Sobre o gênero ensaio e Montaigne

Um ensaio é uma composição literária relativamente curta sobre algum tema particular e que reflete a opinião pessoal do autor. É uma tentativa do autor de articular uma ideia principal, a qual é quase sempre acompanhada de ideias secundárias. Um ensaio de boa qualidade requer não apenas o conhecimento do tema tratado mas também de técnicas de argumentação e persuação.

O criador do ensaio como gênero literário foi o pensador francês Miguel de Montaigne (1533-92). Nascido no castelo de Montaigne, em Périgord, Montaigne recebeu uma educação humanista no Collège de Guienne em Bordeaux, e, em seguida, estudou direito. Após se formar, obteve um emprego no Parlamento de Bordeaux, onde atuou durante 13 anos como conselheiro da cidade. Em 1571, retornou a Périgord para tomar posse do castelo de Montaigne, quando passou a viver como um aristocrata do campo, visitando Paris frequentemente e fazendo um tour da Alemanha, Suíça e Itália. Em Périgord Montaigne começou a escrever seus ensaios acerca de personalidades da época e sobre os locais onde visitou. Os seus ensaios eram ao mesmo tempo críticos e inspiradores e lhe trouxeram fama e reconhecimento. Uma tradução para o inglês dos seus ensaios foi publicada na Inglaterra em 1603, no livro Essays. Mas Montaigne não ficou muito tempo sendo apenas um aristocrata do campo. Aceitou um convite de amigos para concorrer ao cargo de prefeito de Bordeaux, e tendo se elegido, serviu de 1581 a 1585, quando retirou-se para a torre do seu castelo para escrever seus ensaios. Os ensaios de Montaigne são ricos e cativantes pelo fato dele juntar às suas descobertas acerca do mundo, as descobertas que fez acerca de si próprio. Veja a seguir três citações de Montaigne:

 

(1)

Francês: Pour juger des choses grandes et hautes, it faut une áme de même, autrement nous leur attribons le vice qui est le nôtre.

Inglês: To make judgements about great and lofty things, a soul of the same stature is needed; otherwise we ascribe to them that vice which is our own.

Português: Para julgar coisas que são grandes e elevadas, é necessário ter uma alma da mesma estatura, caso contrário imputamos a elas o vício que é nosso.

(2)

Francês: La plus grande chose du monde, c’est de savoir être à soi.

Inglês: The greatest thing in the world is to know how to be oneself.

Português: A maior coisa do mundo é saber ser você mesmo.

(3)

Francês: L’homme est bien insensé. Il ne saurait forger um ciron, et forge des dieux à douzaines.

Inglês: Man is quite insane. He wouldn’t know how to create a maggot, and he creates gods by the dozen.

Português:O homem é bastante insano. Ele não sabe como criar uma larva, e cria deuses às dúzias.

Por girar em torno de fatos e de críticas, o gênero ensaio mostra como construir uma narrativa integral e bem argumentada. A leitura de bons ensaios é um caminho seguro para aprender a escrever com lógica e clareza. Todas as línguas modernas da Europa têm seus ensaistas favoritos, como esses listados a seguior:

Inglês: William Hazlitt (1778-1830);

Alemão: Thomas Mann (1875-1950);

Italiano: Umberto Eco (1932-2016);

Espanhol: Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936);

Português: Ruy Bello (1933-78), Aurélio Buarque de Holannda Ferreira (1910-89);

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Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com.

 

Sobrenomes usados por cristãos novos brasileiros processados pela Inquisição

De acordo com Flávio Mendes de Carvalho, autor do livro “As raízes judaicas no Brasil” uma boa parte da população do Brasil colonial era formada por judeus convertidos. Nesse livro Carvalho apresenta a seguinte relação dos sobrenomes de cristãos-novos, brasileiros ou residentes no Brasil, condenados pela Inquisição nos séc. XVII e XVIII e que constam nos arquivos da Torre do Tombo em Lisboa.

A

Abreu Abrunhosa Affonseca Affonso Aguiar Ayres Alam Alberto Albuquerque Alfaro Almeida Alonso Alvade Alvarado Alvarenga Álvares/Alvarez Alvelos Alveres Alves Alvim Alvorada Alvres Amado Amaral Andrada Andrade Anta Antonio Antunes Araujo Arrabaca Arroyo Arroja Aspalhão Assumção Athayde Ávila Avis Azeda Azeitado Azeredo Azevedo B

Bacelar Balão Balboa Balieyro Baltiero Bandes Baptista Barata Barbalha Barboza /Barbosa Bareda Barrajas Barreira Baretta Baretto Barros Bastos Bautista Beirão Belinque Belmonte Bello Bentes Bernal Bernardes Bezzera Bicudo Bispo Bivar Boccoro Boned Bonsucesso Borges Borralho Botelho Bragança Brandão Bravo Brites Brito Brum Bueno Bulhão

C

Cabaco Cabral Cabreira Cáceres Caetano Calassa Caldas Caldeira Caldeyrão Callado Camacho Câmara Camejo Caminha Campo Campos Candeas Capote Cárceres Cardozo/Cardoso Carlos Carneiro Carranca Carnide Carreira Carrilho Carrollo Carvalho Casado Casqueiro Cásseres Castenheda Castanho Castelo Castelo Branco Castelhano Castilho Castro Cazado Cazales Ceya Céspedes Chacla Chacon Chaves Chito Cid Cobilhos Coche Coelho Collaço Contreiras Cordeiro Corgenaga Coronel Correa Cortez Corujo Costa Coutinho Couto Covilhã Crasto Cruz Cunha D

Damas Daniel Datto Delgado Devet Diamante Dias Diniz Dionisio Dique Doria Dorta Dourado Drago Duarte Duraes

E

Eliate Escobar Espadilha Espinhosa Espinoza Esteves Évora

F

Faísca Falcão Faria Farinha Faro Farto Fatexa Febos Feijão Feijó Fernandes Ferrão Ferraz Ferreira Ferro Fialho Fidalgo Figueira Figueiredo Figueiro Figueiroa Flores Fogaça Fonseca Fontes Forro Fraga Fragozo Franca Francês Francisco Franco Freire Freitas Froes/Frois Furtado G

Gabriel Gago Galante Galego Galeno Gallo Galvão Gama Gamboa Gancoso Ganso Garcia Gasto Gavilão Gil Godinho Godins Goes Gomes Gonçalves Gouvea Gracia Gradis Gramacho Guadalupe Guedes Gueybara Gueiros Guerra Guerreiro Gusmão Guterres

H/I

Henriques Homem Idanha Iscol Isidro Jordão Jorge Jubim Julião

L

Lafaia Lago Laguna Lamy Lara Lassa Leal Leão Ledesma Leitão Leite Lemos Lima Liz Lobo Lopes Loucão Loureiro Lourenço Louzada Lucena Luiz Luna Luzarte

M

Macedo Machado Machuca Madeira Madureira Magalhães Maia Maioral Maj Maldonado Malheiro Manem Manganes Manhanas Manoel Manzona Marçal Marques Martins Mascarenhas Mattos Matoso Medalha Medeiros Medina Melão Mello Mendanha Mendes Mendonça Menezes Mesquita Mezas Milão Miles Miranda Moeda Mogadouro Mogo Molina Monforte Monguinho Moniz Monsanto Montearroyo Monteiro Montes Montezinhos Moraes Morales Morão Morato Moreas Moreira Moreno Motta Moura Mouzinho Munhoz

N

Nabo Nagera Navarro Negrão Neves Nicolao Nobre Nogueira Noronha Novaes Nunes

O

Oliva Olivares Oliveira Oróbio

P

Pacham/Pachão/Paixão Pacheco Paes Paiva Palancho Palhano Pantoja Pardo Paredes Parra Páscoa Passos Paz Pedrozo Pegado Peinado Penalvo Penha Penso Penteado Peralta Perdigão Pereira Peres Pessoa Pestana Picanço Pilar Pimentel Pina Pineda Pinhão Pinheiro Pinto Pires Pisco Pissarro Piteyra Pizarro Pombeiro Ponte Porto Pouzado Prado Preto Proença

Q

Quadros Quaresma Queiroz Quental

R

Rabelo Rabocha Raphael Ramalho Ramires Ramos Rangel Raposo Rasquete Rebello Rego Reis Rezende Ribeiro Rios Robles Rocha Rodriguez Roldão Romão Romeiro Rosário Rosa Rosas Rozado Ruivo Ruiz

S

Sa Salvador Samora Sampaio Samuda Sanches Sandoval Santarém Santiago Santos Saraiva Sarilho Saro Sarzedas Seixas Sena Semedo Sequeira Seralvo Serpa Serqueira Serra Serrano Serrão Serveira Silva Silveira Simão Simões Soares Siqueira Sodenha Sodré Soeyro Sueyro Soeiro Sola Solis Sondo Soutto Souza T/U

Tagarro Tareu Tavares Taveira Teixeira Telles Thomas Toloza Torres Torrones Tota Tourinho Tovar Trigillos Trigueiros Trindade Uchôa

V/X/Z

Valladolid Vale Valle Valença Valente Vareda Vargas Vasconcellos Vasques Vaz Veiga Veyga Velasco Velez Vellez Velho Veloso Vergueiro Viana Vicente Viegas Vieyra Viera Vigo Vilhalva Vilhegas Vilhena Villa Villalão Villa-Lobos Villanova Villar Villa Real Villella Vilela Vizeu Xavier Ximinez Zuriaga

Fonte: http://www.coisasjudaicas.com/2009/05/sobrenomes-usados-por-cristaos-novos.html#axzz2VFOxZKwX

P.S.

Para mais informações sobre os judeus ibéricos leiam também a última nova edição da revista cultural PortVitoria, voltada à diáspora da cultura ibérica em todo o mundo: http://www.portvitoria.com/

Sobre os judeus ibéricos, conversos e a Inquisição

Editorial da nova edição de PortVitoria: http://www.portvitoria.com/index.html

Esta edição de PortVitoria é sobre os judeus ibéricos, assunto que tem aparecido na mídia desde 2014, quando Portugal passou uma lei concedendo cidadania para os descendentes das suas populações de judeus expulsos em 1497, e, cuja regulamentação foi aprovada no final de janeiro de 2015. Esse marco histórico foi capturado por Norman Berdichevsky, cujo artigo revisita as tentativas de Portugal de fazer reparações aos judeus durante o século XX.

‘Os judeus assentaram-se na península ibérica antes da chegada dos fenícios por volta de 900 AEC (Antes da Era Comum). Mercadores judeus assentaram-se ao longo da costa da Espanha durante o reinado do rei Salomão, quando essa região era chamada Tarsus, ou Tarshish.’ Isso é um trecho do artigo de Ivone Garcia, uma sinopse da história dos judeus da península ibérica, republicado do portal da Associação dos Criptojudeus das Américas.

Como resultado de novas descobertas em arqueologia e linguística, e de melhorias nos métodos analíticos, a história dos judeus está sendo reescrita a fim de se integrar ao sistema de história mundial. O livro ‘Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the Discovery of Europe’ (Saída da Arábia: Fenícios e Árabes e a Descoberta da Europa) de Warwick Ball, de 2009, resenhado nesta edição, também menciona que a localidade bíblica Társis ou Tarsis (em inglês Tarshish) é hoje em dia aceita como sendo a ‘Tartessus’ ou ‘Tartessia’, na Ibéria.

O legado cultural dos judes ibéricos sobrevive até hoje em todos os lugares onde o português e o espanhol são falados. O legado judeu na língua portuguesa é o tema explorado por Jane Bichmacher de Glasman no seu cativante artigo.

A designação ‘criptojudeus’, que significa simplesmente ‘judeus secretos’, se aplica aos judeus convertidos que continuaram praticando secretamente o judaísmo, e, razão pela qual tornaram-se o alvo da Inquisição. Este é o tópico do artigo do renomado historiador espanhol Joseph Pérez. Na visão de Pérez, a Inquisição espanhola foi uma máscara ideológica empregada pelos reis católicos para aplacar as massas enfurecidas e a aristocracia, que se sentiram ameaçadas pela incipiente burguesia dos criptojudeus espanhóis.

Muitos judeus ibéricos se exilaram em outras partes da Europa e nas Américas. Um dos mais notórios foi Michael de Espinosa van Vidiger, pai do filósofo Benedictus Spinoza (1632-1677), um judeu português que se assentou na atual Holanda. O artigo de António Bento, nesta edição, é sobre a grafia original do nome de Spinoza, bem como sobre a localidade em Portugal de onde veio a família do filósofo.

Também no assunto dos exilados espanhóis nós oferecemos uma resenha do livro de 2007 de Henry Kamen intitulado ‘The Disinherited: Exile and the Making of Spanish Culture, 1492-1975’ (Os Deserdados: Exílio e a Formação da Cultura Espanhola, 1492-1975) por Mark Falcoff, pesquisador emérito do American Enterprise Institute, publicado inicialmente no jornal americano The Weekly Standard.

Sem dúvida a expulsão dos judeus da Espanha e de Portugal levou a um prolongado período de empobrecimento intelectual e econômico nesses dois países. Se é que nós aprendemos algo dessa lição da história é que existe certas perguntas de relevância que nós nunca devemos cessar de perguntar. Se a Inquisição foi uma máscara ideológica, que outros tipos de máscaras podem estar servindo a interesses encobertos? Qual é o custo para a sociedade do ato de ceder às massas e de falhar no exercício da tolerância e da inclusividade?

Os avanços da assiriologia

A Assiriologia refere-se ao estudo sistemático da língua literatura e história da Babilônia e da Assíria, os dois últimos impérios da Mesopotâmia antiga, considerada o berço da civilização Ocidental. Graças aos avanços da assiriologia, sabemos que os babilônios e os assírios viviam e compartilhavam de uma mesma língua e uma mesma escrita de caracteres cuneiformes. E graças à decifração da escrita cuneiforme em 1851, todo o registro cuneiforme historicamente relevante já foi traduzido, esclarecendo os períodos históricos  relevantes bem como muitas outras coisas sobre a vida dos babilônios e assírios como, por exemplo, o fato de que os babilônios davam uma enorme importância à religião enquanto que os assírios valorizavam mais a história. A cronologia abaixo visa ajudar a entender a geopolítica da Mesopotâmia antiga.

 Cronologia da Babilônia e Assíria

Final do 3º Milênio a.C.

A Babilônia surge como cidade.

Shamshi-Adad I (1813 – 1781 a.C.), um Amorita, ganha o poder no norte da Mesopotâmia, do rio Eufrates até as montanhas Zagros;

1ª metade do século 18 a.C.

1792-1750 a.C.

Colapso do reino de Shamshi-Adad após a morte deste. Hamurabi incorpora todo o sul da Mesopotâmia ao reino da Babilônia.

            1749 – 1712 a.C.

O filho de Hamurabi, Samsuiluna reina. O curso do rio Eufrates muda por razões não conhecidas no presente.

            1595

O rei hitita Mursilis I saqueia a Babilônia. A dinastia Sealand parece ter reinado na Babilônia após o assalto hitita. Quase nada é sabido da Babilônia nos 150 anos após tal assalto.

Período Cassita

Meados do Século 15 a.C.

Os povos Cassitas, que não eram da Mesopotâmia tomam o poder na Babilônia e restauram a Babilônia como o poder no sul do Mesopotâmia. A Babilônia sob dominação Cassita durou (tirando com um curto intervalo) 3 séculos. Foi uma época de literatura e de construção de canais. A cidade de Nipur foi reconstruída.

Início do Século 14 a.C.

Kurigalzu constrói Dur-Kurigalzu (Aqar Quf), perto da moderna Bagdad, provavelmente para defender a Babilônia dos invasores vindos do norte. Há 4 grandes poderes mundiais, o Egito, Mitanni, o império Hitita, e a Babilônia. O babilônio é a língua da diplomacia internacional.

Meados do Século 14 a.C.

A Assíria emerge como um poder sob Ashur-uballit I (1363 – 1328 a.C.).

1220s

O rei assírio Tukulti-Ninurta I (1243 – 1207 a.C.) ataca a Babilônia e toma o trono em 1224. Os Cassitas eventualmente o depõe, mas danos foram feitos ao sistema de irrigação.

Meados do Século 12 a.C.

Os elamitas e os assírios atacam a Babilônia. Um elamita, Kutir-Nahhunte, captura o último rei Cassita, Enlil-nadin-ahi (1157 – 1155 a.C.).

1125 – 1104 a.C.

Nabucodonosor I reina na Babilônia e retoma dos elamitas a estátua de Marduk que os elamitas tinham levado para Susa.

1114 -1076 a.C.

Os assírios sob Tiglathpileser saqueiam a Babilônia.

Séculos 11 – 9 a.C.

Tribos de arameanos e caldeus migram e se assentam na Babilônia.

Meados do Século 9 a.C. ao fim do Século 7 a.C.

A Assíria aumenta o seu domínio sobre a Babilônia.

O rei assírio Sennacherib (704 – 681 a.C.) destrói a Babilônia. O filho de Sennacherib, Esarhaddon (680 – 669 a.C.) reconstrói a Babilônia. O filho deste, Shamash-shuma-ukin (667 – 648 a.C.), assume o trono da Babilônia.

Nabopolassar (625 – 605 a.C.) se livra dos assírios e em seguida de investe contra eles numa coalizão com Medes, em campanhas que vão de  615 – 609.

O Império Neo-Babilônio

Nabopolassar e seu filho Nabucodonosor  II (604 – 562 a.C.) reinam na parte oeste do Império Assírio. Nabucodonosor II conquista Jerusalém em 597 e a destrói em 586.

Os babilônicos renovam a Babilônia para adequá-la a ser a capital do império, incluindo 3 milhas quadradas dentro das muralhas da cidade. Quando Nabucodonosor morre, o seu filho, o seu genro, e o seu neto assumem o trono numa rápida sucessão. Em seguida, assassinos entregam o trono a Nabonidus (555 – 539 a.C.).

Ciro II (559 – 530) da Pérsia toma a Babilônia. A Babilônia deixa de ser independente.

Nota Final. Em 334 a.C., aos vinte anos de idade, Alexandre invadiu a Pérsia e a incorporou ao seu império, ganhando junto a Babilônia e a Assíria. Após a sua morte, em 323 a.C., o império alexandrino foi dividido entre os seus generais. Um deles, Seleuco, tornou-se rei das províncias leste mais a Síria e a Mesopotâmia. Seleuco incorporou tudo na nova Síria Selêucida. O reino de Seleuco era tão vasto que necessitou ter duas capitais, ambas fundadas em torno do ano 300 a.C.: Antióquia, na Síria, e Selêucida, na Mesopotâmia.

Fonte: a presente cronologia foi tirada do portal: http://ancienthistory.about.com/od/babyloniatimelines/a/babyloniatime.htmç. Segundo esta fonte, a principal referência empregada para a confecção da presente cronologia foi: James A. Armstrong Mesopotâmia The Oxford Companion to Archaeology . Brian M. Fagan, ed., Oxford University Press 1996. Oxford University Press.

O palácio de Sargão II em SarDur-Sharrukin (atual Khorsabad, Iraque)

Conforme já visto numa postagem anterior, quando o arqueólogo Paul Émile Botta (1802-1870) descobriu o palácio do rei Assírio Sargão II(1) na antiga cidade de Forte Sargão (Dur Sharrukin, próxima da atual Khorsabad), em 1843, ele julgou que havia descoberto Nínive. Como foi que Bota se enganou? Uma resposta provável é que ele teria confundido o acervo de tabletes cuneiformes de Sargão II, com a biblioteca de Nínive.

Segundo os historiadores, bem antes de Assurbanibal criar a biblioteca de Nínive, Sargão II ordenou que os textos religiosos, científicos e da magia da cultura suméria-acadiana fossem fossem colecionados, organizados, e copiados em tabletes, com suas respectivas traduções. O acervo resultante incluia três livros sobre religião em duzentos tabletes e cerca de setenta tabletes sobre astrologia. Sargão II é também creditado com a introdução do hábito de sincronizar eventos uns com outros, o que conferiu maior credibilidade às datas das inscrições.

Uma boa parte do acervo de Sargão II veio de uma coleção de escritos religiosos em cuneiforme que foram preservados numa morada de sacerdotes em Uruch. O grande destaque da biblioteca de Uruch era o conjunto das recitações teológicas sumérias-acadianas e os hinos e as orações do segundo período, compostos numa época quando a influência religiosa era mais elevada. Outro destaque dessa coleção são os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas às humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita, que segundo os historiadores, são extremamente parecidos com os salmos de David da Bíblia hebraica.

Nota
É preciso tomar cuidado para não confundir Sargão II, que reinou na Assíria de 705 a 681 a.C., com Sargão I, que também reinou na Assíria mas cerca de 1800 anos antes, este último sendo o objeto da conhecida lenda babilônica.

O épico Gilgamesh e a lenda de Sargão

O épico Gilgamesh (inicialmente traduzido como Izdubar) e outras narrativas babilônicas como a lenda de Sargão (veja abaixo), já eram conhecidos dos estudiosos através das citações de três livros de Beroso, um estudioso caldeu que deixou a Babilônia e foi morar na ilha de Cos, na Ásia Menor por volta de 240 a.C. Entretanto, a decifração do babilônio por volta de 1850 permitiu a recuperação de fontes diretas da literatura assíria/babilônica escritas em cuneiforme.

Considerado o primeiro épico da história da humanidade, o Gilgamesh conta as aventuras do rei Gilgamesh e de seu amigo Ba-bani, e também descreve algumas lendas da Babilônia como a do dilúvio babilônico. Esta última foi reconhecida pela primeira vez num fragmento contendo inscrições cuneiformes do acervo do Museu Britânico, que foi traduzido em 1872 por George Smith, um jovem curador que lá trabalhava. No seu livro Chaldean Account of Genesis (A Explicação do Gênese dos Caldeus) publicado em 1876, Smith explicou a proveniência do tablete do dilúvio e como ele efetuou a sua tradução. Em janeiro de 2014, Irving Finkel, também do Museu Britânico, publicou o livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio), onde descreve um outro tablete do dilúvio que difere daquele descrito por Smith pelo fato de dar os pormenores de como a arca deveria ser construída (Veja a minha resenha do livro de Finkel na atual edição (no 9) da revista PortVitoria, dedicada à diáspora falante de português e espanhol: http://www.portvitoria.com/BookReviewJPO.html).

Na década em que Smith traduziu o tablete do dilúvio babilônico e publicou o livro acima mencionado, os temas mais comuns debatidos pelos estudiosos eram a teoria evolutiva de Charles Darwin e a implicação desta sobre as narrativas da Bíblia. Tais debates foram acirrados pela constatação da enorme semelhança entre a narrativa do dilúvio babilônico e a narrativa do dilúvio na Bíblia hebraica.

Outro texto babilônico que parece ter sido incorporado na narrativa sobre Moisés da Bíblia hebraica é a narrativa da lenda de Sargão (também conhecido como Sharrukin ou Sargina), um rei da Acádia (ou Agadê). De acordo com a lenda babilônica, Sargão, que foi o rei da Acádia por volta do ano 1600 a.C., não conheceu os seus pais biológicos. Quando bebê ele foi colocado por sua mãe, uma princesa real, num cesto impermeabilizado que ela colocou no rio Eufrates. O cesto foi encontrado pelo irrigador Akki, que o criou como filho. A versão abaixo mostrada, considerada uma das mais importantes, é citada no livro Chaldean Account of Genesis de George Smith (1876).

Legend of Sargon
Sargon, the powerful king, King of Akkad am I.
My mother was a princess, my father I did not know, a brother of my father ruled over the country.
In the city of Azupiranu which by the side of the river Euphrates is situated
my mother the princess conceived me; in difficulty she brought me forth;
She placed me in an ark of rushes; with bitumen my exit she sealed up.
She launched me on the river which did not drown me.
The river carried me, to Akki, the water carrier it brought me.
Akki, the water carrier in tenderness of bowels lifted me;
Akki, the water carrier as his husbandman placed me,
45 ? years the kingdom I have ruled,
The people of the dark races I governed,
…… over rugged countries with chariots of bronze I rode,
I govern the upper countries,
I rule ? over the chiefs of the lower countries,
To the sea coast three times I advanced, Dilmun submitted,
Durankigal bowed, &c. &c.

O épico Gilgamesh e a lenda de Sargão não são os únicos textos babilônicos que parecem ter sido aproveitados na Bíblia. Os salmos de David também foram apontados por alguns historiadores como sendo extremamente parecidos com os ‘Salmos de Penitência’, lamentações dos povos semitas da Babilônia sobre as humilhações sofridas em decorrência da invasão elamita. Segundo os historiadores, os tabletes contendo os ‘Salmos de Penitência’ foram preservados inicialmente numa morada de sacerdotes em Uruch, e mais tarde adquiridos por Sargão II.

A Bíblia hebraica não é a única obra que aproveitou as narrativas da literatura babilônica. Tais narrativas também aparecem na Ilíada e na Odisséia de Homero bem como nos Contos das Mil e Uma Noites compilados em árabe durante a Idade Dourada do Islão.

A redescoberta do babilônio

O babilônio, a língua acádia, foi redescoberto por volta de 1850 por Sir Henry Rawlinson (1810-1895), um oficial do exército britânico que era proficiente na língua persa. Quando em 1835 Rawlinson foi mandado para a Pérsia para ajudar a treinar as tropas do Xá, lá ele encontrou, num monte de Behistun, um conjunto de inscrições em três línguas: persa antigo, babilônio e elamita, feitas a mando do Rei Dario da Persia (522-486 a.C.). Rawlinson reconheceu logo que as inscrições de Behistun tinham a mesma importância para a decifração do babilônio do que a Pedra de Rosetta(1) teve para a decifração dos hieróglifos egípcios em 1822. Após ter traduzido o trecho em persa, Rawlinson começou a decifrar o babilônio e o elamita mas devido a problemas diplomáticos entre a corte iraniana e o governo britânico ele precisou retornar à Inglaterra. Antes de partir, Rawlinson conseguiu fazer uma impressão em relevo das inscrições de Behistun, e assim continuar o trabalho.

No fim de 1843 Rawlinson foi transferido para Bagdad, de onde ele fez algumas visitas ao seu amigo arqueólogo Austen Henry Layard, que se encontrava escavando em Quyunjik, perto de Mossul. Através desse contato, Rawlinson teve acesso ao acervo de tabletes de inscrições cuneiformes que foram descobertos em Quyunjik. No outono de 1846, já tendo conseguido entender muitas das inscrições em cuneiforme que encontrou, ele publicou um trabalho sobre a decifração da escrita cuneiforme. Ao retornar à Inglaterra ele passou a dedicar-se exclusivamente à tradução de textos cuneiformes.

Nota. A Pedra de Rosetta contém a mesma inscrição em hieróglifo, demótico (escrito cursivo derivado do hierático e que serviu de base para o cóptico – a língua egípcia), e grego antigo, o qual os linguistas conseguiam entender. O conteúdo da Pedra de Rosetta é um decreto datado de 196 a.C. celebrando o reinado de Ptolomeu V. A decifração dos hieróglifos nela contidos foi completada por Jean Champollion em 1822.