Impressões da Islândia

O aeroporto fica em Keflavik, numa península sudoeste. Embora situado a uns 50 Km de Reiquiavique, é bem servido pelo transporte público. Logo na saída do aeroporto há um ponto de ônibuses. Chegando ao terminal central em Reiquiavique os passageiros que desejarem podem tomar mini-ônibuses até os diversos hotéis da cidade. O percurso inicia com uma paisagem natural formada pelos típicos campos de lava colonizados por musgos e plantas rasteiras e termina com uma parte urbana formada por várias cidades concatenadas e que fazem parte da Grande Reiquiavique. No hotel Marina onde nos hospedamos todos os funcionários falavam inglês fluente. Feito o checkin e tendo arranjado as nossas coisas no apartamento, e por volta das cinco e trinta da tarde saímos para explorar Reiquiavique pela primeira vez. Pedimos direções e seguimos a pé até o comércio, onde a maior parte das lojas ainda estavam abertas. E nos próximos sete dias, eu explorei sozinha Reiquiavique, participando de duas excursões turísticas, uma na cidade (Reykjavik Grand Excursion) e outra fora (The Golden Circle).

A primeira excursão é um passeio de três horas que cobre todas as atrações turísticas da cidade de Reiquiavique mais as zonas residenciais da periferia até uma vila de pescadores na costa. Reiquiavique (Figura 1) é uma cidade relativamente nova que cresceu ao redor do local onde em 871 d.C., Ingólfur Arnason, um fugitivo norueguês, assentou-se com sua família, denominando-o Reykjavi, que significa ‘baía de fumaça’, devido à grande quantidade de poços térmicos do local que liberam vapor d’água. Quando Reiquiavique ganhou status de cidade, em 1786, a sua população era de apenas 300 habitantes. O crescimento populacional de Reiquiavique ocorreu lentamente até 1940, quando tinha 38 mil habitantes. A atual população atual de Reiquiavique é de 120 mil habitantes. A população de toda a Islândia é de cerca de 322 mil habitantes, sendo que três quartos ficam na Grande Reiquiavique, atualmente com uma população de 200 mil.

View of Reykjavik from PerlanBuikding in Reykjavik's old harbourP1200370
Fotos: 1. Panorama de Reiquiavique; 2. Porto e Centro de Convenções; 3. Lago da Prefeitura.

Em termos de arquitetura o ponto mais relevante da cidade de Reiquiavique é a imponente igreja Hallgrímskirkja, a qual pode ser vista de quase toda a cidade, projetada pelo famoso arquiteto Guöjón Samuélsson. Em frente à ela há uma enorme estátua de Leifur Ericsson, o viking que descobriu a América cerca de 500 anos antes de Cristóvão Colombo. Outro marco da arquitetura de Reiquiavique é o Centro Harpa de Concertos e Convenções, um maravilhoso prédio de vidro com colunas que representam as formações de basalto típicas da geologia islândica projetado por Olafur Elason. Em 2013 o Harpa ganhou o prêmio Mises van der Roche de arquitetura europeia.
Outra parte interessante de Reiquiavique é o antigo porto. Lá pode-se caminhar por quase todas as marinas, observar as embarcações, as montanhas e a própria cidade. E em toda a orla há calçadas lugar para pedestres e ciclovias.

As Piscinas Termais
As piscinas termais assim como os spas termais fazem parte da cultura islândica. Em Reiquiavique há seis piscinas termais públicas, a maioria ao ar livre. Elas servem ao ensino da natação nas escolas e à população em geral, e as pessoas as utilizam durante todo o ano. Embora chovesse e ventasse no dia que fui experimentar uma dessas piscinas termais que ficava mais próxima do nosso hotel, tive uma experiência agradabilíssima. A temperatura da água não era uniforme, havendo pequenas correntes mais quentes. Entretanto, assim que saí da piscina fui direto aos chuveiros e vestiário, pois o medo do frio não me deixou percorrer os cem metros de distância até a zona dos spas e da sauna.

O Círculo Dourado (The Golden Circle)
A segunda excursão (Golden Circle) que fiz foi de um dia todo e consistiu de três regiões de interesse, O Parque Nacional de Tingvellir é o local onde é possível visualizar, através de riftes e faltas geológicas o Parque Nacional de Tingvellir, as cataratas Gullfoss e os gêiseres Geysir, as placas continentais Norte-americana e Euroasiática, que se estendem numa linha enviesada dupla que vai do sudeste ao noroeste da Islândia. Esse também é o local do primeiro parlamento islandês criado a partir de 930 d.C., quando os líderes (chieftains) de cada grupo de agricultores se reuniam uma vez por ano e realizavam seções formais do Conselho da Lei (Lögrétta) presidido pelo porta-voz da Lei (Lögsögumadur), numa época em que não havia realeza ou nenhum poder central voltado a manter a paz. Nos conselhos anuais, decisões eram tomadas, crimes eram julgados e os condenados executados. As cataratas Gullfoss são duas, uma rio acima de 11 metros e altura, e outra mais abaixo de 21 metros de altura, sendo que a rocha do leito do rio foi formada durante um período interglacial. Ao sudoeste dessas cataratas fica o Geysir, uma área geotérmica repleta de nascentes e gêiseres. Embora o potencial de de energia hidrelétrica ainda esteja em estudo na Islândia, lá as fontes geotérmicas vêm sendo muito bem aproveitadas.

Estação Termoelétrica de Hellisheidi
Uma parada final extra dessa excursão foi para visitar a Estação Termoelétrica de Hellisheidi (ou Hellisheidarvirkjun), a maior das cinco da Islândia, que fornece energia para a Grande Reiquiavique. A termoelétrica de Hellisheidi cresceu enormemente desde que começou em 2006 com duas turbinas de 55 Megawatts de alta pressão. A sua produção atual é de até 400 Megawatts de energia térmica e 303 Megawatts de eletricidade.

Sobre a Geografia e da História da Islândia
A Islândia é a maior das ilhas vulcânicas da cumeeira do Médio Atlântico, onde as plataformas continentais americana e eurasiana se tocam. Essa peculiaridade geológica explica a enorme atividade térmica na ilha, que inclui cerca de 200 vulcões, gêiseres e fontes térmicas. A atividade dos vulcões é acompanhada pelos especialistas que conhecem bem quais os que estão para entrar em atividade. Em 2010 Em 2011 o vulcão Grimsvotn acordou e obrigou o fechamento temporário do aeroporto internacional da Islândia, e no ano anterior, em 2010, uma erupção de médio porte no vulcão Eyjafjallajökull‎ lançou tal quantidade de cinzas na atmosfera que diversos aeroportos em toda a Europa tiveram que fechar. Mas o fogo dos vulcões é apenas um dos elementos da geografia islândica. Outro elemento importante é o gelo. Devido à proximidade com o Ártico a Islândia tem também muitas glaciais e capas de gelo. A atividade térmica às vezes derrete o gelo das glaciais e das capas de gelo, fazendo com que os rios e lagos transbordem e causem inundações.

A Islândia assim como a Groenlândia e algumas ilhas que atualmente pertencem à Escócia foram colonizadas por povos viking, piratas originários da Escandinávia que entre 793 e 1066 costumavam atacar e pilhar a costa da Grã Bretanha e do reino dos francos. A Islândia era desabitada quando Ingólfur Arnarson, seu primeiro colonizador ali se estabeleceu. O nome Islândia, que quer dizer ‘Terra de Gelo’ foi dado por um predecessor dele após ter amargado um rigoroso primeiro inverno que matou todos os animais domésticos que havia trazido. A maioria dos primeiros colonizadores da Islândia veio da costa oeste da Noruega, mas houve diversos que eram de colônias viking nas Ilhas Britânicas. Mas a etnicidade islandesa é também formada pelo elemento celta, pois diversas esposas dos primeiros colonizadores eram irlandesas.

A língua falada na Islândia é o islandês, também conhecido como o velho nórdico, que era falado em toda a Escandinávia, Groenlândia e nas ilhas britânicas Orkneys, Sheatlands e Faröe ou Faroé. Muitas palavras do velho nórdico foram levadas pelos vikings dinamarqueses e noruegueses que costumavam ir à Grã-Bretanha fazer pilhagem, o que faz do inglês uma língua não só anglo-saxã mas também velho nórdica. Conforme uma pesquisa da Dra. Sara Pons-Sanz, linguista da Faculdade de Estudos Ingleses da Universidade de Nottingham, muitas palavras no inglês vieram do velho nórdico, como aquelas relacionadas na Tabela 1.

INGLÊS     VELHO NÓRDICO SIGNIFICADO
  anger   angr   raiva, agonia
  bloom   blóm   floração
  gale   gaile   vento frio
  happiness   happ   sorte
  house   hús   casa
  husband   hús + bóndi   casa + dono da casa
  ill   illr   doente
  kid   kip   filhote de bode
 law   lag   lei
  leg   legge   perna
  norse   noordsch   homem do norte
  ransack   rann-saka   dar busca numa casa (para fazer pilhagem)
  skaughter   sláter   carne de abatedouro
  sky   skie   nuvem
  window   vindayfa   olho de vento
  wing   vengr   asa
  wrong   rangr   injusto

Tabela 1. Exemplos da contribuição do velho nórdico ao inglês

Copiando o costume da Escandinávia, os islandeses organizaram um parlamento (lpingi) representativo da confederação (commonwealth) das quatro jurisdições islandesas, com líderes (godords) representantes de cada região que reunia-se em junho de todos os anos em Alpingi, Pingvellir. Nessa ocasião julgamentos eram feitos e execuções eram levadas a cabo. O encontro de junho também servia para colocar em dia as novidades de cada jurisdição e para a procurar de cônjuges.

Os primeiros islandeses davam muita importância à sua história, e procuraram preservá-la na memória oral e nas sagas compiladas nos séculos treze e quatorze. Esse acervo foi preservado graças aos esforços de Arni Magnússon, um colecionador de manuscritos nascido em 13 de novembro de 1663 em Kvennabrekka, no oeste da Islândia. Embora parte da coleção de Magnússon tenha se perdido no incêndio de Copenhagen de 1728, a maior parte dos manuscritos em pergaminho foi salva.

Em torno do ano 1000 a Islândia se converteu ao Cristianismo após uma decisão de ordem prática de Thorgeir Thorkelsson, o porta-voz da lei. A confederação da Islândia começou a se desmoronar e em 1220 as lideranças começaram a fazer planos para que a coroa da Noruega assumisse o governo do país. O processo de subjugação ao reino da Noruega foi atribulado por conflitos e concluiu-se em 1258 quando Gisssur Porvaldson tornou-se o conde da Islândia, a serviço do rei da Noruega. Durante o domínio norueguês, a capital da Islândia era Bergen, então a capital da Noruega. Em 1319 o reino da Noruega se uniu ao reino da Suécia, e a Islândia ficou sob as duas coroas. Em 1380 o reino da Noruega se juntou ao reino da Dinamarca, e nos próximos três séculos a Islândia passou a ser um protetorado da Dinamarca. Nesse período a Islândia sofreu com diversas erupções vulcânicas e com a arbitrariedade do governo da matriz.

Em 1814 a Suécia invadiu a Dinamarca e o tratado de Kiel resultante fez com que a Suécia saísse do domínio da Dinamarca e ganhasse a Noruega, e em contrapartida a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre a Islândia, a Groenlândia e as Ilhas Faröe. Na Islândia, movimentos de independência surgiram em 1841 e em consequência dos mesmos a Dinamarca fez algumas concessões como a abertura dos portos da Islândia. No final do século a Islândia havia ganho o controle sobre o seu comércio exterior e em 1903 ganhou sua primeira constituição. Em 1918 a Islândia virou uma região autônoma mas ainda ligada à Dinamarca. Em 16 de Junho de 1944 a união com a Dinamarca terminou e a partir do dia 17 de Junho a Islândia passou a ser uma república.

Durante os primeiros anos logo após a Segunda Guerra Mundial a Islândia modernizou a sua agricultura e a sua indústria da pesca e colheu bons resultados com isso. Em 1949 a Islândia passou a ser um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e em 1951 uma base naval norte-americana foi instalada em Keflavik. Em 1952 a Islândia estendeu o seu território marítimo de três para quatro milhas e em 1975 estabeleceu o limite de 200 milhas de sua costa. A economia da Islândia cresceu vertiginosamente até 2008, quando ocorreu a crise mundial, quando caiu numa recessão que durou pouco mais de dois anos. A partir de 2010 a Islândia voltou a crescer e em 2012 o seu GDP per capita foi de 42.658 dólares, um dos maiores do mundo. Quanto à distribuição interna de renda medida pelo índice Gini do Banco Mundial, onde 0 representa um igualitarismo perfeito e 100 uma desigualdade perfeita, a Islândia apresentou um coeficiente de 28 em 2008, o que coloca esse país entre os melhores do mundo.

Apesar dos islandeses modernos se considerarem amigáveis ao meio ambiente, a Islândia possui muitos problemas ambientais causados no passado, principalmente pelo uso intensivo do seu frágil ambiente natural. Segundo Jared Diamond, a enorme demanda de lenha para fazer o carvão usado nas ferrarias contribuiu para o desaparecimento da vasta cobertura lenhosa que havia originalmente. Os exemplos de vegetação arbustiva-arbórea de bétulas (Betula spp.) e salgueiros (Salix spp.) que tive a oportunidade de ver no Parque Nacional de Tingvellir e na região Gullfoss e Geysir seriam relíquias da vegetação passada da Islândia. Em termos de biodiversidade atual, a flora da Islândia consiste de 172 espécies de plantas, e a fauna de um punhado de espécies de aves e peixes e alguns invertebrados e de mamíferos.

A depleção dos recursos florestais da Islândia explica porque o país se estagnou e permaneceu estagnado durante séculos. Os islandeses viviam inicialmente do pastoreio e do cultivo de algumas culturas resistentes ao frio como a cevada, a aveia, o centeio e o feno. Até a virada do século vinte a indústria da pesca era artesanal. Segundo o historiador Gunnar Karlson, durante o século dezesseis os ingleses é que pescavam com embarcações maiores na costa da Islândia, ganhando a experiência necessária para o poderio naval da Inglaterra no século seguinte. A pesca desenvolveu-se aos poucos e apenas no século vinte tornou-se a principal fonte de riqueza da Islândia. Hoje em dia os três itens que mais contribuem para a economia da Islândia são a pesca, as fundições de alumínio e o turismo.

Finalizando as minhas impressões sobre a Islândia, eu gostaria de registrar o quanto eu gostei da semana que lá passei em setembro passado. E por cima de tudo todos os islandeses com quem tive contato me pareceram instruídos, corteses e alguns até bem-humorados. Guardarei a lembrança do ar puro que respirei e da água gelada que bebi direto da torneira.

Referências
Diamond, Jared (2011). Collapse. How Societies Coose to Fail or Survive. Penguin Books, UK.
Karlsson, Gunnar (2000). A Brief History of Iceland. 2dn edition.Translated by Anna Yates. Mál of menning.

Uma visita à Noruega

De 15 a 22 de setembro de 2012 eu visitei Bergen, na Noruega, acompanhando meu marido na conferência anual do CIEM/ICES, o Centro Internacional da Exploração dos Mares. Geograficamente, a Noruega faz parte da península Escandinava, juntamente com a Dinamarca e a Suécia, e Bergen fica na costa sudoeste, na mesma latitude que a Escócia e o Alaska.
A Noruega é um comprido país a oeste da Suécia, caracterizado por uma enorme quantidade de ilhas e pelos típicos fiordes, que são entradas estreitas e profundas do mar na costa montanhosa. Os fiordes resultaram da erosão causada pela retração dos glaciares – rios de gelo formados nas grandes alturas pela acumulação de neve, que ao final da idade do gelo passaram a se deslocar lentamente para baixo.

Fundada em 1070 d.C., pelo rei Olavo Kyrre, Bergen é uma das cidades mais antigas da Noruega. Por volta de 1100 d.C. Bergen notabilizou-se pelo comércio marítimo, sendo o seu produto principal o bacalhau salgado, que durante a Idade Média enriqueceu os mercadores Saxões afiliados à Liga Hanseática, uma rede de postos de importação e exportação distribuídos por toda a Europa, e que no final do século treze sediou-se em Bryggen, uma das zonas delimitada de Bergen onde era proibido mulheres. Entretanto, hoje em dia Bergen é muito mais que um porto pesqueiro e um destino turístico. É também um importante centro da indústria de navios e da exploração de petróleo e gás do Mar do Norte.

O bacalhau salgado foi o produto que alavancou o comércio marítimo de Bergen, principalmente depois da cristianização da Europa, quando a abstenção da carne nas sextas feiras e durante a Quaresma era um hábito comum dos cristãos. Assim, Bergen cresceu acompanhando o crescimento do Cristianismo. O acesso às diversas partes de Bergen, incluindo Bryggen, era apenas pelo mar. Os compridos barcos percorriam os canais e entravam nos becos para fazer entregas. Isso começou a mudar dois séculos atrás quando começou o processo de aterramento de canais. Os prédios de fachadas coloridas dos prédios de Bryggen são todos tombados pelo patrimônio e conservados, sendo que Bryggen é hoje um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Bergen à pé
O turista recém chegado a Bergen não tem dificuldades em caminhar a pé sem se perder, pois a cidade têm diversos marcos de orientação. Bem no centro comercial da cidade fica o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten. A rua Torgallmeningen, por exemplo, começa na praça do mercado de peixes e termina na igreja Johannes, atrás da qual fica a Universidade de Bergen; e a rua Nygardsgarten fica o Grieghallen, um importante prédio cultural contendo vários auditórios, assim chamado em homenagem ao compositor Edward Grieg, nascido em Bergen. Outro ponto de orientação é o Festplassen, um parque com um enorme lago, Lunggardsvann, e um amplo espaço para eventos musicais.

Apesar de eu já ter caminhado bastante por Bergen na segunda e na terça feira, na quarta feira eu fiz o passeio a pé programado pelo congresso. A nossa guia, uma uma senhora de uns sessenta e cinco anos de idade que exuberava confiança, explicou os pormenores do passeio e nos informou que devido ao tamanho do nosso grupo, este seria dividido em dois mais adiante. A primeira parada foi em frente ao Teatro Nórdico (Norske Theater), um belo prédio em estilo Art Nouveu, construído em 1909. Em frente ao mesmo há uma estátua do escritor Bjornstjerne Bjornson (1832-1910), ganhador do Nobel de Literatura em 1903. Numa outra lateral do teatro, a que fica na Veiten Engen, voltada para a praça Ole Bull, fica outra imponente estátua, a de Henrik Ibsen, mostrado o rosto largo, os óculos e a característica barba lateral do dramaturgo. Ibsen foi o primeiro diretor do Teatro, enquanto que Bjornson foi o segundo. ‘Ibsen não foi entendido enquanto era vivo pois era um homem muito à frente do seu tempo’, disse a nossa guia. Segundo ela, Bjornson e Ibsen eram rivais amigos; juntamente com Alexander Kielland e Jonas Lie eles formaram o grupo dos quatro grandes da literatura norueguesa do século dezenove. A nossa guia falou também dos esforços dos artistas e intelectuais do século dezenove que se uniram em torno da criação da nação norueguesa, uma condição para a independência. A Noruega foi reconhecida como Estado independente da Suécia em 26 de outubro de 1905.

Do Teatro Nórdico nós descemos a praça Ole Bull até o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten, marcado por uma gigantesca escultura que consistia de um monólito, outro importante marco de Bergen. Nessa altura, a outra guia chegou. Percebendo a relutância das pessoas de deixar o grupo original, a recém-chegada estendeu o seu braço direito ordenou aos da esquerda que a acompanhassem. Um tanto a contragosto que eu segui a nova guia, outra senhora de uns sessenta e cinco anos de idade, que mais tarde se identificou pelo nome de Beate. A minha resistência desapareceu na próxima parada, quando Beate explicou a estátua de um violinista meio de uma belíssima fonte como sendo Ole Bull (1810-80), famoso pela virtuosidade musical e por ser belo. ‘Em vida ele rivalizou com Paganini, e foi o ‘Elvis’ do século dezenove’ disse Beate. Ela em seguida explicou a ligação entre Ole Bull e o compositor Edward Grieg, outro filho famoso de Bergen. Grieg era um menino prodígio quando Bull já tinha fama internacional. Numa de suas visitas a Bergen ele descobriu o talento de Grieg e recomendou que ele fosse mandado para Lipsia, para estudar no conservatório.

A próxima parada foi Byparken, grande praça com um enorme lago central que possui um amplo espaço aberto para eventos públicos e um imponente coreto que estava cercado de flores. À direita da praça ficam cinco dos sete museus de Bergen. Com orgulho patriota Beate nos explicou que ‘Bergen é a cidade de sete museus, assim como Roma é a cidade de sete colinas’. Do Byparken continuamos a caminhar em direção à praça do mercado de peixes.

Embora essa fosse a última semana do verão do calendário, o clima já tinha todos os sinais do outono como a chuva intermitente quase todos os dias. Entretanto, os 12 graus Celsius eram mais do que eu esperava para um país cujas fronteiras se adentra pelo Círculo Ártico. Havia verde e flores por todos os lados, quer nos parques quer nos montanhas que rodeiam a cidade. E dentre os arbustos ornamentais destacavam-se os rododendros, que são plantas típicas de ambientes temperados. Beate, a guia do passeio a pé pela cidade esclareceu o mistério: ‘a amenidade é um presente da Corrente do Golfo’, ela explicou.

Continuamos a caminhada em direção ao mercado de peixes. Paramos em frente ao antigo prédio da Bolsa de Valores de Bergen, do início do século vinte, hoje um complexo de restaurantes. Ali havia também uma outra estátua num pedestal, que Beate identificou como sendo o filósofo Holberg, outro filho de Bergen e o primeiro pensador a declarar que as mulheres tinham alma. Tratava-se do Barão Ludwig Holberg (1684-1754), que além de filósofo e professor de Metafísica da Universidade de Copenhagen, era também historiador, poeta e dramaturgo.

Atravessamos a avenida e chegamos ao mercado de peixe onde eu já tinha ido diversas vezes. Dessa vez eu anotei discretamente o preço do bacalhau em postas sem espinhas: entre $350 e $393 coroas norueguesas por quilograma. Continuando a caminhada chegamos em Bryggen, a zona delimitada da Liga Hanseática de mercadores, acima mencionada. Beate procurou dar uma ideia de como era Bryggen antes dos aterros dos canais. Entre os prédio de fachada colorida haviam becos estreitos cujas marquises eram construídas sobre peças inteiriças de madeira no formato de um T, formadas pelos troncos mais as raízes do pinho norueguês, a madeira mais resistente da Europa. Segundo Beate, peças como essas foram usadas na construção das quilhas dos navios Vikings, o que permitiu as suas longas viagens marítimas.
Passamos em frente ao Museu Hanseático (ou Museu dos Mercadores Saxões Hanseáticos) e ao Museu de Arqueologia (que eu visitei no dia seguinte). Cortando caminho por um dos becos de Bryggen, alcançamos a rua de trás, Rosenkrantz, uma pequena ladeira. Paramos num campo que parecia um cemitério, onde Beate explicou que era o sítio de uma igreja do século oito, que havia sido construída pelos missionários irlandeses, da qual só restava restava os alicerces e algumas sepulturas de bispos. O motivo oficial da demolição da igreja no início do primeiro milênio foi que a mesma era visível do mar e constituía um alvo para ataques inimigos. Entretanto, para Beate o motivo real da demolição da igreja era outro: impedir que o povo da Noruega desenvolvesse uma herança cultural própria.

Das ruínas da igreja do século oito tomamos um caminho estreito que descia até o cais do porto, onde havia uma meia dúzia de navios grandes ancorados. Na calçada cruzamos com turistas que pareciam ter acabado de desembarcar, e caminhamos na direção de retorno a Bryggen. A nossa próxima paragem foi o Håkon Hall, um prédio do século treze inaugurado em 1261 pelo rei Håkon pela ocasião co casamento do seu filho com uma princesa dinamarquesa, e até hoje usado como local de cerimônias pela família real norueguesa. Continuamos o passeio para a Torre Rosa-Cruz (Rosenkrantz) do século dezesseis, uma testemunha da importância do Rosacrucianismo, uma sociedade filosófica secreta fundada no final da Idade Média na Alemanha por Christian Rosenkreuz. A sociedade Rosa-Cruz era a favor do Luteranismo e contra o Catolicismo romano, e contribuiu para a emergência da Maçonaria na Escócia. Ao fim da sua explicação, Beate nos informou que ali era o fim do nosso passeio, e o grupo se dispersou.

Sobre a Cidade Portuária de Bergen
Bergen, cujo nome significa ‘pequeno prado no meio de montanhas‘ é uma cidade-porto localizada no sudoeste da Noruega . Na verdade Bergen tem dois portos, um de cada lado da sua península principal. O porto mais perto do centro comercial é o que serve à indústria da pesca enquanto que o outro se ocupa com o comércio marítimo internacional. É no primeiro porto que fica o mercado de peixes que inclui algumas barracas de alimentos e de artesanato. As barracas de alimentos servem refeições baseadas em grelhados de peixes, camarões, moluscos e carne de baleia.

Quando eu fui ao mercado de peixes na segunda feira, eu parei numa das barracas de alimentos e pedi o grelhado de bacalhau fresco e salmão: dois espetinhos com dois pedaços de peixe de 4 x 4 cm mais uma porção de salada de batatas e outra porção de legumes. Enquanto aguardava o meu pedido eu fui me sentar numa das mesas próximas do local de preparação da comida, onde já havia um casal de alemães. Daí a uns cinco minutos alguém trouxe o meu prato, numa pequena bandeja descartável, mais o café que havia pedido. Percebendo que eu não tinha com que comer, a mulher alemã à minha frente me apontou onde estavam os talheres de plástico e os guardanapos. A comida estava deliciosa e me custou $210 coroas norueguesas, sendo $175 pelo peixe e $35 pelo café, que em reais dão mais ou menos R$62,00 e R$12,00 respectivamente. A Noruega não é um país barato para turistas. Lá ma caneca de cerveja de 0,5 l custa entre 55 e 93 coroas norueguesas, ou seja, entre 19 a 33 reais brasileiros.

Troldhaugen
Na sexta-feira eu resolvi visitar o museu da antiga casa do compositor Edward Grieg em Troldhaugen, que fica fora de Bergen. Seguindo as instruções de um panfleto turístico, eu tomei o light rail no Byparken e desci na estação de Hop, fazendo o restante do percurso à pé, chegando a Troldhaugen pouco antes do meio dia. Depois de visitar as exibições e a casa do compositor, eu resolvi almoçar no restaurante do próprio museu a fim de assistir o concerto da uma da tarde. Logo que me acomodei numa das cadeiras arranjadas para o concerto descobri uma conhecida que também estava em Bergen acompanhando o marido. Notando que ela estava só, resolvi trocar de lugar e ir sentar ao lado dela. Christina e eu conversamos apenas alguns minutos pois logo o concerto teve início. Um jovem pianista sentou-se no piano que havia sido de Grieg e de sua esposa Nina, e tocou belíssimas músicas representativas de diferentes etapa da vida do compositor. Foi um concerto inesquecível.

Bergen de Novo
A volta a Bergen foi bem mais agradável, pois tive a companhia de Christina. Tendo chegando ao Byparken por volta das duas e trinta da tarde a minha próxima aventura turística foi a estação Floibanen Funicular, onde tomei o trem que sobe o monte Floyen, de 320 m de altura. Após uma jornada de uns 7 minutos cheguei ao Belvedere, de onde pude ver Bergen por inteiro, uma belíssima cidade. Terminado o passeio ao monte Floyen ainda tive tempo de visitar o Museu de Arqueologia, e ver as interessantes exibições sobre os os Vikings e outros antigos habitantes da região.
Ainda era cedo, quando retornei ao hotel para descansar um pouco e tomar um café. Lá chegando eu encontrei de novo com Christina e outras esposas. Depois de tomar café e comer qualquer coisa Christina e eu resolvemos ir a pé até a Universidade de Bergen e o Jardim Botânico, que pelo nosso mapa ficava bem próximo do nosso hotel. Encontramos o Jardim Botânico, bem como diversos prédios amplos e bem construídos da universidade. No Jardim Botânico encontramos uma estátua de Gerhard Armauer Hansen (1841-1912), médico e pesquisador norueguês, nascido em Bergen, que identificou o bacilo causador da lepra (Microbacterium leprae). Descobri posteriormemte que conjunto de prédios era apenas o campus de Haukerland, local das antigas faculdades, principalmente as das ciências da saúde, havendo outro campus noutro lugar da cidade. Fundada em 1946, a Universidade de Bergen foi e é uma das três principais universidades da Noruega, ao lado da Universidade de Oslo e da Universidade de Tromso.

Retornamos ao hotel por volta das seis da tarde. De noite eu e meu marido mais um grupo de colegas congressistas e seus cônjuges, incluindo Christina e seu marido, fomos jantar num dos restaurantes do prédio da antiga Bolsa de Valores de Bergen, já anteriormente mencionado.

Sábado foi o meu último dia em Bergen. Depois do café da manhã o meu marido acertou um check out mais tarde do hotel, para que eu pudesse repetir com ele o passeio a pé que havia feito na quarta feira. A manhã estava gelada mas ensolarada, e por sorte, nem um pingo de chuva. Retornamos ao hotel pouco antes da uma da tarde. Após fazer o check out, puxamos as nossas próprias malas descendo a Håkons Gaten e virando à esquerda na Olav Kyses gate, onde tomamos o ônibus coletivo para o aeroporto. No avião de volta à Inglaterra, fiquei pensando sobre quando é que teria outra oportunidade de voltar à esse interessante país.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.