Alimento para pensar

Joaquina Pires-O`Brien

A frase ‘alimento para pensar’, uma tradução da frase em inglês food for thought, refere-se à nutrição da mente. Tudo aquilo que estimula novas ideias é ‘alimento para pensar’. A lista é vasta e inclui cinema, peças teatrais, concertos, palestras, museus, viagens, conversas com outras pessoas e as boas leituras. O pensar bem anda de mãos dadas com a cultura, e, em especial com a cultura do indivíduo, em contraposição à cultura de grupos sociais. A cultura em referência ao indivíduo refere-se ao conhecimento do melhor que já foi dito, pensado e criado no mundo, conforme definiu o poeta e crítico inglês Matthew Arnold (1822-88). A cultura de grupos sociais tem um sentido bem diferente, pois refere-se a conjuntos de comportamentos e valores.

Muitos ideólogos de esquerda consideram a alta cultura, que é a cultura caracterizadora do indivíduo, como uma forma de elitismo. O sufixo ‘ismo’ de elitismo implica num preconceito a favor da elite. Mas, o que é elite? Elite é simplesmente o segmento da sociedade formado pelos que a governam. O elitismo da cultura se caracterizaria numa sociedade onde as pessoas sem cultura são impedidas disputar eleições ou fazer concursos para cargos governamentais. No caso de eleições para cargos políticos, quando os eleitores dão preferência a um candidato culto sobre outro que é inculto, isso é uma prerrogativa do sistema democrático que não tem nada a ver com elitismo.

Rotular a cultura de elitismo não prova nenhum fato salvo a falta de lógica desse argumento, ao misturar as duas acepções de cultura que existem. As qualificações alta, média e baixa da cultura, que são análogas aos estágios da cultura, só se aplicam à cultura na sua acepção plural. Quando nos referimos à cultura de um indivíduo qualquer, só podemos dizer se é culto ou não. Nenhum indivíduo é impedido de cultivar a própria mente, seja qual for a sua posição social. Em outras palavras, não é preciso ser rico para ser culto.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien acaba de publicar o ebook O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas como: o instinto da massa, a voz do povo, a aprendizagem ao longo da vida ou ALV, a utopia, as ‘duas culturas’, o pós-modernismo, religiões e crenças religiosas e o 9/11. O livro de JPO é disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo. É também a editora fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo, que sai duas vezes ao ano: www.portvitoria.com.

 

 

A responsabilidade final é minha

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A plaqueta acima com os seguintes dizeres: ‘the buck stops here’ (‘a responsabilidade final é minha’ ) entrou para a história pelo fato de ter sido exposta em cima da mesa de trabalho do Presidente dos Estados Unidos Harry S. Truman (1884-1972) o qual ocupou esse posto de 1944 a 1953. A plaqueta foi um presente de seu amigo Fred A. Canfil, Chefe do Distrito Policial de Missouri o qual deparou-se com uma semelhante durante uma visita oficial ao Reformatório Federal de El Reno, em Oaklahoma. Ao ser informado de que a plaqueta havia sido confeccionada pelos internos, ele encomendou uma especificamente para presentear o Presidente.

Quando eu encontrei a expressão idiomática ‘the buck stops here’ pela primeira vez, julguei que a palavra ‘buck’ fosse uma forma abreviada de ‘bucket’ (balde), palavra empregada na expressão ‘to kick the bucket’ que tem um equivalente em português na expressão ‘chutar o balde’. Logo descobri que tal equivalência era restrita à tradução literal pois as expressões tem significados diferentes em inglês e em português. Enquanto que em português ‘chutar o balde’ significa ‘mandar às favas’, ou seja, ‘desistir de algo’, a expressão ‘to kick the bucket’ significa ‘bater as botas’, ou seja, morrer.

A tradução de ‘the buck stops here’ como ‘a responsabilidade final é minha’ requereu um malabarismo linguístico na troca de uma metáfora (buck) por uma palavra normal (responsabilidade). Determinada a encontrar uma metáfora em português para a palavra ‘responsabilidade’, eu revirei os meus apontamentos linguísticos e procurei em diversos sítios da internet. Encontrei ‘batata quente’ e ‘abacaxi’, usadas nas frases  ‘jogar a batata quente para outra pessoa’ e ‘deixe que outro descasque o abacaxi’. Entretanto, conclui logo que ‘batata quente’ e ‘abacaxi’ tinham mais a ver com ‘encargo’ do que com ‘responsabilidade’.

Já no inglês, a palavra ‘buck’ tem diversos outros significados como culpa, cavalo de saltar, o macho de certos animais de chifre, pinotear, etc. Veja na Tabela 1, a seguir, alguns exemplos.

Tabela 1. Expressões idiomáticas inglesas com a palavra ‘buck’.

Tradução para o português
the buck stops here a responsabilidade termina aqui
the buck stops with the boss a responsabilidade termina com o chefe
where the buck stops onde a responsabilidade para
buck up one’s ideas dar mais duro; esforçar-se mais
make a fast buck ganhar um dinheiro fácil
pass the buck to someone else jogar a culpa em outro

Fiquei extremamente desapontada por não ter encontrado no português uma metáfora para ‘responsabilidade’. Entretanto, encontrei no inglês diversas expressões idiomáticas de probidade administrativa. Falarei dessas numa  próxima postagem.

 Nota. Imagem da plaqueta tirada da Biblioteca Truman. Fonte: http://www.trumanlibrary.org/buckstop.htm

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.300 vezes em 2015. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

A revolução bolivariana. O perigo do conhecimento pequeno

O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa. Beba do fundo ou sequer prove da fonte Pieriana, pois os goles rasos intoxicam o cérebro, e o beber farto nos torna sóbrios outra vez.” A. Pope, 1711

A antiga máxima de que ‘o conhecimento pequeno é uma coisa perigosa’ que Alexander Pope importalizou no seu poema ‘An Essay on Criticism ‘(Um ensaio sobre a crítica), foi validada recentemente por Hugo Chávez (1954-2013) através da Revolução Bolivariana deslanchada na Venezuela. A fim de explicar o perigo do conhecimento pequeno Pope buscou inspiração na lendária fonte do conhecimento de Piéria da mitologia grega, cujas nove nascentes representam as nove musas das artes ou ciências: Clio, Euterpe, Tália, Melpômene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope, filhas de Zeus e Mnemósina. Apenas o verdadeiro conhecimento confere a sobriedade, mas para ganhá-lo é preciso beber da parte mais funda, a única capaz de conter a água das nove nascentes. Os que vão à fonte de Piéria mas bebem apenas da parte rasa ganham tão somente o conhecimento limitado, que embriaga o espírito com uma confiança infundada.

A Revolução Bolivariana de Chávez foi um catálogo de erros que tipificou o que Pope quis dizer quando afirmou que o conhecimento pequeno era algo perigoso. Apesar da precaríssima educação formal, o antigo paraquedista do exército venezuelano aprendeu sozinho os princípios da teoria político-econômica de Karl Marx e Friedrich Engels incluindo o jargão marxista que permitiu que interagisse com certas lideranças da Esquerda Internacional. Tais contatos certamente contribuíram para validar as suas aspirações políticas e em 1982, Chávez foi um dos fundadores do Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR200) voltado a implantar o socialismo na Venezuela. Foi através deste que Chávez liderou o malogrado levante insurrecional de 4 de fevereiro de 1992 que fez com que fosse preso. Apesar de Chávez ter sido subsequentemente perdoado, a sua prisão fez dele um herói do povo e foi o seu bilhete para alcançar o poder político nas eleições de 1998.

A trajetória de Chávez ao poder também foi facilitada pela recessão econômica que a Venezuela vinha amargando há quase duas décadas devido ao baixo preço do barril de petróleo no mercado internacional. A Esquerda venezuelana regozijava-se com o cenário, afirmando que a má situação econômica era uma prova da falha do capitalismo e sua economia de mercado. Nos seus discursos de candidato Chávez fez bom uso da má conjuntura econômica apontando culpados e prometendo a redenção. Embora isso não seja importante depois do fato, é claro que os cidadãos mais sensatos ficaram alarmados com as tendências messiânicas de Chávez. Entretanto, Chávez não foi eleito por cidadãos sensatos mas por cidadãos mesmerizados que tampouco se preocuparam com a sua total falta de experiência governamental.

A Esquerda venezuelana teve outra grande oportunidade quando logo após a eleição de Chávez o preço do barril petróleo disparou. Em fevereiro de 1999 quando Chávez tomou posse do governo da Venezuela, o tesouro nacional já estava em franco crescimento. A recuperação econômica da Venezuela deu a Chávez uma oportunidade que os seus antecessores não tinham desde a década de setenta. Logo no seu primeiro governo Chávez começou a introduzir medidas iliberais como a interferência na liberdade de imprensa e a busca ativa de mais poderes para si próprio. Em 2002, Chávez foi destituído por uma junta militar após uma onda de violência entre ‘chavistas’ e opositores. Após um brevíssimo interregno de governos provisórios, Chávez recuperou o cargo. Nas eleições presidenciais de dezembro de 2006 Chávez foi reeleito com 63 por cento dos votos. Aproveitando o apoio da maioria da população Chávez deu início à socialização da Venezuela, nacionalizando as indústrias chaves e o que ainda havia em mãos privadas da indústria do petróleo. Em 2007, Chávez introduziu um projeto de mudanças constitucionais que foi rejeitado por uma margem estreita. Entretanto, a versão mais moderada mas que incluía a reeleição indefinida do cargo de presidente, introduzida em 2009, foi aprovada. Apesar de ter sido diagnosticado com câncer no final do seu mandato, Chávez concorreu e venceu a eleição presidencial de dezembro 2012, mas faleceu antes da data da sua inauguração. O seu vice, Nicolas Maduro (1962- ), assumiu a presidência e se comprometeu a levar adiante as políticas de Chávez.

A Revolução Bolivariana foi uma vitória de Pirro. Para conseguir a significativa redução na desigualdade da qual os chavistas se exultavam, Chávez gastou a absurda quantia de um trilhão de dólares. Com tal quantia era possível fazer com que todos os 29,3 milhões de habitantes da Venezuela ficassem ricos. Qualquer país que disponha de receita adicional, como ocorreu com a Venezuela devido ao salto do preço do petróleo, pode facilmente reduzir sua pobreza e encurtar as diferenças de renda entre os mais pobres e os mais ricos, sem ter que abrir mão das instituições garantidoras do equilíbrio dos poderes e da liberdade.

O disparo no preço do petróleo internacional foi uma contingência que poderia ter elevado a Venezuela a um dos grandes poderes das Américas. Mas no final, foi bom mesmo para a Esquerda venezuelana e para o próprio Chávez, que regozijou-se no seu papel de ídolo do povo. Não são poucos os peritos que acreditam que Chávez foi um desequilibrado. De qualquer forma, ele gastou mal o dinheiro da Venezuela, pagando um preço descomunal pela redução da desigualdade que obteve. Dezessete países Latino-Americanos conseguiram reduzir a desigualdade no mesmo período, gastando muito menos.

Dentre os muitos sintomas de distúrbios de personalidade que Chávez mostrou desde o início de sua trajetória política, o principal foi apresentar-se como um salvador da pátria, a fachada típica do delírio da falsa certeza. Chávez não foi um assassino de massas como Mao Zedong, Hitler ou Stalin, mas cometeu fraudes graves contra o povo venezuelano ao esbanjar recursos na sua Revolução Bolivariana bem como pela sua decisão de vender petróleo por um preço abaixo do mercado para seus cupinchas.

Os venezuelanos ainda terão que tolerar a deficiente política da Revolução Bolivariana até o final da gestão de Maduro em 2019. Felizmente o chavismo venezuelano perdeu parte do seu mojo após as eleições parlamentares de dezembro de 2015 o quando a coalizão União Democrática conquistou 99 cadeiras na Assembleia contra apenas 46 do partido Socialista de Maduro. A reação de Maduro à derrota nas urnas foi reafirmar a sua intensão de dar continuidade à Revolução Bolivariana. Tal afirmação dá mostra da obsolescente retórica empregada apenas pela ala mais inculta da Esquerda Internacional, da qual Maduro e outros tantos Latino-Americanos são meros vassalos. A Revolução Bolivariana na Venezuela foi um produto do delírio do pequeno conhecimento e uma lição para quem quer que queira aproveitar.