Sobre o gênero ensaio e Montaigne

Um ensaio é uma composição literária relativamente curta sobre algum tema particular e que reflete a opinião pessoal do autor. É uma tentativa do autor de articular uma ideia principal, a qual é quase sempre acompanhada de ideias secundárias. Um ensaio de boa qualidade requer não apenas o conhecimento do tema tratado mas também de técnicas de argumentação e persuação.

O criador do ensaio como gênero literário foi o pensador francês Miguel de Montaigne (1533-92). Nascido no castelo de Montaigne, em Périgord, Montaigne recebeu uma educação humanista no Collège de Guienne em Bordeaux, e, em seguida, estudou direito. Após se formar, obteve um emprego no Parlamento de Bordeaux, onde atuou durante 13 anos como conselheiro da cidade. Em 1571, retornou a Périgord para tomar posse do castelo de Montaigne, quando passou a viver como um aristocrata do campo, visitando Paris frequentemente e fazendo um tour da Alemanha, Suíça e Itália. Em Périgord Montaigne começou a escrever seus ensaios acerca de personalidades da época e sobre os locais onde visitou. Os seus ensaios eram ao mesmo tempo críticos e inspiradores e lhe trouxeram fama e reconhecimento. Uma tradução para o inglês dos seus ensaios foi publicada na Inglaterra em 1603, no livro Essays. Mas Montaigne não ficou muito tempo sendo apenas um aristocrata do campo. Aceitou um convite de amigos para concorrer ao cargo de prefeito de Bordeaux, e tendo se elegido, serviu de 1581 a 1585, quando retirou-se para a torre do seu castelo para escrever seus ensaios. Os ensaios de Montaigne são ricos e cativantes pelo fato dele juntar às suas descobertas acerca do mundo, as descobertas que fez acerca de si próprio. Veja a seguir três citações de Montaigne:

 

(1)

Francês: Pour juger des choses grandes et hautes, it faut une áme de même, autrement nous leur attribons le vice qui est le nôtre.

Inglês: To make judgements about great and lofty things, a soul of the same stature is needed; otherwise we ascribe to them that vice which is our own.

Português: Para julgar coisas que são grandes e elevadas, é necessário ter uma alma da mesma estatura, caso contrário imputamos a elas o vício que é nosso.

(2)

Francês: La plus grande chose du monde, c’est de savoir être à soi.

Inglês: The greatest thing in the world is to know how to be oneself.

Português: A maior coisa do mundo é saber ser você mesmo.

(3)

Francês: L’homme est bien insensé. Il ne saurait forger um ciron, et forge des dieux à douzaines.

Inglês: Man is quite insane. He wouldn’t know how to create a maggot, and he creates gods by the dozen.

Português:O homem é bastante insano. Ele não sabe como criar uma larva, e cria deuses às dúzias.

Por girar em torno de fatos e de críticas, o gênero ensaio mostra como construir uma narrativa integral e bem argumentada. A leitura de bons ensaios é um caminho seguro para aprender a escrever com lógica e clareza. Todas as línguas modernas da Europa têm seus ensaistas favoritos, como esses listados a seguior:

Inglês: William Hazlitt (1778-1830);

Alemão: Thomas Mann (1875-1950);

Italiano: Umberto Eco (1932-2016);

Espanhol: Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936);

Português: Ruy Bello (1933-78), Aurélio Buarque de Holannda Ferreira (1910-89);

______________________________

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista digital PortVitoria, sobre a cultura ibérica e ibero-americana no mundo. Ela acaba de publicar o ebook O Homem Razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas intemporais e da contemporaneidade como a ‘grande conversação’, a utopia, a educação liberal, a liberdade, o totalitarismo e o contrato social, as ‘duas culturas’, o instinto da massa, a guerra das culturas, o pós-modernismo, a crença religiosa, o jihad islâmico e o 9/11. O livro de JPO é disponível em: www.amazon.com.

 

Anúncios

Negação de serviços por parte da Polícia Militar do Espírito Santo

No final da sexta-feira, dia 3 de fevereiro de 2017, a Polícia Militar do estado brasileiro do Espírito Santo começou uma negação de serviços alegando não poder furar o bloqueio humano formado pelas suas próprias esposas, filhos e outros familiares, que se posicionaram na entrada do seu quartel principal, no bairro de Maruipe. Foi um cenário foi montado para evitar que a negação de serviços fosse caracterizada como greve ilícita.

A continuação da negação de serviços por parte da Polícia Militar do Espírito Santo teve como consequência um surto de crimes que levou ao caos social. O governador em exercício do estado pediu ajuda ao governo federal, que enviou tropas do exército para fazer o policiamento do estado.

O saldo dos acontecimentos aponta a necessidade de um debate permanente na esfera pública sobre o papel da polícia. Tal debate deve incluir as alternativas de resolver disputas trabalhistas envolvendo seus membros.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.

 

 

O desagravo a Beroso

O desagravo a Beroso

Joaquina Pires-O’Brien

Em torno de 240 a.C., quando as cidades independentes da Grécia formaram a segunda Liga Aqueana (κοινὸν τῶν Ἀχαιῶν) e Roma lutava contra Cartago, o babilônio antigo já era uma língua morta embora ainda reconhecida. Foi nessa época que Beroso, um sacerdote caldeu do templo de Baal, na Babilônia, mudou-se para a ilha de Cos, na Ásia Menor (atual Turkia) onde escreveu uma trilogia em grego sobre a cultura da Babilônia, que ele dedicou a Antióquio I (c. 324–261 a.C.), monarca do reino seleucida(1) da Síria, que reinou entre 292 e 281 a.C., no leste, e de 281 a 261 em todo o país.

No seu primeiro livro, Beroso descreveu a terra da Babilônia, cuja civilização foi levada para Ipa pela divindade Oannes (Adapa), que era metade homem e metade peixe, bem como por outras divindades, incluindo ainda a lenda da criação e a sua versão da astrologia caldeia. Nesse livro, Beroso cita diversos trechos da ‘cosmogonia’ babilônica, a narrariva da criação do mundo, cujo autor seria a própria divindade Oannes. O segundo e o terceiro livros fornecem uma cronologia da história da Babilônia e da sucedânea Assíria, que começa com ‘os dez reis anteriores ao dilúvio’, passando à narrativa do dilúvio e a restauração da monarquia, com uma longa série de monarcas que reinaram ‘depois do dilúvio’, as ‘cinco dinastias’, finalmente a história mais recente dos assírios, o último reino da Babilônia, a invasão persa e a conquista de Alexandre o Grande. Mais uma vez podemos perceber os paralelos com a Bíblia hebraica na cosmogonia, no dilúvio e na preocupação com a linhagem dos reis.

Beroso ganhou o respeito dos estudiosos da Ásia Menor e da Grécia. Pensa-se que ele passou também um período em Atenas, onde uma estátua de cobre foi feita em sua homenagem. Apenas fragmentos da obra de Beroso sobreviveram. Todo o conhecimento sobre Beroso é indireto, e através das citações de Eusébio de Cesária, Flávio Josefo e Syncellus. Graças à essas citações, a literatura e a mitologia da antiga Babilônia, incluíndo a Assíria e a Caldéia, chegaram até o mundo clássico.

Infelizmente, o tempo passado não mais permite estabelecer como foi que todas as cópias dos três livros de Beroso desapareceram. Entretanto, a cosmogonia babilônica que Beroso explicou nos seus livos, e cujo exemplo mais bem conhecido é a narrativa do dilúvio babilônico, certamente comprometia a pretenção da Bíblia dos hebreus de ser um livro de autoria ou de inspiração divina, sendo um motivo para uma presumível sabotagem. E se foi esse o caso, Beroso foi vindicado pelas traduções dos textos em cuneiforme sobre a Babilônia, que confirmaram o que ele narrou em grego há mais de vinte séculos.

Notas
1 Seleucida. Palavra derivada de Seleucus, um dos generais de Alexandre o Magno, que após a morte deste em junho de 323 a.C., tornou-se rei das províncias leste do império alexandrino, sendo as principais a Síria e a Mesopotâmia. A Síria Seleucida incluia, além do Iraque e a Síria, o Afaganistão, o Irã e o Líbano, mais partes da Turquia, Armênia, Turcumenistão, Uzbekistão, e Tajikistão. O reino de Seleucus tinha duas capitais, ambas fundadas around 300 a.C.: Antióquia na Síria e Selêucia na Mesopotâmia.

2. Cf. os meus postings ‘A redescobera do babilônio’  e, no meu blog Mesa Redonda, Irving Finkel e a escrita cuneiforme’.


Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria (portvitoria.com) de generalidades, cultura e política. É autora de O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível na Amazon. US$ 9.99; Kindle $2.99.

Impressões da Islândia

O aeroporto fica em Keflavik, numa península sudoeste. Embora situado a uns 50 Km de Reiquiavique, é bem servido pelo transporte público. Logo na saída do aeroporto há um ponto de ônibuses. Chegando ao terminal central em Reiquiavique os passageiros que desejarem podem tomar mini-ônibuses até os diversos hotéis da cidade. O percurso inicia com uma paisagem natural formada pelos típicos campos de lava colonizados por musgos e plantas rasteiras e termina com uma parte urbana formada por várias cidades concatenadas e que fazem parte da Grande Reiquiavique. No hotel Marina onde nos hospedamos todos os funcionários falavam inglês fluente. Feito o checkin e tendo arranjado as nossas coisas no apartamento, e por volta das cinco e trinta da tarde saímos para explorar Reiquiavique pela primeira vez. Pedimos direções e seguimos a pé até o comércio, onde a maior parte das lojas ainda estavam abertas. E nos próximos sete dias, eu explorei sozinha Reiquiavique, participando de duas excursões turísticas, uma na cidade (Reykjavik Grand Excursion) e outra fora (The Golden Circle).

A primeira excursão é um passeio de três horas que cobre todas as atrações turísticas da cidade de Reiquiavique mais as zonas residenciais da periferia até uma vila de pescadores na costa. Reiquiavique (Figura 1) é uma cidade relativamente nova que cresceu ao redor do local onde em 871 d.C., Ingólfur Arnason, um fugitivo norueguês, assentou-se com sua família, denominando-o Reykjavi, que significa ‘baía de fumaça’, devido à grande quantidade de poços térmicos do local que liberam vapor d’água. Quando Reiquiavique ganhou status de cidade, em 1786, a sua população era de apenas 300 habitantes. O crescimento populacional de Reiquiavique ocorreu lentamente até 1940, quando tinha 38 mil habitantes. A atual população atual de Reiquiavique é de 120 mil habitantes. A população de toda a Islândia é de cerca de 322 mil habitantes, sendo que três quartos ficam na Grande Reiquiavique, atualmente com uma população de 200 mil.

View of Reykjavik from PerlanBuikding in Reykjavik's old harbourP1200370
Fotos: 1. Panorama de Reiquiavique; 2. Porto e Centro de Convenções; 3. Lago da Prefeitura.

Em termos de arquitetura o ponto mais relevante da cidade de Reiquiavique é a imponente igreja Hallgrímskirkja, a qual pode ser vista de quase toda a cidade, projetada pelo famoso arquiteto Guöjón Samuélsson. Em frente à ela há uma enorme estátua de Leifur Ericsson, o viking que descobriu a América cerca de 500 anos antes de Cristóvão Colombo. Outro marco da arquitetura de Reiquiavique é o Centro Harpa de Concertos e Convenções, um maravilhoso prédio de vidro com colunas que representam as formações de basalto típicas da geologia islândica projetado por Olafur Elason. Em 2013 o Harpa ganhou o prêmio Mises van der Roche de arquitetura europeia.
Outra parte interessante de Reiquiavique é o antigo porto. Lá pode-se caminhar por quase todas as marinas, observar as embarcações, as montanhas e a própria cidade. E em toda a orla há calçadas lugar para pedestres e ciclovias.

As Piscinas Termais
As piscinas termais assim como os spas termais fazem parte da cultura islândica. Em Reiquiavique há seis piscinas termais públicas, a maioria ao ar livre. Elas servem ao ensino da natação nas escolas e à população em geral, e as pessoas as utilizam durante todo o ano. Embora chovesse e ventasse no dia que fui experimentar uma dessas piscinas termais que ficava mais próxima do nosso hotel, tive uma experiência agradabilíssima. A temperatura da água não era uniforme, havendo pequenas correntes mais quentes. Entretanto, assim que saí da piscina fui direto aos chuveiros e vestiário, pois o medo do frio não me deixou percorrer os cem metros de distância até a zona dos spas e da sauna.

O Círculo Dourado (The Golden Circle)
A segunda excursão (Golden Circle) que fiz foi de um dia todo e consistiu de três regiões de interesse, O Parque Nacional de Tingvellir é o local onde é possível visualizar, através de riftes e faltas geológicas o Parque Nacional de Tingvellir, as cataratas Gullfoss e os gêiseres Geysir, as placas continentais Norte-americana e Euroasiática, que se estendem numa linha enviesada dupla que vai do sudeste ao noroeste da Islândia. Esse também é o local do primeiro parlamento islandês criado a partir de 930 d.C., quando os líderes (chieftains) de cada grupo de agricultores se reuniam uma vez por ano e realizavam seções formais do Conselho da Lei (Lögrétta) presidido pelo porta-voz da Lei (Lögsögumadur), numa época em que não havia realeza ou nenhum poder central voltado a manter a paz. Nos conselhos anuais, decisões eram tomadas, crimes eram julgados e os condenados executados. As cataratas Gullfoss são duas, uma rio acima de 11 metros e altura, e outra mais abaixo de 21 metros de altura, sendo que a rocha do leito do rio foi formada durante um período interglacial. Ao sudoeste dessas cataratas fica o Geysir, uma área geotérmica repleta de nascentes e gêiseres. Embora o potencial de de energia hidrelétrica ainda esteja em estudo na Islândia, lá as fontes geotérmicas vêm sendo muito bem aproveitadas.

Estação Termoelétrica de Hellisheidi
Uma parada final extra dessa excursão foi para visitar a Estação Termoelétrica de Hellisheidi (ou Hellisheidarvirkjun), a maior das cinco da Islândia, que fornece energia para a Grande Reiquiavique. A termoelétrica de Hellisheidi cresceu enormemente desde que começou em 2006 com duas turbinas de 55 Megawatts de alta pressão. A sua produção atual é de até 400 Megawatts de energia térmica e 303 Megawatts de eletricidade.

Sobre a Geografia e da História da Islândia
A Islândia é a maior das ilhas vulcânicas da cumeeira do Médio Atlântico, onde as plataformas continentais americana e eurasiana se tocam. Essa peculiaridade geológica explica a enorme atividade térmica na ilha, que inclui cerca de 200 vulcões, gêiseres e fontes térmicas. A atividade dos vulcões é acompanhada pelos especialistas que conhecem bem quais os que estão para entrar em atividade. Em 2010 Em 2011 o vulcão Grimsvotn acordou e obrigou o fechamento temporário do aeroporto internacional da Islândia, e no ano anterior, em 2010, uma erupção de médio porte no vulcão Eyjafjallajökull‎ lançou tal quantidade de cinzas na atmosfera que diversos aeroportos em toda a Europa tiveram que fechar. Mas o fogo dos vulcões é apenas um dos elementos da geografia islândica. Outro elemento importante é o gelo. Devido à proximidade com o Ártico a Islândia tem também muitas glaciais e capas de gelo. A atividade térmica às vezes derrete o gelo das glaciais e das capas de gelo, fazendo com que os rios e lagos transbordem e causem inundações.

A Islândia assim como a Groenlândia e algumas ilhas que atualmente pertencem à Escócia foram colonizadas por povos viking, piratas originários da Escandinávia que entre 793 e 1066 costumavam atacar e pilhar a costa da Grã Bretanha e do reino dos francos. A Islândia era desabitada quando Ingólfur Arnarson, seu primeiro colonizador ali se estabeleceu. O nome Islândia, que quer dizer ‘Terra de Gelo’ foi dado por um predecessor dele após ter amargado um rigoroso primeiro inverno que matou todos os animais domésticos que havia trazido. A maioria dos primeiros colonizadores da Islândia veio da costa oeste da Noruega, mas houve diversos que eram de colônias viking nas Ilhas Britânicas. Mas a etnicidade islandesa é também formada pelo elemento celta, pois diversas esposas dos primeiros colonizadores eram irlandesas.

A língua falada na Islândia é o islandês, também conhecido como o velho nórdico, que era falado em toda a Escandinávia, Groenlândia e nas ilhas britânicas Orkneys, Sheatlands e Faröe ou Faroé. Muitas palavras do velho nórdico foram levadas pelos vikings dinamarqueses e noruegueses que costumavam ir à Grã-Bretanha fazer pilhagem, o que faz do inglês uma língua não só anglo-saxã mas também velho nórdica. Conforme uma pesquisa da Dra. Sara Pons-Sanz, linguista da Faculdade de Estudos Ingleses da Universidade de Nottingham, muitas palavras no inglês vieram do velho nórdico, como aquelas relacionadas na Tabela 1.

INGLÊS     VELHO NÓRDICO SIGNIFICADO
  anger   angr   raiva, agonia
  bloom   blóm   floração
  gale   gaile   vento frio
  happiness   happ   sorte
  house   hús   casa
  husband   hús + bóndi   casa + dono da casa
  ill   illr   doente
  kid   kip   filhote de bode
 law   lag   lei
  leg   legge   perna
  norse   noordsch   homem do norte
  ransack   rann-saka   dar busca numa casa (para fazer pilhagem)
  skaughter   sláter   carne de abatedouro
  sky   skie   nuvem
  window   vindayfa   olho de vento
  wing   vengr   asa
  wrong   rangr   injusto

Tabela 1. Exemplos da contribuição do velho nórdico ao inglês

Copiando o costume da Escandinávia, os islandeses organizaram um parlamento (lpingi) representativo da confederação (commonwealth) das quatro jurisdições islandesas, com líderes (godords) representantes de cada região que reunia-se em junho de todos os anos em Alpingi, Pingvellir. Nessa ocasião julgamentos eram feitos e execuções eram levadas a cabo. O encontro de junho também servia para colocar em dia as novidades de cada jurisdição e para a procurar de cônjuges.

Os primeiros islandeses davam muita importância à sua história, e procuraram preservá-la na memória oral e nas sagas compiladas nos séculos treze e quatorze. Esse acervo foi preservado graças aos esforços de Arni Magnússon, um colecionador de manuscritos nascido em 13 de novembro de 1663 em Kvennabrekka, no oeste da Islândia. Embora parte da coleção de Magnússon tenha se perdido no incêndio de Copenhagen de 1728, a maior parte dos manuscritos em pergaminho foi salva.

Em torno do ano 1000 a Islândia se converteu ao Cristianismo após uma decisão de ordem prática de Thorgeir Thorkelsson, o porta-voz da lei. A confederação da Islândia começou a se desmoronar e em 1220 as lideranças começaram a fazer planos para que a coroa da Noruega assumisse o governo do país. O processo de subjugação ao reino da Noruega foi atribulado por conflitos e concluiu-se em 1258 quando Gisssur Porvaldson tornou-se o conde da Islândia, a serviço do rei da Noruega. Durante o domínio norueguês, a capital da Islândia era Bergen, então a capital da Noruega. Em 1319 o reino da Noruega se uniu ao reino da Suécia, e a Islândia ficou sob as duas coroas. Em 1380 o reino da Noruega se juntou ao reino da Dinamarca, e nos próximos três séculos a Islândia passou a ser um protetorado da Dinamarca. Nesse período a Islândia sofreu com diversas erupções vulcânicas e com a arbitrariedade do governo da matriz.

Em 1814 a Suécia invadiu a Dinamarca e o tratado de Kiel resultante fez com que a Suécia saísse do domínio da Dinamarca e ganhasse a Noruega, e em contrapartida a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre a Islândia, a Groenlândia e as Ilhas Faröe. Na Islândia, movimentos de independência surgiram em 1841 e em consequência dos mesmos a Dinamarca fez algumas concessões como a abertura dos portos da Islândia. No final do século a Islândia havia ganho o controle sobre o seu comércio exterior e em 1903 ganhou sua primeira constituição. Em 1918 a Islândia virou uma região autônoma mas ainda ligada à Dinamarca. Em 16 de Junho de 1944 a união com a Dinamarca terminou e a partir do dia 17 de Junho a Islândia passou a ser uma república.

Durante os primeiros anos logo após a Segunda Guerra Mundial a Islândia modernizou a sua agricultura e a sua indústria da pesca e colheu bons resultados com isso. Em 1949 a Islândia passou a ser um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e em 1951 uma base naval norte-americana foi instalada em Keflavik. Em 1952 a Islândia estendeu o seu território marítimo de três para quatro milhas e em 1975 estabeleceu o limite de 200 milhas de sua costa. A economia da Islândia cresceu vertiginosamente até 2008, quando ocorreu a crise mundial, quando caiu numa recessão que durou pouco mais de dois anos. A partir de 2010 a Islândia voltou a crescer e em 2012 o seu GDP per capita foi de 42.658 dólares, um dos maiores do mundo. Quanto à distribuição interna de renda medida pelo índice Gini do Banco Mundial, onde 0 representa um igualitarismo perfeito e 100 uma desigualdade perfeita, a Islândia apresentou um coeficiente de 28 em 2008, o que coloca esse país entre os melhores do mundo.

Apesar dos islandeses modernos se considerarem amigáveis ao meio ambiente, a Islândia possui muitos problemas ambientais causados no passado, principalmente pelo uso intensivo do seu frágil ambiente natural. Segundo Jared Diamond, a enorme demanda de lenha para fazer o carvão usado nas ferrarias contribuiu para o desaparecimento da vasta cobertura lenhosa que havia originalmente. Os exemplos de vegetação arbustiva-arbórea de bétulas (Betula spp.) e salgueiros (Salix spp.) que tive a oportunidade de ver no Parque Nacional de Tingvellir e na região Gullfoss e Geysir seriam relíquias da vegetação passada da Islândia. Em termos de biodiversidade atual, a flora da Islândia consiste de 172 espécies de plantas, e a fauna de um punhado de espécies de aves e peixes e alguns invertebrados e de mamíferos.

A depleção dos recursos florestais da Islândia explica porque o país se estagnou e permaneceu estagnado durante séculos. Os islandeses viviam inicialmente do pastoreio e do cultivo de algumas culturas resistentes ao frio como a cevada, a aveia, o centeio e o feno. Até a virada do século vinte a indústria da pesca era artesanal. Segundo o historiador Gunnar Karlson, durante o século dezesseis os ingleses é que pescavam com embarcações maiores na costa da Islândia, ganhando a experiência necessária para o poderio naval da Inglaterra no século seguinte. A pesca desenvolveu-se aos poucos e apenas no século vinte tornou-se a principal fonte de riqueza da Islândia. Hoje em dia os três itens que mais contribuem para a economia da Islândia são a pesca, as fundições de alumínio e o turismo.

Finalizando as minhas impressões sobre a Islândia, eu gostaria de registrar o quanto eu gostei da semana que lá passei em setembro passado. E por cima de tudo todos os islandeses com quem tive contato me pareceram instruídos, corteses e alguns até bem-humorados. Guardarei a lembrança do ar puro que respirei e da água gelada que bebi direto da torneira.

Referências
Diamond, Jared (2011). Collapse. How Societies Coose to Fail or Survive. Penguin Books, UK.
Karlsson, Gunnar (2000). A Brief History of Iceland. 2dn edition.Translated by Anna Yates. Mál of menning.

A democracia na balança

A democracia é a pior forma de governo que existe com exceção de todas as outras’. Winston Churchill

Quando o filósofo Sócrates afirmou que nada sabia a não ser a própria ignorância, ele demarcou o benchmark do verdadeiro sábio como sendo aquele que conhece as suas limitações. As instituições sociais, incluindo a própria democracia, também têm as suas limitações. É preciso ser um bom crítico para enxergar as limitações da democracia. Um exemplo é o escritor e pensador Albert Camus, que criou o benchmark da democracia quando escreveu que ‘a democracia é a forma de sociedade criada e mantida por aqueles que sabem que não sabem tudo’. Antes de chegar a este benchmark Camus enxergou o grande problema da democracia como sendo a sua ligação com a política, que é limitada pela parcialidade.

O cientista político norte-americano Francis Fukuyama, um dos peritos mundiais em democracia, afirmou que apesar de já existir um consenso global sobre a legitimidade da democracia liberal, esta última depende de determinadas condições socioeconômicas, principalmente de uma classe média forte. Fukuyama definiu a classe média como sendo aquela formada por pessoas que não estão nem no topo nem na parte inferior de suas sociedades em termos de renda, que completaram o segundo grau e possuem bens imóveis ou os seus próprios negócios.

O fato de existir um consenso global sobre a legitimidade da democracia liberal não significa que todos os países tenham bons críticos da democracia. E o olho crítico e a cautela são essenciais para perceber a tempo as infecções da democracia que podem eventualmente destruí-la. Nos países onde a democracia ainda é relativamente nova muitas pessoas se dizem democratas, mas poucas têm uma visão crítica do processo democrático em constante mutação.

As boas democracias não são criadas pelo número de eleitores mas pelo espírito de cidadania onde os cidadãos desconfiam das certezas absolutas e passam a enxergar melhor a ameaça da demagogia. A hiperdemocracia, aquela formada em torno do número de eleitores e cuja maioria esmaga as minorias, é uma democracia doente, conforme identificou o pensador espanhol Ortega y Gasset. As boas democracias respeitam os direitos de todos, inclusive das pessoas que não apoiam os atuais governantes. Não é nenhuma coincidência que os países com uma longa tradição democrática como os Estados Unidos, o Canadá, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Dinamarca, a Noruega, e a França entendam bem a importância de transformar os eleitores em cidadãos.

A educação para a democracia consiste de um roteiro de estudos que inclui a história da democracia desde o seu aparecimento na antiga Grécia até as suas formas mais desenvolvidas bem como o ensino dos processos democráticos como a constituição e as leis. Tal roteiro de estudos tanto pode ser incorporado ao ensino formal das escolas públicas e privadas quanto ser oferecido através de palestras ao público promovidas pela sociedade civil. O objetivo da educação para a democracia é formar o cidadão crítico, aquele que pensa e age independentemente, que enxerga e respeita o interesse comum, e que entende que a democracia não é um fim, mas um meio de garantir a liberdade de cada indivíduo.

Recapitulando, a democracia e todos os seus aspectos precisam ser permanentemente colocados numa balança para avaliação. Criticar a democracia não significa ser inimigo da mesma; significa desconfiar das visões de democracia que são incapazes de reconhecer limitações; significa também questionar e apresentar boas razões para as dúvidas levantadas. A boa crítica da democracia é necessária para evidenciar eventuais inconsistências e ajudar a encontrar as soluções para os ajustes necessários.


Post Script. Frases do Ministro Joaquim Barbosa do STF sobre a democracia do Brasil, na proposta que submete ao Congresso as decisões do Supremo Tribunal Federal:

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual condenados por corrupção legislam contra os juízes que os condenaram.”

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual as decisões do Supremo Tribunal podem ser mudadas por condenados.”

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual deputados, após condenados, assumem cargos e afrontam o judiciário.”

“Somos o único caso de democracia no mundo, na qual é possível que condenados façam seus habeas corpus ou legislem para mudar a lei e serem libertos.”

Recebida de CJBorges


Agradecimento: Carlos Pires, revisor

O conhecimento pequeno é coisa perigosa

Alexander Pope (1688-1744), um dos maiores poetas britânicos do século XVIII, emprega a linguagem da poesia para a crítica, no seu poema An Essay on Criticism (Um Ensaio sobre a Crítica). Um dos objetos da crítica de Pope é o ‘conhecimento pequeno’, que ele taxa de ‘coisa perigosa’, explicando metaforicamente através da fonte de Pieria, a morada das musas das artes e das ciências descrita na mitologia grega. Segue-se a estrofe contendo a famosa citação mais a tradução:

‘A little learning is a dangerous thing;

Drink deep, or taste not the Pierian spring;

There shallow draughts intoxicate the brain,

And drinking largely sobers us again.’

A.Pope, 1711

‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa;

Beba do fundo, ou sequer prove da fonte Pieriana;

Pois os goles rasos intoxicam o cérebro,

E o beber farto nos torna sóbrios outra vez.’

A.Pope, 1711

Na estrofe acima Pope mostra que o conhecimento é como a Fonte de Pieria, podendo ser superficial ou profundo. Na vida, a prática de acumular informações soltas aqui e acolá equivale a beber apenas na parte rasa da fonte Pieriana pois leva apenas ao pequeno conhecimento. A construção de Pope tem ainda um paralelo no ditado popular ‘ouvir o galo cantar sem saber onde’ das pessoas que decidem e até julgam outras pessoas com informações insuficientes. O irracionalismo, que se caracteriza pelos julgamentos apressados, pressuposições erradas e opiniões impensadas, e que é a causa da maior parte das mesquinharias entre as pessoas, resulta do conhecimento pequeno. É por isso que Pope taxou o conhecimento pequeno de perigoso.

Somente podemos escapar do perigo do irracionalismo buscando um conhecimento mais profundo das coisas. Beber fartamente da fonte de Pieria significa treinar as nossas mentes através de boas leituras e conversações relevantes. O indivíduo que lê é em geral um cidadão melhor, pois sabe agir certo na hora certa e sabe conter o seu julgamento na ausência de provas ou de conhecimentos.Os que desejam buscar o conhecimento verdadeiro devem ir ao fundo do poço, pois as incursões superficiais, as águas rasas, trazem somente o conhecimento pequeno, que é ilusório e perigoso.

Há uma segunda mensagem subentendida na mesma estrofe, na asserção de que é impossível obter o conhecimento pleno já que o beber da fonte apenas devolve a sobriedade. Todos nós temos a liberdade de optar por beber do raso ou do fundo da fonte do conhecimento. Mesmo reconhecendo a impossibilidade do conhecimento pleno, a escolha do local certo da fonte do conhecimento já nos salva da embriaguez cerebral, deixando-nos sóbrios para enfrentar as angústias da existência e a adversidade.

Joaquina Pires-O’Brien

 Agradecimento: Carlos Pires, revisor

Termos de utilização: Favor citar a fonte ao reproduzir

O fascínio dos ditadores

Joaquina Pires-O’Brien

O teorista social Max Weber colocou o carisma como uma das três fontes de poder, ao lado do poder legal e do poder tradicional. Weber também reconheceu que a pessoa carismática é uma autoridade personalizada, que consegue impor sua vontade mesmo quando há oposições por parte de outros atores.  Via o poder como uma ascendência, uma capacidade de fazer com que as pessoas obedeçam por si próprias ao indivíduo carismático. Uma análise comparada das biografias de Joseph Stálin (1879-1953), Adolf Hitler (1889-1945) e Mao Zedong (1893-1976), os três maiores ditadores do século vinte, mostra o carisma como denominador comum dos três líderes.

Stalin, o primeiro dos ditadores acima mencionado, foi o responsável pela morte de quase seis milhões de pessoas entre prisioneiros dos gulags e pessoas que morreram na fome da Ucrânia. Apesar de tudo Stalin exercia um enorme fascínio tanto dentro quanto fora da União Soviética. Um exemplo do fascínio de Stálin é o trecho a seguir, uma nota publicada no Diário de Moscou, escrito por um narrador que estava acompanhado de um jovem poeta chamado Boris Pasternack (1890-1960), um protegido de Stalin que uma década depois enxergaria a verdade sobre o mesmo:

“O excitamento do auditório! E Ele ficou um tanto cansado, pensativo e majestoso. Dava à gente uma sensação de poder, uma enorme confiança na autoridade, e ao mesmo tempo, algo de feminino e macio. Eu olhei ao meu redor. Todo mundo trazia [no semblante] fascinação, enternecimento, inspiração e um sorriso nos olhos. Vê-lo – simplesmente vê-lo– que felicidade para todos nós. … Quando aplaudido, ele tirou seu relógio de bolso e o mostrou aos expectadores com um sorriso prazeroso. Todos cochichávamos uns com os outros, ‘O relógio dele, o relógio dele, ele está apontando para o relógio dele,’ e quando estávamos saindo, nós mais uma vez pensamos naquele relógio enquanto apanhávamos nossos casacos e chapéus… Pasternak e eu caminhamos juntos para casa e nós dois estávamos jubilantes de alegria”(1).

O carisma de Stalin perdurou por um bom tempo depois de sua morte, ainda mais em comparação com o seu sucessor, Nikita Kruschev. Quando Krushev denunciou os crimes de Stálin durante uma seção fechada do Vigésimo Congresso do Partido Comunista, no meio do seu discurso uma voz da audiência o interrompeu: “Camarada onde é que estava você quando tudo isso acontecia?” Kruschev parou. “Quem disse isso?” ele bracejou. Ninguém se moveu. “Quem ousou dizer isso?” ele tornou a perguntar, e mais uma vez ninguém respondeu. Kruschev então voltou a falar com calma e disse: “Era ali mesmo que eu estava”. E ao final do discurso, apenas o silêncio completo do auditório.

Stalin foi também cultuado fora da União Soviética, graças à máquina de propaganda do estado soviético. Dentre os diversos intelectuais latino-americanos que deixaram um registro de sua admiração pelo ditador talvez o mais notável tenha sido o poeta chileno Pablo Neruda, como pode ser constatado nos versos abaixo sobre seu herói.

“En tres habitaciones del viejo Kremlin

vive un hombre llamado José Stalin.

Tarde se apaga la luz de su cuarto.

El mundo y su patria no le dan reposo.

Otros héroes han dado a luz una patria,

él además ayudó a concebir la suya,

a edificarla

a defenderla.

Su inmensa patria es, pues, parte de él mismo

y no puede descansar porque ella no descansa.

En otro tiempo la nieve y la pólvora

lo encontraron frente a los viejos bandidos

que quisieron (como ahora otra vez) revivir

el knut, y la miseria, la angustia de los esclavos,

el dormido dolor de millones de pobres.

Él estuvo contra los que como Wralgel y Denikin

Fueron enviados desde Occidente para «defender la

Cultura».

Allí dejaron el pellejo aquellos defensores

de los verdugos, y en el ancho terreno

de la URSS, Stalin trabajó noche y día.

Pero más tarde vinieron en una ola de plomo

los alemanes cebados por Chamberlain.

Stalin los enfrentó en todas las vastas fronteras,

en todos los repliegues, en todos los avances

y hasta Berlín sus hijos como un huracán de pueblos

llegaron y llevaron la paz ancha de Rusia”. (2)

O segundo ditador carismático analisado neste ensaio é Hitler, cujo poder de sedução é evidenciado pela seguinte citação do sindicalista Anton Dexteler (1884-1942), do Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP) fundado em 1919:

“Hitler era um deleite de assistir”. “Drexler mal conseguia conter seu excitamento: ‘Quando o palestrante terminou eu corri em sua direção, agradeci a ele pelo que havia dito e lhe pedi que aceitasse o panfleto que trazia para ler, porque nós precisávamos de pessoas como ele”.

Parte do carisma de Hitler era devido à sua retórica. Seus discursos eram sempre num linguajar simples e direto, e sentenças curtas salpicadas de slogans carregados, onde tudo era absoluto, irrevogável e final. Hitler era um adepto fervoroso da doutrina Germanocêntrica baseada em ideias errôneas sobre raça e cultura, como a ideia de que os povos germânicos constituíam uma raça pura e superior e que devido a isso a Alemanha era o sucedâneo natural da civilização clássica Greco-românica. Como essa doutrina era também a doutrina do seu partido, então renomeado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), o partido Nazista, não foi difícil para ele inculcar a ideia de que ele era a pessoa certa para transformar a Alemanha no império a que estava predestinada. Com a vitória do Partido Nacional Socialista em 1932, Hitler chegou ao poder. Hitler tinha uma boa noção do poder da imagem. O título de “Führer” que adotou e cujo significado literal é “Lorde” ou “Senhor”, foi promovido no sentido de resgatador do prestígio da Alemanha após a humilhação do Tratado de Versalhes. Hitler empregou ao máximo a sua imagem para acumular mais poderes, orquestrando mudanças constitucionais e até criando uma igreja do Terceiro Reich que misturava princípios cristãos com misticismos.

Hitler foi o responsável pela morte de cerca de 12 milhões de pessoas, contando apenas civis e pessoas que morreram nos campos de concentração. A maioria dos seus colaboradores mais próximos tinham distúrbios graves de personalidade, conforme constatado pelos psiquiatras que examinaram as personalidades dos acusados de crimes de guerra no tribunal de Nuremberg. Eles ficaram impressionados com a insegurança latente de Rodolfo Hess, que até sua fuga para a Escócia em 1941, tinha sido o segundo homem do Terceiro Reich. Hess, que acompanhara Hitler desde o início de sua trajetória política, tinha uma veneração religiosa pelo Führer, quem ele acreditava ser um enviado de Deus.

O terceiro ditador descrito é Mao Zedong, anteriormente conhecido como Mao Tse-tung, cuja trajetória no poder deixou um saldo de mortos estimado entre 49 e 78 milhões. Mao foi um dos fundadores do Partido Comunista Chinês (CCP), criado 1921, e em 1945 ele passou a liderar o partido, em meio a uma Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas. Com a vitória do CCP em 1949, Mao chegou ao poder e criou a República Popular da China.

Uma evidência do poder carismático de Mao é dada por Zhang Hanzji, sua professoara de inglês: “Eu fiquei pasmada com a força da sua personalidade. Ele era inteligente e conhecedor, razoável e considerado”(3). Zhang era uma diplomata, que a despeito de uma infância trágica de criança abandonada, havia conseguido chegar aos corredores do poder. Ela conheceu Mao em 1963 quando acompanhou seu pai adotivo, diretor de um instituto de pesquisa, a uma festa de aniversário em homenagem a Mao. Pablo Neruda dá outra evidência do poder carismático de Mao, na seguinte poesia a ele dedicada:

Frente a Mao Tse-tung

el pueblo desfilaba.

No eran aquellos

hambrientos y descalzos

que descendieron

las áridas gargantas,

que vivieron en cuevas,

que se comieron raíces,

y que cuando bajaron

fueron viento de acero,

viento de acero de Yennan y el Norte.

Hoy otros hombres desfilaban,

sonrientes y seguros,

decididos y alegres,

pisando fuertemente la tierra liberada

de la patria más ancha.(4)

Embora o carisma possa ser usado como uma força positiva, na maior parte das vezes isso não ocorre. O grande problema dos líderes carismáticos é a excessiva autoconfiança, a ponto deles próprios acreditarem que são infalíveis. Entretanto, conforme um conhecido aforismo, “é possível enganar o todo o povo por algum tempo e até uma parte do povo por todo o tempo, mas não é possível enganar todo o povo por todo o tempo” (5). Como mostra a psicologia, a insegurança faz com que certas pessoas se apeguem de forma exagerada aos carismáticos. Isso explica por que os líderes carismáticos costumam viver cercados de sicofantas formados quase sempre por pessoas inseguras que precisam da sua força superior. Weber , que nem psicólogo era, explicou a relação entre carisma e poder: o carisma tem poder e o poder tem carisma. Os ditadores carismáticos aprendem desde cedo a alavancar a insegurança das pessoas com promessas de que usará seu poder para realizar algum desígnio do povo.

Existe um círculo vicioso na ascendência que o carismático tem sobre as outras pessoas. O que é preciso para interromper tal circuito vicioso não é inteligência e tampouco o conhecimento. Os exemplos de Stalin, Hitler e Mao mostram que o carisma desses ditadores seduziu não só as pessoas comuns mas simples mas também os intelectuais, artistas e cientistas. A chave capaz de romper o círculo vicioso do poder do carismático que protege os ditadores e os bullies desse mundo é a razoabilidade. À medida que a população vai ficando mais esclarecida, também vai ficando mais imune à sedução do carisma. Quem sabe um dia o fascínio dos ditadores não venha a se tornar mais um atavismo da condição humana. 

Notas:

(1)    Diário de Moscou, versão inglesa de Emma Gerstein, publicada no post de Nina Witoszek de 07/05/2010.

(2)    Pablo Neruda, Obras completas I. RBA. Barcelona, 2005, pág. 746; citado por José María García de Tuñon Aza  em El Cattobeplas, 122, abril 2012, p. 9.

(3)     Tutor to a Tyrant: the life of Chairman Mao’s English teacher”, em http://www.independent.co.uk/news/world/asia/, 08/08/2011.

(4)    Pablo Neruda, Obras…, pág. 931. citado por José María García de Tuñon Aza  em El Cattobeplas, 122, abril 2012, p. 9.

(5)    Frase citada por Abraham Lincoln e atribuída a Phineas Barnum, um comediante americano do século dezenove dotado de uma enorme capacidade de sintetizar ideias e valores do dia a dia.

Agradecimento: Carlos Pires, revisor