O pós-modernismo é errado porque é falso

Joaquina Pires-O’Brien

Modernidade e a pós-modernidade

A modernidade e a pós-modernidade são concepções diferentes do mundo. Enquanto que a modernidade baseia-se no Iluminismo e nos avanços do racionalismo e da ciência, a pós-modernidade baseia-se na ruptura com o Iluminismo e com o rigor do racionalismo e da ciência. Dentro da concepção da modernidade surgiu a escola linguística estruturalista, que ao ser absorvida por outras disciplinas das humanidades e das ciências sociais gerou uma visão geral do mundo baseada no conhecimento e na realidade, a qual passou a ser chamada de estruturalismo.  Dentro do estruturalismo surgiram dissidências, as quais não lograram criar uma visão explícita que merecesse o nome de escola filosófica, mas mesmo assim passou a identificar-se como pós estruturalismo. A abordagens respectivas da modernidade e da pós-modernidade confundem-se com essas, e por essa razão, modernidade e estruturalismo viraram sinônimos, assim como pós-modernidade e pós-estruturalismo.

Pós-modernismo, descontrucionismo e construtivismo

O pós-modernismo é uma ideologia ambígua e difícil de definir, a não ser pelo seu objetivo de destruir a modernidade e substituí-la pela pós-modernidade marxista. O motivo pelo qual o pós-modernismo é ambíguo é esconder a sua falsidade. É por essa mesma razão que Jordan Peterson descreveu o pós-modernismo como sendo o marxismo com pele nova.

A falsidade do pós-modernismo está tanto no seu método de destruir a civilização ocidental moderna, através da destruição de suas metanarrativas como o Iluminismo, a racionalidade, a ciência, etc., quanto no seu método de falsificar realidades. Esses dois métodos são chamados deconstrucionismo e construtivismo. Os seus respectivos alvos são a modernidade e a pós-modernidade.

Desconstrucionismo é o processo de aviltamento das coisas características do modernismo através do ataque às suas metanarrativas, reduzindo-as a sequências arbitrárias de sinais linguísticos ou palavras, e em seguida substituindo significados originais por outros, para finalmente concluir que nenhuma interpretação dessas sequências de palavras é mais correta que outra.

Construtivismo é o processo de criar abstrações – constructos – através da retórica. Embora existam certos constructos que são normalmente aceitos, como por exemplo, Estado, dinheiro, lei, e identidades nacionais, o construtivismo da doutrina do pós-modernismo é radical, irracional e desonesto, pois baseia-se na premissa de que tudo é uma questão de semântica.

O desconstrucionismo começou no meio da intelectualidade francesa marxista, sendo Jacques Derrida (1930-2004) o pai reconhecido desse movimento.  Inicialmente o desconstrucionismo era uma forma de crítica literária, mas ao ser absorvido pelas humanidades e ciências sociais, passou a ter outras aplicações. Derrida acreditava que o pensamento ocidental foi viciado desde a época de Platão por um tumor que ele chamou de ‘logocentrismo’, referindo-se à suposição de que a linguagem descreve o mundo de maneira bastante transparente. Na visão de Derrida, a descrição do mundo através da linguagem é uma ilusão, e a própria linguagem não é imparcial e as palavras nos impedem de realmente experimentar a realidade diretamente. O que Derrida quer, é derrubar a crença em uma realidade externa objetiva que pode ser explorada através da linguagem, da racionalidade e da ciência, e mostrar que a grande narrativa do Iluminismo não passa de um conjunto de delírios. O método de Derrida para destruir a linguagem é a desconstrução – uma técnica que nos faz ver que os ‘significantes’ – as palavras em si no sistema saussureano – são tão ambíguos e mutáveis que podem significar alguma coisa ou nada.

A ideia original do construtivismo antecede a modernidade, mas o primeiro autor contemporâneo a empregá-la foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), para descrever o modo como as crianças criam um modelo mental do mundo. Embora os pós-modernos parecem gostar da ligação com Piaget, o construtivismo piageteano é positivo enquanto que o  construtivismo pós-moderno é negativo. O construtivismo piageteano afirma que o conhecimento é algo construído pelo indivíduo com base em suas interações com o mundo físico e o mundo social. O construtivismo dos pós-modernos afirma o conhecimento é algo socialmente construído. A fim de distinguir o construtivismo pósmodernista do construtivismo piageteano o primeiro passou a ser conhecido como construtivismo social ou socioconstrutivismo.

A que veio o pós-modernismo?

O pós-moderismo veio para fazer a revolução marxista por debaixo do pano.  As suas principais armas são o desconstrucionismo, usado para aviltar o racionalismo e a ciência, e o socioconstrutivismo, usado para criar grupos de identidades políticas e lideranças, através de imagens e figuras de retórica. A estratégia do pós-modernismo e criar subliminarmente uma disposição ou mentalidade pós-moderna, ou um Zeitgeist  pós-moderno.

O objetivo do marxismo era criar uma sociedade ideal, mas tal sociedade ideal só podia existir na prancheta, pois a tentativa de implementá-la gerou tiranias genocidas. O pós-modernismo também rejeita a realidade e anseia por uma realidade idealizada.

Na mentalidade pós-moderna, realidade é aquilo que é falado, e o melhor caminho para ser falado é aparecer na mídia. É daí que veio a obsessão com fama e famosos. A mentalidade pós-moderna anseia por identidades fortes pois são um caminho para o poder.  Entretanto, a identidade genuína do indivíduo, aquela baseada nas habilidades cognitivas e na bagagem cultural do indivíduo, nem sempre é forte, e por essa razão foi abandonada. Na mentalidade pós-moderna, a identidade e definida pela ‘persona’ – “uma espécie de máscara, desenhada com o duplo motivo de conferir uma impressão firme junto aos demais, e ocultar a verdadeira natureza do indivíduo,” conforme mostrada pelo psiquiatra suíço Carl Jung.

Consequências ruins do pós-modernismo

No Zeitgeist da pós-modernidade a autenticidade saiu de moda e as pessoas preocupam-se mais com aparência do que com substância.

No Zeitgeist pós-moderno, a perda da genuinidade do indivíduo veio acompanhada da perda da espontaneidade dos processos sociais, e uma das consequências não intencionadas disso é a diminuição da confiança social, que por sua vez leva a dois erros de julgamento: valoriza quem não merece ser valorizado, e deixar de valorizar quem merece. Tais erros de julgamento equivalem a enormes perdas para a sociedade, em termos de capital humano desperdiçado.

O começo do mundo pós-moderno

O começo do mundo pós-moderno pode ser traçado à década de 1960, quando as fronteiras entre alta e baixa cultura foram esfumadas. Isso permitiu a emergência da Pop Art e o seu assentamento como uma forma de poder popular. Um de seus líderes, Andy Warhol (1928-1987), prognosticou que “no futuro, todos serão mundialmente famosos por quinze minutos”.

Um dos alvos importantes do pós-modernismo foi o conceito de identidade nacional, que foi esfumado e largado de lado, e substituído pelas novas tribos formadas por grupos de identidade política. Não contente em destruir a identidade nacional, o pós-modernismo destruiu também a identidade civilizacional da América Latina. Muitos latino-americanos tomam por certo que a América Latina faz parte da Civilização Ocidental, uma vez que todos os seus países foram colonizados por europeus. Poucos latinoamericanos notaram que o cientista político Samuel Huntington (1927-2008) optou por listar a América Latina como uma civilização aparte ao invés de incluí-la na Civilização Ocidental, no seu livro Clash of Civilizations (A colisão das civilizações; 1997). A justificativa de Huntington é de que a América Latina não preencheu os critérios a priori para afiliação ao Ocidente. Em termos de identidade nacional, os países latinoamericanos sofrem de uma neurótica dissonância cognitiva formada pelo desejo simultâneo de pertencer à Civilização Ocidental e às suas respectivas culturas indígenas.

Em todo o lugar onde o pós-modernismo se encontra, a sua entrada ocorreu de forma sorrateira. Na América Latina, alojou-se inicialmente nas universidades, principalmente nas humanidades e ciências sociais, e de lá passou para as organizações não governamentais (ONGs) e para os grupos de identidade política.

O socioconstrutivismo

O socioconstrutivismo passou a ser um fenômeno comum na América Latina a partir da década de 1980, quando heróis e heroínas foram artificialmente criados. O método do  socioconstrutivismo consiste de cinco etapas principais: (i) escolher causas simpáticas como a defesa de florestas, de animais, e de grupos oprimidos; (ii) a cooptar lideranças a partir de bases conhecidas, (iii) aumentar os perfis dessas lideranças, persuadindo jornalistas a publicar matérias sobre as mesmas, (iv) indicar as lideranças escolhidas para participar de organizações de doadores de recursos e (v) indicar as lideranças escolhidas para prêmios disponíveis e fazer lobby junto a favor das mesmas.

A escolha da causa requer cuidado e atenção. Por exemplo, no caso de uma ONG ligada à causa dos indígenas, as tribos mais coloridas e que ainda praticam suas danças e cerimônias são mais promissores que aquelas que são menos coloridas e mais aculturadas. Uma vez escolhida a causa, o próximo passo é escolher os indivíduos mais promissores em termos de aparência e maleabilidade para serem promovidos junto à mídia.

As maquinações de bastidores para construir lideranças e para atrair o interesse de jornalistas são aéticas, o que gera o perigo de whistle blowers ou denunciantes, que não aceitam que um objetivo nobre justifica mentiras e meias verdades. Entretanto, o socioconstrutivismo tem uma capa de proteção contra denunciantes, fazendo com que qualquer crítica à administração financeira da ONG ou às suas mentiras e meias verdades sejam percebidas como um ataque vil à própria causa, isto é, ao grupo oprimido, à floresta, ou ao animal carismático, fazendo com que o crítico seja taxado de racista e coisas piores.

Um dos poucos exemplos que chegou a ser noticiado na imprensa internacional foi a história da jovem guatemalteca Rigoberta Menchú, que foi transformada numa heroína de sua tribo e que em 1992 ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Entretanto, quando o antropólogo David Stoll decidiu avaliar o mérito de Menchú, descobriu que a sua narrativa do genocídio do seu povo, no início da década de 1980, no livro autobiográfico I, Rigoberta Menchú (Verso, 1984), estava repleto de inconsistências e até mentiras, e que o mesmo livro, editado com a ajuda de diversas pessoas, tinha uma agenda, de ajudar a guerrilha à qual Menchú havia se juntado em 1981. Stoll publicou os seus achados no livro Rigoberta Menchú and the Story of All Poor Guatemalans (1999), mas a verdade que expôs foi ignorada e ele próprio acabou taxado de inimigo dos indígenas.  O que aconteceu a David Stoll passou a desencorajar qualquer denúncia semelhante. Foi uma evidência da capa de proteção do sociocontrutivismo, análoga à dos vírus.

As pessoas ordinárias, que subentendem aquilo que é conhecido como o público, têm o dever de manter-se atentas ao que acontece a seu redor. A pergunta que devem fazer é “o socioconstrutivsmo é bom para quem?”

i) O socioconstrutivsmo é bom para os indivíduos oprimidos a quem defendem?

O paternalismo do sociocontrutivismo faz com que o indivíduo oprimido continue oprimido, pois tira-lhe as chances de ser ele próprio, e de crescer e amadurecer.

ii) O socioconstrutivsmo é bom para a sociedade?

Mentiras e meias verdades corroem a confiança dentro da sociedade, gerando uma sociedade de baixa confiança, a qual é extremamente desfavorável ao desenvolvimento econômico.

iii) Quem ganha com o socioconstrutivsmo?

Quem ganha com o socioconstrutivismo são os próprios sócioconstrutivistas, que ganham os ouvidos das autoridades e espaços nos círculos do poder.

Conclusão

O pós-modernismo é o próprio marxismo com outra pele. Os dois empregam a mesma linguagem de ressentimento, raiva e inveja. Enquanto que o marxismo tradicional exaltava a destruição do capitalismo que ocorreria em decorrência da revolução socialista, o pós-modernismo (ou neomarxismo), planejou e fez a sua revolução na surdina. A revolução do pós-modernismo foi um sucesso e a prova disso é que a própria civilização Ocidental é a sua prisioneira. O Zeitgeist pós-moderno onde vivemos pode ser descrito pelo relativismo cultural, o aviltamento da sociedade maior através de sua fragmentação em grupos de identidade políticas, a falta de genuinidade e espontaneidade, e as fabricações. As suas armas mais potentes, o desconstrucionismo e o socioconstrutivismo, servem às suas lideranças, que fingem servir às mais diversas causas sociais. A sociedade não ganhou nada com o pós-modernismo, mas perdeu muita coisa, desde a genuinidade das pessoas e a própria espontaneidade, até a confiança entre os seus cidadãos.  O pós-modernismo é errado por diversos motivos, mas o principal deles é a falsidade.


Joaquina Pires-O’Brien é brasileira e reside na Inglaterra. Desde 2010 é editora da revista cultural PortVitoria, dedicada à cultura ibérica no mundo, com conteúdo em português, espanhol e inglês. Acessar: www.portvtoria.com

 

 

 

 

Anúncios

Jordan Peterson sobre a importância do diálogo entre campos opostos de pensamento e o pós-modernismo

Jordan Peterson sobre a importância do diálogo entre campos opostos de pensamento e o pós-modernismo

Joaquina Pires-O’Brien

Segundo Jordan Peterson, psicólogo clínico canadense, professor, e autor de 12 Regras para a Vida: Um antídoto para o caos, se quisermos mais segurança e menos tirania em nossa sociedade, devemos nos perguntar qual é o nosso dever moral a fim de obter isso. Esta postagem sumariza algumas ideias interessantes de Peterson, que retirei de uma de suas palestras no YouTube e do seu livro.

Como mostrou Peterson, a sociedade humana tem seu próprio conjunto de valores, mas cada um desses valores é válido apenas em determinadas circunstâncias. A sociedade humana também tem campos opostos de articuladores, defendendo subconjuntos predeterminados de valores, o que torna necessário o diálogo entre os mesmos. Como o tempo não pára e as coisas mudam, também os alvos perseguidos pela sociedade movem. Em outras palavras, os problemas da sociedade estão sempre mudando, o que é outra razão pela qual o diálogo entre os campos diferentes de articuladores é essencial.

Os dois campos de articuladores que existem hoje são geralmente rotulados como ‘esquerda e direita’. Para Peterson, o problema que atravanca a comunicação entre esses campos opostos de articuladores é o fato de que as pessoas percebem as coisas de maneira diferente, devido às suas propensões naturais e às suas circunstâncias familiares e educacionais. A esquerda acredita na ideia de que existe um imperativo moral de ser um ativista. A direita acredita na ideia de que para alguém ser útil é preciso ter um imperativo moral. São duas coisas diferentes.

Se você é um drop-out (desistente), provavelmente é um perdedor ou fracassado. A probabilidade mais certa é de que você seja inútil, preguiçoso, arrogante e ressentido. Há perdedores que pensam que são santos e há santos que pensam que são perdedores. Se você é um perdedor que pensa que é um santo, então você causará muitos problemas à sociedade. Muitas pessoas da geração dos anos 60 gostam de se imaginar como sendo o admirável rebelde. Entretanto, debaixo da fachada de revolucionário está uma incapacidade de enfrentar responsabilidades. As previsões das linhas de base e das tabelas atuariais mostram isso. O fato é que os admiráveis ​​rebeldes da geração dos anos 60 têm sido uma influência perniciosa na universidade, especialmente as humanidades, cuja influência vem se deteriorando desde então.

Uma sociedade funcional é uma que tem mais segurança e menos tirania. As sociedades humanas têm hierarquias de dominância, e, muitos tipos de animais também têm hierarquias de dominância, que são comportamentos selecionados para aumentar a sobrevivência. Na sociedade humana, as hierarquias dominantes têm sido bastante atacadas, e acusadas de serem tiranias. No entanto, existe uma diferença crucial entre as hierarquias de dominância dos humanos e dos outros animais: as dos humanos são baseadas em competência. Hierarquias de dominância baseadas em competência não são a mesma coisa que hierarquias baseadas em poder arbitrário, como o tipo de poder baseado puramente em termos econômicos. Essa sim é uma tirania. Quanto mais funcional a sociedade, mais a sua hierarquia de poder será baseada na competência em relação ao que a sociedade considera realmente valioso. É difícil atender a esses critérios perfeitamente, mas uma sociedade funcional precisa caminhar nessa direção. O indicador de sucesso número um em uma sociedade é a inteligência, e, assim sendo, faz sentido que as pessoas mais inteligentes ocupem as posições de maior complexidade em uma sociedade. As boas hierarquias, aquelas  construídas em torno da capacitação, fornecem segurança e são boas para a sociedade. O problema são as hierarquias degeneradas, que são verdadeiras tiranias. A pergunta que todos os cidadãos conscientes devem fazer é “qual é o nosso dever moral caso queiramos mais segurança e menos tirania?”

Para Peterson, a personalidade do indivíduo determina como ele percebe a hierarquia de poder com base na competência. O indivíduo do tipo autodisciplinado, que mira alto e alcança altos padrões, provavelmente não tem problema com esse tipo de hierarquia, mas o indivíduo que possui alguma limitação atravancadora de seu progresso, provavelmente tem. Esse tipo de pessoa possivelmente perceberá um elemento tirânico em padrões elevados, e os verá como injustos. As pessoas que pensam desse modo tendem a ter a ‘personalidade adversária’, segundo Peterson.

A existência de dois ou mais campos de articuladores não é o maior problema da sociedade. O maior problema da sociedade são os elementos radicais que existem neles. Um exemplo são os ideólogos do igualitarismo e da equidade, que são incapazes de perceber que as diferenças de posição entre as pessoas é coisa normal, e, que isso não é uma coisa tão terrível assim. Os não ideólogos também são um problema, quando se mantém afastados dos debates que ocorrem na esfera pública, especialmente quando não há desconforto em suas vidas profissionais e as coisas vão bem para eles.

Em 2017 Peterson resolveu pronunciar-se contra um projeto de lei no Canadá, o Bill C-16, criando uma obrigatoriedade legal das pessoas físicas e jurídicas (universidades, empregadores, senhorios) de se referir a indivíduos LGBTs utilizando os novos pronomes criados para acomodar suas situações particulares de gênero, por entender que tal legislação atropela o direito mais importante da livre expressão.  Embora Peterson tivesse deixado bem claro que ele não era contra o uso dos novos pronomes acomodadores de LGBTs e sim contra a obrigatoriedade legal de fazer isso, a esquerda radical do Canadá acusou-o de ser ‘bigoted’ (intolerante) e de pertencer à extrema direita, e organizou uma campanha sem trégua contra ele nas universidades. Em consequência disso, Peterson amargou uma espécie de processo administrativo dentro da Universidade de Toronto onde leciona. Segundo ele próprio, em 2017 o seu emprego na Universidade de Toronto foi ameaçado, causando enorme ansiedade para ele e sua família. Felizmente as nuvens que pairavam sobre a cabeça de Peterson se esvaneceram, o que provavelmente ocorreu em consequência do enorme suporte que recebeu, principalmente por parte de alunos moderados das universidades canadenses e americanas.

Em julho de 2017 Peterson anunciou seus planos de lançar um site que ajudaria alunos e pais a identificar e evitar cursos ‘corruptos’ com ‘conteúdo pós-moderno’. Ele espera que dentro de cinco anos, as salas de aula do Ocidente fiquem livres do ‘culto neomarxista pós-moderno’. Apesar de terem sido produzidas sem recursos especiais de iluminação e sem truques de imagem, as palestras, aulas e debates de Jordan divulgadas no YouTube e em podcasts já foram assistidas por cerca de 40 milhões de pessoas.

Peterson também passou a receber muitos convites fazer palestras e participar de debates em universidades e organizações de debate público como o Munk Debates de Toronto.  Entretanto, em todas as aparições públicas de Peterson, os protestos dos grupos radicais de esquerda são uma constante. Em uma de suas palestras na YouTube Peterson narra a sua experiência na Universidade McMaster, em Hamilton, Ontário (Canadá), na sexta-feira 16 de março de 2018. Ele havia sido convidado por um grupo de estudantes para participar de um debate sobre liberdade de expressão e correção política junto com três professores da mesma universidade. No entanto, devido aos protestos ocorridos no campus, os três debatedores locais desistiram de participar no evento. Peterson compareceu à sala designada para o debate e começou a falar, mas ninguém podia ouvi-lo por causa do barulho que os manifestantes faziam, cantando, tocando chocalhos e buzinando. Ele então saiu da sala e continuou falando de cima de um banco. Apesar da indignação sofrida, o ocorrido elevou o perfil de Peterson depois de ter aparecido no noticiário nacional e internacional. No início de 2018 Peterson publicou o seu livro de autoajuda 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos,  que logo virou um best-seller. O livro já foi traduzido para o português, como 12 regras para a vida: um antídoto do caos, e também por outras línguas (Leia a minha resenha em português).

Pela sua valentia e  enorme capacidade intelectual, Peterson finalmente ganhou o merecido reconhecimento. A ensaísta e crítica americano Camille Paglia o ungiu como “o mais importante e influente pensador canadense” desde Marshall McLuhan ”. A jornalista britânica Melanie Phillips escreveu que Jordan é “uma espécie de profeta secular… em uma era de conformismo lobotomizado”. O economista Tyler Cowen, da Universidade George Mason, colocou Peterson entre os cinco principais intelectuais públicos do mundo ocidental (Tyler Cowen, 23 de janeiro de 2018, às 12h45, na Current Arts Education Philosophy). David Brooks, do The New York Times, referiu-se a Peterson como “o intelectual público mais influente no mundo ocidental agora”.

 

P.S. Um tema que recebeu a atenção de Peterson em várias de suas palestras é o Pósmodernismo e a sua perniciosa influência na sociedade, de um modo geral, e nas universidades do Ocidente, em particular. Mas o Pós-modernismo invadiu também as universidades da franja do Ocidente, como a América Latina, embora é lamentável a omissão dos acadêmicos latino-americanos a respeito desse problema. Um dos 22 ensaios do meu livro O homem razoável (2016), o qual está disponível em edições Kindle e de papel, na Amazon.com (EUA), intitula-se ‘A que veio o Pós-modernismo?’ Peço aos leitores de língua portuguesa e espanhola que adquiram o meu livro me ajudem a divulgá-lo, pois nele há outros ensaios relacionados. Na minha próxima postagem eu vou publicar uma transcrição que fiz da palestra de Peterson sobre o pós-modernismo e seus efeitos no Canadá.

 

 

1968 numa casca de noz

1968 numa casca de noz

Joaquina Pires-O’Brien

O ano de 1968 deveria promover uma revolução contra o establishment. Como todas as revoluções, 1968 tinha um objetivo nobre, que era instilar uma sociedade mais livre e mais justa. Em retrospectiva, 1968 foi rebaixado de uma revolução para uma série de revoltas contra o patriarcado, a repressão social, o capitalismo e os modos de vida comuns rotulados como ‘burgueses’, assim como contra o imperialismo e a Guerra do Vietnã. Todavia, deixou consequências devastadoras para a sociedade, como se tivesse sido uma revolução.

Fios ideológicos e mentalidade

1968 foi o ápice das revoltas dos anos 60. A ideologia de 1968 era composta por vários fios ideológicos entrelaçados que incluíam o Romantismo, o existencialismo, o marxismo, a velha esquerda, a nova squerda e o Pós-Modernismo, bem como uma mentalidade específica contra guerras e uma fixação com a vida autêntica.

O movimento romântico foi uma revolta do século XIX contra a restrição clássica nas artes e os rigores da ciência, com origens nos séculos XVII e XVIII, especialmente na religião. O romântico quintessencial do século XIX foi Johan Gottfried Herder (1744-1803), o difusor da ideia do Volksgeist ou ‘o espírito do povo’, uma noção convincente de que cada nação tem uma cultura natural a qual resulta da necessidade interior de significado.

O existencialismo ou a filosofia da existência é também um produto do século XIX e gira em torno da ansiedade do ser e da busca da essência do ser. Seu principal fundador foi Søren Kierkegaard (1813-1855), que se deteve no processo histórico do eu. Outros articuladores do existencialismo são: Fiódor Dostoiévsky (1821-1881), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Edmund Husserl (1859-1938), José Ortega y Gasset (1883-1955), Martin Heideger (1889-1976) e Jean-Paul Sartre (1905-1980).

O marxismo se refere à teoria socialista de Karl Marx (1818-1883), que foi construída sobre a dialética tripartite da filosofia da história do filósofo alemão Georg W. F. Hegel (1770-1831): tese, antítese e síntese. Na teoria socialista de Marx, a tese é a sociedade burguesa, que se originou do regime feudal em desintegração; a antítese é o proletariado, que se originou através do desenvolvimento da indústria moderna, este foi expulso da sociedade moderna por meio da especialização e degradação, por isso deve em dado momento se voltar contra ela; e a síntese é a sociedade comunista que resultará do conflito entre a classe trabalhadora e as classes proprietária e empregadora, ou seja, a harmonização de todos os interesses da humanidade após a classe trabalhadora tomar as instalações industriais.

A velha esquerda e a nova esquerda são ambas baseadas na doutrina socialista de Karl Marx, embora a nova esquerda tenha incorporado contribuições de outros socialistas como o filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937).

O principal objetivo da velha esquerda era apoiar a revolução operária que Marx havia profetizado; seus adeptos eram principalmente de comunistas pró-soviéticos, socialistas revisionistas, trotskistas, maoístas, anarquistas, etc.

A nova esquerda consistia de uma nova abordagem do pensamento marxista, na qual o paradigma revolucionário de Marx é substituído por uma resistência passiva do establishment, que incluía aceitar as rotinas burocráticas como meio de ocupação das instituições. O movimento mais significativo para a ideologia da nova esquerda foi a Escola de Frankfurt (1) que, em 1933, transferiu-se para a Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Esta ligação da Columbia com a Escola de Frankfurt é significativa, pois a Columbia tornou-se o epicentro cultural americano de 1968.

O Pós-Modernismo, cujos principais idealizadores são Michael Foucault (1926-1984), Jean-François Lyotard (1924-1998), Jacques Derrida (1930-2004) e Richard Rorty (1931-2007), consiste basicamente em uma desconfiança geral das grandes teorias e ideologias, bem como uma reação contra a modernidade e a negação do progresso. De acordo com a doutrina pós-modernista, não existe tal coisa como ‘conhecimento objetivo’ ou ‘conhecimento científico’, ou mesmo uma ‘melhor moralidade’, pois tudo é opinião, e cada tipo de opinião é tão bom quanto o outro.

Os intelectuais que inspiraram 1968

Como todas as outras revoltas da História, 1968 teve seus agitadores intelectuais. Os intelectuais mais proeminentes de 1968 vieram da França e da Alemanha, sendo os dois mais proeminentes Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Herbert Marcuse (1898-1979). Sartre e Marcuse se destacaram pela conexão com os estudantes universitários e com o público os quais estavam ansiosos com as incertezas da Guerra Fria. Poder-se-ia também argumentar que a razão dessa forte conexão era que os escritos de Sartre e Marcuse ressoavam bem com a mentalidade dominante da época.

Sartre popularizou sua própria versão do existencialismo, a qual incluía a noção de que o comunismo representava o desejo do povo e oferecia um modo de vida autêntico, em oposição ao modo de vida inautêntico encontrado no capitalismo. Marcuse popularizou uma espécie de socialismo que não exigia guerras, e poderia ser alcançado invadindo e ocupando as instituições do establisment. Também cabe a ele, a popularização do amor livre.

Sartre

Sartre disseminou uma espécie de existencialismo em que o significado e a autenticidade podiam ser ligados ao comunismo. Em 1960, fez uma viagem pela América Latina, acompanhada por sua parceira, a filósofa Simone de Beauvoir (1908-1986), que também era uma figura imponente entre os intelectuais franceses. O casal visitou Cuba, onde foi recebido por Fidel Castro e Che Guevara, então o seu Ministro da Fazenda. No Brasil, onde foi ciceroneado por Jorge Amado (1912-2001), Sartre discursou em diversas universidades e um de seus intérpretes foi o jovem Fernando Henrique Cardoso (nascido em 1931), futuro presidente do Brasil. Em 1964, Sartre foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, o qual recusou alegando que se tratava de uma instituição ocidental e que aceitá-lo poderia ser percebido como tomar o lado do Ocidente no atual conflito do Oriente e Ocidente.

A abordagem de Sartre sobre o existencialismo estava focada na noção de vergonha ou na maneira como os outros o viam, sobre a qual ele não tinha controle. É desta reflexão que ele surgiu com a frase “o inferno são os outros”. O entendimento de Sartre sobre a liberdade era bastante particular, e, para ele, o caminho para a liberdade era mais importante que a própria liberdade. Assim, quando os manifestantes franceses tomaram as ruas e a polícia francesa respondeu com força, Sartre pregou uma contraviolência à violência da polícia. Embora os livros de Sartre fossem altamente considerados pela geração associada a 1968, ele estava enganado em relação ao comunismo e ao regime soviético. Sua vida pessoal não foi exemplar, como revelado em suas biografias.

Marcuse

Marcuse lecionou no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, que foi restabelecido na Universidade de Columbia, Nova Iorque, após seu fechamento pelos nazistas em 1933. Naquela época, ele fugiu para Genebra e de lá para os Estados Unidos, junto com seus colegas Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1903-1969). Durante a Segunda Guerra Mundial, Marcuse serviu como oficial de inteligência e, na década de 1950, quando o Instituto de Frankfurt se mudou para a Europa, ele escolheu permanecer nos Estados Unidos e se naturalizar como cidadão americano. Em 1955 ele publicou Eros e Civilização, no qual combinou Freud e Marx para criar uma doutrina de libertação sexual e política ao mesmo tempo, e no qual ele introduziu o slogan “Faça amor, não faça guerra” no centro das revoltas dos anos 60. Marcuse se tornou uma celebridade aos 66 anos, com seu livro O homem unidimensional, de 1962, cuja palavra ‘unidimensional’ no título se refere ao achatamento do discurso, da imaginação, da cultura e da política na sociedade. Nesse livro, Marcuse sugeriu uma ruptura com o sistema atual, a fim de abrir caminho para uma ‘existência bidimensional’ alternativa. Tanto Eros e Civilização quanto O homem unidimensional ajudaram a promover a nova esquerda junto à população estudantil. Os pensamentos de Marcuse sobre a criação de uma sociedade emancipada, sem uma revolução socialista, são resumidos em Um ensaio sobre a libertação, publicado originalmente em 1969, e considerado um instantâneo do utopismo revolucionário na década de 1960.

O tipo de socialismo que Marcuse pregou foi uma completa negação da sociedade existente e uma ruptura com a história anterior que proporcionaria um modo alternativo de existência livre e feliz com menos trabalho, mais diversão e a redução da repressão social. Ele usou a terminologia marxista para criticar as sociedades capitalistas existentes e insistiu que a revolução socialista era a maneira mais viável de criar uma sociedade emancipada. Marcuse foi considerado um hedonista irresponsável por Erich Fromm (1900-1980)(2), o psicanalista e filósofo social americano que também era um refugiado alemão. A ingratidão de Marcuse em relação ao país que o recebeu como refugiado aparece em seus escritos, onde descreveu os Estados Unidos como ‘preponderantemente maligno’.

Os primeiros críticos das revoltas de 60: Aron and Habermas

Entre os primeiros críticos das revoltas dos anos 60, os dois mais significativos foram Raymond Aron (1905-1983) e Jürgen Habermas (1929). Tanto Aron quanto Habermas foram socialistas quando jovens e ambos estudaram o socialismo e Karl Marx em profundidade. Ambos continuaram a se descrever como membros da esquerda mesmo depois de se tornarem seus principais críticos, viam as massas como um caminho para o totalitarismo, e acreditavam que uma extensa reforma universitária poderia ser a solução para as agitações estudantis. Por último, mas não menos importante, ambos eram odiados pelos estudantes.

Em 1969, Aron publicou La Revolution Introuvable, traduzido para o inglês como The Elusive Revolution (A revolução elusiva), no qual ele se referiu aos eventos de maio de 1968, como um ‘psicodrama’ em que  “todos os envolvidos imitavam seus grandes ancestrais e desenterravam modelos revolucionários consagrados no inconsciente coletivo ”– uma referência à Revolução Francesa de 1789 e ao Reino do Terror que ela criou. O livro recebeu críticas negativas na França e nos Estados Unidos (2).

Habermas, que publicou dezenas de livros e ensaios, é o filósofo vivo mais importante da Alemanha. Embora tenha estudado no Instituto de Frankfurt, ele se afastou de sua influência marxista e criou sua própria escola de pensamento. Sua crítica às revoltas dos estudantes da década de 1960 é desenvolvida em alguns de seus ensaios, como ‘O Movimento na Alemanha’. Em seu livro de 1962 Strukturwandel der Öffenlicheit, que apareceu em inglês apenas em 1989, como The Structrual Transformation of the Public Sphere (A transformação estrutural da esfera pública), ele criticou muitas das teorias no centro das revoltas estudantis. Habermas apontou o papel especial das universidades como plataformas de debate da esfera pública e afirmou que os alunos mais radicais estavam tirando das universidades a possibilidade de discussão. Ele também reconheceu os novos movimentos ambientais que surgiram das revoltas dos anos 60.

O ‘nós e eles’ de 1968: uma estratégia de identidade

Os articulistas de 1968 criaram uma divisão social ‘nós e eles’, na qual os ‘nós’ ou ‘os participantes de 1968’ eram os mocinhos que pretendiam criar um mundo melhor, enquanto os ‘eles’ eram os bandidos, rotulados como ‘contrarrevolucionários’ ou ‘reacionários’. De fato, os ‘eles’ reacionários eram uma minoria, e uma melhor descrição deles é ‘a maioria silenciosa’, pessoas comuns que estavam ocupadas demais vivendo suas vidas comuns.

A razão subjacente para o ‘nós e eles’ divididos entre os engajados e os desengajados era criar uma identidade de grupo que pudesse servir ao objetivo político de obter poder através da ocupação de instituições. A mentalidade de 1968 deu identidade de grupo para os estudantes outrora rebeldes, e de tal identidade de grupo eles ganharam poder, pelo menos dentro da academia. A maior evidência disso são as guerras culturais dos anos 80 e 90 nos Estados Unidos. Embora existam indícios de conflitos acadêmicos semelhantes na Europa e em muitos países da América Latina, não há estudos críticos significativos disponíveis sobre o assunto.

Quando o filósofo britânico Roger Scruton escreveu Pensadores da Nova Esquerda em 1985, ele foi condenado ao ostracismo pelo establishment acadêmico na Grã-Bretanha, que pressionou a Longman House, sua editora, a retirar os exemplares desse livro das livrarias. Percebendo que não conseguiria outro emprego acadêmico na Grã-Bretanha, Scrutton decidiu fazer um novo treinamento como advogado e continuou sua carreira acadêmica fora da Grã-Bretanha. Durante esse tempo, Scruton reformulou o manuscrito original e adicionou seções a ele, produzindo o livro Fools, Frauds e Firebrands (Tolos, fraudes e militantes: pensadores da Nova Esquerda),  publicado em 2015; só então Scrutton foi levado a sério. Finalmente, na idade em que a maioria das pessoas se aposenta, Scruton tornou-se professor de filosofia na Universidade de Buckingham e, em 2016, foi sagrado cavaleiro (‘knight’) pela Rainha Elizabeth II, por serviços prestados à filosofia, ensino e educação pública.

Consequências sociais de 1968

1968 também é referido como ‘o longo ano’ porque seu espírito continuou. Suas revoltas pretendiam criar uma sociedade melhor, no entanto, apesar de suas boas intenções, 1968 teve várias consequências sociais não intencionadas, que vão do sufocamento do debate na esfera pública e a ampliação do populismo político, à fragmentação social resultante do multiculturalismo sem interculturalismo.

O populismo refere-se a ações deliberadamente planejadas para atrair a maioria das pessoas. Visto que o povo é reconhecido como sendo soberano em qualquer democracia, o populismo parece ser uma coisa boa. No entanto, não existe uma única vontade política atribuível ao povo, e o que o populista faz é enganar as pessoas para que acreditem de outra forma. Líderes políticos populistas são bem treinados na arte da persuasão. Um exemplo que ocorre com frequência é o de um candidato que persuade as pessoas de que ele merece confiança por ser uma delas, quando ‘ser uma delas’ significa simplesmente que ele não tem as habilidades certas de um administrador de Estado.

O multiculturalismo refere-se à doutrina de considerar cada indivíduo, e toda cultura da qual os indivíduos participam, como sendo igualmente valiosa. Embora aparentemente isso seja uma coisa boa, a aceitação de certas práticas culturais pode infringir os direitos humanos dos indivíduos, como exemplificado pela mutilação genital feminina (MGF) e o casamento de crianças.

A fragmentação social também é um fenômeno crescente nas democracias ocidentais. Em seu livro The Once and Future Liberal: After Identity Politic (O liberal/progressista de ontem e do futuro), Mark Lilla (nascido em 1956) ilustra o problema nos Estados Unidos, que pode ser inferido a partir do crescimento da política de identidade – que se refere a ativismos baseados em um único descritor unificador, como ser mulher, negra ou LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgênero) –  criada para resolver o problema da exclusão social ou política. Para Lilla, ao manter as minorias separadas da sociedade dominante, a política de identidade não ajuda as minorias a ganhar poder político através da conquista de mais assentos no governo local. Embora o livro de Lilla se preocupe com a situação nos Estados Unidos, a política de identidade também é comum na América Latina.

A revolução estudantil de 1968 foi um movimento de massa, e, como todos os movimentos de massa, consistiu na ação de líderes instigadores e maltas de seguidores (o hoi polloi ou o populacho). Embora muitos dos líderes de 1968 acabaram por entender que os problemas sociais estão associados às idealizações da sociedade, as maltas de seguidores continuaram a sonhar com a sociedade ideal e a buscar intervenções sociais de um tipo ou de outro. Exemplos deste último são os grupos armados de esquerdistas que ainda vivem nas matas africanas e latino-americanas.

Levou quase cinquenta anos para que 1968 fosse adequadamente entendido. Infelizmente, tarde demais para evitar suas consequências sociais não intencionais.

Referências

Aron, Raymond. Thinking Politically: A Liberal in the Age of Ideology, New Brunswick, NJ, Transaction Publishers, 1997.

Habermas, Jürgen (1989). The Structural Transformation of the Public Sphere. Cambridge, Polity Press, 1992. Reprint of 2011.

Lilla, Mark. Once and Future Liberal: After Identity Politics. New York, Harpers, 2017.

Marcuse, Herbert. An Essay on Liberation. Boston, Beacon Press, 1969.

Scruton, Roger (1985). Fools, Frauds and Firebrands: Thinkers of the New Left. London, Bloomsbury, 2015.

 

Notas

  1. A Escola de Frankfurt, um movimento de sociologia inspirado no marxismo, também conhecido como ‘Teoria Crítica’. O movimento em si brotou do Instituto de Pesquisa Social (Institut für Sozialforschung), que foi anexado à Universidade Goethe em Frankfurt, depois de ter sido fundado em 1923 por Felix Weil. Outros nomes associados à Escola de Frankfurt são: Friedrich Pollock, Max Horkheimer, Erich Fromm, Wilhelm Reich, Leo Lowenthal, Theodor Adorno e Walter Benjamin. Depois de 1933, os nazistas forçaram o seu fechamento, e o Instituto foi transferido para os Estados Unidos, onde encontrou hospitalidade na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Depois da Guerra, o Instituto foi restabelecido, e o membro mais notório dessa nova geração foi Jürgen Habermas, embora mais tarde ele tenha abandonado tanto o marxismo quanto o hegelianismo.
  2. Aqui está uma citação de Erich Fromm sobre a libertação sexual dos anos 1960: “O fato de que milhões de pessoas compartilham os mesmos vícios não torna esses vícios virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não torna os erros verdadeiros, e o fato de que milhões de pessoas compartilham a mesma forma de patologia mental não torna essas pessoas sadias ”.
  3. Aron encontrou reconhecimento no final de sua vida, especialmente após a publicação de suas memórias, um mês antes de sua morte, em 17 de outubro de 1983.
  4. O presente artigo foi publicado na atual edição de Portvitoria.

                                                                                                                                                                   

Joaquina Pires-O’Brien é tradutora, ensaísta e ex-botânica e bióloga brasileira, residente na Inglaterra. O seu livro de ensaios O homem razoável (2016) foi também publicado em espanhol e encontra-se disponível na Amazon em edições brochura e Kindle. Em 2010 ela criou a revista digital PortVitoria, voltada para cultura ibérica no mundo, em inglês, português e espanhol.

 

 

Sobre a localidade polonesa de Przyjmy

Sobre a localidade polonesa de Przyjmy

Joaquina Pires-O’Brien

Uma leitora carioca cuja bisavó nasceu na vila de Przyjmy na Polônia, perguntou-me se eu poderia ajudar a explicar a situação política dessa localidade em decorrências das guerras. O que eu consegui esclarecer encontra-se na presente postagem.

Przyjmy

Examinado o mapa da Google vi que há uma localidade designada Przyjmy localizada no distrito administrativo da Comuna de Brańszczyk, Município de Wyszków, Província da Masóvia, no centro-leste da Polônia. Przyjmy fica a 52 km de Wyszków e a 76 km de Varsóvia, e em relação a acidentes geográficos, fica mais ou menos entre os lagos de Rybakówka e o Rio Bug.

Pelo que pude constatar, a localidade Przyjmy permaneceu na Polônia desde a recriação deste país em 1917.

A Província da Mazóvia

Quando o rei Boreslau III da Polônia dividiu o seu reino entre os seus filhos em 1138, a Mazóvia virou um principado.  Durante a Idade Média, a Mazóvia era subdividida em três regiões administrativas, cada qual subdividida em ‘terras’ (polonês: ziemie, latim: terrae), por sua vez divididas em condados (polonês: powiat; latim: districtus). A união Polônia-Lituânia, do acordo de Lublin de 1569, estabeleceu a Mazóvia como sua região central, com sua capital em Varsóvia.

A Mazóvia passou a ser a província mais importante da Polônia em 1596, quando o Rei Sigismundo III Vasa, mudou a capital de Cracóvia para Varsóvia.

A Mazóvia nos séculos XVII e XVIII foi invadida por diversos povos incluindo suecos, transilvanos, saxões e russos.

A primeira partição da Polônia, ocorrida em 1772, passou a união Polônia-Lituânia para o controle da Rússia. Na segunda partição da Polônia, em 1793 uma parte da Masóvia passou para o domínio da Prússia, e enquanto que o restante foi anexado na terceira partição, de 1795, o ano em que a Polônia desapareceu do mapa.

A Prússia e todos os seus territórios, incluindo aqueles tomados da Polônia, foi incluida na Confederação (Reichstag) Germânica do Norte, após o Tratado de Praga de 1866, a primeira etapa da unificação da Alemanha por Bismarck. A segunda etapa terminaria apenas depois da vitória da Prússia na guerra franco prussiana de julho de 1870 a maio de 1871, quando a Confederação (Reichstag) Germânica do Sul foi reconhecida.

Com as terras da Polônia encontravam-se ocupadas pela Rússia, Prússia e Áustria, durante a Primeira Guerra mundial o povo polonês encontrou-se dividido nos dois lados desse conflito. Além disso, é preciso lembrar que embora a Áustria e a Alemanha fossem aliadas nesse conflito, a cultura política e social desses dois países era bastante diferente  (a Áustria era bem mais liberal que a Alemanha) e o que era outro problema para o povo polonês.

Devido à sua posição central e outros fatores, a Mazóvia é considerada o esteio da cultura polonesa, fato que continuou mesmo durante as ocupações estrangeiras.

 

A Mazóvia é o local de nascimento de diversos poloneses ilustres como:

Frederic Chopin (1810-1849)                         Pianista

Maria Sklodowska-Currie (1867-1934)          Física

Witold Gombrowicz (1904-1969)                  Escritor

Jan Kochanowski (1530-1584)                       Poeta

Oskar Kolberg (1814-1890)                            Etnógrafo

Zygmunt Krasinski (1812-1859)                     Poeta

Cyprian Kamil Norwid (1821-1883)              Escritor

Henryk Sienkiewick (1846-1916)                   Escritor

Boreslaw Prus (1847-1912)                            Escritor e divulgador do positivismo Comtiano

Casimir Pulaski (1745-1779)                           Fundador da cavalaria americana

 

A Mazóvia atual é um importante destino turístico, cujas principais cidades, Varsóvia, Plock e Radom, foram reconstruídas após as destruições sofridas durante a Segunda Guerra mundial. Outra atração da Mazóvia é o Parque Nacional de Campinos, que conta com 38,544 hectares.

 

Joaquina Pires-O’Brien é editora de PortVitoria, revista da cultura ibérica.


 

Pedido aos leitores

Visite PortVitoria, revista trilíngue de atualidades voltada para a cultura ibérica.

PortVitoria oferece opinião informada sobre temas de interesse para o mundo luso-hispânico. Seu conteúdo aparece em português, espanhol e / ou inglês.

Ajude o PortVitoria a continuar colocando um link no seu blog ou conta do Facebook.

 

Visite PortVitoria, revista trilíngüe de atualidades voltada a la cultura ibérica.

PortVitoria ofrece una opinión informada sobre temas de interés para el mundo luso-hispano. Su contenido aparece en portugués, español y / o inglés.

Ayuda a PortVitoria a continuar poniendo un enlace en tu blog o cuenta de Facebook.

 

Check PortVitoria, a trilingual current affairs magazine of atualidades centered on the Iberian culture.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world. Its content appears in Portuguese, Spanish &/or English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your blog or Facebook account.

 

A Idade Digital e o conhecimento

A Idade Digital e o conhecimento

Muitos observadores sociais já apontaram que Idade Digital supervalorizou a informação e trivializou a cultura. Mas as incursões à Idade Digital também ocorrem no terreno da ficção, como a do personagem ‘Morador do Café’ criado pelo escritor americano, nascido no Egito, R. F. Georgy, que compara a internet a um palácio de cristal e este à caverna de Platão, o reduto da ignorância humana absoluta, no seu livro Notes from the Café (2014). Sofrendo de câncer e com pouco tempo de vida o Morador do Café vive a sua grande crise existencial. As suas reflexões e críticas sobre a Idade Digital aparecem em diálogos imaginários com ex-colegas da academia e outras pessoas. O Morador do Café é um velho que, além de indignado e contraditório, encontra-se desmemoriado. Ele tem uma vaga lembrança de ter sido um professor de filosofia, embora não consiga lembrar o próprio nome. Suas colocações são mais um esbravejamento de um velho opinioso tentando passar a vida a limpo. Eis algumas citações (tradução minha) do Morador do Café acerca da Idade Digital:

‘Eu me lembro de uma época quando a informação se curvava perante a sabedoria. Hoje, a informação tornou-se pomposa e arrogante.’

‘Vocês sabiam que nós vivemos numa era na qual os peritos e os especialistas se tornaram os profetas da nossa época, na qual os atores e os jogadores de esportes são heróis mitológicos, e a mediocridade é virtude.’

‘A idade digital não sabe o que fazer dos professores…// Então, vocês não sabiam que hoje em dia os professores são controlados e manipulados pelas empresas de publicação que têm um interesse em passar todas as atividades de ensino para o palácio de cristal virtual?’

‘A idade digital não precisa de professores; não senhores, a idade digital precisa de gestores de informação para manter o nosso palácio virtual se movendo. Esses gestores de informação logo serão substituídos por professores digitais que irão ‘facilitar’ a aprendizagem.’

‘Os cafés não são mais para engajarmos em conversação estimulante. Não senhores, eles são feitos para as pessoas irem lá, com os seus laptops e telefones inteligentes,  encontrar um canto a fim de escapar do mundo.’

‘Nós confundimos a informação com o conhecimento, e o conhecimento resultante da informação de alguma forma passa por sabedoria.’

‘O homem moderno não é menos uma criatura de conhecimento do que um escravo da informação. Vocês não perceberam que nós nos tornamos viciados na informação.’’

O homem é estúpido por natureza. Ele é estúpido ao extremo e o pior é que ele não sabe da própria estupidez.’

‘Digam-me, do que a idade digital nos liberou? Nós mudamos da convivência com as sombras para tornar-nos prisioneiros das nossas cavernas privadas. É isso o que a idade digital nos trouxe.’

‘Quem é que precisa de pessoas quando temos essa caixa mágica para nos ocupar por toda a vida? Nós não fomos liberados, senhores, nos fomos aprisionados pela nossa própria arrogância.’

A Idade Digital é apenas um tentáculo do monstro da modernidade, segundo o Morador do Café. Na citação abaixo, ele conta porque acredita em Deus, embora o alvo do seu ódio seja a ciência:

‘Você quer saber se eu creio em Deus?… Eu acredito em Deus por raiva. É isso, não fique tão espantado. De raiva da ciência eu acredito em Deus. Veja você, o mundo moderno me dá duas opções: acreditar num constructo que já foi completamente desmascarado e exposto como um conto de fadas, ou submeter à fria indiferença da ciência. Eu escolho o conforto do constructo. Eu escolho acreditar num conto de fadas ao invés de ser enganado pela sedutora lógica da ciência.’


Nota. Texto extraído do ensaio ‘O conhecimento do indivíduo’ de Joaquina Pires-O’Brien, publicado em PortVitoria, 10, Jan-Jun 2015.

Um partido de trabalhadores

Um partido de trabalhadores

O Partido Nazista, que governou a Alemanha entre 1933 e 1945, não era um partido de elites e sim um partido de trabalhadores. O seu nome por extenso é Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Uma vez no poder, o Partido Nazista levou o país à guerra e causou a morte de mais de 11 milhões de pessoas, incluindo cerca de seis milhões de judeus.

Em 1933, o ano em que Hitler chegou ao poder, dois filósofos alemães, Martin Heidegger (1889-1976) e Carl Schmitt (1888-1985), afiliaram-se ao mesmo. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando as atrocidades dos nazistas foram contabilizadas, nenhum dos dois mostrou arrependimento, mas mesmo assim foram reabilitados por certos intelectuais da extrema esquerda e extrema direita..

O fato do Partido Nazista ter sido um partido de trabalhadores não significa que os trabalhadores sejam pessoas más. Nas democracias do tipo ‘um cidadão um voto’, a classe dos trabalhadores, por ser a mais populosa, é também a mais poderosa politicamente. Muitos intelectuais e políticos inescrupulosos tentam tirar proveito disso bajulando os trabalhadores, bem como forjando heróis e inimigos do povo. Os trabalhadores podem evitar ser manipulados dessa forma procurando ser mais indivíduos e menos massa. É preciso pensar por si próprio, principalmente na hora de votar.

O homem médio brasileiro: razoável ou medíocre?

Joaquina Pires-O’Brien

O conceito do homem razoável no direito não é exclusivo da Inglaterra e do País de Gales, sendo também empregado noutros países do Ocidente. No Brasil, recebe a designação de ‘homem médio’. Embora o ‘homem médio’ seja atualmente empregado como sinônimo do ‘homem razoável’, os dois conceitos surgiram separadamente.

A ideia do homem razoável vem desde a Antiguidade. O correspondente da razoabilidade na antiga Grécia era a phronēsis (φρόνησις), ou sabedoria prática; o homem razoável da antiga Grécia era o homem de phronēsis. No seu livro Menon, Platão mostra um diálogo de Sócrates no qual este afirma que a phronēsis é o atributo mais importante para se aprender, embora não possa ser ensinado e tenha que ser adquirido através do autodesenvolvimento. Para Sócrates, o homem possuidor da phronēsis era aquele capaz de discernir como e por que agir virtuosamente e, ainda, encorajar essa virtude prática noutras pessoas.

A ideia do homem médio veio do matemático e astrônomo belga Adolphe Jacques Quételet (1796-1874), que a apresentou no seu livro Sur l’homme (1835, em inglês, A treatise on man and the development of his faculties, 1842). Nesse livro, Quételet imagina um indivíduo médio hipotético, que possui todas as qualidades possíveis do homem, embora em estado latente, e, que representa a mente do povo. Ele substancia a sua tese com uma grande quantidade de tabelas de características físicas e comportamentos observáveis.

Se o homem médio hipotético possui todas as qualidades possíveis do homem, como é o homem médio brasileiro? Quais são as suas qualidades? É razoável ou medíocre? Se razoável, como aproveitar melhor a sua razoabilidade? Se medíocre, como fazer para inculcar razoabilidade nele?

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é editora da revista eletrônica PortVitoria (portvitoria.com) de generalidades, cultura e política. Em 2016 ela publicou o ebook O homem razoável e outros ensaios (2016), uma coleção de 23 ensaios sobre os mais diversos temas da civilização ocidental, disponível em todos os portais da Amazon. US$ 9.99.

***

Check out PortVitoria, a biannual digital magazine of current affairs, culture and politics centered on the Iberian culture and its diaspora.

PortVitoria offers informed opinion on topics of interest to the Luso-Hispanic world. Its content appears in Portuguese, Spanish &/or English.

Help PortVitoria to continue by putting a link to it in your blog or Facebook account.