos Rangel Raposo Rasquete Rebello Rego Reis Rezende Ribeiro Rios Robles Rocha Rodriguez Roldão Romão Romeiro Rosário Rosa Rosas Rozado Ruivo Ruiz

S

Sa Salvador Samora Sampaio Samuda Sanches Sandoval Santarém Santiago Santos Saraiva Sarilho Saro Sarzedas Seixas Sena Semedo Sequeira Seralvo Serpa Serqueira Serra Serrano Serrão Serveira Silva Silveira Simão Simões Soares Siqueira Sodenha Sodré Soeyro Sueyro Soeiro Sola Solis Sondo Soutto Souza T/U

Tagarro Tareu Tavares Taveira Teixeira Telles Thomas Toloza Torres Torrones Tota Tourinho Tovar Trigillos Trigueiros Trindade Uchôa

V/X/Z

Valladolid Vale Valle Valença Valente Vareda Vargas Vasconcellos Vasques Vaz Veiga Veyga Velasco Velez Vellez Velho Veloso Vergueiro Viana Vicente Viegas Vieyra Viera Vigo Vilhalva Vilhegas Vilhena Villa Villalão Villa-Lobos Villanova Villar Villa Real Villella Vilela Vizeu Xavier Ximinez Zuriaga

Fonte: http://www.coisasjudaicas.com/2009/05/sobrenomes-usados-por-cristaos-novos.html#axzz2VFOxZKwX

P.S.

Para mais informações sobre os judeus ibéricos leiam também a última nova edição da revista cultural PortVitoria, voltada à diáspora da cultura ibérica em todo o mundo: <a href="http://www.portvitoria.com“>http://www.portvitoria.com/

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