Noruega: país, reino e Estado

A ocupação humana da Noruega começou ainda no alto Paleolítico, há onze mil anos atrás, quando havia um istmo da plataforma continental ligando as Ilhas Britânicas à Jutland. O registro arqueológico da região começa em 9200 a.C., sendo comprovado pelos resquícios do povoado submerso de Doggerland cuja submersão foi causada pelo tsunami de Storegga Slide, um dos maiores do Holoceno. Os primeiros habitantes da Noruega atual chegaram lá por volta do ano 7000 a.C., quando terminou a última idade do Gelo e o país se tornou novamente habitável. A agricultura foi introduzida na Noruega por volta de 3.000 a.C. quando os agricultores usavam apenas implementos de pedra. Implementos de bronze apareceram após o ano 1500 a.C. e de ferro em torno de 500 a.C. Considerando-se apenas o registro escrito, os mais antigos são as ‘runas’ ou letras do alfabeto escandinavo-germânico antigo, possivelmente baseado no alfabeto etrusco. A inscrição mais antiga é a de uma ponta de fecha, datada do ano 200 d.C.

A história da Noruega começa dentro da história do Povo Nórdico, que inclui além da Escandinávia –a península norte da Europa –, a Islândia, as ilhas Faröe e a Finlândia. Os chamados ‘Homens do Norte’(Norsmen, em inglês), que os habitantes da Inglaterra chamavam de Vikings e os francos chamavam de Normandos, dominaram a Escandinávia entre 750 e 1066 d.C.
O termo inglês ‘Viking’ é um verbo que descreve o que Homens do Norte faziam, isto é, o tipo de pirataria feita contra as povoações da costa ao invés daquela feita por um navio a outro. A narrativa histórica da Escandinávia começou no registro oral e foi posteriormente gravada nas ‘sagas’ escritas na língua nórdica antiga. O poder dos Vikings estava ligado aos seus longos navios de pinho norueguês, que eles utilizavam para fazer incursões de saques na Escócia, Inglaterra, Irlanda e França.

No século nove a Escandinávia já era dividida em diversos reinos que incluía a Noruega e a Suécia, na península propriamente dita, e a Dinamarca, que ficava nas ilhas Dinamarca e Jutland. No final do mesmo século, Harald Fairhair ganhou o controle da região e se proclamou rei da Noruega, embora ele só tivesse o controle de uma parte do país. Dois dos sucessores de Fairhair tentaram cristianizar a região mas não tiveram sucesso. O próximo monarca, Olaf Haraldson, que governou a Noruega de 995 a 1000, conseguiu a cristianização do país e das ilhas associadas. No governo de Haakon IV, entre 1217 e 1263, a Noruega teve um período áureo de estabilidade e crescimento.

A região da Noruega entrou em declínio com a chegada da Peste Negra em 1349 (veja mais abaixo). A Peste Negra, que se originou na Ásia Central, já havia chegado a outras partes da Europa mas até então a Escandinávia estava livre da mesma. Transmitida por ratos, a Peste Negra tem três variedades: a bubônica, a pneumônica e septicêmica. A contaminação da Escandinávia ocorreu quando um grupo de marinheiros noruegueses subiram num navio inglês que se encontrava à deriva na costa de Bergen, e tendo encontrando toda tripulação morta, decidiram trazer os corpos para terra a fim de enterrá-los num cemitério. A Peste Negra foi terrível para a população da Noruega devido à pobreza e à alta densidade populacional das cidades, matando mais da metade da população. Em 1319 quando o rei Erik da Noruega foi eleito rei dos suecos e as duas coroas se uniram. Nesse mesmo século quatorze a Noruega esteve unida à Dinamarca e à Suécia, mas a Suécia se desmembrou do grupo em 1523.

A Noruega permaneceu unida à Dinamarca até 1814 quando passou para o domínio da Suécia, depois que a Suécia invadiu a Dinamarca e a obrigou a assinar o Tratado de Kiel para restabelecimento da paz. Em troca da Noruega a Suécia reconheceu a soberania da Dinamarca sobre as Ilhas Faröe, a Islândia e a Groelândia. Conforme já mencionado, a independência da Noruega se deu em 1905, após um acordo pacífico de separação da Suécia. Após ganhar a sua independência, a Noruega organizou um referendo a fim de decidir a forma do novo governo. Nesse referendo os noruegueses optaram pela monarquia e elegeram como monarca o príncipe Carl da Dinamarca, que se tornou o Rei Haakon VII.

Etnicidade, Cristianização e Língua
A maior parte da população da Escandinávia tem origem teutônica pois descendem de diversas tribos germânicas que ocuparam o sul da Escandinávia, onde atualmente é parte do norte da Alemanha. Embora alguns Vikings tivessem eventualmente se assentado nas remotas ilhas da costa da Escócia e na Ilha do Homem, entre a Inglaterra e a Irlanda, e lá vivido pacificamente, eles eram temidos pelas incursões de ataques, saques e extorsões à Inglaterra e às regiões costeiras da França. A região francesa da Normandia foi uma espécie de suborno pela paz que o rei da França concedeu aos Vikings. Tal concessão é tida como um dos motivos do enfraquecimento do império Carolíngio que eventualmente se extinguiu.

Muito antes da conquista da Grã-Bretanha pelos Normandos em 1066, os Vikings já se consideravam senhores da Inglaterra. Durante o reinado de Aethelhead II, a Inglaterra sofreu terríveis ataques dos Vikings. Acusado de ser um monarca incapaz de defender o reino, em 13 de novembro de 1002, Aethelhead ordenou o massacre de todos os nórdicos que viviam na Inglaterra, o que incluiu pessoas que já eram bem integradas na sociedade inglesa, sendo possivelmente a primeira lavagem étnica da história europeia. Aethelhead só conseguiu se manter no trono às custas de pagamentos aos Vikings, mas foi eventualmente vencido pelo líder Viking Swein ou Svend Tveskaeg (Barba Forcada), que era rei da Dinamarca. Felizmente para Aethelhead II o rei Swein faleceu em 1016 e ele pôde retornar do exílio na Normandia, reinando por um segundo período de 1014 a 1016.

Apenas depois de ser cristianizada a Escandinávia tornou-se menos propensa à violência. A campanha de cristianização da Escandinávia foi iniciada entre os séculos oito e o doze. Em 1015 Olavo II Haraldssom tornou-se o primeiro rei da Noruega e começou uma campanha de cristianização da região. Arquidioceses ligadas ao Papa, em Roma, surgiram na Dinamarca, Noruega e Suécia em 1104, 1154 e 1164. Embora a cristianização da Escandinávia tivesse permitido a sua integração com o resto da Europa através do comércio marítimo, ela também quase pôs fim à cultura escandinava, quando a Peste Negra entrou na Escandinávia através dos corpos dos marinheiros ingleses encontrados num navio à deriva, que foram resgatados para ser enterrados no cemitério local.

A língua predominante da Escandinávia era o ‘velho nórdico’, que deixou de ser falado em consequência da dizimação da população pela Peste Negra de 1349, e hoje dia é falado apenas na Islândia. Entretanto, é dele que surgiram o dinamarquês, o sueco e o norueguês. Essas três poderiam ser uma só língua escandinava se as variâncias locais não tivessem sido reforçadas pelos escritores do século dezenove, incentivados pelos ideários nacionalistas de cada país.

A Literatura da Noruega
Bjornstjerne Bjornson (1832-1910), Alexander Kielland (1849-1906), Henrik Ibsen (1828-1906) e Jonas Lie (1833-1908) formavam o grupo dos quatro grandes da literatura norueguesa no século dezenove. Embora Bjornson tivesse ganho o Nobel de Literatura em 1903, Ibsen é o autor norueguês mais conhecido internacionalmente, através de suas peças como Casa de Bonecas, Hedda Gabler e Um Inimigo do Povo. Em outubro de 2012 eu tive a oportunidade de assistir Hedda Gabler que estava sendo encenada no teatro Old Vic de Londres. Muitos críticos escreveram que Hedda Gabler é a personificação da mulher feminista do século vinte. Eu não concordo com essa visão. Para mim o personagem Hedda representa o elemento doente da sociedade, a desumanidade do indivíduo que se tornou refratário ao amor ao próximo e à moral.

A Música da Noruega
A Noruega tem uma rica tradição tanto de música folclórica quanto de música clássica. O violinista Ole Bull (1810-80), já mencionado, era famoso em toda a Europa e nos Estados Unidos. Foi ele que reconheceu o talento de Edward Grieg (1843-1907) quando este era ainda menino prodígio do piano. Grieg tornou-se o compositor mais importante da Noruega, e suas composições eram quase sempre inspiradas no folclore e na natureza. Em vida Grieg recebeu muitos prêmios e distinções, tendo sido feito cavalheiros da ordem de São Olavo, pelo rei Oscar II da Suécia, juntamente com Ibsen, em 1873.

O aspecto físico de Grieg lembra bastante Carlos Gomes, o que em parte se deve à moda da época de manter o cabelo e o bigode, pois os dois viveram na mesma época. Grieg era o quarto dos cinco filhos de um próspero mercador de origem escocesa, cuja mãe era professora de música. Grieg era casado com uma prima, Nina Hagerup, exímia pianista e cantora que deu enorme apoio à carreira do marido. A última residência de Grieg e Nina, em Troldhaugen, nos arredores de Bergen, foi transformada em museu, o qual inclui um prédio adicional contendo informações históricas mais uma lojinha e um restaurante.

O País do Nobel da Paz
A Noruega é também conhecida por ser o país que concede o Prêmio Nobel da Paz, oferecido anualmente pelo Instituto Nobel, baseado em Oslo. Em 2012 a Comissão do Prêmio Nobel decidiu pela Comissão Europeia, o que surpreendeu muita gente. A decisão do Comitê do Nobel foi em parte para premiar as seis décadas de paz do continente, e parte para ajudar na atual crise financeira. O Instituto Nobel de Oslo tem uma confortável biblioteca especializada em história política, lei internacional, paz e economia internacional, e é também o repositório de documentos de diversas organizações internacionais como as Nações Unidas, A Corte Internacional de Justiça, a Liga das Nações, a Organização Mundial do Trabalho, o Conselho da Europa, o Acordo Internacional de Comércio e Tarifas (GATT), o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, a Associação Europeia de Livre Comércio, e outras.

A Prosperidade da Noruega
Durante um passeio a pé por Bergen, Beate, a nossa bem informada guia afirmou: ‘A Noruega é o país mais rico do mundo’, o pude verificar posteriormente.
O petróleo da costa norueguesa começou a ser explorado após a Segunda Guerra Mundial por sete empresas: Exxon, Gulf, Standard Oil da Califórnia, Texaco, Mobil e Shell. Em 1950 essas sete empresas, denominadas as Sete Irmãs, controlavam 98,3% do petróleo de todo o mundo. Essa participação diminuiu gradativamente com a entrada de novas empresas no mercado. Uma dessas era a Norsk Hydro ASA, empresa de alumínio e energias renováveis baseada em Oslo. Em 1960, o ano de criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a produção mundial de petróleo estava se expandindo rapidamente e uma das funções da OPEC era controlar a produção de petróleo para evitar a queda do preço do barril de petróleo. Seguindo a tendência mundial de nacionalizações do petróleo em todo o mundo, a Noruega criou a Statoil, embora sem dar à essa o monopólio do setor. A Stateoil introduziu diversas medidas para a transferência de tecnologia e um sistema de pesquisa e desenvolvimento sobre em petróleo e gás. Na fase inicial da exploração pela Statoil, a margem de lucros era pequena devido ao custo elevado da operação, embora os poucos os custos diminuíram e o lucro aumentou.

A segunda grande indústria da Noruega é a indústria do pescado marinho e da aquicultura de peixes. Segundo os dados do Instituto Nacional da Pesca, de Bergen, os dez produtos pesqueiros mais consumidos são: camarão, atum enlatado, pollock do Alaska, tilápia, panga, bagre do mar (catfish), caranguejo do mar, bacalhau( fresco e salgado) e moluscos bivalves (clams).

A terceira grande indústria da Noruega é a indústria marítima que inclui a navegação e a produção de navios e embarcações menores e equipamentos marítimos. A Noruega é a quinta maior frota do mundo cuja principal atuação é no transporte de petróleo, granéis, produtos químicos, gás e automóveis, atuando ainda no mercado de cruzeiros marítimos. Os navios noruegueses são em geral construídos na Noruega usando cascos importados da Polônia, România e China. São em geral Embarcações de Suprimento de Plataformas (ESP) e os mais diversos tipos de embarcações de apoio offshore.

O turismo é também uma importante fonte de riqueza para a Noruega, país de grandes belezas naturais como os fiordes, que são entradas do mar entre montanhas rochosas, que ocorrem ao longo de quase toda a costa da Noruega, formados pela submersão de vales glaciais. Um dos programas turísticos mais populares é o cruzeiro marítimo pelos fiordes, que leva uma media de 14 Dias. A cultura é outra atração turística da Noruega, país com um grande número de museus e teatros. Segundo as estatísticas, 2010 registrou 7,9 milhões de estadias de pelo menos uma noite, principalmente de alemães, dinamarqueses e suecos. As indústrias do petróleo, do transporte marítima e do turismo formam a base da riqueza da Noruega, hoje em dia considerado o pais mais rico do mundo.

Com uma população de 4,7 milhões a Noruega não só é o país mais próspero do mundo mas é também considerado o melhor lugar do mundo para se viver, ocupando o primeiro lugar do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano da Unesco. O nível de desemprego da Noruega é possivelmente o menor do mundo, em torno de 3,3% . A decisão da Noruega de não se afiliar à União Europeia foi economicamente boa para o país, que sequer sentiu a crise financeira que abalou a Europa em 2009.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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Uma visita à Noruega

De 15 a 22 de setembro de 2012 eu visitei Bergen, na Noruega, acompanhando meu marido na conferência anual do CIEM/ICES, o Centro Internacional da Exploração dos Mares. Geograficamente, a Noruega faz parte da península Escandinava, juntamente com a Dinamarca e a Suécia, e Bergen fica na costa sudoeste, na mesma latitude que a Escócia e o Alaska.
A Noruega é um comprido país a oeste da Suécia, caracterizado por uma enorme quantidade de ilhas e pelos típicos fiordes, que são entradas estreitas e profundas do mar na costa montanhosa. Os fiordes resultaram da erosão causada pela retração dos glaciares – rios de gelo formados nas grandes alturas pela acumulação de neve, que ao final da idade do gelo passaram a se deslocar lentamente para baixo.

Fundada em 1070 d.C., pelo rei Olavo Kyrre, Bergen é uma das cidades mais antigas da Noruega. Por volta de 1100 d.C. Bergen notabilizou-se pelo comércio marítimo, sendo o seu produto principal o bacalhau salgado, que durante a Idade Média enriqueceu os mercadores Saxões afiliados à Liga Hanseática, uma rede de postos de importação e exportação distribuídos por toda a Europa, e que no final do século treze sediou-se em Bryggen, uma das zonas delimitada de Bergen onde era proibido mulheres. Entretanto, hoje em dia Bergen é muito mais que um porto pesqueiro e um destino turístico. É também um importante centro da indústria de navios e da exploração de petróleo e gás do Mar do Norte.

O bacalhau salgado foi o produto que alavancou o comércio marítimo de Bergen, principalmente depois da cristianização da Europa, quando a abstenção da carne nas sextas feiras e durante a Quaresma era um hábito comum dos cristãos. Assim, Bergen cresceu acompanhando o crescimento do Cristianismo. O acesso às diversas partes de Bergen, incluindo Bryggen, era apenas pelo mar. Os compridos barcos percorriam os canais e entravam nos becos para fazer entregas. Isso começou a mudar dois séculos atrás quando começou o processo de aterramento de canais. Os prédios de fachadas coloridas dos prédios de Bryggen são todos tombados pelo patrimônio e conservados, sendo que Bryggen é hoje um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Bergen à pé
O turista recém chegado a Bergen não tem dificuldades em caminhar a pé sem se perder, pois a cidade têm diversos marcos de orientação. Bem no centro comercial da cidade fica o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten. A rua Torgallmeningen, por exemplo, começa na praça do mercado de peixes e termina na igreja Johannes, atrás da qual fica a Universidade de Bergen; e a rua Nygardsgarten fica o Grieghallen, um importante prédio cultural contendo vários auditórios, assim chamado em homenagem ao compositor Edward Grieg, nascido em Bergen. Outro ponto de orientação é o Festplassen, um parque com um enorme lago, Lunggardsvann, e um amplo espaço para eventos musicais.

Apesar de eu já ter caminhado bastante por Bergen na segunda e na terça feira, na quarta feira eu fiz o passeio a pé programado pelo congresso. A nossa guia, uma uma senhora de uns sessenta e cinco anos de idade que exuberava confiança, explicou os pormenores do passeio e nos informou que devido ao tamanho do nosso grupo, este seria dividido em dois mais adiante. A primeira parada foi em frente ao Teatro Nórdico (Norske Theater), um belo prédio em estilo Art Nouveu, construído em 1909. Em frente ao mesmo há uma estátua do escritor Bjornstjerne Bjornson (1832-1910), ganhador do Nobel de Literatura em 1903. Numa outra lateral do teatro, a que fica na Veiten Engen, voltada para a praça Ole Bull, fica outra imponente estátua, a de Henrik Ibsen, mostrado o rosto largo, os óculos e a característica barba lateral do dramaturgo. Ibsen foi o primeiro diretor do Teatro, enquanto que Bjornson foi o segundo. ‘Ibsen não foi entendido enquanto era vivo pois era um homem muito à frente do seu tempo’, disse a nossa guia. Segundo ela, Bjornson e Ibsen eram rivais amigos; juntamente com Alexander Kielland e Jonas Lie eles formaram o grupo dos quatro grandes da literatura norueguesa do século dezenove. A nossa guia falou também dos esforços dos artistas e intelectuais do século dezenove que se uniram em torno da criação da nação norueguesa, uma condição para a independência. A Noruega foi reconhecida como Estado independente da Suécia em 26 de outubro de 1905.

Do Teatro Nórdico nós descemos a praça Ole Bull até o cruzamento das ruas Torgallmeningen e Nygardsgarten, marcado por uma gigantesca escultura que consistia de um monólito, outro importante marco de Bergen. Nessa altura, a outra guia chegou. Percebendo a relutância das pessoas de deixar o grupo original, a recém-chegada estendeu o seu braço direito ordenou aos da esquerda que a acompanhassem. Um tanto a contragosto que eu segui a nova guia, outra senhora de uns sessenta e cinco anos de idade, que mais tarde se identificou pelo nome de Beate. A minha resistência desapareceu na próxima parada, quando Beate explicou a estátua de um violinista meio de uma belíssima fonte como sendo Ole Bull (1810-80), famoso pela virtuosidade musical e por ser belo. ‘Em vida ele rivalizou com Paganini, e foi o ‘Elvis’ do século dezenove’ disse Beate. Ela em seguida explicou a ligação entre Ole Bull e o compositor Edward Grieg, outro filho famoso de Bergen. Grieg era um menino prodígio quando Bull já tinha fama internacional. Numa de suas visitas a Bergen ele descobriu o talento de Grieg e recomendou que ele fosse mandado para Lipsia, para estudar no conservatório.

A próxima parada foi Byparken, grande praça com um enorme lago central que possui um amplo espaço aberto para eventos públicos e um imponente coreto que estava cercado de flores. À direita da praça ficam cinco dos sete museus de Bergen. Com orgulho patriota Beate nos explicou que ‘Bergen é a cidade de sete museus, assim como Roma é a cidade de sete colinas’. Do Byparken continuamos a caminhar em direção à praça do mercado de peixes.

Embora essa fosse a última semana do verão do calendário, o clima já tinha todos os sinais do outono como a chuva intermitente quase todos os dias. Entretanto, os 12 graus Celsius eram mais do que eu esperava para um país cujas fronteiras se adentra pelo Círculo Ártico. Havia verde e flores por todos os lados, quer nos parques quer nos montanhas que rodeiam a cidade. E dentre os arbustos ornamentais destacavam-se os rododendros, que são plantas típicas de ambientes temperados. Beate, a guia do passeio a pé pela cidade esclareceu o mistério: ‘a amenidade é um presente da Corrente do Golfo’, ela explicou.

Continuamos a caminhada em direção ao mercado de peixes. Paramos em frente ao antigo prédio da Bolsa de Valores de Bergen, do início do século vinte, hoje um complexo de restaurantes. Ali havia também uma outra estátua num pedestal, que Beate identificou como sendo o filósofo Holberg, outro filho de Bergen e o primeiro pensador a declarar que as mulheres tinham alma. Tratava-se do Barão Ludwig Holberg (1684-1754), que além de filósofo e professor de Metafísica da Universidade de Copenhagen, era também historiador, poeta e dramaturgo.

Atravessamos a avenida e chegamos ao mercado de peixe onde eu já tinha ido diversas vezes. Dessa vez eu anotei discretamente o preço do bacalhau em postas sem espinhas: entre $350 e $393 coroas norueguesas por quilograma. Continuando a caminhada chegamos em Bryggen, a zona delimitada da Liga Hanseática de mercadores, acima mencionada. Beate procurou dar uma ideia de como era Bryggen antes dos aterros dos canais. Entre os prédio de fachada colorida haviam becos estreitos cujas marquises eram construídas sobre peças inteiriças de madeira no formato de um T, formadas pelos troncos mais as raízes do pinho norueguês, a madeira mais resistente da Europa. Segundo Beate, peças como essas foram usadas na construção das quilhas dos navios Vikings, o que permitiu as suas longas viagens marítimas.
Passamos em frente ao Museu Hanseático (ou Museu dos Mercadores Saxões Hanseáticos) e ao Museu de Arqueologia (que eu visitei no dia seguinte). Cortando caminho por um dos becos de Bryggen, alcançamos a rua de trás, Rosenkrantz, uma pequena ladeira. Paramos num campo que parecia um cemitério, onde Beate explicou que era o sítio de uma igreja do século oito, que havia sido construída pelos missionários irlandeses, da qual só restava restava os alicerces e algumas sepulturas de bispos. O motivo oficial da demolição da igreja no início do primeiro milênio foi que a mesma era visível do mar e constituía um alvo para ataques inimigos. Entretanto, para Beate o motivo real da demolição da igreja era outro: impedir que o povo da Noruega desenvolvesse uma herança cultural própria.

Das ruínas da igreja do século oito tomamos um caminho estreito que descia até o cais do porto, onde havia uma meia dúzia de navios grandes ancorados. Na calçada cruzamos com turistas que pareciam ter acabado de desembarcar, e caminhamos na direção de retorno a Bryggen. A nossa próxima paragem foi o Håkon Hall, um prédio do século treze inaugurado em 1261 pelo rei Håkon pela ocasião co casamento do seu filho com uma princesa dinamarquesa, e até hoje usado como local de cerimônias pela família real norueguesa. Continuamos o passeio para a Torre Rosa-Cruz (Rosenkrantz) do século dezesseis, uma testemunha da importância do Rosacrucianismo, uma sociedade filosófica secreta fundada no final da Idade Média na Alemanha por Christian Rosenkreuz. A sociedade Rosa-Cruz era a favor do Luteranismo e contra o Catolicismo romano, e contribuiu para a emergência da Maçonaria na Escócia. Ao fim da sua explicação, Beate nos informou que ali era o fim do nosso passeio, e o grupo se dispersou.

Sobre a Cidade Portuária de Bergen
Bergen, cujo nome significa ‘pequeno prado no meio de montanhas‘ é uma cidade-porto localizada no sudoeste da Noruega . Na verdade Bergen tem dois portos, um de cada lado da sua península principal. O porto mais perto do centro comercial é o que serve à indústria da pesca enquanto que o outro se ocupa com o comércio marítimo internacional. É no primeiro porto que fica o mercado de peixes que inclui algumas barracas de alimentos e de artesanato. As barracas de alimentos servem refeições baseadas em grelhados de peixes, camarões, moluscos e carne de baleia.

Quando eu fui ao mercado de peixes na segunda feira, eu parei numa das barracas de alimentos e pedi o grelhado de bacalhau fresco e salmão: dois espetinhos com dois pedaços de peixe de 4 x 4 cm mais uma porção de salada de batatas e outra porção de legumes. Enquanto aguardava o meu pedido eu fui me sentar numa das mesas próximas do local de preparação da comida, onde já havia um casal de alemães. Daí a uns cinco minutos alguém trouxe o meu prato, numa pequena bandeja descartável, mais o café que havia pedido. Percebendo que eu não tinha com que comer, a mulher alemã à minha frente me apontou onde estavam os talheres de plástico e os guardanapos. A comida estava deliciosa e me custou $210 coroas norueguesas, sendo $175 pelo peixe e $35 pelo café, que em reais dão mais ou menos R$62,00 e R$12,00 respectivamente. A Noruega não é um país barato para turistas. Lá ma caneca de cerveja de 0,5 l custa entre 55 e 93 coroas norueguesas, ou seja, entre 19 a 33 reais brasileiros.

Troldhaugen
Na sexta-feira eu resolvi visitar o museu da antiga casa do compositor Edward Grieg em Troldhaugen, que fica fora de Bergen. Seguindo as instruções de um panfleto turístico, eu tomei o light rail no Byparken e desci na estação de Hop, fazendo o restante do percurso à pé, chegando a Troldhaugen pouco antes do meio dia. Depois de visitar as exibições e a casa do compositor, eu resolvi almoçar no restaurante do próprio museu a fim de assistir o concerto da uma da tarde. Logo que me acomodei numa das cadeiras arranjadas para o concerto descobri uma conhecida que também estava em Bergen acompanhando o marido. Notando que ela estava só, resolvi trocar de lugar e ir sentar ao lado dela. Christina e eu conversamos apenas alguns minutos pois logo o concerto teve início. Um jovem pianista sentou-se no piano que havia sido de Grieg e de sua esposa Nina, e tocou belíssimas músicas representativas de diferentes etapa da vida do compositor. Foi um concerto inesquecível.

Bergen de Novo
A volta a Bergen foi bem mais agradável, pois tive a companhia de Christina. Tendo chegando ao Byparken por volta das duas e trinta da tarde a minha próxima aventura turística foi a estação Floibanen Funicular, onde tomei o trem que sobe o monte Floyen, de 320 m de altura. Após uma jornada de uns 7 minutos cheguei ao Belvedere, de onde pude ver Bergen por inteiro, uma belíssima cidade. Terminado o passeio ao monte Floyen ainda tive tempo de visitar o Museu de Arqueologia, e ver as interessantes exibições sobre os os Vikings e outros antigos habitantes da região.
Ainda era cedo, quando retornei ao hotel para descansar um pouco e tomar um café. Lá chegando eu encontrei de novo com Christina e outras esposas. Depois de tomar café e comer qualquer coisa Christina e eu resolvemos ir a pé até a Universidade de Bergen e o Jardim Botânico, que pelo nosso mapa ficava bem próximo do nosso hotel. Encontramos o Jardim Botânico, bem como diversos prédios amplos e bem construídos da universidade. No Jardim Botânico encontramos uma estátua de Gerhard Armauer Hansen (1841-1912), médico e pesquisador norueguês, nascido em Bergen, que identificou o bacilo causador da lepra (Microbacterium leprae). Descobri posteriormemte que conjunto de prédios era apenas o campus de Haukerland, local das antigas faculdades, principalmente as das ciências da saúde, havendo outro campus noutro lugar da cidade. Fundada em 1946, a Universidade de Bergen foi e é uma das três principais universidades da Noruega, ao lado da Universidade de Oslo e da Universidade de Tromso.

Retornamos ao hotel por volta das seis da tarde. De noite eu e meu marido mais um grupo de colegas congressistas e seus cônjuges, incluindo Christina e seu marido, fomos jantar num dos restaurantes do prédio da antiga Bolsa de Valores de Bergen, já anteriormente mencionado.

Sábado foi o meu último dia em Bergen. Depois do café da manhã o meu marido acertou um check out mais tarde do hotel, para que eu pudesse repetir com ele o passeio a pé que havia feito na quarta feira. A manhã estava gelada mas ensolarada, e por sorte, nem um pingo de chuva. Retornamos ao hotel pouco antes da uma da tarde. Após fazer o check out, puxamos as nossas próprias malas descendo a Håkons Gaten e virando à esquerda na Olav Kyses gate, onde tomamos o ônibus coletivo para o aeroporto. No avião de volta à Inglaterra, fiquei pensando sobre quando é que teria outra oportunidade de voltar à esse interessante país.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.