O conhecimento pequeno é coisa perigosa


Alexander Pope (1688-1744), um dos maiores poetas britânicos do século XVIII, emprega a linguagem da poesia para a crítica, no seu poema An Essay on Criticism (Um Ensaio sobre a Crítica). Um dos objetos da crítica de Pope é o ‘conhecimento pequeno’, que ele taxa de ‘coisa perigosa’, explicando metaforicamente através da fonte de Pieria, a morada das musas das artes e das ciências descrita na mitologia grega. Segue-se a estrofe contendo a famosa citação mais a tradução:

‘A little learning is a dangerous thing;

Drink deep, or taste not the Pierian spring;

There shallow draughts intoxicate the brain,

And drinking largely sobers us again.’

A.Pope, 1711

‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa;

Beba do fundo, ou sequer prove da fonte Pieriana;

Pois os goles rasos intoxicam o cérebro,

E o beber farto nos torna sóbrios outra vez.’

A.Pope, 1711

Na estrofe acima Pope mostra que o conhecimento é como a Fonte de Pieria, podendo ser superficial ou profundo. Na vida, a prática de acumular informações soltas aqui e acolá equivale a beber apenas na parte rasa da fonte Pieriana pois leva apenas ao pequeno conhecimento. A construção de Pope tem ainda um paralelo no ditado popular ‘ouvir o galo cantar sem saber onde’ das pessoas que decidem e até julgam outras pessoas com informações insuficientes. O irracionalismo, que se caracteriza pelos julgamentos apressados, pressuposições erradas e opiniões impensadas, e que é a causa da maior parte das mesquinharias entre as pessoas, resulta do conhecimento pequeno. É por isso que Pope taxou o conhecimento pequeno de perigoso.

Somente podemos escapar do perigo do irracionalismo buscando um conhecimento mais profundo das coisas. Beber fartamente da fonte de Pieria significa treinar as nossas mentes através de boas leituras e conversações relevantes. O indivíduo que lê é em geral um cidadão melhor, pois sabe agir certo na hora certa e sabe conter o seu julgamento na ausência de provas ou de conhecimentos.Os que desejam buscar o conhecimento verdadeiro devem ir ao fundo do poço, pois as incursões superficiais, as águas rasas, trazem somente o conhecimento pequeno, que é ilusório e perigoso.

Há uma segunda mensagem subentendida na mesma estrofe, na asserção de que é impossível obter o conhecimento pleno já que o beber da fonte apenas devolve a sobriedade. Todos nós temos a liberdade de optar por beber do raso ou do fundo da fonte do conhecimento. Mesmo reconhecendo a impossibilidade do conhecimento pleno, a escolha do local certo da fonte do conhecimento já nos salva da embriaguez cerebral, deixando-nos sóbrios para enfrentar as angústias da existência e a adversidade.

Joaquina Pires-O’Brien

 Agradecimento: Carlos Pires, revisor

Termos de utilização: Favor citar a fonte ao reproduzir

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